

O BEIJO

Danielle Steel


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O Beijo

Traduo de
Lus DIONSIO

Crculo de Leitores

Ttulo original
THE KISS

Ilustrao da capa
GUSTAV KLIMT

ISBN 972 42 3194 1

Copyright 2001
by Danielle Steel

Impresso e encadernado para Crculo de Leitores por
Printer Portuguesa Casais de Mem Martins Rio de Mouro
em Abril de 2004

Nmero de edio 6026

Depsito legal nmero 207 388/04

Digitalizao e arranjo:
Ftima Chaves

Esta obra destina-se ao uso exclusivo de portadores de deficincia visual. 
       

       "Coragem no  a ausncia de medo ou desespero, mas a fora para conquist-los." 
       
Para os meus queridos filhos,
       que so o meu corao,
       a minha alma,
       a minha coragem:
       Beatrix, Trevor, Todd, Nick,
       Sam, Victoria, Vanessa, Maxx
       e Zara,
       
       Com todo o meu amor, Me
       
       d. s
       
Um nico momento,
       gravado no tempo,
       brilhando intensamente
       como uma estrela no cu nocturno,
       um on, um instante,
       um milho de anos comprimido num,
       quando tudo pra
       e a vida explode em sonhos infinitos,
       e tudo se altera para sempre,
       num abrir e fechar de olhos.

CAPTULO UM
       Isabelle Forrester contemplava o jardim da janela do seu quarto, na casa da Rue de Crenelle, no Stimo Bairro de Paris, onde, na companhia de Gordon, vivera 
os ltimos vinte anos. Os dois filhos tambm a haviam nascido. Erigido no sculo XVII, o edifcio possua imponentes portas em bronze que davam para o ptio interior. 
A casa em si fora construda em forma de U  volta do ptio. Os teto eram altos, as madeiras e as cornijas de uma grande beleza, e os soalhos em parqu, da cor de 
conhaque. Tudo resplandecia e se encontrava tratado com esmero e cuidado. Isabelle dirigia a casa com mestria, rigor e mo firme mas dcil. O jardim era cultivado 
com apurado desvelo. As rosas brancas que plantara anos antes eram consideradas as mais bonitas de Paris. A casa estava recheada de antiguidades que ela e Gordon 
haviam comprado, ao longo dos anos, em Paris e nas vrias viagens realizadas. Muitas delas tinham pertencido aos pais. 
       Tudo na casa reluzia: a madeira encerada, as pratas areadas, os castiais de cristal nas paredes que reflectiam o sol de Junho que entrava por entre as cortinas. 
Isabelle desviou o olhar do roseiral e soltou um suspiro. Estava destroada por ter de deixar Paris nessa tarde. As oportunidades para ir onde quer que fosse eram 
raras. E agora que o ensejo surgia via-se consumida por um profundo sentimento de culpa, por causa de Teddy.
       A filha, Sophie, partira para Portugal com uns amigos, no dia anterior. Tinha dezoito anos e ia entrar na universidade no Outono. Era o filho, Theodore, que 
a prendia  casa h catorze anos. Nascera de seis meses, com graves problemas de sade: os pulmes ainda no se encontravam perfeitamente desenvolvidos, fato que 
provocou o enfraquecimento do corao. Nunca fora  escola, sendo acompanhado por um tutor. Vivera acamado a maior parte da vida, deslocando-se pela casa numa cadeira 
de rodas sempre que se sentia demasiado fraco para o fazer pelos prprios meios. Se o tempo estava bom, Isabelle levava-o at ao jardim. Tinha um sentido de humor 
extraordinrio. Quando a me entrava no quarto, recebia-a sempre com uma frase espirituosa. No havia palavras para descrever a forte ligao que existia entre ambos, 
forjada nos inmeros momentos de pavor partilhados lado a lado. Por vezes, dava a sensao de que eram uma s pessoa. Isabelle incutia-lhe nimo, conversava com 
ele durante horas, lia-lhe livros, aconchegava-o nos braos quando ele nem sequer tinha foras para falar, e fazia-o sempre que podia. Teddy lembrava-lhe um passarito 
indefeso de asas partidas
       Isabelle e Gordon j haviam falado com os mdicos acerca da possibilidade de o levar aos Estados Unidos para fazer o transplante do corao e dos pulmes, 
mas eles achavam que Teddy se encontrava demasiado debilitado para resistir quer  operao quer  viagem. Perante estas hipteses, nunca iriam pr a vida dele em 
perigo. Assim, o mundo de Theodore estava confinado  me,  irm e aos limites da casa. O pai sempre sentira um grande constrangimento face  doena do filho. Teddy 
tivera enfermeiras durante toda a vida, mas era a me que cuidava dele a maior parte do tempo. H muito que esta abandonara os amigos e deixara de ter vida prpria. 
Nos ltimos anos, as nicas escapadelas at ao mundo propriamente dito aconteciam  noite, com Gordon, e, mesmo assim, muito raramente. A sua misso na vida era 
manter Teddy vivo e feliz. A mais prejudicada no meio de tudo isto era Sophie, a quem no dedicavam o mesmo tempo e a mesma ateno que o irmo recebia, mas parecia 
compreender a situao, e Isabelle era sempre afectuosa com ela. Teddy era a prioridade. A sua vida dependia disso. Nos ltimos quatro meses, desde o princpio da 
Primavera, o estado de sade de Theodore melhorara, o que permitia que a me realizasse aquela viagem a Londres, por sugesto de Bill Robinson.
       Isabelle e Bill haviam-se conhecido quatro anos antes, numa recepo dada pelo embaixador americano em Frana, que andara com Gordon em Princeton. Bill seguira 
a carreira poltica e era considerado um dos homens mais poderosos e talvez o mais rico em Washington. Gordon contara-lhe que William Robinson  que pusera o ltimo 
presidente na Sala Oval. Herdara uma incomensurvel fortuna e desde muito novo se sentira atrado pela poltica e pelo poder. No entanto, preferia trabalhar nos 
bastidores. Quando se conheceram, Isabelle ficou impressionada com a serenidade e a modstia por ele patenteadas. Era uma pessoa com um ar incrivelmente jovem e 
um perspicaz sentido de humor. Isabelle ficara sentada a seu lado no jantar e adorara a sua companhia. Na semana seguinte, ficou surpreendida e agradada quando ele 
lhe escreveu e enviou um livro de arte raro de que haviam estado a falar e do qual ela andava  procura h imenso tempo. Bill dera-se ao trabalho de tentar encontr-lo 
e de lho mandar. Arte e livros raros eram a sua paixo.
       Haviam tido uma longa conversa sobre uma srie de quadros descobertos na altura, numa cave algures na Holanda, e que tinham sido levados pelos nazis durante 
a guerra. A conversa conduziu-os at s falsificaes, aos roubos e, por fim,  restaurao de obras de arte, que era o que Isabelle fazia quando conhecera Gordon. 
Fora estagiria no Louvre e, na altura em que cessou a atividade, quando Sophie nasceu, era perita no assunto.
       Bill ficara fascinado com as histrias de Isabelle, da mesma forma que ela se mostrara com as dele. Nos meses seguintes, uma estranha mas reconfortante amizade 
foi-se criando entre eles, atravs de telefonemas e cartas que trocavam. Entretanto, Isabelle mandara-lhe alguns livros de arte considerados raridades. Quando Bill 
voltou a Paris, telefonou-lhe e convidou-a para almoar. Ela ainda hesitou, mas no resistiu. Era uma daquelas raras alturas em que deixava Theodore  hora do almoo. 
A amizade comeara quatro anos antes, quando Teddy tinha apenas dez. A relao fora-se solidificando ao longo do tempo. De quando em quando, Bill telefonava-lhe 
fora de horas, quando ficava a trabalhar at tarde. Isabelle dissera-lhe que se levantava todos os dias s cinco da manh para tratar de Teddy. Bill j lhe perguntara 
se Gordon punha alguma objeo ao fato de lhe telefonar. No entanto, ela nunca referira esse fato ao marido. A amizade de Bill tornara-se o seu tesouro secreto, 
que guardava s para si.
       Por que razo haveria de pr? perguntara Isabelle, algo surpresa com a pergunta. No queria desencoraj-lo a telefonar. Adorava conversar com ele. Tinham 
muitos interesses em comum. Bill tornara-se, de alguma forma, o seu nico contato efetivo com o mundo exterior. Os prprios amigos haviam deixado de lhe telefonar. 
Como passava os dias e as noites a cuidar de Teddy, ia tendo cada vez menos tempo para eles. Mas, fosse como fosse, receava que Gordon pusesse objees aos telefonemas 
de Bill. Falara-lhe dos primeiros livros de arte que este lhe enviara. Gordon ficara um pouco perplexo, mas no emitira qualquer comentrio, nem mostrara um interesse 
particular pelo fato. Isabelle no fizera nenhuma referncia aos telefonemas. Apesar de inocentes, teriam sido mais difceis de explicar. As coisas que diziam um 
ao outro nunca eram pessoais, nem inconvenientes, nem versavam assuntos das respectivas vidas particulares E raramente faziam qualquer tipo de referncia aos cnjuges. 
Bill era simplesmente uma voz amiga que chegava, de repente, ao dealbar da aurora. Alm disso, como o telefone costumava ficar desligado no quarto durante a noite, 
Gordon nunca os ouvia a conversar. No fundo, receava que o marido levantasse objees aos telefonemas, e era por isso que nunca fizera qualquer comentrio acerca 
deles. No estava disposta a perder a ddiva que constituam os telefonemas e a amizade de Bill. 
       Ao princpio, os telefonemas eram espordicos, depois, a pouco e pouco, foram-se tornando mais frequentes. Voltaram a almoar um ano depois de se terem conhecido. 
Noutra ocasio, quando Gordon estava fora, Bill levou-a a jantar a um restaurante perto do local onde habitava, e ficou espantada quando, ao chegar a casa, reparou 
que j passava da meia-noite. Sentia-se como uma flor murcha a absorver o sol e a chuva. As coisas de que falavam saciavam-lhe a alma. Os telefonemas e as raras 
visitas davam-lhe mais fora de viver.  exceo dos filhos, Isabelle no tinha mais ningum com quem falar Gordon era diretor do maior banco americano de investimento 
em Paris h vrios anos. Tinha cinquenta e oito, e mais dezessete do que Isabelle. Com o correr do tempo, estavam cada vez mais afastados um do outro. Isabelle tinha 
conscincia dessa realidade e achava que isso se devia a Teddy. Gordon no conseguia suportar a aura de constante doena que pairava sobre a criana, como a lmina 
de uma guilhotina que podia cair a qualquer momento. Nunca se permitira uma ligao mais ntima com o filho. A averso  doena deste era desmedida, quase uma fobia. 
O prprio Teddy sentia isso, ao ponto de, quando era mais novo, pensar que o pai o detestava. No entanto,  medida que crescia, ia encarando as coisas de modo diferente. 
Aos dez anos, percebeu que o pai vivia aterrorizado com a sua doena, praticamente em pnico, e a nica forma de fugir a essa realidade era ignorar o filho por completo, 
fingindo que no existia. Teddy nunca mostrara qualquer tipo de ressentimento contra o pai. Costumava abordar abertamente o assunto com a me, com ar triste, como 
se falasse de um pas que gostaria de visitar, sabendo que isso nunca viria a acontecer. Filho e pai eram como estranhos. Gordon evitava Teddy e concentrava as energias 
no trabalho, afastando-se o mais possvel da vida de casa, e particularmente da esposa. O nico elemento da famlia de quem parecia estar um pouco mais prximo era 
Sophie. Tinham feitios muito parecidos. Partilhavam os mesmos pontos de vista em muitas matrias, alm de uma certa frieza com que encaravam tudo aquilo que os rodeava. 
No caso de Gordon, esta caracterstica especial nascera dos anos de afastamento em relao  faceta emocional da vida, que considerava uma manipulao de fraqueza 
e pela qual no sentia qualquer tipo de atrao. No caso de Sophie, herdara-a do pai. J em pequena, era muito menos carinhosa do que o irmo, e preferia no pedir 
ajuda a ningum, especialmente  me, optando por fazer tudo sozinha. A frieza nela era mais uma questo de independncia, de orgulho. Isabelle chegara a questionar-se 
se isso no seria uma reao instintiva ao fato de o irmo ocupar a maior parte do tempo da me. A fim de evitar a sensao de estar a receber menos do que aquilo 
a que teria direito, convencera-se de que no precisava de nada nem de ningum, fechando-se no seu pequeno mundo. Praticamente no partilhava qualquer confidncia 
com a me e evitava, sempre que possvel, falar dos seus sentimentos. Confiava mais nos amigos do que na me. Isabelle alimentara sempre a esperana de encontrarem 
um ponto de entendimento e de se tornarem amigas. Porm, at ao momento, a relao com a nica filha no fora fcil.
       Por outro lado, a frieza de Gordon relativamente  mulher era muito mais extrema. O aparente distanciamento de Sophie perante a me podia ser interpretado 
como uma forma de mostrar que conseguia andar pelo seu prprio p, ao contrrio do irmo, que necessitava de ajuda constante, e tambm para provar que no precisava 
do tempo e da energia que a me no tinha para lhe dar. A doena de Teddy no permitia. No caso de Gordon, essa frieza parecia estar enraizada em algo muito mais 
profundo. Por vezes, dava a sensao de que culpabilizava Isabelle por ter dado  luz um filho deficiente Gordon tinha uma viso desapaixonada da vida, e geralmente 
observava-a  distncia, como se quisesse assistir ao jogo mas no quisesse entrar nele, ao contrrio de Teddy e Isabelle, que viviam apaixonadamente todas as suas 
experincias, e expressavam-no. A chama que ambos partilhavam era o que mantinha Teddy vivo ao longo de uma vida de sofrimento. A devoo que Isabelle nutria pelo 
filho h muito que a afastara de Gordon. Do ponto de vista emocional, este deixara de fazer parte da sua vida pouco depois do nascimento de Teddy. Anos antes de 
conhecer Bill, Gordon mudara-se para outro quarto. Na altura, desculpara-se com o fato de ela se deitar tardssimo e se levantar muito cedo. Mas Isabelle sentira 
que havia algo mais nesse ato. No querendo piorar as coisas entre eles nem enfrent-lo, nunca se atrevera a pr o fato em questo. Mas h muito que sentia que a 
afeio por ela estava a diminuir, acabando por desaparecer Isabelle nem sequer se lembrava da ltima vez que se haviam tocado, beijado ou feito amor. Tratava-se 
de uma circunstncia da vida, que aceitava. Aprendera a viver sem o amor do marido. Desconfiava que ele a culpava pela doena do filho, embora os mdicos asseverassem 
que as enfermidades e nascimento prematuro deste no lhe podiam ser imputados. Nunca discutira o assunto com Gordon, nem se defendera das acusaes que, sabia, ele 
lhe fazia em silncio. Para Gordon, Isabelle lembrava-lhe a doena do filho. Da mesma forma que o rejeitara  nascena, horrorizado com a srie de deficincias de 
que era vtima, acabara por a rejeitar tambm a ela, erguendo um muro entre ambos, para apagar as detestveis imagens de doena. Nunca conseguira tolerar aquilo 
que, desde criana, classificava como uma fraqueza da espcie humana. Isabelle desistira de tentar escalar esse muro, apesar de, ao princpio, o ter feito. As diligncias 
para uma aproximao que encetara aps o nascimento de Teddy haviam-se revelado infrutferas. Gordon resistira a todos os esforos de Isabelle, que acabou por aceitar 
o enorme abismo que se cavara entre ambos como algo natural.
       Gordon sempre fora, por natureza, uma pessoa fria e pragmtica, tanto no trabalho como em todos os outros aspectos da vida. Mesmo assim, ao princpio, ainda 
se mostrara carinhoso com Isabelle, que encarara a frieza do marido como um desafio. Cada sorriso ganho, cada gesto um pouco mais caloroso era como que uma vitria 
para si, pois Gordon no mostrava qualquer tipo de afabilidade com qualquer outra pessoa. Aos olhos de Isabelle, parecia ser um homem de extrema competncia e grande 
poder, com perfeito controlo de todos os aspectos do seu mundo. Quando se conheceram, havia muitos aspectos em Isabelle que o atraam e que lhe garantiam que ela 
seria a esposa perfeita: a linhagem aristocrtica, o nome e os influentes contatos que possua, e que haviam sido de extrema importncia para a consolidao do banco. 
A fortuna da famlia de Isabelle evaporara-se anos antes, mas a sua importncia nos crculos sociais e polticos mantivera-se. Ao casar com ela, Gordon elevara substancialmente 
o seu estatuto social, que era um fator de primordial importncia para ele. Isabelle fora a pea perfeita para melhorar no s a sua posio social como a sua carreira 
profissional. Mas no fora s a linhagem que o atrara; o ar inocente que ela exibia tambm conseguira amolecer ligeiramente o seu corao.
       Poucos homens teriam sido capazes de resistir ao ar doce de Isabelle. Era uma jovem simptica, sem a mnima ponta de malcia. O estilo altivo e a maneira 
atenciosa e requintada com que Gordon a cortejara haviam-na cativado, ao ponto de o considerar uma espcie de heri. A inteligncia, o poder e a fama do banqueiro 
tambm a tinham fascinado. Gordon, por sua vez, aproveitou da melhor forma a vantagem de ter mais dezessete anos do que ela para a seduzir com palavras doces mas 
sensatas. At a famlia de Isabelle ficou entusiasmada quando a pediu em casamento. Para eles, no havia a menor dvida de que Gordon seria um marido perfeito que 
cuidaria dela com extremo zelo. Apesar de ser uma pessoa intransigente na vida profissional, mostrava-se extremamente dcil com ela, o que veio a revelar-se ser 
sol de pouca dura.
       Quando conheceu Bill Robinson, Isabelle era uma mulher s, mergulhada numa vida de inusitado isolamento, em constante viglia junto ao filho enfermo e com 
um marido que raramente lhe falava. A voz de Bill era, por vezes, o nico contato que tinha com um adulto durante todo o dia, para alm do mdico e a enfermeira 
de Teddy. Bill parecia ser a nica pessoa no mundo que estava genuinamente preocupada com ela. Era raro Gordon perguntar-lhe como se sentia. Na melhor das hipteses, 
se pressionado, dizia-lhe que ia jantar fora ou que partia de viagem na manh seguinte. Deixara de partilhar a sua vida com ela. E as breves conversas que tinham 
s reforavam a idia de que Isabelle fora votada ao desprezo. Por outro lado, as horas que esta passava a falar com Bill eram como janelas abertas para um mundo 
mais tolerante e mais rico, lufadas de ar fresco que vinham dar alguma alegria s suas noites sombrias. Ao longo dos anos, fora Bill que se tornara o seu melhor 
amigo. Gordon no passava de um estranho.
       Numa das suas conversas pela madrugada, no segundo ano de relacionamento entre ambos, Isabelle tentara explicar isso mesmo a Bill. O estado de sade de Teddy 
piorara nas semanas anteriores, o que a deixara extremamente abatida e vulnervel. Alm disso, encontrava-se deprimida com a frieza que Gordon demonstrara na noite 
anterior, ao dizer-lhe que ela estava a perder tempo a tratar do filho, que toda a gente via que este no tardaria a morrer, e que o melhor que havia a fazer era 
aceitar essa realidade. A morte do mido seria um alvio para todos E foi com a voz embargada e os olhos marejados de lgrimas que, nessa manh, Isabelle repetiu 
essas palavras a Bill, que ficou horrorizado com a frieza e a crueldade de Gordon.
       Acho que o Gordon est ressentido comigo por passar a maior parte do tempo a tratar do Teddy. Devia dar-lhe mais ateno.
       H muito que Gordon a convencera de que falhara enquanto esposa. Bill no conseguia aceitar que Isabelle reconhecesse que Gordon tinha razo.
       Nessas circunstncias, acho razovel que o Teddy deva ser a tua primeira prioridade.
       H meses que Bill andava a sondar mdicos, na esperana de descobrir a cura milagrosa para Teddy. Mas estes haviam-no desencorajado. De acordo com Isabelle, 
o filho sofria de uma doena degenerativa que estava a atacar-lhe o corao, os pulmes funcionavam com deficincia e todo o organismo estava a deteriorar-se lentamente. 
Era consenso geral que seria um milagre se a criana conseguisse ultrapassar a barreira dos vinte anos. Bill ficava de corao destroado s de saber o que Isabelle 
sofria e o que um dia teria de enfrentar.
       Nos anos seguintes, a amizade entre ambos foi-se solidificando. Continuavam a falar frequentemente ao telefone, e Isabelle escrevia-lhe longas cartas filosficas, 
especialmente nas noites que passava acordada,  cabeceira de Teddy. Este tornara-se o centro da sua vida, e no s a afastara de Gordon mas tambm de Sophie, que 
j censurara a me em mais de uma ocasio, acusando-a de s querer saber do irmo. Assim, Bill era a nica pessoa com quem Isabelle podia desabafar, nas longas conversas 
a meio da noite.
       Os momentos que partilhavam ultrapassavam as suas realidades dirias, e at Bill se sentia muito mais aliviado das presses da arena poltica quando falava 
com Isabelle. Esta, por sua vez, sentia-se transportar at um tempo e um espao em que Teddy no se encontrava doente, Gordon no a rejeitara e Sophie nunca estava 
zangada consigo. Era como ser levada at quele tipo de vida por que tanto ansiara. Bill apresentava-lhe uma nova viso do mundo. Falava-lhe da sua prpria vida, 
das pessoas que conhecia, dos amigos e, uma vez por outra, da esposa e das duas filhas, que andavam j na faculdade. Casara aos vinte e dois anos e, trinta anos 
depois, o casamento era s aparncia. Cindy, a esposa, detestava o mundo da poltica, as pessoas que Bill conhecia, as coisas que ele tinha que fazer, os eventos 
a que eram obrigados a ir e o fato de ele passar a maior parte do tempo em viagens. Tinha um total desprezo pelos polticos. Assim como por Bill, por ter devotado 
uma vida inteira  poltica.
       Agora que as filhas estavam na faculdade, os amigos no Connecticut, as festas e o tnis eram os nicos interesses de Cindy. E se Bill fazia ou no parte daquela 
vida, pouco lhe importava. H anos que deixara de sentir o que quer que fosse por ele. Levava a sua prpria existncia, tratando-o sempre com algum azedume. Passara 
trinta anos ao lado dele, a andar de um lado para o outro e a colocar os afazeres polticos  frente de tudo aquilo que tinha importncia para si. Bill nunca se 
encontrava em casa na altura das frias e dos aniversrios. Estava sempre num stio qualquer, a preparar um candidato para um escrutnio partidrio ou para eleies. 
Nos ltimos quatro anos, fora visita assdua da Casa Branca. Mas esse fato j no a impressionava, e tinha um prazer imenso em dizer-lhe que a vida poltica sempre 
a entediara. J no sentia o que quer que fosse pelo marido. Fizera um lifting facial no ano anterior. Bill sabia que ela tivera uma srie de romances discretos 
durante anos. Fora a sua vingana por uma indiscrio espordica que ele tivera com a esposa de um congressista, dez anos antes. Cindy nunca lhe perdoara tal ato.
       Ao contrrio de Isabelle e Gordon, Bill e Cindy ainda partilhavam o quarto, mas apenas por uma questo de comodismo. H anos que no faziam amor. Cindy dava 
a sensao de ter orgulho no fato de j no sentir qualquer atrao sexual pelo marido. Mantinha praticamente a mesma beleza de quando casara com Bill, trinta anos 
antes: uma silhueta elegante, a pele bronzeada e os cabelos, com o correr dos anos, haviam ficado mais loiros. Os muros que ela erguera entre eles encontravam-se 
de tal modo elevados que a Bill nem sequer lhe passava pela cabea escal-los. Preferia centrar as energias no trabalho, e falava com Isabelle quando precisava de 
um ombro amigo para desabafar. Era a Isabelle que admitia que estava cansado ou desanimado. Esta nunca se escusava a escut-lo. E sempre com uma docilidade que nunca 
encontrara na esposa. Cindy atrara-o com o seu esprito vivo, a sua beleza e energia, o seu sentido de humor e o ar travesso. Quando jovens, era divertido estar 
na sua companhia, mas agora questionava-se se ela sentiria a sua falta se, por acaso, desaparecesse da face da Terra. E at as prprias filhas, quando vinham a casa, 
o tratavam com indiferena. J ningum parecia importar-se com o fato de ele estar ou no em casa. Quando chegava de uma viagem, era tratado como uma visita inesperada, 
um estranho, um aptrida, um desenraizado. Nunca dissera a Isabelle que a amava, nem esta a ele, apesar da grande devoo e admirao que nutriam um pelo outro.
       Ao longo dos anos, os sentimentos que Bill e Isabelle expressavam mutuamente sempre foram entendidos como simples amizade. Nunca nenhum deles admitira um 
ao outro, ou a si prprios, que havia mais do que simples admirao e prazer nas longas horas de conversa. Mas h anos que Bill reparava que, quando as cartas de 
Isabelle no chegavam, ficava preocupado. E quando ela no podia atender o telefone, porque se encontrava a tratar de Teddy ou porque fora a algum lado com Gordon, 
sentia imensas saudades. Como nunca imaginara. Ela j fazia parte da sua vida. Era algum em quem podia confiar. Com Isabelle acontecia a mesma coisa. Bill era a 
nica pessoa, alm do filho de catorze anos, com quem falava. Com Gordon nunca conseguira ter conversas como tinha com Bill.
       Gordon era uma pessoa mais ao estilo ingls. Apesar de os pais serem americanos, fora criado em Inglaterra. Andou em Eton, depois foi para os Estados Unidos, 
para a Universidade de Princeton. Mas, mal se formou, voltou para Inglaterra, donde se mudou para Paris, para ir trabalhar no banco. Independentemente das origens, 
tinha um feitio muito mais britnico do que americano.
       Conhecera Isabelle na casa de Vero do av desta, no condado de Hampshire. Ela tinha vinte anos, ele quase quarenta. Apesar de ao longo da sua vida se ter 
cruzado com uma srie de mulheres interessantes, nunca achara nenhuma delas merecedora de se tornar sua esposa. A me de Isabelle era inglesa e o pai, francs. Isabelle 
vivera em Paris durante toda a sua vida, mas costumava ir a Inglaterra no Vero, a fim de visitar os avs maternos. Falava impecavelmente ingls. Era uma rapariga 
de uma beleza deslumbrante, charmosa, inteligente e de grande discrio. A afabilidade, a vivacidade e a silhueta digna de um elfo cativaram Gordon desde o momento 
em que se conheceram. Pela primeira vez na vida, este convenceu-se que estava apaixonado. Alm disso, as potenciais oportunidades sociais que essa aliana lhe proporcionariam 
eram irresistivelmente apelativas. Gordon vinha de uma famlia respeitvel, mas no to ilustre como a de Isabelle. A me desta pertencia a uma importante famlia 
de banqueiros, parente afastada da rainha e o pai era um distinto estadista francs. Isabelle constitua, em suma, um bom partido. Era de fina linhagem, e o seu 
ar tmido, dcil e despretensioso ligavam na perfeio com o modo de ser de Gordon. A me de Isabelle morrera antes de os dois se conhecerem. O pai ficou impressionado 
com Gordon e no teve qualquer pejo em aprovar o noivado. Achava que Gordon seria o marido perfeito para Isabelle. Casaram ao fim de um ano. Mas Gordon frisou, desde 
o princpio, que ele  que tomaria todas as decises E foi isso mesmo que Isabelle sempre esperou dele. Gordon  que determinava com que pessoas  que se dariam 
e onde viveriam. At a casa da Rue de Crenelle fora da sua escolha. Comprou-a antes sequer de Isabelle a ver. Nessa altura, j se encontrava  testa do banco e numa 
posio social invejvel, sobretudo devido ao casamento com Isabelle,  qual proporcionava uma vida de absoluto recato. S ao fim de algum tempo  que esta comeou 
a dar-se conta das restries que o marido lhe impunha.
       Gordon  que dizia com quem Isabelle podia ou no relacionar-se. Alm disso, exigia que ela recebesse condignamente os convidados do banco. Como era uma pessoa 
hbil, extremamente organizada e sempre disposta a seguir as diretivas do marido, Isabelle no sentiu qualquer dificuldade em adaptar-se a essas funes. S mais 
tarde, depois de Gordon eliminar uma srie de pessoas de quem ela gostava do seu crculo social,  que comeou a achar que o marido, por vezes, era injusto. Gordon 
afirmara, em termos vagos, que essas pessoas no mereciam a sua amizade. Isabelle era uma jovem extremamente aberta, desejosa de conhecer novas pessoas e aproveitar 
as oportunidades que a vida lhe pudesse proporcionar. Fora estudante de belas-artes, e, quando casou, resolveu trabalhar como estagiria de restaurao no Louvre, 
apesar dos protestos de Gordon. Era o nico stio onde era independente. Adorou o trabalho e as pessoas que conheceu Gordon achava a ocupao prpria de bomios 
e insistiu para que ela a deixasse quando engravidou de Sophie. Depois de esta nascer, apesar dos prazeres da maternidade, Isabelle sentiu imensas saudades do museu 
e dos desafios e compensaes que este lhe proporcionava. Mas Gordon no voltaria a ouvir falar do seu regresso ao trabalho depois do nascimento da filha, e Isabelle 
no tardou a voltar a engravidar; dessa vez, porm, perdeu o beb. A recuperao foi longa e passou a ter dificuldades em engravidar. Quando conseguiu ficar grvida 
de Teddy, passou uma fase complicada, que resultou no nascimento prematuro do filho, com todas as preocupaes que da advieram.
       Foi a partir desse momento que comeou o seu afastamento de Gordon, que andava atarefadssimo no banco. Agora, com um filho com graves problemas de sade 
em casa, Isabelle pouco tempo podia dispensar aos deveres domsticos e sociais, fato que irritava Gordon. Na verdade, nesses primeiros anos da vida de Teddy, Isabelle 
praticamente no conseguia arranjar tempo para ele e para Sophie. Por vezes, tinha a sensao de estarem ambos contra si, o que considerava uma tremenda injustia. 
Toda a sua vida girava em torno do filho. Nunca saa de ao p dele, apesar das enfermeiras que haviam contratado para cuidar de Teddy. Infelizmente, nessa altura, 
os seus pais j haviam falecido. No tinha ningum do seu lado. Gordon no queria ouvir falar dos problemas de Teddy nem das derrotas e vitrias clnicas do filho. 
Detestava falar no assunto e, como que para a castigar, deixou de ter qualquer tipo de relao mais ntima com ela no mbito do casamento. Tudo levava a crer que 
j no a amava. No entanto, Isabelle no tinha qualquer prova concreta disso. Gordon nunca ameaou deix-la, pelo menos fisicamente. Mas ela vivia sempre com a sensao 
de que o marido a pusera  margem.
       Depois de Teddy, no tiveram mais filhos. Gordon no queria, e Isabelle no tinha tempo. Dava tudo o que possua ao filho. Gordon, por seu turno, continuava 
a transmitir-lhe, explcita ou implicitamente, que ela se esquecera dele. Como se fosse ela a culpada da doena de Teddy. No havia nada no filho de que Gordon se 
orgulhasse: os dotes artsticos, a sensibilidade, a perspiccia e o sentido de humor. Alm disso, as semelhanas de Teddy com Isabelle pareciam irritar Gordon ainda 
mais. Por ela sentia apenas desprezo e uma profunda e silenciosa raiva que nunca expressava por palavras.
       S anos mais tarde Isabelle soube, depois de uma prima de Gordon lhe contar, que este tivera um irmo mais novo que sofria de uma doena incapacitante e que 
morrera com nove anos. Gordon nunca referira esse fato a ningum. O assunto era tabu. E embora a me lhe tivesse explicado a situao quando era mais novo, a ltima 
parte da infncia foi passada a ver a me a cuidar do irmo, at  morte deste. A prima no sabia muito bem de que doena  que ele sofria, ou o que acontecera exatamente, 
s sabia que a me de Gordon adoecera pouco depois da morte do filho, acabando tambm por morrer, aps longo e penoso sofrimento. E a sensao com que Gordon ficou 
foi a de ter sido trado por ambos, por nunca haver recebido a ateno, o carinho e o tempo a que achava ter direito e por terem acabado por morrer, abandonando-o.
       A prima disse ainda que a me dele estava convencida de que o pai de Gordon morrera de desgosto, embora vrios anos mais tarde, incapaz de recuperar da dupla 
perda. Na verdade, Gordon ficou com a sensao de que perdera toda a famlia por causa de uma criana doente. Mais tarde, Isabelle deixara de dedicar-lhe a sua ateno 
por causa da doena de Teddy. As palavras da prima de Gordon fizeram com que ficasse a perceber melhor o comportamento do marido, o qual, quando questionado sobre 
o assunto, negou tudo, considerando aquilo que a prima dissera um tremendo disparate. Afirmava que nunca fora muito ligado ao irmo nem nunca tivera qualquer sentimento 
de perda. A morte da me era j ento uma lembrana muito remota e o pai fora sempre um homem muito difcil. Porm, quando lhe falou do assunto, apesar dos protestos, 
Isabelle vislumbrou um ar de pnico nos seus olhos. Era o olhar de uma criana magoada, no apenas o de um homem aborrecido. Interrogou-se ento se no teria sido 
por isso que ele casara to tarde e se mantinha to distante de toda a gente. Porm, fosse qual fosse a explicao, a relao entre os dois no melhorou. As portas 
do cu no voltaram a abrir-se entre eles e Gordon fez questo de que elas se mantivessem assim.
       Isabelle tentou explicar a atitude do marido a Bill, mas este no conseguia entend-la, considerando uma desumanidade da parte de Gordon o fato de se ter 
desligado emocionalmente da esposa. Era uma das mulheres mais interessantes que alguma vez conhecera, cuja doura e amabilidade s realavam ainda mais a sua beleza. 
Porm, independentemente daquilo que pudesse pensar dela, Bill nunca dera o menor sinal de querer envolver-se em termos emocionais com Isabelle e nem sequer admitia 
que tal idia lhe passasse pela cabea. Esta frisara-lhe, desde o primeiro instante, que isso nunca iria acontecer. Se iam ser amigos, tinham de respeitar os respectivos 
casamentos. Por mais indelicado ou distante que Gordon pudesse ser relativamente a ela, Isabelle continuava a ser-lhe fiel. Ainda era seu marido e, para consternao 
de Bill, mantinha o respeito por ele e pelo casamento. A idia do divrcio ou da infidelidade era impensvel. De Bill s queria a amizade. Por muito s que, por 
vezes, pudesse sentir-se, aceitava esse fato como parte integrante do casamento. Bill confortava-a, aconselhava-a em muitas coisas e partilhavam as mesmas opinies 
relativamente a muitos assuntos. E, enquanto falavam, Isabelle conseguia esquecer todos os problemas e preocupaes. Aos seus olhos, a amizade de Bill era uma ddiva 
divina que muito prezava. Mas no passava disso mesmo.
       A idia da viagem a Londres surgira por acaso, durante uma das habituais conversas de madrugada. Isabelle falara de uma exposio que iria ter lugar na Tate 
Gallery e que estava ansiosa por ver, mas sabia que isso nunca aconteceria, pois no se previa que a exposio passasse por Paris. Bill sugeriu ento que fossem 
passar um ou dois dias a Londres, para a ver e para estarem algum tempo sozinhos, sem preocupaes com o marido ou com os filhos. Para Isabelle, era uma idia extremamente 
ousada, algo que nunca fizera. Ao princpio, ainda se mostrou relutante. Deixar Teddy nunca lhe passara pela cabea.
       Porque no? perguntou Bill, esticando as pernas e pousando os ps em cima da secretria. Era meia-noite, e estava no escritrio desde as oito da manh. Ficara 
at um pouco mais tarde para poder telefonar-lhe. Iria fazer-te bem. Alm disso, o Teddy tem andado melhor nos ltimos dois meses. Se houver algum problema, em duas 
horas pes-te em casa.
       Bill tinha razo, mas, em vinte anos de casamento, nunca fora a lado nenhum sem Gordon. Era uma relao matrimonial bastante conservadora. Bill, pelo contrrio, 
mantinha uma relao muito mais liberal com Cindy. Ultimamente, era muito mais comum viajarem sozinhos do que os dois. Bill j no fazia o mnimo esforo para passar 
frias com ela,  exceo de uma ou outra semana em Hampton. Cindy parecia muito mais feliz sem ele. A ltima vez que ele sugerira fazerem uma viagem juntos, arranjara 
inmeras desculpas para no ir, e depois partira para a Europa com uma das filhas. O esprito do casamento h muito que desaparecera, embora nenhum dos dois estivesse 
disposto a reconhecer esse fato. Cindy fazia o que queria. Bill tinha a vida poltica que adorava, alm dos telefonemas para Isabelle.
       Por fim, depois de vrias conversas, convenceu-a a ir at Londres. Isabelle no cabia em si de contente. Estava ansiosa por ver a exposio e fazer compras 
em Londres. Tencionava ficar no Claridge's e talvez at visitar um amigo de Paris que se mudara para l
       S dias mais tarde  que Bill descobriu que precisava de se encontrar com o embaixador americano em Londres. Este fora um dos principais financiadores da 
ltima campanha presidencial. Precisava do seu apoio para outro candidato. Queria sond-lo quanto antes para estabelecer uma plataforma de acordo relativamente ao 
montante do donativo. Com esse apoio, o candidato de Bill teria muito mais hipteses de xito. Alm disso, era uma agradvel coincidncia o fato de Isabelle se encontrar 
em Londres nesse altura.
       Fizeste de propsito, perguntou ela, num ingls com um ligeiro sotaque francs, que Bill achava encantador. Aos quarenta e um anos, continuava a ser uma mulher 
bonita e no aparentava a idade que tinha. Os cabelos eram castanho-arruivados, a pele branca e macia e os enormes olhos esverdeados. Dois anos antes, a pedido de 
Bill, mandara-lhe uma fotografia sua com os filhos, para a qual ele costumava olhar durante os telefonemas.
       Claro que no. Mas a pergunta de Isabelle no era despropositada. Bill sabia muito bem das intenes dela de viajar at Londres, quando combinara o encontro 
com o embaixador. Se, por um lado, achava que era a altura ideal, por outro, sabia que no era s por isso.
       Adorava encontrar-se com Isabelle. Passava meses a sonhar com as poucas vezes por ano que se encontrava com ela em Paris. Quando sentia saudades de a ver, 
arranjava uma desculpa para ir ter com ela ou, quando era obrigado a viajar para a Europa, apanhava um voo que fizesse escala em Paris. Encontravam-se trs ou quatro 
vezes por ano, e quando isso acontecia iam almoar. Nunca falara desses encontros a Gordon, apesar de continuar a achar que nada existia de mal ou clandestino. Tanto 
Isabelle como Bill tinham extremo cuidado nos nomes que davam s coisas. Era como se trouxessem faixas a dizer "amigos" quando se encontravam. Contudo, h muito 
tempo que Bill sentia muito mais por ela do que aquilo que alguma vez conseguira dizer-lhe.
       Era com ansiedade que esperava a chegada a Londres. O encontro na embaixada s o ocuparia durante algumas horas. Queria passar o mximo de tempo possvel 
com ela. Tambm estava desejoso de ver a exposio. Isabelle sentia-se excitada com a perspectiva de partilhar esse momento com Bill. Afinal de contas, a exposio 
era a razo da sua ida a Londres. Encontrar-se com ele era um bnus inesperado. Haviam-se tornado grandes amigos, mas nada mais do que isso. E o fato de ningum 
saber da amizade entre ambos era apenas uma questo de simplificao das coisas. No tinham nada a esconder. Isabelle exibia uma capa de respeitabilidade que parecia 
ser de extrema importncia para ela. Era uma fronteira que h muito estabelecera entre ambos e que Bill respeitava. Nunca faria nada que a aborrecesse ou a assustasse. 
No queria pr em risco uma relao que se tornara infinitamente preciosa para ele.
       No quarto, na casa da Rue de Crenelle, Isabelle olhou para o relgio e soltou um suspiro. Estava na hora de se ir embora, mas, no ltimo instante, ainda sentiu 
vontade de ficar. 
       Deixara imensas instrues s enfermeiras que iriam tratar de Teddy durante a sua ausncia. Ao pensar no filho, foi sorrateiramente em bicos de ps at  
porta do quarto ao lado do seu. Por instantes, ainda se interrogou se seria boa idia ir at Londres. Mas Teddy dormia profundamente. A enfermeira que se encontrava 
junto dele levantou os olhos e sorriu, ao mesmo tempo que lhe fazia um ligeiro aceno, como que para a tranquilizar. Tratava-se de uma das suas enfermeiras preferidas. 
Era oriunda da Bretanha e tinha um rosto bronzeado e sorridente. Isabelle fez-lhe um aceno de despedida e fechou a porta do quarto. Estava na hora.
       Pegou na mala de viagem e na mala de mo, ajeitou o vestido preto e olhou mais uma vez para o relgio. Sabia que naquele preciso momento, Bill se encontrava 
ainda no avio que partira de Nova Iorque, onde estivera a trabalhar nos ltimos dias. Passava a maior parte do tempo a viajar entre Nova Iorque e Washington.
       Ps a mala de viagem no porta-bagagens do carro e a mala de mo no assento a seu lado. Partiu ento para o Aeroporto Charles de Gaulle, com um olhar radioso 
estampado no rosto, enquanto Bill Robinson olhava pela janela do seu Gulfstream, que usava constantemente. Ao pensar nela, sorriu. Coordenara o voo de modo a chegar 
a Londres ao mesmo tempo que Isabelle.

CAPTULO DOIS
       Bill Robinson passou pela alfndega do Aeroporto de Heathrow com ar decidido, como se estivesse com pressa. E at estava. Levou apenas alguns minutos a levantar 
a mala. Ento, com esta numa mo e a pasta na outra, dirigiu-se para o motorista do Claridge's, que empunhava discretamente uma placa com o seu nome. Ficava no Claridge's 
sempre que ia a Londres e convencera Isabelle a instalar-se l tambm. Era um hotel com tradio e geralmente considerado o melhor da cidade. H trinta anos que 
ficava a alojado.
       Enquanto punha a mala e a pasta no porta-bagagens da limusine, o motorista olhou de relance para o americano alto e de cabelos grisalhos, e reparou de imediato 
na aura de poder e sucesso que exibia e que no passava despercebida. Bill tinha olhos azul-claros, que condiziam maravilhosamente com o seu ar simptico e com os 
cabelos grisalhos, outrora loiros. Os traos eram marcadamente masculinos. O queixo, proeminente e anguloso. Envergava calas cinzentas, blazer, camisa azul e uma 
gravata Hermes azul-escura; os sapatos pretos haviam sido meticulosamente engraxados antes de partir de Nova Iorque. Vestia com subtil elegncia, sem qualquer laivo 
de ostentao. Ao abrir o jornal, sentado no banco traseiro da limusine, qualquer mulher teria reparado na beleza das suas mos. No pulso, exibia um relgio Patek 
Philippe, que Cindy lhe oferecera anos antes. Tudo nele era susceptvel de atrair as atenes. No entanto, Bill Robinson preferia ser um homem de bastidores. Apesar 
das bvias ligaes  poltica e das oportunidades que lhe eram concedidas, nunca tivera necessidade de ser um homem de primeira linha. Preferia as coisas assim. 
Era a excitao do poder que o alimentava. Adorava os cantos e recantos da cena poltica sempre em constante mutao e no nutria o mnimo desejo de ser conhecido 
publicamente. Preferia passar despercebido. No precisava nem desejava atrair as atenes.
       Era um aspecto da sua personalidade que partilhava com Isabelle. No caso dela, manifestava-se atravs da sua timidez.
       No dele, era uma das formas de exercer discretamente o seu poder. Impunha mais respeito e ateno pelo seu silncio do que por qualquer outra coisa que fizesse 
ou dissesse. Tambm Isabelle dava mais nas vistas pelo seu silncio. Ficava pouco  vontade quando a ateno estava concentrada em si e s em conversas a dois, como 
as que costumava ter com Bill,  que se libertava dela prpria. Adorava a forma como Isabelle se abria consigo. Conhecia todas as suas emoes, todas as reaces, 
todas as idias, e ela no hesitaVa minimamente em partilhar os segredos com ele, coisa que nunca fizera com Gordon.
       Bill dirigiu-se para a entrada do Claridge's e Thomas, o porteiro, reconheceu-o de imediato, mostrando-se satisfeito por rev-lo. Pouco depois, j Bill cavaqueava 
amenamente acerca do tempo e das recentes eleies locais com o subgerente, que o conduziu at ao quarto, uma suite ampla e soalheira no terceiro andar, decorada 
com cretone s flores, sedas azul-claras e antiguidades. Mal o subgerente saiu, pegou no auscultador do telefone, enquanto passeava o olhar pela suite. Ao ouvir 
a voz familiar, sorriu
       Que tal foi a viagem?
       Boa respondeu Isabelle, esboando um franco sorriso. Haviam sincronizado as chegadas. Instalara-se no hotel vinte minutos antes. E a tua?
       tima. Bill sorriu, com um ar arrapazado, pelo qual as mulheres sempre se sentiam atradas. Parecia que nunca mais acabava. Estava ansiosa por chegar aqui. 
J tinham passado quase seis meses desde a ltima vez que se haviam encontrado em Paris. Planeara voltar mais cedo, mas complicaes polticas inesperadas no o 
haviam permitido. Sentia um grande desejo de v-la. Ests cansada? Queres descansar um pouco?
       Depois de uma hora de viagem. E riu-se. Estou bem. E tu?
       Esfomeado. Queres ir comer qualquer coisa? Eram trs horas da tarde
       Adoraria. Depois podemos ir dar um passeio a p. No me mexi durante todo o dia. Nem sequer me levantei no avio. Isabelle tambm estava ansiosa por v-lo 
e isso percebia-se na voz. Os encontros provocavam-lhes sempre uma nsia terrvel e quando estavam juntos falavam horas a fio, tal como faziam ao telefone. Nunca 
havia qualquer tipo de acanhamento entre eles.
       Como  que ficou o Teddy? perguntou Bill, apreensivo. Sabia que era uma constante preocupao para Isabelle.
       A dormir. Mas passou bem a noite. A Sophie telefonou de Portugal ontem  noite. Estava a divertir-se  grande com os amigos. E as tuas midas?
       Acho que esto bem. Dentro de semanas, vm a Londres com a me. Praticamente no falam comigo. S sei onde esto pelas compras que aparecem no meu American 
Express. A Cindy vai lev-las para o Sul de Frana, antes de irem ao Maine visitar os avs. Depois iria encontrar-se com elas em Hampton, no final do Vero, como 
de costume. Mas, antes disso, tinha uma srie de coisas para fazer. Ficaria a trabalhar em Washington durante todo o Vero. Cindy j nem sequer lhe perguntava se 
ia ter com elas onde quer que fosse. Sabia que era uma causa perdida e mostrar-se-ia espantada se ele tivesse essa inteno. Qual  o nmero do teu quarto? E olhou 
para o relgio. Tinham tempo para um almoo rpido.  noite, iria lev-la ao Bar Harry's.
       Trezentos e catorze.
       Estamos no mesmo piso. O meu  o trezentos e vinte e nove. Passo por a quando estiver pronto. Dez minutos?
       timo. Isabelle esboou um tmido sorriso e fez uma ligeira pausa. Ser um prazer voltar a ver-te, Bill. As palavras saram num cerrado sotaque francs e 
Bill sentiu-se como que rejuvenescido. Isabelle significava tanto para ele que no encontrava palavras para definir os seus sentimentos. Era o prottipo da mulher 
por que sempre ansiara: gentil, carinhosa, paciente, compreensiva, interessada por tudo o que ele fazia, divertida, simptica. Fora uma inesperada ddiva cada do 
cu, tal como ele o era para ela. A nica pessoa a quem Isabelle podia agarrar-se na vida, depois de tudo o resto  sua volta se ter desvanecido ao longo dos anos. 
J no havia nada com que pudesse contar. A sade de Teddy era uma preocupao constante e sabia que podia perd-lo a qualquer momento. Gordon era simplesmente o 
homem com quem partilhava a casa e de quem recebera o nome, mas sentia que ele j no fazia parte da sua vida.  exceo de ocasionais aparies pblicas, Gordon 
no a solicitava para nada. Alm disso, como era prprio da idade, Sophie j abandonara o ninho. Nos ltimos tempos, mais do que nunca, sentia-se s.  exceo de 
quando estava com Bill, pessoalmente ou ao telefone. Ele era a sua trave mestra, a sua alegria, o seu conforto, o seu melhor amigo. Tambm ser um prazer ver-te 
de novo. Passo a buscar-te dentro de dez minutos. Depois podemos falar do que pensamos fazer. Sabia que iriam a Tate Gallery no dia seguinte e que havia algumas 
galerias particulares que Isabelle queria visitar. Planeava convid-la para jantar em ambas as noites. Tambm gostaria de a levar ao teatro, porque sabia que era 
uma das coisas que ela mais apreciava, mas no estava disposto a perder horas do precioso tempo que podia passar a falar com ela. Era tera-feira e tinham at quinta 
 noite. Isabelle dissera que talvez pudesse ficar at sexta de manh, o que dependeria do estado de sade de Teddy. Alm disso, achava-se no dever de passar o fim-de-semana 
em Paris. Era uma corrida contra o tempo, uma ddiva extraordinria poderem passar aqueles dias juntos. A primeira vez que tal acontecia. Da parte de Bill no havia 
segundas intenes. A nica coisa que queria era estar com Isabelle. Os sentimentos que nutriam um pelo outro eram os mais puros e inocentes.
       Bill lavou a cara e as mos, barbeou-se rapidamente, sem nunca deixar de pensar em Isabelle e, dez minutos depois, j andava pelo corredor  procura do quarto 
dela. A localizao, era um pouco confusa, mas acabou por o encontrar. Bateu  porta. A espera pareceu interminvel. Isabelle abriu ento a porta e, durante alguns 
instantes, no desviou os olhos dos dele, ao mesmo tempo que sorria timidamente.
       Como ests, Bill? perguntou, a pele macia ligeiramente corada, os longos cabelos escuros e brilhantes sobre os ombros, os olhos fixos nos dele. Tens um timo 
aspecto. Aproximaram-se um do outro e beijaram-se na cara. Nunca haviam dado outro tipo de beijo. Bill ainda mantinha um ligeiro bronzeado de um fim-de-semana que 
passara em Greenwich, semanas antes, em claro contraste com a pele branca de Isabelle, cujos Veres de praia no Sul de Frana haviam acabado anos antes. Gordon ainda 
l ia esporadicamente visitar amigos, ou com Sophie, enquanto Isabelle permanecia em casa com o filho.
       Tambm tu. Sempre que a via, ficava impressionado com a sua beleza. Por vezes, esquecia-se disso, durante as longas conversas telefnicas, em que ouvia, extasiado, 
as palavras e as idias de Isabelle. Mas, mais do que a beleza, era a alma dela que o cativava. Chegou-se mais a ele e enfiou-lhe a mo debaixo do brao com a graciosidade 
de uma cora. Bill reparou ento no elegante vestido preto, na mala Hermes e nos sapatos de salto alto. Nas mos trazia apenas a aliana de casamento, nas orelhas, 
um par de pequenos brincos com um diamante. Quem olhasse para ela no acreditaria que estava diante de uma pessoa com graves preocupaes. Tinha um sorriso extremamente 
afvel. Os olhos de Bill brilhavam de felicidade. Meu Deus, ests estupenda! H quatro anos que mantinha o mesmo aspecto. Talvez um pouco mais magra, mas, com a 
sua beleza clssica, dava a impresso de que o tempo no passava por ela. Enquanto desciam as escadas, de brao dado, a cavaquear sobre a viagem, as galerias que 
faziam tenes de visitar, a exposio na Tate Gallery e as filhas de Bill, este parecia um mido pequeno. Adorava contar histrias engraadas sobre as raparigas. 
Ao passarem pelo porteiro, ainda Isabelle ria, divertida.
       Receei que o estado de sade do Teddy no te permitisse vir. Bill dizia-lhe tudo o que pensava, tal como Isabelle fazia com ele. Teddy poderia realmente ter 
impossibilitado a vinda dela a Londres. Ou Gordon, se houvesse decidido que ela no deveria vir. Mas este no parecera nada preocupado com o fato de a esposa ir 
passar uns dias a Londres. Teddy, por seu turno, ficara encantado por a me poder ir. No sabia nada de Bill, mas adorava ver a me sorrir e no queria ser um empecilho 
em relao  viagem.
       Tambm receei no poder vir. Mas o Teddy est muito melhor. H cinco anos que no o via assim to bem. Com a adolescncia, o estado de sade dele fora-se 
agravando.
       O corao e os pulmes no estavam a conseguir acompanhar o crescimento geral do corpo. Ele queria que eu viesse.
       Bill tinha a sensao de o conhecer h anos. Embora no soubesse como, esperava que isso acontecesse um dia.
       Saram para a Brook Street, e Isabelle, ainda de brao dado com Bill, inspirou profundamente. Estava um dia magnfico e um calor que no era normal em Junho.
       Onde queres ir? indagou Bill, fazendo uma lista mental das vrias hipteses, se bem que o que lhe interessava era apenas estar com ela. Tinha a sensao de 
se encontrar de frias. Nunca conseguia arranjar tempo para uma tarde descontrada, um almoo informal ou um passeio a p com uma mulher a seu lado. Toda a sua vida 
girava em torno do trabalho e tudo o que fazia tinha a ver com a poltica. Nunca desfrutava de tempo livre, exceto quando estava com Isabelle. A seu lado, o tempo 
parecia parar. Quem o conhecesse bem no o reconheceria, descontrado, de sorriso nos lbios, ao lado de uma bonita mulher de longos cabelos escuros. Que tal irmos 
comer uma piza a um stio qualquer?
       Isabelle, com um radioso sorriso nos lbios, fez um gesto afirmativo com a cabea. A felicidade que sentia era tanta que mal conseguia concentrar-se no que 
dizia.
       De que ests a sorrir? perguntou Bill, em tom de gracejo, enquanto desciam calmamente a rua. Ambos sentiam que, pelo menos por agora, tinham muito tempo para 
si.
       De felicidade S isso. Nunca fiz nada assim. Sinto-me liberta de todas as preocupaes. Isabelle sabia que Teddy estava em boas mos e tudo o resto corria 
sobre rodas.
        assim que desejo que te sintas. S quero que te descontraias e esqueas tudo.
       Poucos minutos depois, apanharam um txi e foram at um pequeno restaurante que Bill conhecia em Shepherd Market, perto da embaixada. Iam l vrias vezes 
nos intervalos das reunies. O restaurante tinha um jardim e o dono ficou encantado ao v-los. Estavam ambos elegantemente vestidos e havia algo de carismtico neles. 
O dono conduziu-os ento at a uma mesa num stio recatado ao fundo da sala, trouxe a lista de vinhos a Bill, entregou a ementa a ambos e desapareceu.
        um stio maravilhoso observou Isabelle, por entre um sorriso, enquanto se recostava na cadeira e fitava Bill. A ltima vez que o vira fora em Paris, no 
Inverno anterior, pouco antes do Natal. Oferecera-lhe uma bonita echarpe Hermes e a primeira edio de um livro de que haviam falado, encadernado a cabedal e extremamente 
raro. Isabelle tinha um carinho especial por ele, tal como por todas as outras coisas que Bill lhe dera ao longo dos ltimos quatro anos.
       Sinto-me uma menina mimada.
       timo! exclamou Bill, dando-lhe uma palmadinha na mo. Concordaram em comer uma piza, mandaram vir tambm saladas e uma garrafa de Carton-Charlemagne.
       Agora vais embebedar-me a meio da tarde... Bill sabia, pelos almoos anteriores, que Isabelle pouco bebia, mas era o vinho de que ela mais gostava e alm 
disso de uma colheita excelente.
       Julgo que no corres esse risco, a menos que tenhas adquirido maus hbitos nos ltimos seis meses. Estou eu mais sujeito a embebedar-me do que tu confessou 
Bill, embora Isabelle nunca o tivesse visto beber em demasia. Era uma pessoa sem vcios aparentes,  parte o de trabalhar de mais.
       Que vamos fazer esta tarde?
       O que quiseres. Estou feliz por estar aqui. Sentia-se um passarinho fora da gaiola. Bill sugeriu ento que dessem umas voltas por algumas galerias e lojas 
de antiguidades, proposta que ela adorou. No pararam de conversar durante toda a refeio. Eram quatro e meia quando saram do restaurante. Apanharam outro txi. 
Bill tinha uma limusine  sua disposio no hotel, mas ambos preferiam a liberdade de poderem andar por Londres sozinhos. Depois de visitarem as galerias e as lojas, 
regressaram ao hotel a p. J passava das seis.
       Jantamos s nove? perguntou Bill, esboando um sorriso. Podemos tomar uma bebida aqui no hotel e depois vamos ao Bar Harry's. H muito que era o restaurante 
favorito de ambos. Tinha um ar respeitvel e no havia o problema de poderem ser vistos. No existia nada para esconder e, se Gordon viesse a saber, Isabelle no 
tinha qualquer escrpulo em dizer-lhe que se encontrara com Bill Robinson. 
       No iria contar-lhe de livre e espontnea vontade, mas no alimentava qualquer sentimento de culpa, nem havia qualquer motivo para se desculpar. Apanho-te 
no teu quarto s oito.
       Quando entraram no elevador, Bill colocou o brao sobre os ombros de Isabelle. Quem os visse no diria que estavam em quartos independentes e que no eram 
casados. A familiaridade entre ambos era tal, que mais parecia estarem a viver um romance. Enquanto se dirigiam ao terceirro andar e se encaminhavam at ao quarto 
dela, pareciam absortos relativamente a tudo o que os rodeava.
       Passei uma tarde maravilhosa E ps-se em bicos de ps para o beijar na face.  uma pessoa muito boa para mim, Mister Robinson. Obrigada, Bill proferiu Isabelle 
num tom solene, enquanto ele sorria.
       No sei como posso ser uma pessoa to boa para ti. s uma mulher horrvel e insuportvel. De vez em quando, tenho de ser um pouco caridoso. Isabelle riu-se 
e Bill fez-lhe uma festa no brao, ao mesmo tempo que a porta do quarto se abria. Descansa um pouco antes de sairmos logo  noite. Far-te- bem. Bill estava bem 
a par da vida stressante que ela tinha a tratar do filho. Como tal, queria que descansasse, que gozasse umas frias autnticas. Tambm sabia, por aquilo que ela 
lhe contava, que Gordon praticamente no lhe dava a mnima ateno. Por isso, durante o pouco tempo que estavam juntos, fazia tenes de lhe mostrar que havia algum 
que se mostrava preocupado com ela. Isabelle prometeu-lhe ento que iria dormir um pouco. J no quarto, deitada em cima da cama, pensou mais uma vez em Bill, no 
modo como, anos antes, quase por acaso, ele entrara na sua vida e na sorte que tivera em conhec-lo
       Por vezes, interrogava-se sobre a razo por que ele continuava com a mulher. Era fcil deduzir que no havia comunicao entre eles, e Bill merecia muito 
mais. Mas tambm sabia que ele no gostava de falar no assunto. O estado do seu casamento com Cynthia era algo que aceitava como um dado adquirido e um equilbrio 
que preferia no ver perturbado. Isabelle desconfiava que ele achava que um possvel divrcio constituiria um tremendo incmodo. No queria o menor indcio de escndalo 
perto de si, nem atrair as atenes. Parte da sua fora residia na discrio. Um divrcio teria provocado demasiado alarido, especialmente se fosse litigioso. Alm 
disso, Cindy gostava das coisas tal como estavam. Apreciava as vantagens prticas de ser Mrs. William Robinson, especialmente em Washington. Embora dissesse que 
detestava a poltica, ter um marido que exercia considervel influncia sobre o presidente era algo que tinha impato no meio que frequentava. Isabelle sentia imensa 
pena dele. Bill merecia muito mais do que aquilo que tinha com Cindy. O mesmo acontecia com ela. A vida que levava com Gordon no era certamente o casamento por 
que ansiara vinte anos antes, mas era algo que aceitava como uma contingncia da vida. Naquele momento, deitada na enorme cama do Claridge's, j no era nisso que 
pensava, mas na noite de conversa e boa disposio que iria ter com Bill. Nesse exato instante, Gordon parecia fazer parte dum mundo distante, quase inexistente. 
Bill fazia-a rir e sentir-se segura e bem consigo prpria. Estar com ele em Londres era um sonho que se tornara realidade.
       Dormitou at s sete horas, depois levantou-se e tomou um banho. Escolheu um vestido de noite de renda preta, uma echarpe de seda, sapatos de salto alto de 
cetim preto, um colar de prolas e um par de brincos de diamantes. O vestido era sbrio, mas muito feminino e, tal como ela, de subtil beleza. Apanhou o cabelo numa 
trana e aplicou um pouco de maquilhagem no rosto. s oito horas em ponto, quando veio busc-la, Bill teve uma reao de espanto. Nessa altura, j ela telefonara 
para casa e falara com a enfermeira de Teddy, que a tranquilizou dizendo-lhe que o filho se encontrava bem. Gordon sara e Teddy j adormecera. Apesar de no ter 
falado com o filho, ficou feliz por saber que estivera bem durante todo o dia. Essa notcia veio dar-lhe outro nimo para a noite que ia passar com Bill.
       Uau! exclamou Bill, dando um passo atrs para a admirar melhor. Com a echarpe sobre os ombros e o vestido de renda justo ao corpo, Isabelle exibia uma beleza 
e uma sensualidade deslumbrantes. Ests encantadora. Quem desenhou o vestido? perguntou, com ar de conhecedor, o que provocou uma gargalhada em Isabelle, que no 
o tinha como um entendido em alta costura.
       O Saint Laurent. Ests a surpreender-me. Desde quando te interessas por moda? Bill nunca fizera qualquer comentrio desse gnero Mas as coisas ali eram diferentes. 
Podiam dar-se a esse luxo, tendo dois dias de convvio  sua frente.
       Desde que te vejo vestida  moda. Ao almoo tinhas um conjunto Chanel, no tinhas? perguntou, orgulhoso consigo prprio, provocando nova gargalhada
       Estou impressionada. Tenho de ter cuidado com aquilo que visto daqui para a frente e saber se est de acordo com os teus padres.
       No tens nada que te preocupar. Ests deslumbrante comentou, num tom afvel. Desceram no elevador, quase encostados um ao outro, a conversar baixinho. Isabelle 
contou-lhe que falara com a enfermeira que ficara a tratar de Teddy e que esta lhe dissera que este estava timo, o que a deixara muito mais descansada. Bill s 
queria que ela se descontrasse e divertisse, e at agora estava tudo a correr s mil maravilhas. Bill passava grande parte do seu tempo a pensar no que iria fazer 
com Isabelle durante os dois dias. Queria que esta fosse uma viagem que ambos recordassem pela vida fora, porque no sabia quando  que os seus caminhos voltariam 
a cruzar-se. Quase tinha medo de pensar nessa eventualidade. Sabia que era muito provvel que aquela oportunidade extraordinria no voltasse a repetir-se.
       Quando entrou no bar do Claridge's, atrs dela, vrias cabeas se viraram na direco dos dois. Sentaram-se numa mesa de canto. Bill pediu um usque com soda 
para si e um copo de vinho para Isabelle, que, como de costume, mal lhe tocou. Falaram de arte, poltica, teatro, da casa de Vero da famlia dele em Vermont e dos 
locais onde ambos adoravam ir em pequenos. Isabelle falou das visitas aos avs no Hampshire e das ocasies raras, mas impressionantes, em que se encontrara com a 
rainha. Bill sentia-se deslumbrado com as histrias dela, que, por sua vez, escutava com igual fascnio as de Bill. Havia, como sempre, uma impressionante similaridade 
entre eles, no que tocava a reaces, filosofia de vida, gostos, pessoas, lugares e  importncia dos laos familiares. Foi Isabelle que comentou, mais tarde, que 
era estranho como pessoas a quem a famlia dizia tanto tivessem deixado chegar os casamentos ao ponto em que se encontravam, tendo escolhido parceiros que pouco 
tinham a ver com eles.
       A Cindy era muito mais meiga quando andvamos na faculdade, depois transformou-se numa pessoa cnica. No sei se a culpa ser minha observou Bill, pensativo. 
Somos pessoas muito diferentes e h muitos anos que no lhe satisfao as necessidades. Acho que a desiludi. Queria que eu praticasse o chamado jogo social com ela 
no Connecticut e em Nova Iorque. Nunca mostrou grande interesse pela cena poltica Ao contrrio de mim, que sempre me fascinou e  qual me dediquei de alma e corao. 
Agora que me movimento mais nos bastidores, acho que se fartou e perdeu qualquer interesse por tudo o que me diz respeito. Vivemos em mundos completamente diferentes.
       No entanto, Isabelle achava que havia algo mais do que isso. H anos que Bill lhe confidenciara que suspeitava que a mulher lhe fora infiel. Confessara-lhe 
tambm a sua nica aventura amorosa. Mas sentia, por aquilo que ele lhe contava e no contava, que Cynthia no s estava afastada dele como tambm o punia, quando 
se encontravam, por aquilo que considerava serem as falhas dele para com ela. Isabelle nunca ouviu histrias de intimidade, de afabilidade, ou de qualquer outro 
tipo de apoio emocional entre eles. E no conseguia deixar de se interrogar se no seria doloroso para Bill admitir que a esposa j no o amava. Se  que alguma 
vez o amara. O mesmo tipo de questes se colocava relativamente a Gordon. No entanto, no queria pressionar Bill no que dizia respeito  mulher. Fosse o que fosse 
que ele visse nela, no queria for-lo a encarar algo que pudesse ser extremamente doloroso ou embaraoso de admitir ou abordar
       Penso que o Gordon  muito mais frio do que a Cynthia opinou Bill, convicto do que estava a dizer. Isabelle no discordou, embora achasse que, em parte, a 
culpa tambm era sua.
       Acho que tenho sido uma grande desiluso para ele proferiu, com ar sereno, j dentro da limusine que os havia de conduzir ao Bar Harry's. Acho que ele esperava 
que eu tivesse mais vida social e que sasse mais. No tenho qualquer problema em receber os convidados dele, mas sou pssima no que toca a abrir-me com as pessoas 
ou a impression-las. Isso j  algo que me custa. Nos primeiros tempos de casamento, sentia-me uma marioneta de que Gordon puxava todos os cordelinhos. Ele  que 
me instrua sobre o que eu havia de dizer s pessoas, o que fazer, como me comportar, o que pensar. Depois, com a doena do Teddy, deixei de ter tempo e pacincia 
para entrar nesse jogo. J quando a Sophie era pequena, estava muito mais interessada nela do que naqueles idiotas todos que ele queria que eu impressionasse. Eu 
s desejava ter uma vida familiar e um lar.  provvel que tenha falhado nesse aspecto. O Gordon  muito mais ambicioso do que eu.
       Bill achava que devia haver algo mais do que isso. A frieza e a crueldade de que Gordon dava mostras pareciam ser premeditadas, para fazer sentir a Isabelle 
que a distncia entre eles era inteiramente culpa dela. Como se insinuasse que, se ela tivesse tido outro comportamento, ele ainda estaria activamente envolvido 
na sua vida. Bill desconfiava que os motivos para o afastamento de Gordon no tinham nada a ver com Isabelle ou com Teddy, mas com coisas que a ela ainda nem sequer 
lhe haviam passado pela cabea. No entanto, no queria mago-la insinuando tal coisa. Apesar da rudeza de Gordon, Isabelle continuava a ser-lhe fiel e a arranjar 
desculpas para as coisas que ele fazia e lhe dizia Por aquilo que Bill conseguia aperceber-se, a generosidade de esprito que ela manifestava para com Gordon era 
imerecida, mas caracterstica dela.
       No vejo como podes ter desiludido quem quer que seja. No conheo ningum que se entregue com tanto empenho quilo que faz e estou certo de que deste o teu 
melhor por ele. Alm disso, o fato de o Teddy ter nascido com problemas de sade no foi culpa tua.
       O Gordon acha que fiz qualquer coisa durante a gravidez que originou que o Teddy tivesse nascido antes do tempo. O mdico diz que isso teria acontecido de 
qualquer das formas, mas o Gordon nunca ficou convencido Bill no gostara dele nas duas vezes em que se encontraram. Achara-o muito emproado e arrogante, e o modo 
sarcstico como falava com Isabelle fez-lhe impresso. Tratava-a como uma criana, mandava-a embora com palavras rspidas e um aceno de mo, diante dos convidados. 
Porm, apesar de ignorar a esposa durante quase todo o tempo, mostrou-se afvel com Bill. Era simptico quando queria, com as pessoas que achava poderem ser importantes 
ou teis para si. Era quase como se precisasse de castigar Isabelle por aquilo que ela era. Tratava-a com absoluto desdm. Mas Bill desconfiava que, bem no fundo 
de tudo, Gordon estava impressionado com a famlia de Isabelle e sentia-se algo complexado, talvez por causa dos laos  famlia real. Por isso, tinha necessidade 
de estar constantemente a rebaix-la, para se afirmar. De qualquer modo, quanto mais no fosse para no a magoar, Bill fingia um moderado respeito quando ela falava 
do marido. No a queria colocar na posio de defensora dele. A lealdade de Isabelle era por de mais evidente. Afinal de contas, era seu marido. Mas j no fingia 
ser feliz com Gordon. Limitava-se a aceitar o casamento como uma inevitabilidade da vida e recusava queixar-se do estado a que as coisas haviam chegado. Estava grata 
por ter Bill para conversar e para a ouvir, e adorava o fato de ele estar constantemente a faz-la rir.
       Nessa noite, havia muita gente no Bar Harry's. Mal conseguiam passar a porta. Junto ao bar, viam-se mulheres de vestido de noite ao lado de homens de fato 
escuro, camisa branca e gravata sbria. Tinham todos um aspecto sofisticado, extremamente elegante, e Isabelle com o seu vestido de renda preta encaixava na perfeio 
nesse cenrio. Bill, por seu turno, no destoava, no seu fato azul-escuro, que comprara antes da viagem.
       O chefe de mesa reconheceu-o de imediato e, depois de cumprimentar Isabelle com um sorriso, conduziu-os at  mesa preferida de Bill, a um canto da sala. 
Da podiam ver uma srie de caras conhecidas: vrias atrizes, uma estrela de cinema de nomeada, algumas figuras de monta no campo da literatura, uma mesa de homens 
de negcios do Bahrein, duas princesas sauditas e uma mesa de americanos elegantemente vestidos, um dos quais fizera fortuna na indstria petrolfera. Muitas dessas 
pessoas de renome dirigiram-se  mesa para cumprimentar Bill, que apresentava Isabelle simplesmente como Mrs. Forrester, no dando mais nenhum pormenor acerca de 
quem se tratava. A meio do jantar, Isabelle reparou num banqueiro francs que conhecera anos antes, e que, naturalmente, conhecia Gordon, mas que no a reconheceu. 
       Gostava de saber o que estas pessoas pensam que somos comentou Isabelle, pouco preocupada com o fato, mas divertida. Estava de conscincia limpa, apesar de 
no ser normal estar em Londres a jantar com um homem no bar Harry's.
       Provavelmente pensam que s uma estrela de cinema francesa e eu um campnio que arranjaste E riu-se, enquanto o empregado de mesa servia Cristal com a sobremesa. 
O jantar estivera excelente e haviam bebido dois vinhos magnficos. Mas nenhum dos dois estava brio. Sentiam-se saciados, felizes e descontrados.
       Pouco provvel retorquiu Isabelle, divertida. Toda a gente te conhece, apesar de achares que no. A mim  que ningum conhece.
       Posso fazer um anncio, se quiseres. Ou vamos mesa a mesa quando sairmos e apresento-te a toda a gente como a minha melhor amiga. Achas que isso lhes satisfar 
a curiosidade? A nica coisa que as pessoas que os rodeavam viam era um casal extremamente elegante e divertido.
       Talvez. Achas que a Cynthia ficaria aborrecida se soubesse que jantaste fora com outra mulher. Esta despertava sempre a curiosidade de Isabelle.
       Queres que te responda com toda a franqueza? perguntou Bill, de sorriso nos lbios. No tinha segredos para ela. Prometera, h muitos anos, que nunca lhe 
esconderia a verdade, por mais incmoda que esta pudesse ser. O mesmo acontecia com Isabelle relativamente a ele. Acho que se estaria nas tintas. J passou essa 
fase. Desde que no a ridicularize em pblico, pensa que isso so contas do meu rosrio. Ela tambm no gostaria que eu a questionasse sobre a sua vida. E tem muito 
mais a esconder do que eu. H anos que ouvia rumores acerca dela, e s das primeiras duas vezes  que a interrogara. Depois resolvera no querer saber.
       Isso, de certo modo, entristece-me. Os casais no deviam ser assim.
       O casamento pode encobrir uma srie de situaes. O teu e o meu no so o gnero de casamento com que as pessoas sonham. Ns temos aquilo a que as pessoas, 
por variadas razes, ao fim de muito tempo, acabam por se acomodar
       Acho que tens razo disse Isabelle, pensativa, enquanto o empregado de mesa lhe servia um clice de Chateau d'Yquem. Mas ser bom para ti, acomodares-te? 
O vinho que bebera soltara-a um pouco mais.
       No tenho alternativa. Se no me acomodar, s me resta o divrcio E, por vrias razes, nenhum de ns quer isso. A Cynthia quer a aura de respeitabilidade 
e o tipo de vida que lhe proporciono E eu no estou interessado nas ondas de choque que se gerariam se nos divorcissemos. Por si s, mantemo-nos assim. Alm disso, 
as midas podiam no o aceitar bem. No h nada nem ningum a quem eu queira mais. Bill h muito que se conformara com a sua situao Mas, s vezes, Isabelle perguntava-se 
porqu Aos cinquenta e dois anos, Bill ainda era um homem suficientemente jovem para comear uma nova vida. Merecia ser feliz. Dava tanto e recebia to pouco. Bill 
pensava o mesmo dela.
       Nunca irs encontrar ningum enquanto estiveres preso a ela afirmou, enquanto bebia um gole de Yquem.
       Ests a sugerir que me divorcie? Bill pareceu surpreendido. Isabelle nunca lhe dissera tal coisa e no conseguia deixar de se interrogar por que razo  que 
ela lhe estava a dizer aquilo agora.
       No sei. s vezes, pergunto-me se no estamos a desperdiar as nossas vidas. Eu no tenho alternativa, por causa do Teddy e, de qualquer forma, nunca me divorciaria. 
No existe um nico caso de divrcio na minha famlia. Na minha idade,  muito difcil comear tudo de novo. Para um homem  diferente. Bill continuava surpreendido 
com as palavras dela. Nunca imaginara que Isabelle j tivesse encarado a hiptese de deixar Gordon.
       No acho. Alm disso, s onze anos mais nova do que eu. Se algum deve pensar numa vida nova, esse algum s tu. H vrios anos que tu e o Gordon no esto 
casados, na verdadeira acepo da palavra. Mereces algo muito melhor. Era a primeira vez que observava com toda a franqueza aquele assunto, mas fora Isabelle quem 
puxara a conversa.
       No podia fazer isso e sabes bem porqu. Todos os nossos amigos e familiares ficariam horrorizados. Alm disso, no posso perturbar a vida do Teddy.  demasiado 
frgil para sobreviver a uma mudana dessas E o Gordon nunca toleraria tal coisa. Matar-me-ia antes de me dar o divrcio. No tenho a menor dvida. A separao era 
algo que se encontrava fora das suas cogitaes. As palavras eram ditas num tom convicto, mas, nessa noite, pela primeira vez, Isabelle sentia-se uma condenada em 
liberdade condicional. Nunca se permitira pensar em como era deprimente a casa de Paris, como a sua vida era limitada e no completo desprezo a que Gordon a votara. 
De sbito, sentada no Bar Harry's com Bill, tomou perfeita conscincia do que nunca tivera. No entanto, continuava a bater na tecla de que isso se devia ao fato 
de a sua vida girar em torno de um filho doente. No se sentia ainda preparada para entender que a vida solitria que levava se devia em grande parte ao fato de, 
anos antes, ter sido abandonada, do ponto de vista emocional, pelo homem com quem casara.
       Nunca te tinha ouvido falar assim observou Bill, enquanto pousava a mo sobre a dela. Isabelle nunca admitiria a profunda tristeza em que vivia, arranjando 
sempre desculpas para esse fato. Tambm nunca aceitaria o fato de Gordon ser o potencial destruidor da sua vida. Bill chegou a questionar-se se Gordon alguma vez 
a ameaara. Mas, fosse como fosse, ela estava perfeitamente ciente da crueldade desse homem, no s relativamente a ela, mas tambm em relao ao filho. Que te leva 
a dizer isto agora? Ele ameaou-te? Isabelle nunca referira que Gordon a mataria se ela abandonasse o lar, e Bill perguntava-se agora se ela abordara alguma vez 
o assunto com o marido. Fitou-a por instantes. Por trs do sorriso que esboava, vislumbrava-se uma certa tristeza. No conseguia imaginar outra vida no seu futuro 
seno a que tinha. A esperana numa vida melhor desvanecera-se h anos. 
       Acho que me embebedaste afirmou Isabelle, em tom de desculpa, mas sentia-se uma prisioneira que fugira da cadeia e que no estava disposta a manter por mais 
tempo o voto de silncio a que se comprometera. De sbito, do outro lado do canal da Mancha, sentia-se ligeiramente menos fiel a Gordon do que em casa. E Bill conhecia-a 
muitssimo bem.
       Quem me dera retorquiu Bill, rindo-se, enquanto levava o clice  boca. Adoraria ver o que farias se estivesses bbeda. Vamos experimentar?
       s terrvel. Eu preocupada com o fato de poderes ser objeto de um escndalo e tu a incitares-me a comportar-me de forma escandalosa. Se continuas a dar-me 
champanhe e Yquem, vais ter de me levar s costas.
       Ponho-te s costas e digo que te encontrei debaixo da mesa. Acho que ningum se importaria.
       E que farias depois? perguntou, rindo-se da imagem que Bill sugerira. Estava bem-disposta e s queria que a noite no tivesse fim. Na sua cabea sentia o 
tempo a esfumar-se. Depois dessa noite, s lhes restava mais uma e dois dias. Alis, duas se ficasse at sexta-feira. Depois, ambos voltariam para as suas vidas 
reais. Sentia-se a Cinderela no baile e no queria que os cocheiros se transformassem em ratos brancos.
       Se tivesse de carregar contigo s costas, acho que te daria um caf e punha-te minimamente sbria para te levar a danar ao Annabel's.
       Isabelle soltou uma gargalhada.
        capaz de ser divertido. J l no vou h anos, desde antes de casar. Passei l a festa dos meus dezoito anos e o meu pai tambm me l levou depois de eu 
e o Gordon ficarmos noivos. Nunca mais l voltei. O Gordon detesta danar.
       Ento, est combinado. Vamos l esta noite. Logo que esvazies o clice gracejou Bill, sabendo que Isabelle provavelmente s beberia mais um ou dois goles. 
O copo estava praticamente cheio. S bebera um copo de cada um dos vinhos, um clice de champanhe e no mais de um gole de Yquem. Mas era mais do que aquilo que 
geralmente bebia. Estavam ambos alegres, mas no embriagados. Quando muito encontravam-se inebriados pelo prazer de estarem um com o outro.
       No consigo beber mais disse Isabelle, em tom de queixume, com os enormes olhos fixos nos de Bill, que teve de reprimir uma vontade louca de a abraar. Porm, 
no iria cometer essa idiotice, nem tinha o mnimo desejo de lhe estragar a reputao, nem de a embaraar.
       Se no consegues acabar o Yquem, ento no podemos ir ao Annabel's retorquiu Bill, com ar determinado, enquanto o empregado pousava em cima da mesa um prato 
de doces que deixou Isabelle deleitada. Tivera um jantar excepcional e no esperava ir a mais lado nenhum, a no ser voltar para o hotel. Tenho uma idia. Se comeres 
dois doces de chocolate, levo-te ao Annabel's. Sentia um tremendo desejo de a levar a danar
       Ests a falar a srio, perguntou Isabelle, divertida, metendo um doce na boca e olhando-o com um ar de desafio. Um.
       E aqui tens outro disse Bill, oferecendo-lhe outro doce
       s uma pessoa horrorosa. No s queres ver-me bbeda como tambm gorda
       Isso levaria mais tempo do que pr-te bbeda. Bill esboou um sorriso de orelha a orelha e comeu um doce. Est combinado. Vamos ao Annabel's E fez sinal ao 
empregado para trazer a conta. J nem sei se ainda consigo danar. Alm disso, s novo e eu j sou demasiado velha. Os homens l so todos da idade do meu pai e 
danam com midas da idade da Sophie.
       Teremos de dar o nosso melhor. No sou grande danarino, mas  capaz de ser engraado. Exibia um ar descontrado e feliz. Vrias cabeas se voltaram quando 
saram.
       Poucos minutos depois, quando chegaram ao Annabel's, toda a gente parecia conhecer Bill. Estivera a com o embaixador seis meses antes e costumava l jantar, 
de vez em quando, com amigos, sempre que ia a Londres. Enquanto o empregado os conduzia  mesa, Isabelle sorria, sentindo-se jovem e idiota por estar ali, mas extremamente 
lisonjeada por Bill a ter levado a danar.
       Nessa noite, havia uma multido de gente no Annabel's. Grande parte era constituda por casais como os que Isabelle descrevera a Bill: homens mais velhos 
acompanhados de mulheres muito mais jovens; mas tambm havia outros da idade deles. Uns jantavam nas mesas dispostas ao longo das paredes, outros conversavam e bebiam 
no bar. Sentaram-se numa mesa perto da pista de dana. Isabelle ficou ento um pouco assustada com algo que detectou no olhar de Bill e que nunca vira antes. Mas 
achou que talvez se devesse ao vinho que haviam bebido e  intimidade que se estabelecera. No entanto, havia algo de terno e afvel no modo como ele a olhava. Pouco 
depois, sem dizer palavra, conduziu-a at  pista de dana. Ao som de uma msica que sempre apreciara, Isabelle estava espantada por constatar que Bill era um bailarino 
admirvel. Danaram uma srie de msicas seguidas e s ao fim de bastante tempo  que voltaram para a mesa. Bill mandou vir ento mais champanhe.
       Isabelle bebeu apenas um gole. Os seus olhos encontraram os dele, mas desviou-os quase de imediato. Tinha receio do que comeava a sentir.
       Ests bem? perguntou Bill, preocupado com a eventualidade de ter feito qualquer coisa que a tivesse aborrecido. Mas no, o que Isabelle sentia era algo de 
muito profundo, que no conseguia exprimir por palavras.
       Estou bem. S no queria que esta noite maravilhosa acabasse.
       No vamos deixar que isso acontea. Ambos sabiam que talvez s voltassem a ter uma noite assim da a alguns anos. Isabelle no podia fazer das viagens a Londres 
um hbito. E se o estado de sade de Teddy voltasse a piorar, passaria mais alguns anos sem poder sair. Alm disso, em Paris, no gozaria da mesma liberdade de o 
ver que tinha ali. Gordon nunca entenderia e ela tambm no teria hiptese de o fazer perceber. No vamos pensar nisso agora. Deixemos para mais tarde. Gozemos este 
momento, enquanto podemos.
       Isabelle fez um gesto de concordncia com a cabea e sorriu, mas, ao faz-lo, os olhos inundaram-se de lgrimas.
       Tinha a sensao de que mal se haviam cumprimentado e j pouco faltava para se despedirem, e as nicas coisas que teriam seriam as suas vozes ao telefone. 
Bill detestava v-la voltar para o seu mundo solitrio. Era jovem, enrgica e bonita, e merecia ter algum a seu lado que apreciasse tudo aquilo que tinha para oferecer.
       Vamos danar? perguntou Bill, por fim, e Isabelle assentiu com a cabea. Desta vez, a caminho da pista de dana, Bill pegou-lhe na mo. E ela sentiu-se infinitamente 
mais prxima dele. Bill no disse nada, limitando-se a fechar os olhos e a envolv-la nos braos. Esse momento foi como que um diamante a cintilar no aveludado da 
noite. Quando saram do Annabel's, no trocaram qualquer palavra. S a meio da viagem at ao hotel  que voltaram a falar.
       Diverti-me imenso murmurou Isabelle, cativada no s pela elegncia de Bill, mas tambm pela simpatia que ele lhe dedicava.
       Tambm eu retorquiu Bill, com o brao sobre os ombros dela, aninhada a seu lado. No havia artifcios entre eles, nem nada de embaraoso ou estranho. Aquilo 
que Isabelle sentia quando estava com ele, alm de felicidade, era uma imensa paz interior. Ao chegarem ao hotel, ficaram alguns instantes sem se mexer e o motorista 
aguardou, respeitosamente, fora do carro, sem abrir a porta.
       Vamos? perguntou Bill, com ar pesaroso, afastando-se lentamente dela. Ao ver o movimento dentro do carro, o motorista abriu a porta.
       Bill seguiu Isabelle at ao trio, passando pela porta giratria. Eram duas da manh. Dois empregados de limpeza lavavam o cho de mrmore. J no elevador, 
Isabelle, com ar ensonado, no conseguiu conter um bocejo. O elevador parou ento no terceiro piso.
       A que horas queres sair de manh? indagou Bill, com um irreprimvel desejo de passar a noite com ela. Sabia que isso estava fora de questo e, por outro lado, 
no queria pr em risco a amizade de ambos, propondo-lhe tal coisa ou fazendo algo de que pudesse vir a arrepender-se.
       Que tal s dez? Acho que os museus no abrem antes disso. Isabelle sentia-se como que entorpecida. A noite deixara-a extremamente impressionada em vrios 
aspectos.
       O pequeno-almoo s nove? Venho buscar-te quando descer ofereceu-se Bill, quase encostado a ela.
       Seria timo! E desfez-se novamente num amplo sorriso. Tive uma noite maravilhosa... Obrigada... murmurou, enquanto Bill lhe abria a porta do quarto, beijando-a 
depois no alto da cabea.
       Tive uma noite estragada gracejou Bill, quando Isabelle entrou no quarto. Esta virou-se e riu-se.
       Folgo muito em saber.
       Bill fez novo gesto de despedida com a mo e desapareceu ao fundo do corredor. Ao fechar lentamente a porta e enquanto se descalava, Isabelle s conseguia 
pensar na felicidade que era ter um amigo como Bill.

CAPTULO TRS
       Na manh seguinte, Bill bateu  porta do quarto de Isabelle, que o esperava envergando um vestido de linho azul-marinho de requintado corte. Uma mala Kelly, 
sapatos de crocodilo tambm azul-marinho, uma echarpe verde ao pescoo e um par de brincos de esmeraldas e safiras completavam a toalete. Estava, como sempre, extremamente 
chique com um ar jovem e fresco.
       Ests deslumbrante! comentou Bill, enquanto desciam as escadas lado a lado. Que tal dormiste?
       Que nem uma pedra. E tu?
       Acho que bebi de mais. No sei se adormeci ou se desmaiei, mas estou timo. No parecia ter-se embebedado na noite anterior e Isabelle tambm achava que no. 
Estava apenas a provoc-la. Bill telefonara a reservar uma mesa e mandara vir um pequeno-almoo gigantesco para ambos.
       No consigo comer isto tudo disse Isabelle, em tom de lamento, olhando para o que ele encomendara: ovos, waffles, salsichas, bacon, croisss, papa de aveia, 
fruta, sumo de laranja e caf.  mais do que suficiente para matar a fome a um exrcito esfomeado. No sabia o que querias para o pequeno-almoo, por isso mandei 
vir tudo. Que costumas comer? perguntou, ansioso. Gostava de saber todos os pormenores acerca dela. Geralmente, caf e torradas, mas isto  muito mais divertido 
respondeu Isabelle, pondo waffles, ovos, bacon e morangos no prato. E, para sua surpresa, comeu uma enorme quantidade daquilo que Bill mandara vir. Quando abandonaram 
o hotel, estavam ambos bem-dispostos e brincavam um com o outro acerca da quantidade de comida que haviam ingerido. Ainda bem que te vejo poucas vezes por ano. Caso 
contrrio, ficaria quadrada comentou, ao entrar para a limusine. Bill fitava-a com um olhar estranho. Estivera a pensar em como seria bom tomar o pequeno-almoo 
com ela todos os dias. Era uma tima companhia. Nas vrias conversas telefnicas que tinham por semana, era raro ouvi-la de mau humor. Cindy costumava dizer que 
detestava falar com humanos antes do meio-dia. At  Tate Gallery, Isabelle no parou de conversar e de dar informaes.
       Falava dos quadros que iriam ver, da sua histria, da sua provenincia, da tcnica e dos pormenores que eram marcantes neles. Fizera o trabalho de casa e 
estava excitada com a ida  exposio. Bill mostrava-se deliciado com o fato de poder partilhar o entusiasmo com ela. Mal chegaram, Isabelle ficou totalmente absorvida 
pelos quadros, observando em pormenor os mnimos detalhes de cada um e chamando-lhe a ateno para tudo o que achava importante. Era uma experincia completamente 
nova ir a um museu com Isabelle. Quando saram, ao meio-dia, Bill tinha a sensao de ter tirado um curso intensivo de arte.
       s uma perita nesta rea. Porque no aproveitas esse talento? No o podes desperdiar assim.
       No tenho tempo retorquiu, com ar triste. No posso abandonar o Teddy.
       Porque no fazes o trabalho de restaurao em casa? Assim podias estar perto dele. Podias montar um estdio numa das divises. A tua casa deve ser suficientemente 
grande para isso.
       Acho que o Gordon poria entraves a essa idia. Nunca morreu de amores pelo meu trabalho. Quando eu trabalhava no Louvre, achava essa vida demasiado bomia. 
Pelas dores de cabea que iria ter, julgo que nem vale a pena pensar no assunto, no s por causa do Gordon, mas tambm por causa do meu filho.
       Seria timo para ti retorquiu Bill, pragmtico. Admirava os seus conhecimentos no campo das artes e o modo afvel como os partilhava consigo, nunca sentindo 
que ela estivesse a exibir-se ou a faz-lo passar por ignorante. Havia sempre uma grande humildade em tudo o que ela lhe dizia.
       Tambm pintas?
       J pintei. No sou grande pintora, mas adorava. Se tivesses um estdio, tambm podias pintar. Acho que seria uma tima sada para ti.
       Isabelle sorriu, mas sabia que Gordon ficaria irritadssimo com a idia. J o trabalho no museu sempre o aborrecera e no descansara enquanto ela no o deixou, 
depois de Sophie nascer. Achava que era algo que no se coadunava com a sua posio social, nem com a imagem que queria fazer passar dela: a de me dos seus filhos 
e esposa dedicada nica e exclusivamente  gesto do lar. Tudo aquilo que Isabelle fora antes de casarem, tudo o que fizera e amara, no tinha qualquer importncia 
para Gordon, que era agora seu dono e senhor, controlando-a a seu bel-prazer e tratando-a como um objeto.
       Se eu voltasse para a pintura e a restaurao, acho que o Gordon tomaria isso como uma afronta. Quando os midos nasceram, disse-me logo que isso era algo 
da minha juventude, no um passatempo adequado a uma mulher casada.
       E qual  o passatempo adequado a uma mulher casada? perguntou Bill, num tom de voz que denotava alguma revolta. Detestava Gordon e tudo aquilo que representava. 
Era uma pessoa pretensiosa, superficial e possessiva, que no tinha o mnimo respeito por Isabelle. Nem o menor respeito por aquilo que ela gostava de fazer. Isabelle 
era apenas uma "coisa" que ele adquirira para dar mais brilho  sua carreira profissional e  sua posio social. Logo que atingira esse objetivo, Isabelle deixara 
de ter qualquer interesse para si.
       Para ele, s sirvo para tratar da casa e cuidar dos filhos. E tenho de me manter sossegadinha no meu canto at ele exigir a minha presena, o que raramente 
acontece.  capaz de um dia tolerar que eu trabalhe numa obra de caridade, desde que seja numa comisso que obtenha o seu aval, talvez com outras pessoas que lhe 
possam ser teis. O Gordon nunca faz nada que no lhe traga proveitos. Caso contrrio, acha uma perda de tempo.
       Que triste forma de viver! comentou Bill, num tom seco.
       Ele , provavelmente, o banqueiro mais importante da Europa. De Frana, de certeza que . A sua reputao tambem j est firmada nos Estados Unidos. Toda 
a gente de Wall Street e em todos os principais pases europeus sabem quem ele . 
       E depois? Ao fim do dia, o que  que ganhas com isso? Quem s tu quando tudo acabar e a nica coisa que restar for a carreira? Que tipo de ser humano s tu? 
Nos ltimos anos, tenho feito a mim prprio essa pergunta muitas vezes. Tambm cheguei a pensar que a nica coisa que interessava eram os negcios. Mas que importncia 
 que isso poder ter se no existir vida familiar, se a esposa se estiver nas tintas para o fato de o marido se encontrar vivo ou morto, se os filhos no se lembrarem 
da ltima vez em que a famlia jantou toda junta? Eu quero que as pessoas se lembrem de mim por outros motivos. Era uma das coisas que Isabelle adorava em Bill: 
os valores e as prioridades de extrema clareza. Mas nem sempre fora isso o que acontecera, o que o levara a pagar um preo elevado pelas lies que aprendera. O 
seu casamento era to vazio como o dela e, embora adorasse as filhas, no tinha qualquer intimidade com elas. Quando eram mais novas e a presena do pai junto delas 
era importante, Bill passava a maior parte do tempo  procura de polticos e a fabricar presidentes. Nos ltimos anos, fizera um esforo para passar mais tempo com 
elas, com resultados razoveis. Ambas as filhas gostavam da sua companhia e tinham orgulho nele, embora continuasse a passar grande parte do tempo em viagem. Agora, 
ao viajar para Londres, fizera questo em telefonar s filhas. Mas o crescente afastamento de Cindy no ajudava a melhorar as coisas. Raramente se encontravam todos 
juntos e, quando via as filhas, em geral, era uma de cada vez. Em muitos aspectos, Isabelle tinha mais sorte do que ele. Para ela, aquilo que verdadeiramente interessava 
era Teddy e Sophie, e passava muito tempo com eles. Mas Gordon no poderia dizer o mesmo. Os filhos eram estranhos, at Sophie, que era a preferida.
       O Gordon no chegou a esse ponto e acho que nunca chegar. Essas coisas no significam nada para ele. Basta-lhe ser importante no mundo financeiro. Tudo o 
resto  irrelevante.
       Acabar por se transformar num homem triste declarou Bill, num tom que denotava algum arrependimento, enquanto se encaminhavam para o carro. Eu tambm me 
apercebi disso, mas j um pouco tarde. Partilho mais da minha vida contigo do que alguma vez partilhei com a Cindy ou com as midas. Receio ter perdido esse barco 
h muito tempo. Nunca as acompanhei devidamente.
       Estou certa de que elas entendero porqu. J so quase adultas e ainda tm uma vida inteira pela frente para partilhar contigo
       Espero que encarem o problema nessa perspectiva. J tm as suas prprias vidas e a me tenta convenc-las de que sou um safado egosta E talvez tenha razo. 
Tu fizeste com que o melhor de mim viesse ao de cima. Ela nunca conseguiu. No  uma pessoa afvel. No sei se ela alguma vez realmente quis que eu fosse quem sou 
agora. Julgo que este tipo de intimidade que temos seria assustador para ela, se bem que a maior parte das vezes o faamos por telefone. Ela no queria desabafar 
comigo, nem que eu desabafasse com ela. S queria que a acompanhasse a festas. Mas eu no sou esse gnero de homem. Gosto de passar um bom bocado, mas nunca tomei 
conscincia do que perdi por no ter ningum com quem me abrir. A Cindy e eu passamos muito bem sem falar um com o outro, mesmo que estejamos na mesma sala.  uma 
situao que nunca ir alterar-se.
       Mas podia, se quisesses. Se lhe desses outra oportunidade e te abrisses com ela, talvez aprendesse a ter maior intimidade contigo
       Com a Cindy, no retorquiu Bill, com ar amargurado. Alm disso, no quero. Entre ns, no existe mais qualquer ligao e acho que  melhor assim. No h desiluso, 
nem mgoa. Desde que eu aparea, de vez em quando, num dos espectculos de caridade que ela organiza, que continue a pagar as contas e no me esquea de ir s festas 
de final de curso das midas, no h problema. Vivemos em mundos diferentes. Acho que ambos nos sentimos mais seguros assim.
       Ao ponto a que deixmos chegar as nossas vidas, suspirou Isabelle, enquanto se recostavam no banco traseiro da limusine. Bill deu ento ao motorista o endereo 
do restaurante onde iam almoar. Isabelle j ouvira falar, mas no sabia onde ficava. Fora, durante anos, o restaurante preferido da princesa Diana. Tu permitiste-te 
afastar da Cindy e das tuas filhas. Eu permiti que o Gordon me ameaasse sem dizer palavra. Por que razo deixamos que nos faam isso? Porque aceitamos que tomem 
decises sem nos consultar? As coisas pareciam estar cada vez mais claras na sua cabea.
       Porque essas pessoas sempre foram assim e ambos sabamos que as coisas iriam acabar desta forma. A Cindy era uma pessoa adorvel quando andava na faculdade. 
Inteligente, bonita e divertida, mas pouco afvel.  capaz de ser a mulher mais egosta, manipuladora e calculista ao cimo da Terra. O Gordon  cruel, frio e possessivo. 
Nada do que fizssemos teria alguma vez alterado esse fato. O problema  que o aceitmos de livre vontade, por mais que nos custe admitir.
       Os meus pais eram assim. Adorava-os, mas eram muito distantes e reservados.
       Tambm os meus. Detestavam crianas e haviam resolvido no ter filhos. S que, inesperadamente, j eles tinham quarenta e tal anos, apareci eu. E sempre me 
deram a entender estarem a fazer-me um enorme favor em terem-me como filho. Foi um alvio quando entrei para a faculdade. Morreram os dois num desastre de avio, 
quando eu tinha vinte e cinco anos. Nem uma lgrima verti. Quando me telefonaram da companhia de aviao a dar a notcia, a sensao que tive foi a de terem morrido 
dois estranhos. Fiquei sem saber o que dizer. No sei sequer quem eles eram. Apenas duas pessoas muito inteligentes que me deixaram viver com eles durante dezoito 
anos e que ficaram aliviados quando finalmente sa de casa. No sei sequer qual seria a reao deles se algum dia os tivesse abraado, beijado ou dito que os amava. 
No me lembro de a minha me me abraar ou beijar quando era pequeno. Falava-me sempre da porta do quarto e o meu pai nunca me dirigia a palavra. A Cindy  assim. 
Fala comigo a trs metros de distncia, ou mais, se puder.
        maravilhoso que sejas a pessoa equilibrada que s.
       Sentia alguma dificuldade em imaginar a infncia de Bill no entanto, a sua no fora muito diferente. Houvera abraos e beijos, mas muito pouco amor. A minha 
me era inglesa. Acho que queria amar-me, mas no sabia como. Uma pessoa muito formal e fria. Perdera a me ainda em beb e o pai sempre fora muito seco com ela. 
Meteu-a num colgio interno quando tinha nove anos e deixou-a l at casar com o meu pai. Conheceu-o quando foi apresentada na corte, e julgo que foi o meu av que 
lhe arranjou o casamento para que ela sasse de casa. Quando isso aconteceu, voltou a casar, com uma mulher com quem andava envolvido ainda antes da morte da minha 
av. O lado britnico da famlia estava cheio de esqueletos no armrio e segredos de que ningum podia falar. A nica coisa que tnhamos de fazer era vestirmo-nos 
bem, sermos delicados e fingirmos que tudo corria como devia ser. Nunca fiz a mnima idia do que a minha me pensava sobre o que quer que fosse, e o meu pai andava 
envolvido na poltica. Acho que ele nem sequer sabia que existamos. A minha me morreu quando eu era adolescente e o meu pai nunca tinha tempo para conversar ou 
estar comigo, embora ache que no era mau homem. O casamento dele foi um pouco como o meu com o Gordon e  capaz de ser por isso que no me choca por a alm o fato 
de ter um marido que no me d qualquer importncia. Nunca pensei muito nisso, mas  o nico modelo que conheo.
       Acho que  tambm o que se passou comigo. Penso que, se a Cindy tivesse sido um pouco mais afvel do que os meus pais, eu no teria sabido lidar com a situao. 
Tinha vinte e dois anos quando casmos e pareceu-me que uma parte de mim esteve congelada durante anos. S quando comeara a falar com Isabelle, quatro anos antes, 
 que muitas coisas principiaram a ficar claras no seu esprito e que muitas das suas opinies se alteraram. O contraste entre Isabelle e Cindy distanciara-o ainda 
mais desta.
       Gostava de saber o que aconteceria se nos tivssemos conhecido quando casmos, com tudo o que sabemos agora
       Nunca casaria com a Cindy se a conhecesse hoje declarou Bill, sem hesitar. No consigo conversar com ela. Nunca consegui. Odeia falar dos seus sentimentos 
e no sente necessidade de conversar, pois  algo que detesta. A nica coisa em que est interessada  num casamento aparentemente perfeito, sem ter em conta as 
mentiras que esto por trs. Custa-me apresent-la assim, como uma pessoa superficial, pois acho at que possui qualidades maravilhosas, mas o que  fato  que estou 
casado com uma estranha h trinta anos.
       E ests disposto a continuar assim durante mais trinta anos?
       Tudo leva a crer que sim replicou Bill, se bem que ultimamente se tivesse questionado a esse respeito. Mas o divrcio teria sido um srio revs para ele. 
Na sua vida, a discrio e um faro apurado eram essenciais. Nenhum presidente ou candidato a presidente quereria estar ligado a ele, se as relaes com Cindy se 
deteriorassem e o fato chegasse ao conhecimento do pblico; e ela nunca iria abrir mo da posio social que ocupava. A ltima coisa que ela queria era o divrcio. 
Tambm ests disposta a fazer a mesma coisa? Continuares num casamento sem amor at ao resto da vida. Conhecia a resposta. J haviam discutido o assunto.
       No tenho alternativa.
       Todos ns temos alternativas, se formos suficientemente corajosos para as assumirmos. Mas tu e eu temos muito a perder. A minha carreira sofreria um duro 
golpe se a Cindy e eu nos divorcissemos. E tu tens um filho gravemente doente. Entendo perfeitamente por que razo estamos a agir assim Mas s vezes tenho a sensao 
de que somos um par de parvalhes. Se tivssemos alguma coragem e acreditssemos nos nossos ideais, dvamos o salto. Mas no acredito que nenhum de ns o d.
       Desconfio que tens razo anuiu Isabelle, com voz triste.
       S espero que no venhamos a arrepender-nos um dia. A vida  curta. Os meus pais morreram com sessenta e tal anos, sem gozarem a vida. S fizeram o que achavam 
ser a sua obrigao. Quero mais do que isso. Mas ainda no sei como o vou conseguir.
       Eu evito pensar no assunto. Fiz a minha escolha h vinte anos.
        de uma grande nobreza de carcter da tua parte, disse Bill, pegando-lhe na mo, quando se sentaram no carro, mas no recebers nenhum prmio por isso. Ningum 
nos vai dar uma medalha pela nossa coragem.
       Que queres dizer?
       No sei bem. Por vezes, estou farto da vida que levo. Nem sequer j sei se ainda acredito na porcaria de vida que tenho. Para te ser franco, quando nos vemos 
e falamos, pergunto-me que raio vamos ns fazer conosco? Parecia assustada e temia que Bill lhe dissesse que nunca mais voltariam a ver-se. Ao olhar para ele, os 
olhos de Isabelle estavam muito abertos.
       No, com as outras pessoas. Tu e eu somos os nicos que fazemos sentido. Nunca consegui falar com outra pessoa da forma que ns falamos. No  assim que deve 
ser?
       Isabelle fez um gesto afirmativo com a cabea, pensando em tudo aquilo que ele lhe dissera.
       Agora , mas aos vinte e um anos, quando casei, no via as coisas assim. A nica coisa que sabia nessa altura era fazer o que me ordenavam. O Gordon era exatamente 
como o meu pai. Ele  que me dizia a que horas tinha de me levantar e deitar, o que devia dizer, o que fazer, o que pensar. Nessa altura, era confortvel. Mas nunca 
me apercebi de que existia uma alternativa e que havia outras formas de viver.
       E agora? Continuo a no ter alternativas. Sabes bem que no] Que alternativa tenho? 
       A que escolheres. A questo  essa. Pagaremos um preo elevado pela mudana nas nossas vidas. E o preo que pagamos no  elevado se elas continuam tal e 
qual esto? J pensaste nisso.
       Tento no o fazer. Tenho a vida que tenho por causaH do Teddy e da Sophie. 
       Tens a certeza de que  esse o motivo por que preferes continuar como ests? Bill nunca a pressionara daquela maneira, o que a espantava, levando-a a perguntar-se 
o que mudara. Dava a impresso de que Bill j no estava contente nem com a sua vida nem com a dela. Tens a certeza de que queres continuar assim porque receias 
seguir outro caminho? Tenho um medo tremendo de deitar as cartas ao ar, abandonar o jogo. Sou humano e no sou perfeito, e tenho necessidades afetivas.
       Ests a dizer-me que vais deix-la? Sentia-se perplexa. Ao longo de vrios anos de conversas, sempre lhe dissera que nunca romperia o casamento. Tal como 
ela.
       Estou a dizer, ou pelo menos penso que estou a faz-lo, que gostaria de ter coragem para a deixar. - Bill resolveu ento dar o grande passo. Mesmo que Isabelle 
ficasse furiosa e sasse disparada do carro, tinha de lho dizer, porque era o que sentia. E significava demasiado para o poder ignorar. - Para teu bem, gostaria 
que tivesses a coragem suficiente para deixares o teu marido. Quando te telefono fico de corao destroado a ouvir-te falar como uma prisioneira que est a ser 
morta  fome, privada dos seus direitos, desprezada e desrespeitada h vrios anos. S tenho vontade de vos raptar, a ti e ao Teddy, fazer qualquer coisa para vos 
tirar daquela casa. O Gordon no te merece, da mesma forma que a Cindy no me merece. E o que  fato  que nunca nos mereceram. Quem me dera que a vida fosse mais 
simples do que . Mas no.  uma complicao tremenda. Quem me dera que pudssemos comear tudo de novo.
       Quem nos dera. Mas no podemos. E sabes isso to bem como eu. - Isabelle adorava a idia de Bill pr um ponto final no casamento. Mas sabia que seria um ato 
desastroso para a sua carreira. - Se a Cindy armar um escndalo, toda a tua vida poltica ir por gua abaixo. Passaste trinta anos a constru-la. Ests mesmo disposto 
a troc-la pela liberdade? Tens a certeza? Pelos teus ideais? E depois o que fars? E eu? O Gordon disse-me, h muitos anos, que se eu algum dia o deixasse, s descansaria 
quando me visse a passar fome pelas ruas. No herdei nada. Foi tudo para o meu irmo. E quando ele morreu num acidente, a herana foi para os filhos. Estou completamente 
dependente do Gordon. No posso dar-me ao luxo de o deixar. No poderia proporcionar a devida assistncia mdica ao Teddy. Custa uma fortuna e, por pouco que ele 
queira saber de mim e do filho, paga tudo sem pestanejar. Que sugeres? Que sujeite o Teddy  misria, por capricho, ou que, pura e simplesmente, o abandone? No, 
sabes bem que  impossvel. Alm disso, o Teddy no sobreviveria a uma mudana to radical.  de uma grande dignidade pensar em deixar o Gordon porque parece no 
me amar, mas o amor  um luxo a que eu e o Teddy no temos acesso. - Custava dizer aquilo, mas era a pura das verdades. Isabelle sujeitava-se a submeter-se a Gordon 
para poder proporcionar a melhor vida possvel ao filho. A Bill custava-lhe ver Isabelle aceitar de bom grado esse tipo de vida, embora ele tivesse feito exatamente 
a mesma coisa. Ambos haviam aceite sem protestos aquilo que tinham E a que preo.
       Acho que a nica coisa que devemos fazer  tirar o melhor proveito daquilo que temos afirmou Bill, ao sarem em frente ao restaurante que haviam escolhido 
para almoar. Era italiano e muito conhecido. Talvez no tenhamos alternativa, embora deteste acreditar nisso. No caso de Isabelle, no via sada possvel, embora 
lhe custasse a acreditar que os tribunais franceses permitissem que Gordon deixasse a mulher e o filho doente passarem fome. Mas talvez ela tivesse razo
       Se o deixasse, seria o ato mais egosta que poderia cometer. O Gordon no me daria um centimo a mais daquilo a que se visse obrigado, e o Teddy no teria 
o mesmo conforto de agora. S estaria a pensar em mim. No poderia fazer uma coisa dessas ao meu filho. Tal como as coisas esto, o equilbrio j  suficientemente 
precrio para ele
       Tens razo. No te censuro Mas, quando estou contigo, tenho sempre a sensao de que poderamos estar numa situao muito melhor. Vejo como a vida poderia 
ser e nunca foi para ambos.
       Talvez as coisas entre ns sejam assim, porque apenas nos limitamos a falar ao telefone e nos encontramos umas quantas horas de tantos em tantos meses. Provavelmente 
se nos tivssemos casado, as coisas no se passariam desta maneira.
       Acreditas mesmo misso? perguntou Bill, olhando-a fixamente
       Isabelle hesitou durante um longo instante, depois, abanou silenciosamente a cabea. No, no acredito. Mas nunca saberemos. Nem sequer podemos permitir-nos 
abordar o assunto retorquiu tentando afastar aquele tipo de pensamento. Ser que sonhar com isso  outro luxo a que no nos podemos dar? 
       Acho que sim. Se pedirmos ou tentarmos alcanar mais do que temos agora, acabaremos por nos magoar um ao outro. Penso que devemos sentir-nos gratos com aquilo 
que temos e no pedir mais. s o amigo mais querido que tenho no mundo e adoro-te por isso. No vamos estragar as coisas querendo mais. Isabelle sentia a mesma atrao 
que ele desde a noite anterior. Era maravilhoso estarem juntos, passearem, conversarem, rirem, danarem, partilharem waffles e croisss. E depois? Que iriam fazer 
quando chegassem a casa? No permitiria que Bill fizesse uma asneira qualquer, mesmo que fosse esse o seu desejo. Isabelle sabia que o resto era algo que no poderiam 
ter. Mas ele mantinha o mesmo ar obstinado.
       Quero mais! Isabelle riu-se.
       Mas no podes ter. Ests a parecer uma criana mimada.
       Sinto-me vivo pela primeira vez, desde h muito tempo. O mesmo acontecia com ela, que tinha a sensao de lhe terem tirado dez anos de cima desde o dia anterior.
       Acho que as salsichas do pequeno-almoo te subiram  cabea. Decidira que a nica maneira de lidar com a situao era no o levar a srio, apesar de ter ficado 
surpreendida com tudo o que Bill dissera. Talvez possamos encontrar-nos aqui uma vez por ano, durante uns dias.  capaz de ser suficiente. Foi a nica coisa que 
lhe veio  cabea para contrapor  idia de uma vida com Bill.
       Sabes to bem como eu que no  suficiente.
       Que sugeres? Que fujamos para o Brasil? Pe um pouco de tino nessa cabea. Pensa no que ests a dizer. No sejas louco. E no esperes que eu tambm enlouquea. 
No posso. Bill conhecia-a bastante bem para saber que nunca poria em risco o bem-estar do filho. Mas no sabia se algum dia deixaria Gordon. Era uma pessoa demasiado 
bem formada Para fazer uma coisa to escandalosa como essa. E embora Gordon fosse uma pessoa de baixa formao moral, Isabelle era-lhe incrivelmente fiel.
       No podes gostar do domnio que ele exerce sobre ti e dos maus tratos que te inflige.
       E no gosto. Mas no se trata propriamente de maus tratos. Ele, pura e simplesmente, saiu da minha vida.
       Abandonou-te do ponto de vista emocional. H vrios anos Que te resta se no o fato de ele pagar as contas do Teddy
        o suficiente.  a nica coisa de que preciso.
       Parece-me uma insensatez. Tens quarenta e um anos. Precisas de algo mais do que isso.
       Nem sequer j penso na minha vida ripostou, num tom firme, tentando resistir a tudo o que sentia por ele.
       Mas devias pensar.
       Acho que precisas de uma bebida e de uma sesta E de um calmante. Isabelle nunca o vira ou ouvira assim. Estava sensibilizada, mas no podia fazer nada. Sabia 
bem que no. Dentro de um, dois dias, tinha de voltar para Frana. A nica coisa que podia fazer era gozar o tempo que lhes restava e no desperdi-lo querendo 
mais Mas, de repente, Bill recusava-se a ver isso e parecia querer pr em risco tudo, desejando mais do que aquilo que tinha. Tens de ser sensato.
       Porqu? perguntou Bill, enquanto saa do carro.
       Sabes bem porqu. Porque, gostes ou no, no existe alternativa. S ests a torturar-te. Tens o direito de te libertares, se quiseres, e talvez seja isso 
que deves fazer. Mas a minha situao  mais complicada. A vida do Teddy depende daquilo que o pai lhe der. E no podia dar-se ao luxo da incerteza de contar com 
outra pessoa. Gordon era o pai do mido e, pelo menos, era essa a sua obrigao.
       Ele seria um monstro se retirasse o apoio ao filho. Isabelle ficou alguns instantes sem fazer qualquer comentrio, depois olhou-o fixamente e falou num tom 
claro e firme, de modo a que ele pudesse perceber que estava a falar a srio.
       No vou fazer o teste. No posso.
       Compreendo limitou-se Bill a dizer, entrando atrs dela no restaurante. Desculpa ter puxado o assunto. No quis aborrecer-te. S que as coisas, tal como esto, 
no fazem qualquer sentido. Vivemos com pessoas que nos tornam infelizes e, quando estamos s os dois, a sensao  completamente diferente. De sbito, teve vontade 
de arriscar tudo. Talvez isso acontea porque no estamos efectivamente juntos. Se estivssemos,  possvel que nos sentssemos to infelizes como com eles.
       Tudo aquilo que nunca fora abordado entre eles era agora posto a descoberto, o que era, de certa forma, um alvio. Haviam-se escondido atrs da amizade e, 
de repente, Bill queria mais. Mas Isabelle frisava que essa era uma questo que no se punha, independentemente daquilo que sentia por ele. Havia muito mais em jogo 
do que isso. E no iria trocar a vida e a sade de Teddy pelo sonho de um romance. Era demasiado sensata para correr tal risco. Por muito que gostasse e admirasse 
Bill, o filho vinha em primeiro lugar. E ele respeitava-a por essa razo, sempre a respeitara e continuaria a respeitar.
       Aceito aquilo que ests a dizer prosseguiu Bill, enquanto se sentavam a uma mesa, debaixo de um chapu, protegendo-se do sol de Junho. Nunca poria em risco 
a sade do Teddy. Mas quero que saibas que gosto muito de ti. Nunca vos poria em risco. Alis, gostaria de te ajudar a cuidar dele, se pudesse. Mas no estou disposto 
a fingir que no quero mais. Quero que saibas isso.
       Eu sei. Tens sido to bom para mim, ao longo de todo este tempo. Durante os ltimos quatro anos, alm dos filhos, Bill era a nica pessoa com que contatava.
       No to bom como gostaria. Estou farto da hipocrisia das nossas vidas. Tu finges que s esposa do Gordon e eu finjo que sou um marido extremoso, quando vou 
aos jantares de cerimnia com a Cindy. Mas j no sei se conseguirei continuar a fingir, nem sequer se tenho vontade para isso. Acho que j no vale a pena.
       Podes ter de pagar um preo muito mais elevado se desistires do jogo. Isabelle questionara-se sobre tudo e Bill apanhara-lhe o ponto fraco e incitara-a a 
revoltar-se. Mas Isabelle teimava em ser razovel.
       Talvez um destes dias mande tudo passear. Nunca se sabe.
       Precisas de pensar maduramente no assunto.
       um gesto de concordncia com a cabea e pegou-lhe na mo.
       s uma mulher extraordinria disse, com os olhos a transbordar de emoo, e muito mais sensata do que eu.
       Talvez seja uma vantagem. Isabelle levou a mo de Bill aos lbios e beijou-a. s o meu amigo mais querido.
       Bill ficou mudo por instantes. Havia tanta coisa que lhe queria dizer, mas sabia, por tudo aquilo que ela dissera nessa manh, que no era a altura certa 
para o fazer.
       Que queres almoar? perguntou, tentando atenuar as emoes que quase o haviam tomado por completo. Nem sequer conseguia imaginar o que sentiria quando ela 
regressasse a Paris. Mas no valia a pena pensar nisso agora.
       Decidiram mandar vir massa e saladas, e cingiram-se a temas de conversa neutros, como livros e arte. Isabelle achava que Bill devia escrever um livro sobre 
a cena poltica. Mas o que o tornaria interessante senam os segredos que ele no podia divulger.
       Talvez quando me reformar sugeriu, enquanto apreciavam a sobremesa.
       Nessa altura, j ambos estavam muito mais calmos. Bill no sabia por que razo as coisas haviam ficado fora de controlo nessa manh. Sentia-se feliz quando 
estava com Isabelle e custava-lhe a aceitar que no pudesse haver algo mais. Sabia que, enquanto Teddy fosse vivo, ela nunca poderia pensar em deixar Gordon, e esperava, 
para bem dela, que o filho ainda vivesse muitos e longos anos.
       Nessa tarde, foram ao Museu Britnico, donde s saram por volta das quatro horas. Deram ento um passeio pela New Bond Street, em passo lento e de brao 
dado, detendo-se deleitadamente a ver os quadros e os artigos de joalharia expostos nas montras. Eram quase seis horas quando voltaram para o Claridge's e resolveram 
tomar ch. Havia sanduches de pepino, outras com tomate e agrio, salada de ovo e biscoitos. Esse ch bem servido fez com que Isabelle se lembrasse dos chs que 
tomava com o av quando era pequena. Sempre adorara aquele tipo de refeio. Bill decidiu provoc-la, dizendo-lhe que preferia estar a comer eclairs e petits-fours 
no Angelina's, em Paris, ou a comer gelado no Berthillon. Isabelle retorquiu calmamente que eram stios onde tambm adorava ir.
       Quando voltas a Paris? indagou Isabelle, enquanto comiam as sanduches e Bill lhe servia outra chvena de ch.
       Que tal na prxima semana? Vou sentir imenso a tua falta depois deste nosso encontro.
       Tambm eu confessou Isabelle, experimentando a mesma atrao que Bill. Quando estavam juntos ou a falar ao telefone, no parecia haver qualquer problema. 
Mas era como que um fruto proibido. O simples fato de estar com ele j era uma ddiva divina.
       Onde queres jantar? indagou Bill, enquanto Isabelle revirava os olhos e se ria.
       Como podes estar a pensar em jantar depois de tudo isto? Acho que no vou conseguir comer durante uma semana. Era a ltima noite que passavam juntos. Isabelle 
tencionava partir no dia seguinte, ao fim da tarde. Ainda no pensara na hiptese de ficar mais uma noite, embora estivesse tentada a faz-lo. No queria pression-la. 
Sabia que se sentia no dever de voltar para junto do filho E talvez, se ele no a pressionasse demasiado desta vez, estivesse disposta a ficar mais uma noite em 
Londres. Estavam a ser uns dias maravilhosos para ambos.
       Que tal o Mark's Club? perguntou Bill, ignorando os protestos dela relativamente ao fato de comer de novo. Podemos l ir mais tarde, se quiseres.
       Seria divertido. H anos que l no vou. Para te ser sincera, nunca l estive E riu-se.
       Vou fazer a reserva para as nove horas.
       Bill levantou-se da mesa e dirigiu-se  recepo, onde se deteve alguns instantes a falar com o recepcionista. Isabelle no tirou os olhos dele por um segundo. 
Era um homem com um charme irresistvel.
       Porque estavas a olhar to fixamente para mim? Perguntou ele, divertido e algo embaraado. Isabelle era to bonita que s vezes, ao olhar para ela, sentia 
um aperto no corao. queria dar-lhe muito mais do que aquilo que lhe proporcionava, passar tempo na sua companhia, apresent-la aos amigos, lev-la a Washington 
para a mostrar. Mas sabia qe nenhum dos dois podia fazer isso. Ela no se atreveria a ir mais longe.
       Estava a admirar-te.  um homem muito bem-parecido, Mister Robinson. H muito, muito tempo, sentira o mesmo por Gordon. Mas agora j no. Conhecia demasiado 
bem a frieza glida do seu corao.
       Ou ests louca ou cega ripostou Bill, e riu-se, denotando algum desconforto. Levantaram-se e dirigiram-se aos respectivos quartos. Eram sete e meia Bill disse 
ento que ia pedir uma massagem no quarto, enquanto ela se vestia e telefonava para casa. Venho buscar-te um quarto de hora antes das nove. D-te tempo?
       Est timo. S queria telefonar a saber como estava Teddy, tomar um banho, dar um jeito ao cabelo e vestir-se.
       At j disse Bill, enquanto lhe punha o brao por cima dos ombros e a beijava na face. Nesse instante, esteve tentado a perguntar-lhe se queria ficar mais 
uma noite, caso o filho estivesse bem. Mas preferiu esperar que ela telefonasse para casa e falasse com as enfermeiras e com Teddy
       Ficou satisfeita por saber que o filho tivera um timo dia e estava a rir quando falou com ele. A enfermeira estivera a ler-lhe um livro de anedotas que Isabelle 
lhe comprara antes de partir para Londres. Teddy leu-lhe ento algumas que a fizeram rir. Quando entrou para o banho ainda sorria. Prometera-lhe que estaria em casa 
na noite seguinte. Partiria num voo s seis da tarde e estaria em casa por volta das nove. Ainda pensara ficar outra noite, mas no lhe parecia justo
       Quando surgiu diante de Bill, envergava um vestido simples de seda branca, com uma estola de caxemira branca, um colar de prolas e sapatos de seda branca 
Chanel com pontas pretas. Trazia uma pequena carteira branca com nada mais dentro para alm do batom e da chave do quarto. No precisava de mais nada E, desta vez, 
resolvera no apanhar os cabelos. Bill ficou ainda mais impressionado do que na noite anterior quando a viu. Parecia encantado.
       Isabelle, to extraordinariamente graciosa, meiga e feminina, representava tudo o que ele sempre quisera numa mulher e s lamentava no a ter conhecido anos 
antes.
       Que tal estava o Teddy? indagou Bill, enquanto desciam as escadas, sem pacincia para esperar pelo elevador.
       Em excelente forma. Leu-me meia dzia de anedotas e a enfermeira disse que nunca o vira to bem. No sei se  da medicao, se do tempo, se da boa sorte. 
Mas seja pelo que for, espero que se mantenha. Disse-lhe que estaria em casa amanh  noite.
       Oh! exclamou Bill, com a tristeza estampada no olhar. Esperava que pudesses passar outra noite. Tenho de me encontrar com o embaixador amanh e no creio 
que esteja despachado antes do meio-dia. Ficamos com pouco tempo livre at ao teu vo.
       Eu sei disse Isabelle, enfiando a mo no brao dele. Pensei nisso, mas no tive coragem de lhe dizer que queria ficar mais uma noite. Talvez lhe telefone 
amanh.
       Seria maravilhoso. Porque no lhe perguntas se se importa? No queria roub-la ao filho, s queria que ficasse mais uma noite. E ela tambm tinha vontade 
de ficar. Sentia-se dividida entre Bill e o filho, uma sensao que lhe era muito pouco familiar.
       Telefono de manh e vejo como  que ele se sente. Mas no posso prometer nada. Se ele passar mal esta noite, terei mesmo de ir amanh.
       Compreendo. Mostrava-se satisfeito por Isabelle considerar a hiptese de ficar mais uma noite. Se tiveres de ir, se calhar tambm vou contigo. No seria m 
idia visitar a embaixada de Paris. Mesmo no podendo estar com Isabelle tanto tempo, queria manter-se perto dela. Mas seria muito diferente. Poderiam almoar ou 
jantar, mas ela no teria a mesma liberdade que ali. Se Gordon soubesse que andavam a encontrar-se, poderia ser embaraoso. Mas Bill compreendia tudo isso. J se 
encontrara com Isabelle em Paris anteriormente. Obrigado por estares disposta a telefonar. seja como for, tenho de voltar para Nova Iorque no sbado.
       Vai ser uma sensao estranha quando te fores embora observou Isabelle, num tom triste. S haviam estado Juntos durante um dia, mas era uma sensao to reconfortante 
que nenhum dos dois conseguia imaginar-se sem o outro.
       Estava a pensar na mesma coisa afirmou Bill, enquanto se dirigiam ao Mark's Club. Tu podias transformar-te num hbito difcil de quebrar.
       Isabelle assentiu com a cabea, enquanto Bill lhe pegava gentilmente na mo. Estavam a ultrapassar barreiras que ambos sempre haviam respeitado e a entrar 
em territrios at a desconhecidos. E sabiam que, se se aventurassem demasiado, poderia ser perigoso.
       Tomaram umas bebidas. Depois foram conduzidos at uma mesa na sala de jantar. Isabelle preferia o Harry's, mas o ambiente ali tambm era acolhedor e romntico. 
Falaram durante horas e ela teve vontade de parar a marcha do tempo. Os momentos iam-se esvaindo com demasiada rapidez. No queria que a noite acabasse. Bill tambm 
no.
       E se fssemos ao Annabel's outra vez? perguntou Bill, quando saram. Ento, os olhos de ambos encontraram-se durante um longo instante. Isabelle no sabia 
muito bem se iriam aventurar-se para guas mais profundas, caso fossem danar. Mas nenhum dos dois conseguia resistir. Muito provavelmente iria ser a sua ltima 
noite e a ltima oportunidade que teriam durante muito tempo. Talvez nos prximos anos. Ambos sabiam que tinham de aproveitar o melhor que pudessem.
       Adoraria. De repente, quando se sentaram no carro e deram as mos, no conseguiram arranjar palavras que definissem aquilo que lhes ia na alma. Mantiveram-se 
em silncio at entrarem no Annabel's e se sentarem no bar.
       Bill mandou vir champanhe e fizeram um brinde. Depois de Isabelle beber o primeiro gole, Bill pousou o clice, estendeu-lhe a mo e convidou-a para danar. 
Radiante de felicidade, sob o tecto de pequenssimas estrelas a cintilar, seguiu-o at  pista de dana. Era o local mais romntico em que alguma vez estivera e, 
desta vez, enquanto danavam, dava a sensao de que os corpos se haviam fundido num s. Moviam-se lentamente ao som da msica, sem trocar qualquer palavra, agarrados 
um ao outro. Isabelle fechou os olhos.
       S ao fim de muito tempo  que abandonaram a pista. Nenhum dos dois queria pensar na partida no dia seguinte, mas no havia forma de evitar essa realidade. 
Sabiam que esse momento acabaria por chegar.
       Voltaram a danar antes de sarem. Ao abandonar a pista de dana, Isabelle tinha os olhos inundados de lgrimas. Quando saram do Annabel's, Bill ps-lhe 
o brao por cima. Estava uma bonita noite quente e estrelada. Bill sorria-lhe quando, de sbito, uma exploso pareceu eclodir nos seus rostos. Ao princpio, Isabelle 
ficou sem saber do que se tratava cega por um claro de luz. S quando recuperou a viso  que reparou que um fotgrafo fizera disparar a mquina, mas no imaginava 
porqu
       O que aconteceu. Ficara assustada e recuara para os braos de Bill, que ainda tinha um brao por cima dela e a apertou mais contra si.
       So os paparazzi. Tiram primeiro a fotografia e s depois  que identificam as suas vtimas. Apanham muitas estrelas de cinema e polticos assim E se por 
acaso for algum que no interesse, no aproveitam a fotografia.
       Que seria o meu caso. E tu. Poderiam arranjar-te problemas.
       No creio. Os tablides esto-se nas tintas para mim. Acho que foi uma fotografia desperdiada.
       Nem sequer me apercebi do que aconteceu. A nica coisa que vi foi um claro de luz. Haviam usado um strobe e colocado a cmara a poucos centmetros do rosto 
de Isabelle.
        triste viver-se assim comentou Bill, a pensar na fotografia que lhe haviam tirado e ansioso por saber se conseguiriam identific-lo. Mas no lhe disse nada. 
Agora pouco poderiam fazer. A nica pessoa que poderia importar-se seria Cindy. Isabelle era certamente desconhecida. No havia motivo para Gordon Forrester ver 
a fotografia. Ao entrarem no carro, Bill mudou de assunto.
       Isabelle sentou-se junto a Bill, que, como de costume, lhe pegou na mo. A idia de partirem no dia seguinte no lhes saa da cabea. Estavam ambos com ar 
srio quando Bill Pediu ao motorista para os levar a dar um pequeno passeio, antes de voltarem para o hotel. No tinham pressa e, alm disso estava uma noite maravilhosa. 
FOI Isabelle quem falou primeiro, numa voz sumida.
       Nem quero acreditar que j me vou embora amanh. Teddy era a nica coisa que a obrigava a regressar a Paris.
       Pode ser que no vs. V como ele se sente quando telefonares. A Bill s lhe restava rezar para que Teddy passasse bem a noite. No conseguia imaginar-se 
a v-la partir.
       Isabelle fez um gesto de assentimento, sorriu e encostou a cabea ao ombro dele.
       Passei uma noite maravilhosa.
       Tambm eu. Voltou-se e olhou-a fixamente. As palavras seguintes deixaram-na perplexa: Que vamos fazer agora? perguntou Bill, numa voz que ela conhecia bastante 
bem. Era a voz que a fazia estremecer quando atendia o telefone.
       Relativamente a qu?
       Bill fitou-a com o ar mais srio que ela alguma vez lhe vira e no sabia se queria que ele respondesse ou no.
       A ns. Estou apaixonado por ti. Prometi a mim mesmo que no iria pronunciar estas palavras. Sei que no  justo, mas quero ao menos que saibas e que leves 
estas palavras contigo quando voltares para Paris. Amo-te, Isabelle. H muito tempo que te amo. Nunca se sentira to vulnervel na vida.
       Eu sei murmurou Isabelle, levantando os olhos para ele. Tambm te amo desde a primeira vez que nos conhecemos. Mas no h nada que possamos fazer. Ambos sabiam 
que no. Isabelle nunca quisera dizer-lhe isso. Sabia que tornaria tudo muito mais complicado, mas agora nenhum dos dois conseguia controlar os sentimentos. Enquanto 
Bill lhe passava carinhosamente a mo pelo rosto, o motorista conduzia o carro em direco a um cruzamento. Por instantes, Bill ainda pensou em pedir-lhe que parasse. 
Apetecia-lhe estar s com Isabelle. Era um momento que queria que nenhum dos dois esquecesse.
       No podemos fazer nada agora Mas talvez um dia. Nunca se sabe. Acontea o que acontecer, quis que soubesses... Vou amar-te at ao resto da minha vida. Era 
uma certeza que j tinha h muito tempo. Isabelle era tudo o que sempre desejara, mas sabia que nunca a poderia ter.
       Amo-te murmurou Isabelle, enquanto Bill a apertava mais contra si. muito... 
       Ao ouvir estas palavras, Bill encostou os lbios aos dela e s teve pena de no o ter feito h mais tempo. Era o momento por que ambos ansiavam h muito e 
que os aproximou ainda mais. Beijou-a com ardor, enquanto a envolvia nos braos. A nica coisa que Isabelle sabia  que nunca fora to feliz na vida e s queria 
que aquele momento nunca acabasse. Nos seus braos, sentia-se, pela primeira vez na vida, em segurana. Bill ainda a beijava quando entraram no cruzamento. O motorista 
observava-os pelo retrovisor, to hipnotizado por aquilo que via que no reparou no autocarro vermelho de dois andares que se aproximava a grande velocidade. Bill 
continuava a beij-la quando o autocarro arrancou toda a parte da frente do carro e o motorista desapareceu literalmente. No tiveram tempo para qualquer tipo de 
reao. Ainda se beijavam quando o autocarro parecia devorar toda a limusine. No espao de segundos, esta ficou transformada numa amlgama de ferros retorcidos, 
e havia vidros espalhados por todo o lado. O autocarro arrastou a viatura pela rua abaixo, deixando-a totalmente desfeita, de lado, com as rodas a girar. Isabelle 
ainda se encontrava tranquilamente nos braos de Bill, por cima dele. O tejadilho do carro cedera. Estavam ambos inconscientes. O rosto dela j no era branco, mas 
vermelho de sangue. Bill tinha dois cortes profundos no rosto. Isabelle dava a sensao de estar a dormir tranquilamente. O rosto mantinha-se intato, mas todo o 
resto do corpo parecia ter sido esmagado.
       Ouvia-se o som das sirenes das ambulncias ao longe e a buzina do autocarro, que no parava de soar. O motorista voara pelo pra-brisas e jazia morto no asfalto. 
Dois homens apareceram a correr com uma lanterna e apontaram-na para dentro do carro todo retorcido. O rosto ensanguentado de Bill e o vestido completamente manchado 
de sangue foi tudo que conseguiram ver. Os olhos de Bill estavam abertos, dando a sensao de estar morto, e, a julgar pela quantidade de sangue espalhado por todo 
o lado, era pouco provvel que Isabelle tivesse sobrevivido. Os dois homens ficaram boquiabertos com o espectculo com que deparavam. Oh, meu Deus... exclamou um 
deles. Achas que esto vivos? perguntou o outro.
       Nem pensar.
       Enquanto espreitavam para o interior do carro, viram um fio de sangue sair da boca de Isabelle.
       Como iro tir-los dali? - O homem que empunhava a lanterna no conseguia imaginar a maneira de os desencarcerar. O tejadilho estava a exercer presso sobre 
as costas dela.
       Isso agora j no deve interessar. Mas levaro toda a noite a tir-los dali de dentro.
       Foram ento ver os passageiros que jaziam no cho do autocarro. Os poucos que tinham tido mais sorte encontravam-se espalhados fora do autocarro, com camisas 
manchadas de sangue e golpes na cabea. Alguns coxeavam, outros estavam atordoados. Ouviu-se ento algum dizer que havia meia dzia de mortos no interior. Fora 
um dos piores acidentes com que a polcia deparara, tratando-se de um autocarro daquele tamanho. Enquanto os polcias falavam com as testemunhas que haviam assistido 
ao embate, ouvia-se o som de sirenes a aproximar-se e, em poucos minutos, surgiram ambulncias, carros de bombeiros e paramdicos por todo o lado. Estes dirigiram-se 
de imediato para a limusine e os dois homens que haviam espreitado para dentro da viatura disseram-lhes que os dois nicos passageiros pareciam estar mortos.
       Os paramdicos foram verificar e,  primeira vista, ficaram com a impresso de que os homens tinham razo, mas um dos paramdicos conseguiu enfiar a mo l 
dentro e palpar o pulso de Bill e o de Isabelle, constatando que ainda estavam vivos.
       Esperem gritou para um bombeiro que se encontrava nas imediaes. Tenho duas vidas aqui presas por um fio. Tragam os carros para aqui! Temos de os tirar. 
Tinha a sensao de que era demasiado tarde e que j no conseguiria retir-los com vida, mas, pelo menos, iriam tentar. O condutor da limusine j fora encontrado 
e morrera de um grave traumatismo craniano. Quanto a Bill e a Isabelle ainda no se podia dizer se sobreviveriam. Ele estava a perder muito sangue devido a ferimentos 
vrios. Tinha o pulso to fraco que o paramdico mal o sentia. Os sinais vitais de ambos estavam a ficar cada vez mais tnues. As manobras de desencarceramento iniciaram-se 
quase de imediato. Num pice, uma srie de bombeiros subiu para as viaturas e comeou a ligar cabos e a dar instrues para os colegas que estavam ao volante dos 
carros que iriam puxar a limusine. O barulho era ensurdecedor, mas nem Isabelle nem Bill ouviram o mnimo som.

CAPTULO QUATRO
       Os bombeiros levaram quase duas horas para tirar a limusine de debaixo do autocarro. Tiveram de usar cuidados extraordinrios para no maltratar ainda mais 
os dois, que j estavam a receber transfuses de sangue. Isabelle tinha um garrote no brao esquerdo. Os paramdicos que os tratavam estavam cheios de sangue e ningum 
acreditava que eles pudessem ainda estar vivos. Ningum diria que o vestido de Isabelle era branco. Encontrava-se encharcado em sangue. Ainda no faziam idia de 
quem eles eram. Quando os meteram na ambulncia, j todas as vtimas do autocarro haviam sido levadas do local do acidente. Nessa altura, um dos paramdicos tinha 
a carteira de Bill na mo e j o haviam identificado, mas ainda no sabiam quem Isabelle era. 
       Ela usa aliana de casamento disse um, quando a ambulncia partiu para o Hospital St Thomas, deve ser a esposa. Enviou ento uma mensagem via rdio para os 
polcias no local do acidente para darem uma vista de olhos a uma mala de senhora que se encontrava no carro. Nenhum dos dois recuperou a conscincia durante todo 
o processo de desencarceramento. Encontravam-se ambos em coma profundo quando entraram na Unidade de Traumatologia, ficando de imediato sob observao de duas equipes 
de mdicos, que determinaram a necessidade de serem operados o mais rapidamente possvel. Ele, a um grave hematoma na coluna vertebral e a uma fractura do pescoo, 
ela, a um traumatismo craniano, a vrias leses internas e a um corte de artria no brao esquerdo, ao qual havia sido aplicado o garrote. Esta operao tinha de 
ser realizada com a mxima urgncia, caso contrrio, Isabelle corria o risco de perder o brao. Meu Deus, que coisa horrvel sussurrou uma das enfermeiras, enquanto 
Bill e Isabelle entravam de maca nas respectivas salas de operaes. H muito tempo que no havia vtimas de acidente neste estado. No consigo perceber como ainda 
esto vivos, comentou a outra. Esta estava encarregada de Isabelle, que era dos dois a que tinha menos hipteses de sobreviver. Estavam preocupados com o traumatismo 
craniano, mas as leses mais graves situavam-se no fgado, pulmes e corao.
       Num pice, estavam os dois deitados nas mesas de operao, com os anestesistas a administrarem-lhes as respectivas anestesias, sob os fortes focos de luz, 
enquanto os membros das equipes de operadores ouviam o diagnstico dos especialistas de traumatologia. Era difcil decidir qual dos dois estava pior. Encontravam-se 
ambos em estado extremamente crtico. Quando as operaes se iniciaram, os sinais vitais de ambos comearam a diminuir praticamente ao mesmo ritmo.
       Quando teve incio a operao s vrtebras que Bill fracturara, este imaginou estar a sentar-se na cama e, quase de imediato, viu-se a andar por um caminho 
fortemente iluminado. Tinha a conscincia de todos os sons  sua volta e, ao longe, vislumbrava uma luz intensa. Ficou surpreso quando, ao olhar em redor, avistou 
Isabelle, sentada numa pedra  sua frente, no caminho.
       Ests bem?
       Isabelle lanou-lhe um olhar estranho, como se estivesse ensonada. Ps-se ento de p e esperou que ele a acompanhasse.
       Estou tima respondeu, sem olhar para Bill. Parecia hipnotizada pela luz muito brilhante, tal como acontecera com ele ao princpio. O que  aquilo?
       No sei respondeu Bill, algo confuso. Lembrava-se de ter andado  procura de Isabelle e de no conseguir encontr-la. Onde estiveste?
       Estive aqui,  tua procura. Partiste h muito tempo. Isabelle tinha uma voz muito sumida e um ar plido, mas exibia uma estranha calma.
       Estive sempre aqui. No fui a lado nenhum explicou Bill, mas dava a sensao de que Isabelle no lhe dava uvidos, parecendo ansiosa por continuar a caminhada 
em direco  luz.
       Vens? perguntou Isabelle, virando-se para Bill. Mas este no conseguia acompanh-la e pediu-lhe que abrandasse O andamento.
       Porque ests a correr dessa maneira?
       Isabelle limitou-se a abanar a cabea e continuou a andar em direco  luz brilhante.
       Quero que venhas comigo retorquiu, estendendo a mo para trs
       Bill agarrou-lha; conseguia aperceber-se da presena de Isabelle a seu lado, mas no sentia a mo dela. Via que lhe agarrava a sua, mas no era capaz de ter 
qualquer espcie de sensao. A nica coisa que sabia era que estava desesperadamente cansado. Apetecia-lhe deitar-se e dormir num stio qualquer, mas no queria 
perd-la de novo. Sabia que, apesar daquilo que ela dissera, a perdera por instantes. Isabelle virou-se ento para ele e, olhando-o nos olhos, disse, numa voz sumida.
       Amo-te!
       Bill queria pedir-lhe para abrandar o passo.
       Tambm te amo! No podemos descansar um pouco? Estou cansado.
       Podemos descansar quando l chegarmos. Esto  nossa espera insistiu Isabelle, convicta do que estava a dizer e sentindo algo dentro de si que a obrigava 
a prosseguir. Bill continuava a tentar que ela abrandasse o passo.
       Onde  que vamos?
       Ali acima. Isabelle apontou para a luz e Bill seguiu-a durante mais algum tempo. A caminhada parecia nunca mais ter fim. Quando estavam quase a alcanar a 
luz, Bill ouviu vozes atrs deles a chamar por Isabelle. Quando se virou, viu uma criana. No tinha a certeza, mas parecia um rapaz. Este acenava-lhes e chamava 
pela "mam". Isabelle voltou-se e deteve-se durante algum tempo a olhar para o mido. Ao longe, atrs deste, avistava-se a silhueta de uma rapariga.
       Quem ? perguntou Bill, mas, ainda antes de ouvir a resposta da boca de Isabelle, j sabia de quem se tratava.
        o Teddy. E a Sophie. Mas j no posso voltar para eles.  demasiado tarde.
       De repente, ao rapaz e  rapariga que estavam a acenar, juntaram-se duas jovens. Quando Bill se virou para trs, reconheceu de imediato as filhas, Olivia 
e Jane, a chamar por si, tal como Teddy chamara por Isabelle.
       Espera... Era a muito custo que Bill conseguia acompanh-la. Isabelle caminhava j muito  sua frente. No sabia muito bem se devia segui-la, se voltar para 
trs para perto de Olivia e Jane. Temos de voltar para o p dos midos!
       Isabelle limitou-se a abanar a cabea.
       No vou voltar para trs, Bill. Vens comigo? Parecia determinada, mas ele estava a ficar cada vez mais cansado. Assemelhava-se a um caminho sem fim.
       No consigo acompanhar o teu passo. Por que razo no voltas para trs? Eles precisam de ns...
       No, no precisam. No posso voltar para trs. Para mim,  demasiado tarde. Diz ao Teddy e  Sophie que os adoro proferiu Isabelle, preparando-se para prosseguir 
sozinha.
       Tens de vir comigo! exclamou Bill, de repente, agarrando-a pelo brao. Escuta... O tom de voz era rspido, mas Isabelle no o ouvia, estava quase a chegar 
 luz. Tens de me ouvir... O Teddy e a Sophie precisam de ti... Tenho de regressar para junto das minhas filhas. Volta comigo, Isabelle... Podemos vir aqui noutra 
altura...
       Isabelle hesitou, mas s durante uma fraco de segundo, enquanto Bill lhe tocava na mo.
       Quem te diz que voltaremos a ter outra oportunidade?
       Teremos, um dia... mas agora no  a altura.
       Para mim, . No quero voltar... Isabelle olhava-o com ar suplicante, e Bill sentia-a fugir-lhe. Por favor, Bill... vem comigo. No quero ir sozinha.
       Fica comigo, Isabelle. Amo-te. No me abandones. Bill chorava ao dizer estas palavras, baixando a cabea para que ela no o visse chorar, mas esta fixava 
nele o seu olhar penetrante. Bill levantou ento os olhos e estendeu a mo.
       Pega na minha mo... No vou permitir que partas. Juro! Tens de voltar comigo.
       Isabelle ficou, de sbito, com um ar muito cansado e olhou para trs, para Teddy e para as raparigas. Hesitou durante um longo instante. Ento, em passo lento, 
comeou a andar na direco de Teddy. Custava-lhe muito mais andar para trs do que para a frente. Pouco depois, Bill tinha-a nos braos e beijava-a com ardor. Nenhum 
dos dois sabia onde haviam estado. A nica coisa que sabiam era que tinham de voltar para junto dos filhos. Sentia agora a mo de Isabelle apertada contra a sua. 
Tens a certeza de que  isto que queres fazer? perguntou Isabelle. No ouviam as vozes dos filhos, mas sabiam que eles estavam  sua espera. Escurecia e a luz ia 
perdendo o brilho. Absoluta respondeu Bill, e apertou-lhe ainda mais a mo. Est a fazer-se tarde.. e a ficar to escuro. Como  que vamos encontrar o caminho de 
regresso? Isabelle tinha a sensao de terem andado perdidos e no queria que o mesmo voltasse a acontecer. Basta no me largares a mo. Bill sentia menos dificuldade 
em respirar. O ar que o rodeava no parecia to rarefeito. Conheo o caminho. Ps-lhe ento o brao por cima e continuaram a andar. Agora era Isabelle quem estava 
cansada e ele que se sentia cada vez com mais foras. Preciso de parar um pouco pediu Isabelle. Ambos conseguiam ver a pedra onde ela estivera sentada  espera de 
Bill, mas este no iria permitir que ela parasse desta vez. Tinham de chegar a casa. No temos tempo. Vais ficar boa. Poders descansar quando chegarmos. E, sem 
dizer palavra, Isabelle seguiu-o. Estava escuro, mas tinha a sensao de que Bill sabia para onde ia. A nica coisa que lhe apetecia era deitar-se e dormir na berma 
da estrada. Todavia, Bill no lhe largava a mo e no a deixava abrandar o passo. No sabia como nem quando haviam ido ter ali. Pouco depois, tinha a sensao de 
estarem em casa. Isabelle no reconhecia a sala onde se encontravam. Sentia-se segura ao lado de Bill. Havia crianas por todo o lado, e conseguia ver Teddy e Sophie 
a rir, na companhia de alguns amigos, e as filhas de Bill a falar com este. Depois de abraar os filhos, deitou-se, finalmente. Sabia que se encontrava a salvo e 
a nica coisa que queria fazer era dormir ao lado de Bill. E adormeceu, com a certeza de que ele ficaria sempre ali ao lado dela. 
       Meu Deus, nunca pensei que consegussemos! comentou a enfermeira que assistia ao cirurgio para o anestesista, quando saram da sala de operaes. Fora uma 
batalha de quatro horas para manter a presso arterial de Isabelle suficientemente alta para evitar que morresse durante a operao. Ao fim da primeira meia hora, 
toda a gente na sala tinha quase a certeza de que ela morreria. Perdera muito sangue. Ningum sabia agora se sobrevivera devido  medicao que lhe fora administrada, 
se s transfuses de sangue, se  operao ou se por pura sorte. Mas, fosse por que fosse, todos concordavam que era um milagre Isabelle estar viva.
       Nunca assisti a uma cirurgia como esta. Ela tem uma sorte dos diabos em estar viva afirmou um dos cirurgies. Ainda no est livre de perigo, mas acho que 
vai conseguir. Casos como este renovam a minha f em Deus. Sorriu e saiu da sala de operaes, o rosto banhado em suor. Fora uma longa noite e uma luta extenuante 
contra o tempo.
       Duas enfermeiras saram da sala de operaes ao lado, onde Bill fora operado e tambm estavam com ar esgotado.
       Que tal correu a operao? indagou o cirurgio.
       Quase o perdemos quatro ou cinco vezes. Conseguiu recuperar, mas tem muitas leses na parte superior da coluna vertebral. Tivemos de o reanimar vezes sem 
conta. Estivemos quase a desistir.
       Foi o que quase aconteceu conosco.  espantoso como conseguiram sobreviver.
       Que tal est ela?
       Ainda em estado crtico. E cheguei a pensar que teramos de lhe amputar o brao. Tambm tivemos problemas terrveis com o fgado e o corao. Nunca vi um 
paciente com tantas leses que conseguisse sair da operao com vida.
       Eram oito da manh. As duas equipes de operao foram at ao bar beber caf e comer scones, enquanto Isabelle e Bill eram transportados para os respectivos 
quartos, ainda sob o efeito da anestesia. Nessa altura, j tinham achado a mala de mo de Isabelle. A chave do seu quarto no Claridge's encontrava-se l. A polcia 
telefonara para o hotel e fora informada de que a vtima do acidente se chamava Isabelle Forrester, era francesa e morava em Paris. O subgerente prometera ir de 
imediato ao quarto dela ver se encontrava o passaporte para saber qual o contato a estabelecer em caso de urgncia. Mas at ao momento ningum telefonara.
       No que tocava a Bill, tinham todas as informaes de que precisavam. O nmero de telefone de casa encontrava-se na carteira e a esposa era o familiar mais 
prximo. A recepcionista do hospital ia telefonar a Cynthia para lhe dizer que o marido tivera um acidente e sobrevivera.
       Bill e Isabelle estavam em estado muito crtico. O traumatismo craniano de Isabelle tambm era preocupante, se bem que no tanto como as leses internas. 
O maior receio em relao a Bill era a leso na coluna, que poderia comprometer a sua capacidade de andar. Escapara por um triz  paralisia total. A grande questo 
residia em como iriam reagir as pernas. Ainda tinham um longo caminho a percorrer at a sobrevivncia estar assegurada. Fora um dos piores acidentes a que a polcia 
assistira nos ltimos anos e do qual resultaram onze mortes. Os motoristas de ambos os veculos e nove passageiros do autocarro. Durante a maior parte da noite, 
enquanto realizavam as cirurgias de Isabelle e Bill, as equipes cirrgicas estiveram prestes a confirmar mais duas mortes. S por milagre  que eles ainda se encontravam 
vivos.
       A recepcionista arquivou alguns impressos antes de se sentar e soltar um suspiro. O subgerente do Claridge's fora ao quarto de Isabelle e encontrara o passaporte, 
que referia o marido como o parente mais prximo. Tinha o nmero de telefone de Paris e o nmero de Bill do Connecticut. Detestava fazer telefonemas daqueles. Bebeu 
um gole de caf para ganhar coragem e depois ligou para Paris. O telefone tocou vrias vezes at que, por fim, um homem respondeu, para alvio da recepcionista.
       Monsieur Forrester, s'il vous plait disse, num francs com forte sotaque britnico.
       O prprio. A recepcionista reconheceu-lhe o sotaque americano e perguntou-lhe, de imediato, em ingls, se Isabelle era sua esposa.
        sim respondeu Gordon, num tom algo preocupado.
       A recepcionista informou-o ento de que estava a telefonar do Hospital St. Thomas e que Isabelle tivera um acidente de viao na noite anterior, explicando-lhe 
que a limusine fora abalroada por um autocarro.
       A sua esposa encontra-se em estado crtico. Acabou de sair da sala de operaes, Mister Forrester. Sofreu leses internas profundas e um leve traumatismo 
craniano. S poderemos saber mais alguma coisa do seu estado clnico daqui a algumas horas. Mas j  encorajador o fato de ter sobrevivido  operao. Sinto muito 
proferiu, sem saber mais o que dizer. Fez-se ento uma longa pausa, enquanto Gordon ponderava o que acabara de ouvir.
       Tambm eu. Parecia chocado. Vou ainda hoje para a sussurrou Gordon, perguntando-se se no seria melhor falar com o mdico primeiro. Mas a recepcionista dera-lhe 
pormenores suficientes, tornando desnecessria a conversa com o mdico. Ela est consciente?
       No, no est. No recuperou a conscincia desde o acidente e agora encontra-se sob a aco de sedativos. Perdeu muito sangue.
       Gordon ficou pensativo, sem saber o que dizer. Achava inacreditvel que estivessem a falar de Isabelle. Por pouco que partilhassem, por mais afastados que 
vivessem, continuava a ser sua esposa. Ainda pensou em contar o sucedido a Teddy e tambm a Sophie, que se encontrava em Portugal, mas acabou por no o fazer. S 
iria assust-los. No havia razo para telefonar a Sophie sem saber mais pormenores do estado de Isabelle. Achou ser melhor no dizer nada a ningum, at ele prprio 
tomar conhecimento da situao, a no ser que ela morresse entretanto. A recepcionista frisara-lhe que essa era uma hiptese. Quando desligou, sentou-se  secretria 
durante um longo instante, de olhos fixos no espao. H muito tempo que no sentia nada pela esposa, mas era a me dos seus filhos e estavam casados h vinte anos. 
Esperava que ela no tivesse sentido nada quando a viatura foi atingida. Por instantes, sentiu-se grato por ela no ter morrido. Porm, ficou perplexo ao verificar 
como aquele fato o atingira to pouco. As nicas emoes de que tinha conscincia eram as de compaixo e pena.
       Telefonou para as companhias de aviao e perguntou o horrio dos voos para Londres. Tomou ento uma deciso. Ningum sabia do acidente. Isabelle estava inconsciente 
e ele precisava de tempo para assimilar o que acontecera. Tinha compromissos importantes no escritrio nessa tarde. No queria partir de imediato. Nada podia fazer 
em Londres e, alm disso, detestava hospitais. Aps alguns instantes de hesitao, fez uma reserva para o voo das cinco. Chegaria a Heathrow s cinco e meia, hora 
local, e podia estar no hospital s sete. Se Isabelle morresse entretanto, seria porque a mo de Deus assim quisera, disse para consigo. Se ainda estivesse viva, 
seria um sinal de esperana. No entanto, para ela, nenhuma diferena lhe fazia ele estar ou no ao p dela. O tempo seria melhor empregue noutro stio, pensou. Pelo 
menos, era disso que queria convencer-se.
       Saiu para o escritrio pouco depois e no disse nada  secretria, exceto que iria sair s trs horas. No queria fazer muito alarde da situao. No havia 
razo, a no ser que Isabelle morresse.
       Em Londres, no hospital, depois de falar com Gordon, a recepcionista que se encontrava na Unidade de Cuidados Intensivos ganhou coragem para a chamada seguinte. 
O telefonema para Gordon deixara-a algo desalentada. Este fizera to poucas perguntas e parecera terrivelmente calmo. Era pouco comum algum receber um telefonema 
daqueles como ele o fizera.
       A recepcionista do hospital tinha o nmero dos Robinson  sua frente. Entretanto, duas enfermeiras passavam pelo balco, quando atenderam do outro lado da 
linha. Falavam de Isabelle e tinham a papeleta dela na mo. Por aquilo que Gordon dissera ao telefone, a recepcionista no fazia a menor idia de quando  que ele 
chegaria.
       Olivia, a filha de Bill de vinte e um anos, atendeu o telefone. Eram seis da manh e ainda estavam todos a dormir, mas ela ouvira o telefone. Uma voz com 
sotaque ingls perguntou se Mrs Robinson se encontrava em casa. Est a dormir respondeu, voltando-se na cama. Pode telefonar daqui a mais um pouco? perguntou, entre 
um bocejo, prestes a desligar.
       Receio no poder esperar nem telefonar mais tarde. Pode pedir-lhe para vir ao telefone? 
       H algum problema? Olivia comeou a despertar e sentou-se na cama. No fazia a mnima idia de qual o motivo do telefonema, mas a voz denotava algum nervosismo.
       Tenho de falar pessoalmente com Mistress Robinson.
       Foi com ar preocupado que deu um pulo para fora da cama e correu pelo corredor fora at ao quarto da me. Ao ouvir os passos no corredor e a porta abrir-se, 
Cynthia acordou.
       Sentes-te bem? sussurrou no quarto s escuras. Estava a dormir profundamente, mas, ao fim de todos aqueles anos, possua um sexto sentido em relao s filhas. 
Ests doente?
       Uma mulher inglesa ligou e diz que quer falar consigo.
       Me e filha trocaram olhares e Cynthia teve um pressentimento. Sabia instintivamente que era algo relacionado com Bill. Nunca se confrontara com uma situao 
semelhante, mas, de repente, perguntou-se se haveria outra mulher na sua vida.
       Eu atendo disse Cynthia, sentando-se na cama. Agora volta para a cama. Mas Olivia no se mexeu. Tambm tivera o mesmo pressentimento. Fala Mistress Robinson. 
Ficou muda durante um longo instante, mas Olivia viu-a fechar os olhos.  grave? Quando? Est consciente? Ao ouvir isto, a filha esbugalhou os olhos.
        o pap? A voz estava tomada de pnico, enquanto a me abria os olhos e lhe fazia sinal para se calar. Queria ouvir tudo o que a recepcionista do hospital 
dizia. Mas assentiu com a cabea em resposta  pergunta da filha, enquanto a jovem se sentava na cama. Ele est bem?
       A me no respondeu, continuando a ouvir a voz do outro lado da linha.
       Qual  o nome do mdico dele? Escrevinhou rapidamente um nome no bloco que se encontrava na mesa-de-cabeceira, fez mais algumas perguntas e pediu que lhe 
ligassem se as coisas piorassem. Estarei a logo que possa. Quero que me telefonem se alguma coisa acontecer e que me informem logo que ele recupere a conscincia. 
Ligo daqui a meia hora e digo-vos quando estarei a. Parecia calma mas o olhar denotava tudo menos isso. Quando desligou exibia um ar perplexo e Olivia lanou-se 
nos seus braos.
       O que aconteceu? Havia lgrimas na voz da filha, e Cynthia sentia um n na garganta. A notcia era terrvel e s tinha esperana de que o estado de Bill no 
fosse to mau como parecia. O pescoo fracturado, leses na coluna, possvel paralisia, leses internas e ossos fracturados. Se isso acontecesse, era duvidoso que 
voltasse a andar. A idia de Bill numa cadeira de rodas era impensvel. Antes a morte. Ele prprio decerto detestaria ficar nesse estado o resto da vida E ela no 
se via a si prpria a fazer o papel de ama-seca. E se ficasse paraplgico? Ou acamado sem poder mexer-se. Os piores cenrios no paravam de lhe aflorar ao pensamento.
       O pap teve um acidente. Est em Londres. Esqueci-me de que ele disse que ficaria l uns dias. Falei com ele h pouco tempo em Nova Iorque. Estava num carro 
que foi abalroado por um autocarro e parece estar muito mal. Partiu o pescoo e a coluna foi seriamente afectada. Saiu h pouco da sala de operaes.
       Vai morrer? Os olhos de Olivia esbugalharam-se. Cynthia hesitou por instantes, enquanto o olhar da filha ficava marejado de lgrimas.
        possvel, mas o pap  forte. Acho que vai recuperar, mas ainda no sabem como o estado dele vai evoluir. Parto para Londres hoje.
       Vou consigo. Olivia era uma bonita rapariga loura, alta, elegante e com uma cara engraada. Andava na Universidade de Georgetown, no terceiro ano de Poltica 
Internacional. Era uma tima estudante e os pais tinham justificado orgulho nela E, apesar do pouco tempo que passava com o pai, era louca por ele. Idolatrava-o 
quando era criana. Nos ltimos anos, vivia fascinada com tudo o que ele fazia.
       Acho melhor vocs c ficarem afirmou Cynthia, atirando com os cobertores para trs e saltando da cama. Tinha de telefonar para a companhia de aviao e fazer 
as malas. Esperava apanhar um voo por volta do meio-dia, e levar Olivia s complicaria as coisas. No desejava perturbar as filhas. Por aquilo que a recepcionista 
dissera, o estado de sade de Bill era muito grave.
       Vou consigo, mam insistiu Olivia, levantando a voz  me, o que era raro. Se for preciso, compro o bilhete e vou sozinha.
       O que se passa? perguntou Jane, ensonada, entrando no quarto. Era pequena, loira e tinha um aspecto atraente. Cynthia era assim quando tinha a mesma idade. 
Acabara o primeiro ano na Universidade de Nova Iorque e ia fazer dezenove anos. Ouvira as vozes da me e da irm e, pela cara desta, via-se que estava zangada com 
a me. O que esto a discutir a esta hora? Cynthia e a filha mais velha costumavam ter discusses por tudo e por nada. Jane era a apaziguadora. Bocejou e meteu-se 
na cama da me.
       O pap teve um acidente comunicou Olivia  irm mais nova, que ficou com cara de espanto. Entretanto, a me telefonava para as companhias de aviao.
       Ele est bem? Jane no conseguia imaginar que o pai no se encontrasse de perfeita sade. Olivia era muito mais emotiva do que ela e podia estar a exagerar. 
No tinha a certeza.
       O estado de sade dele  muito grave disse Olivia, no conseguindo suster um soluo. Sentou-se ento na cama, abraou Jane e desatou a chorar. Fracturou o 
pescoo e apresenta uma srie de leses na coluna. A mam diz que no sabem se poder voltar a andar. Acabou de ser operado. O carro dele foi abalroado por um autocarro.
       Oh, merda! exclamou Jane, abraando-se ainda mais  irm, que sempre confortara, no sendo habitual acontecer o contrrio. Jane fora sempre a mais calma das 
duas. Tinha capacidade para cuidar de si onde quer que fosse ou de qualquer outra pessoa que precisasse de ajuda. Herdara a frieza da me, mas desta vez estava em 
pnico.
       A mam vai para Londres e eu tambm vou declarou Olivia, por entre lgrimas.
       Tambm vou acrescentou Jane, dando um pulo da cama para contar  me quais os seus planos. Colocou-se ento diante da me, enquanto esta tratava da marcao 
do vo.
       Vamos as duas consigo disse, num tom peremptrio, Simdy fez-lhe sinal para se afastar. Mal conseguia ouvir o que lhe diziam ao telefone. Ps a mo no bocal 
e disse ento a Jane:
        melhor vocs ficarem. Telefono-vos se achar que devem ir.
       Ou vamos consigo ou vamos sozinhas decretou Jane. Cindy sabia, por experincia, que no valia a pena contrari-la. Ao contrrio de Olivia, que era relativamente 
fcil de dissuadir, Jane tinha a flexibilidade de uma rocha quando encasquetava uma idia na cabea. A que horas partimos.
       H um voo s onze e quarenta respondeu Cindy, pegando no telefone e fazendo mais duas reservas. Depois de desligar, informou as filhas de que tinham de sair 
de casa s nove. Havia duas horas para se vestirem e fazerem as malas. Nem sequer dava tempo para que o avio de Bill as viesse buscar a Nova Iorque.
       Vou fazer o pequeno-almoo prontificou-se Jane, enquanto Olivia chorava, sentada na cama. Vai fazer as malas, ordenou  irm mais velha. Depois olhou para 
a me, que abria o roupeiro e tirava uma mala de uma prateleira. Achas que o pap vai conseguir aguentar-se, mam perguntou, esforando-se por se manter calma. A 
me voltou-se e olhou-a com um ar perturbado.
       No sei, querida. Acho que ainda  muito cedo para dizer. Mas est a aguentar-se. Sobreviveu  operao. No lhe contou que a funcionria da Unidade de Cuidados 
Intensivos lhe dissera que ele estivera por duas vezes s portas da morte e que haviam levado duas horas a desencarcer-lo do carro.  saudvel e forte, e est em 
grande forma.
       Como ocorreu o acidente? perguntou Jane.
       No sei. A nica coisa que sei foi que a limusine dele foi abalroada por um autocarro. Deve ter sido um acidente terrvel onze mortos. Dmos graas a Deus 
por o teu pai no estar entre eles.
       Jane foi ento fazer as malas.
       Enquanto atirava calas, T-shirts e camisolas para dentro de uma mala, Cynthia s pensava nas implicaes que o acidente acarretava para Bill. Estava absolutamente 
convencida de que ele preferiria morrer a ver-se seriamente diminudo fisicamente. Quanto a ela, no sabia ainda o que lhe desejava. Dependia da gravidade das leses. 
Mas no queria falar no assunto s filhas. Nem sequer sabia muito bem o que sentia por ele. Estava casada com ele h mais de metade da sua prpria vida e j no 
o amava, nem sequer se podia dizer que fossem amigos. Era o pai das suas filhas e fora seu marido durante trinta anos. Tivera outros homens na sua vida, e h muito 
que aquele casamento perdera todo o sentido. Chegara a pensar divorciar-se uma ou duas vezes, quando andara envolvida com outros homens. Mas nunca lhe ocorrera ao 
longo de todos esses anos que Bill pudesse morrer. Encarar essa hiptese agora alterava tudo.
       De repente, deu consigo a pensar em como Bill era na adolescncia, na paixo que tivera por ele, na felicidade que haviam sido os primeiros tempos de casamento. 
Era como estar a ver passar trinta anos de histria diante dos olhos. No chuveiro, ao pensar na eventualidade de Bill nunca mais poder andar, no conseguiu evitar 
o choro.
       Partiram para o aeroporto pouco depois das nove. Cynthia, ao volante, as filhas, no banco traseiro. No articulou qualquer palavra durante toda a viagem. 
Jane e Olivia olhavam pelo vidro, perdidas em pensamentos. Iam ambas de calas de ganga e tnis Nike. Traziam pouca bagagem consigo. Cynthia deduziu que, provavelmente, 
faziam tenes de passar a maior parte do tempo no hospital e pouco lhes importava o aspecto. Mal haviam tido tempo de se pentearem. E quando Jane fez o pequeno-almoo, 
ningum comeu o que quer que fosse. A nica coisa em que pensavam era em Bill no hospital, a lutar contra a morte. No momento em que descolaram, Gordon Forrester 
encontrava-se tambm num avio que partira do Aeroporto Charles de Gaulle e cuja chegada a Heathrow estava prevista para da a menos de uma hora.
       No hospital, mantinha-se tudo na mesma. Isabelle e Bill haviam sido colocados em quartos separados, na Unidade de Cuidados Intensivos. Encontravam-se ligados 
a vrios monitores, tinham as suas prprias equipes e o seu estado inspirava tais cuidados que haviam sido isolados dos outros doentes. Isabelle estava com febre 
alta desde as trs horas da tarde. O corao batia a uma cadncia irregular, o fgado fora seriamente afectado, os rins ameaavam deixar de funcionar e, devido ao 
traumatismo e  operao, o crebro estava ligeiramente inchado. No entanto, o electroencefalograma indicara que o crebro continuava a funcionar. Os mdicos estavam 
esperanosos de que Isabelle no ficasse com quaisquer sequelas a nvel cerebral, caso sobrevivesse. Ainda no haviam conseguido determinar qual das muitas leses 
 que lhe estava a provocar a febre alta. Continuava em coma profundo, no s devido ao traumatismo craniano que sofrera, mas tambm por causa da anestesia e das 
drogas que lhe haviam ministrado. Do ponto de vista clnico, era difcil acreditar que conseguisse sobreviver.
       Quanto a Bill, pouco melhor se encontrava que Isabelle. Tinha o pescoo e as costas imobilizados por aparelhos em ferro e ao que mais pareciam instrumentos 
de tortura. O corpo fora colocado em cima de uma prancha que permitia que o movessem, para qualquer eventualidade. Tambm continuava em coma.
       A famlia dele chega dos Estados Unidos por volta da meia-noite disse uma das enfermeiras, s seis da tarde, aquando da mudana de turno A mulher telefonou 
do avio.
       A outra enfermeira assentiu com a cabea e ajustou um dos monitores. Pelo menos, os sinais vitais estavam bons, melhores do que os de Isabelle, que no saa 
da fronteira entre a vida e a morte. A sua sobrevivncia parecia mais incerta do que a dele. Uma das enfermeiras perguntou se tambm vinha algum ver Isabelle.
       No sei. Julgo que telefonaram para Paris esta manh e falaram com o marido, mas no disse quando  que vinhm. A Katerinne achou-o muito frio. Devia estar 
em estado de choque. 
       Pobre homem. Este  um daqueles telefonemas que se tm nos pesadelos comentou uma das enfermeiras de Bill. Ser que ela tem filhos. No conheciam a histria 
mdica ou pormenores pessoais de cada um dos dois, apenas as nacionalidades, os nomes dos parentes mais prximos e o que acontecera no acidente. Nem sequer sabiam 
qual era a relao entre os dois, se eram scios, parentes ou apenas amigos. E nem valia a pena porem-se a adivinhar. Nesse preciso instante, no passavam de dois 
pacientes internados na Unidade de Cuidados Intensivos a debater-se contra a morte. Falavam na eventualidade de Isabelle ser novamente operada, para aliviar a presso 
do crebro. O cirurgio devia tomar a deciso a qualquer momento. Quando apareceu j passava das seis e resolveu no a operar de momento. Achava que ela no sobreviveria 
a nova cirurgia.
       Eram sete e pouco e j o mdico sara, quando Gordon chegou. Entrou na Unidade de Cuidados Intensivos, dirigiu-se  recepo e disse ao funcionrio quem era. 
Este levantou os olhos e pediu a uma enfermeira que o conduzisse at ao quarto de Isabelle. Sem dizer palavra, Gordon seguiu-a, de semblante carregado. Tivera o 
dia todo para se preparar para aquele momento. Ao entrar no quarto, esperava encontr-la bastante ferida. Mas nada do que imaginara o preparara para aquilo que os 
seus olhos viram. Estava irreconhecvel, parecia um naco de carne. Havia ligaduras, fios, tubos e monitores por todo o lado, a cabea estava coberta de gaze e at 
o brao que tinha o problema na artria se encontrava envolto em ligaduras. A nica coisa familiar nela era o rosto plido como a morte a espreitar por entre a gaze. 
Era a nica parte do corpo que parecia no ter sido atingida.
       Havia trs pessoas junto de Isabelle quando Gordon entrou. Uma mudava o saco de soro, outra passava os olhos pelos monitores e uma terceira verificava as 
pupilas, como faziam constantemente. Ao deparar com aquele cenrio, apesar de j no sentir nada pela esposa, Gordon foi acometido pelo horror. Era como se j no 
fosse o corpo dela que se encontrava ali. Aquilo que restava de Isabelle no significava nada para si. No passava de um corpo cheio de fracturas. Manteve-se em 
silncio, sem se aproximar.
       Mister Forrester? perguntou uma das enfermeiras, baixinho.
       Gordon fez um gesto afirmativo com a cabea e ficou sem saber o que dizer. Embaraava-o o fato de ter de a ver com a presena de vrias pessoas de olhos postos 
nele. No sabia o que esperavam de si. Talvez que se atirasse de joelhos aos ps da cama, que a beijasse nos dedos ou que lhe tocasse nos lbios. Mas no conseguia 
aproximar-se mais. Olhar para Isabelle era como olhar para o anjo da morte, e isso assustava-o.
       Como est ela, perguntou, numa voz rouca
       Est com febre. O mdico acabou de sair. Esto a ponderar a hiptese de nova cirurgia, para aliviar a presso no crebro, mas o cirurgio acha que neste momento 
ela no est em condies de aguentar a operao. Quer esperar mais um pouco. Volta c s dez horas.
       E se no a operarem. O crebro poder ficar afectado. No conseguia imaginar nada pior do que ela sobreviver e ficar praticamente sem nenhuma funo cerebral 
ou com uma deficincia grave, e queria dizer isso mesmo ao cirurgio. Se Isabelle no podia voltar a ser como era, achava que os esforos dos mdicos para a salvar 
no faziam sentido. Fora uma mulher bonita, inteligente e talentosa, e, apesar das suas diferenas, uma boa esposa e uma boa me para os filhos. Salvarem-na para 
permanecer numa cama num estado vegetativo era uma coisa horrenda para ele, que estava preparado para envidar todos os esforos para que isso no acontecesse. No 
queria que os filhos se lembrassem da me assim Nem ele queria viver com ela nesse estado.
       Nesta altura,  impossvel fazer qualquer prognstico, Mister Forrester. No entanto, os resultados do electroencefalograma foram encorajadores. Ainda  muito 
cedo para se saber o que quer que seja. Era impossvel dizer se Isabelle ficaria horas ou meses no estado em que se encontrava. H algum mdico com quem possa falar, 
perguntou Gordon a uma das enfermeiras, sem qualquer sinal visvel de emoo. A enfermeira pensou que ele se assemelhava mais a algum conhecido ou a um parente 
afastado que viera ao hospital por uma questo de dever. Gordon guardava as emoes para si prprio.
       Vou dizer ao cirurgio de servio que o senhor est aqui disse a enfermeira, ao passar por Gordon Este provocara-lhe uma sensao de algum desconforto. Ver 
Isabelle naquele estado deixava-a de corao destroado. Uma mulher to bonita e to jovem. Mas o homem que voara de Paris para ver a esposa parecia no sentir nada. 
Nunca conhecera ningum to frio.
       Gordon saiu do quarto e foi pelo corredor fora,  espera que algum viesse falar consigo. S ao fim de dez minutos  que apareceu um jovem cirurgio. Confirmou-lhe 
o que j mais ou menos sabia: Isabelle encontrava-se entre a vida e a morte. Disse ainda que estavam a ponderar a hiptese de oper-la de novo, mas tentavam evitar 
nova operao. S lhes restava esperar para ver como o organismo reagiria ao traumatismo. Pela sua estimativa, ia ser uma longa espera at terem boas notcias. Mas 
considerava que o fato de ela ter resistido at esse instante, j era um sinal de esperana. Porm, ainda muito tnue.
       Lamento, Mister Forrester. Dada a natureza do acidente,  um milagre eles terem sobrevivido.
       Gordon fez um gesto de concordncia com a cabea. Concentrou ento a ateno em algo que o jovem mdico dissera, em conflito direto com o que ouvira ao princpio 
do dia.
       Pensei que o motorista tivesse morrido.
       E morreu, tal como o motorista do autocarro e nove passageiros.
       Pareceu-me ouvi-lo dizer que "eles" tinham sobrevivido.
       E disse. Havia outro passageiro com ela. Tambm sobreviveu, embora no esteja to mal como a sua esposa. Os ferimentos so diferentes, mas igualmente graves. 
Tambm se encontra em estado crtico.
       Gordon ficou com um ar sombrio ao ouvir o que o mdico lhe dizia. No conseguia imaginar o que Isabelle fazia numa limusine com outro homem, especialmente 
quela hora da noite. Sabia que ela viera a Londres ver uma exposio na Tate Gallery e visitar outros museus e galerias, e no vira qualquer problema nisso, mas 
agora tudo lhe parecia muito estranho.
       Quem  ele? indagou, mantendo o mesmo semblante.
       "Sabemos o nome e pouco mais. Chama-se William Robinson e  americano. Julgo que a famlia j vem a caminho. Devem chegar hoje  noite.
       Gordon fez um aceno de cabea, como se se tratasse de velhos amigos, e pensou alguns instantes no nome; de sbito a sua memria avivou-se e ps-se a imaginar 
se seria a mesma pessoa. Havia um William Robinson que conhecera vrios anos antes, uma figura importante do mundo da poltica. E sabia que Robinson e o embaixador 
americano em Paris eram velhos amigos. Mas no conseguia imaginar o que estaria a fazer com Isabelle. Nem sequer tinha a certeza se j se conheciam. No se lembrava 
se ela estivera com ele quando foram apresentados na embaixada. Ela saa to raramente. Era um completo mistrio o fato de Isabelle se encontrar com William Robinson.
       Ele ficar bom? indagou, com um ar preocupado, o que dissimulava as questes em aberto nos seus pensamentos.
       No sabemos. Fracturou o pescoo e tem um grave traumatismo na parte superior da coluna. H tambm algumas leses internas, mas nenhuma to grave como as 
da sua esposa.
       Poder ficar paralisado?
       Ainda  muito cedo para se saber. Continua inconsciente. Nunca recuperou a conscincia depois da operao. Pode ser simplesmente uma reao ao trauma do acidente, 
ou algo mais complicado resultante da fractura do pescoo. Tambm permanece em estado crtico.
       Gordon lembrou-se ento de que poderiam morrer os dois sem chegarem a explicar o que haviam estado a fazer nessa noite. Teria sido coincidncia?, perguntou-se. 
Isabelle poderia ter ido visitar velhos amigos dos tempos de juventude que ele no conhecia e talvez Robinson lhe tivesse dado boleia. Mas o que andaria ela a fazer 
quela hora? Donde vinham? Para onde iam? Onde tinham estado? Por que razo estavam juntos. Conhecer-se-iam um ao outro? Ou teriam acabado de se conhecer? Havia 
um sem-nmero de hipteses e perguntas a fervilhar na sua cabea. E no havia forma de descobrir as respostas para qualquer uma delas, a no ser que Robinson e Isabelle 
sobrevivessem. Tinha a certeza de que conhecia bem a mulher. Sabia que esta no era o gnero de pessoa que tivesse um caso com outro homem ou sequer encontros secretos. 
Mas o que era fato era que estivera com um, numa limusine, s duas da manh e, fosse por que razo fosse, no havia maneira de descobrir isso agora. 
       Quer passar a noite aqui no hospital com a sua esposa?  perguntou o jovem mdico, mas Gordon abanou de imediato a cabea. Tinha pavor a hospitais e a pessoas 
doentes. Faziam-lhe lembrar a me.
       Uma vez que no est consciente, no vejo motivo para a minha presena aqui. Fico no Claridge's. Telefone-me se houver alguma alterao no seu estado de sade. 
Agradeo o tempo e os esforos que tm envidado para salvar a minha mulher proferiu, algo embaraado. Era bvio que no se sentia bem no hospital e no tinha o mnimo 
desejo de voltar para o quarto de Isabelle. Vou passar pelo quarto antes de me ir embora. Agradeceu novamente ao mdico e dirigiu-se ao quarto. Quando chegou  porta, 
havia cinco elementos da equipe mdica  volta de Isabelle, que continuava a no dar sinais de si. No fez meno de entrar no quarto. Deteve-se breves instantes 
 porta, depois virou-se e foi-se embora, sem dizer qualquer palavra. Mal saiu a porta do hospital, soltou um profundo suspiro de alvio.
       Detestava hospitais e pessoas doentes. Era por isso que nunca aceitara bem Teddy. No txi que o levaria ao hotel, soltou novo suspiro de alvio. Apesar de 
sentir pena de Isabelle, no fora capaz de entrar no quarto e de lhe fazer uma festa na mo. Ainda bem que estava inconsciente. Preferia v-la morta a viva com leses 
cerebrais. Era um destino que no desejava para Isabelle. Porm, por mais pena que tivesse, no conseguia sentir o que quer que fosse por ela. Nem desespero, nem 
medo de a perder. Para si, Isabelle no passava de uma estranha, prostrada na cama do hospital, com fracturas por todo o corpo e sem se mexer. Parecia uma boneca 
sem vida. Custava-lhe aceitar que a mulher que acabara de ver era a jovem com quem casara vinte anos antes. Quando o txi parou diante do Claridge's, a nica coisa 
que Gordon queria saber era o que Isabelle estava a fazer na limusine com W. Robinson. Mas no havia ningum que pudesse responder a essa pergunta a no ser ela. 
S Isabelle sabia a resposta Para o mistrio, alm de Bill, naturalmente. Mas tambm este no conseguia responder de momento.
       O porteiro tirou o saco de viagem da mo de Gordon. Trouxera pouca roupa: algumas camisas e peas de roupa interior.
       No fazia tenes de ficar muito tempo. Viera apenas avaliar a situao e planeava voltar para Paris dentro de um ou dois dias. E s regressaria a Londres 
em caso de fora maior. Tanto poderia morrer a qualquer momento como continuar assim por tempo indefinido. O jovem cirurgio dissera-lhe nessa noite que Isabelle 
poderia ficar em coma durante semanas ou at meses. De qualquer modo, tambm no poderia permanecer em Londres durante muito mais tempo. Tinha de tratar dos negcios, 
de Teddy, que estava agora a seu cargo, e da gesto do banco. Quando muito, viria a Londres de tantos em tantos dias E se esse estado de coisas se prolongasse, no 
via outra soluo se no telefonar para Sophie e pedir-lhe que regressasse a casa. Poderia tomar conta do irmo. No queria de modo nenhum chegar a esse ponto, mas, 
depois do que vira, comeava a achar que era o que tinha a fazer. Alm disso, precisava de a preparar para a eventualidade de Isabelle morrer. Parou na recepo 
e pediu a chave do quarto dela. O subgerente apareceu de imediato.
       Deve ter sido um acidente horroroso. Todos ns lamentamos o sucedido. Uma coisa terrvel.. Uma pessoa maravilhosa.. S soubemos quando a polcia telefonou. 
Continuou durante vrios minutos, enquanto Gordon se limitava a dizer que sim com a cabea e a concordar com tudo o que ele dizia. Como est ela?
       No muito bem. Resolveu ento auscultar o que o subgerente poderia saber. Mister Robinson tambm se encontra em estado grave. Perscrutou-lhe o olhar  procura 
de algo que pudesse estar a esconder, mas no vislumbrou nada de estranho. Apenas simpatia e um infindvel esfregar de mos.
       Era de esperar. E foi tudo o que o jovem disse. Seria embaraoso perguntar-lhe apenas se sabia por que razo se encontravam juntos numa limusine. Como tal, 
Gordon tentou arranjar forma de puxar o assunto. Mas no era tarefa fcil.
       Foi azar estarem os dois na mesma viatura disse, evasivo. Ele  um velho amigo meu. Devem ter-se encontrado aqui.
       Sim, suponho que sim afirmou o subgerente, fazendo um gesto de concordncia com a cabea. Julgo que os vi a tomar ch juntos ontem  tarde.
       Sabe onde  que podero ter ido ontem  noite? indagou Gordon, como se estivesse a investigar o acidente, mas o jovem abanou a cabea.
       Posso perguntar ao porteiro se fez alguma reserva para eles nalgum stio. Dirigiu-se ento ao porteiro. Este informou que Mr. Robinson fazia sempre as suas 
prprias reservas quando estava na cidade e raramente pedia o que quer que fosse,  exceo do aluguer de uma viatura, como acontecera desta vez. Mas tinha a impresso 
de que o outro porteiro lhe fizera uma reserva no Mark's Club. Ele est de folga hoje. Posso perguntar-lhe quando voltar. Ou posso telefonar para o restaurante, 
se desejar. Infelizmente, o motorista morreu, como deve saber. Um dos nossos melhores homens. Irlands, casado e com quatro filhos. Uma tragdia horrvel.
       Gordon agradeceu-lhe, pegou na chave, encaminhou-se para o elevador e subiu. O fato de Bill e Isabelle terem tomado ch juntos na tarde anterior no lhe saa 
da cabea. Tinha curiosidade em saber se eles se haviam encontrado por acaso, em qualquer museu, ou se Bill andaria a fazer a corte a Isabelle. Esta era suficientemente 
inocente e ingnua para se deixar enganar. Se tomar ch com um homem no hotel era um ato relativamente inofensivo, j o fato de estar s duas da manh, numa limusine, 
com esse homem, no o era. Continuava a no conseguir imaginar o que Bill Robinson estaria a fazer com Isabelle. Havia algo naquela histria toda que no lhe soava 
bem. No entanto, se fosse outra pessoa que no ela, seria bvio, mas no caso de Isabelle, no acreditava que houvesse qualquer ponta de maldade naquilo que ela fizera. 
Quando entrou no quarto, continuava intrigado.
       De repente, teve o pressentimento de que Isabelle morrera. Na casa de banho, em cima da mesa ao lado do lavatrio, encontravam-se os produtos de maquilhagem 
espalhados. Num cabide atrs da porta, a camisa de noite. Dentro de um armrio, as roupas cuidadosamente penduradas. Em cima de uma escrivaninha, uma srie de brochuras 
de museus e galerias de arte. Reparou ento que ao lado destes se encontrava uma carteira de fsforos do Bar Harry's e Isabelle no fumava.
       Que raio teria ido ela fazer a um stio como o Harry's, ou o Mark's Club? E ainda havia uma carteira de fsforos do Annabel's. Ao ver isto, sentiu um frmito 
de raiva percorrer-lhe o corpo. Talvez a noite passada na companhia de Bill no tivesse sido assim to inocente como pensava. Gostava de saber se ela fora a esses 
stios com Bill. Observou ento  sua volta  procura de mais provas, mas no havia qualquer sinal de roupa de homem, nem cartas, nem notas, nem flores com cartes. 
Talvez ele lhe tivesse mesmo feito a corte e ela no lhe tivesse resistido. Porm, fosse o que fosse que tivesse acontecido entre eles nessa noite, ou antes, tinham 
pago um preo bastante elevado por isso. No entanto, no conseguiu deixar de perguntar-se qual era o lao que existia entre os dois, se  que havia algum. Meteu 
as carteiras de fsforos no bolso, sentou-se, olhou  volta e mandou vir uma bebida forte.
       Quando Cynthia Robinson e as filhas saram do avio eram onze e meia. Ambas as raparigas haviam dormido durante a viagem Mas Cynthia passara a maior parte 
do voo perdida em pensamentos, de olhos colados na janela. Todo o impato do que acontecera a Bill comeava a atingi-la. Estava ansiosa por v-lo. Esperava que j 
no se encontrasse em coma quando chegassem ao hospital e que os fortes traumatismos no pescoo e na coluna no tivessem efeitos a longo prazo.
       Levaram meia hora na alfndega. O Claridge's tinha um carro a aguard-las. Foram diretas para o hospital, onde chegaram  uma da manh. Ainda havia grande 
movimento na Unidade de Cuidados Intensivos quela hora. Pouco antes de Cynthia e as filhas chegarem, tinham entrado quatro novos pacientes. Para ela, no havia 
qualquer problema em dar-se a conhecer s enfermeiras ou em descobrir um mdico com quem falar sobre Bill. Era perita em coisas desse gnero Ao ponto de conseguir 
interceptar um mdico que se dirigia ao quarto de Bill.
       O mesmo jovem cirurgio que falara com Gordon sentou-se com Cynthia no corredor e p-la ao corrente de tudo o que se passava, enquanto Jane e Olivia escutavam 
Bill continuava em coma e no havia qualquer sinal de recuperao. A zona espinal comeara a inchar, o que estava a exercer presso sobre os nervos afectados. Alm 
disso, as fracturas na zona do pescoo eram de extrema gravidade. Quando acabou de descrever o estado clnico de Bill, a sensao com que Cynthia ficou foi a de 
que as perspectivas de recuperao eram muito sombrias. Mesmo assim, nunca esperou v-lo naquele estado. Encontrava-se preso pelo pescoo a um aparelho de aspecto 
hediondo, com uma espcie de braadeira que lhe imobilizava todo o corpo, o qual se encontrava coberto de costuras, cortes, pequenas laceraes e hematomas. As enfermeiras 
no tiravam os olhos dos monitores, cujos sinais no paravam de se fazer ouvir. Bill estava com um ar to cadavrico que as filhas desataram a chorar mal olharam 
para ele. Cindy no conseguiu descolar os olhos do marido. De repente, todas as emoes a que resistira desde que lhe haviam dado a notcia vieram ao de cima. Os 
olhos inundaram-se de lgrimas e Bill deixou de ser um amontoado de sintomas e fracturas para passar a ser o rapaz por quem se apaixonara na faculdade. Apelou ento 
a todas as suas foras para conseguir dar algum apoio s filhas.
       Jane e Olivia estavam a um canto da sala, abraadas uma  outra, a chorar em silncio, enquanto uma das enfermeiras ajustava o respirador e Cindy se aproximava 
devagarinho da cama. Tocou na mo do marido, mas estava num pranto tal que no conseguiu dobrar-se e beij-lo. Havia um horrvel cheiro a ter no quarto. Bill tinha 
o peito nu e havia monitores ligados a ele por todo o lado.
       Ol, querido murmurou, colocando-se junto dele. Sou eu, a Cindy. Tinha vontade de ser novamente jovem. Ao olhar para Bill, passaram-lhe mil imagens pela cabea; 
o dia em que se conheceram, o dia do casamento, o dia em que lhe dissera que estava grvida. Tantas recordaes, tantos momentos, e agora ali estava ele, as vidas 
alteradas para sempre. Nem sequer conseguia imaginar como  que as suas existncias poderiam voltar  normalidade. Mas uma coisa sabia. No queria que Bill morresse, 
mesmo se ficasse debilitado. Imdependentemente das sequelas daquele terrvel acidente no queria perd-lo. E, pela primeira vez em vrios anos, sentiu que ainda 
o amava. 
       Amo-te. - repetiu vrias vezes - Quero que abras os olhos agora! As midas esto aqui. Querem falar contigo, querido
       Ele no consegue ouvi-la, Mistress Robinson disse uma das enfermeiras
       Isso  uma coisa que a senhora no sabe retorquiu Cynthia, com firmeza. Era uma mulher que no admitia discusses E nesse momento particular, no queria escutar 
o que a enfermeira lhe dizia. Alm disso, h anos que sabia de histrias de pessoas em coma que ouviam o que as outras ao p delas diziam
       Continuou a falar com Bill. Durante duas horas ficou com as filhas junto do marido. Apareceu ento um mdico que o observou e sugeriu que elas fossem descansar 
e que voltassem de manh. No registrou qualquer alterao no estado de Bill.
       Acha que devia ficar aqui com ele? perguntou Cindy. Viera do Connecticut para estar com o marido, no para esperar sentada no Claridge's. Alm disso, ainda 
no sabia muito bem se haveria ou no de confiar nas enfermeiras. Queria ver como tratavam Bill. No entanto, para j, sentia-se impressionada com os cuidados que 
estavam a prestar-lhe.
       Acho que devia ir para o hotel. Telefonamos-lhe logo que haja uma alterao no seu estado declarou o mdico, num tom firme, vendo que ela era uma mulher com 
quem se tinha de ser direto e de quem no se podia esconder fatos queria saber tudo e no abandonaria o marido por nada deste mundo. Prometo que lhe telefonamos. 
S ao fim de meia hora  que a convenceu a ir-se embora. O motorista aguardava-as  porta do hospital. Eram quase quatro da manh Quando saram. Cynthia e as filhas 
estavam esgotadas.
       Reservara um quarto no Claridge's para Olivia e Jane. Fazia tenes de ficar no quarto de Bill. Ao abrir a porta do quarto, teve a mesma sensao estranha 
que Gordon tivera ao entrar no quarto de Isabelle. Sentia-se uma intrusa. L estava a pasta, papis espalhados por uma srie de mesas e um monte de brochuras de 
galerias de arte e museus, o que lhe pareceu estranho. Quando  que ele tinha tempo para visitar museus. Tambm havia meia dzia de recibos do carto American Express. 
Reparou que um era do Bar Harry's e outro do Annabel's. Mas tambm sabia que ele costumava l ir com amigos e conhecidos dos negcios, sempre que vinha a Londres. 
No achou isso nada de anormal. Voltou a chorar quando vestiu o pijama de Bill. Estava aterrorizada perante a eventualidade de o perder e quando telefonou s filhas 
para ver como estavam, encontravam-se ambas lavadas em lgrimas. Fora um dia carregado de emoes para todas e ao deparar com o pai naquele estado assustara-as ainda 
mais do que  me. Depois de terem visto o seu corpo to maltratado, praticamente morto, era difcil alimentar qualquer esperana.
       Cynthia no conseguiu tirar da cabea o som das filhas a chorar. Vestiu o roupo de banho de Bill e foi at ao quarto delas. S queria abra-las e sosseg-las. 
Acabou por passar meia hora com elas. Eram quase cinco da manh quando finalmente as deixou e voltou para o quarto. Atirou-se para cima da cama e desatou a chorar 
com a cabea enfiada na almofada, que ainda tinha o cheiro dele. Eram seis da manh quando adormeceu.
       Quando acordou ao fim da manh, telefonou para o hospital e informaram-na de que o estado de Bill no se alterara durante a noite. Os sinais vitais encontravam-se 
um pouco mais estveis, mas continuava em coma profundo. Eram onze da manh e Cindy sentia o corpo todo maado, como se lhe tivessem batido com canos de chumbo durante 
toda a noite. Foi ver como estavam as filhas, entrando de mansinho no quarto. Encontravam-se ainda a dormir. Voltou para o seu quarto, lavou-se e vestiu-se, e pouco 
antes do meio-dia j estava pronta para voltar para o hospital. Detestava ter de acordar as filhas. Como tal, deixou-lhes um bilhete a dizer que depois lhes telefonava 
do hospital a dizer como estava o pai. Dirigiu-se ento para o carro que a aguardava e deu a direco ao motorista, com o qual falou sobre o acidente durante a viagem. 
O motorista que morrera era um dos melhores amigos dele.
       Quando chegou ao hospital, encontrou as coisas na mesma. Depois de falar com Bill durante alguns instantes, instalou-se na sala de estar. Esperava ver um 
dos mdicos. Enquanto aguardava, viu passar um homem que lhe despertou a ateno. Era alto, envergava um fato de fino corte e exibia um ar aristocrtico. Parou na 
recepo e perguntou qualquer coisa s enfermeiras, que abanaram a cabea com um ar de desalento. Encaminhou-se ento na direco dos quartos da Unidade de Cuidados 
Intensivos.
       Ficou curiosa por saber o que o trouxera ali. Pouco depois, viu-o sair de um quarto em frente ao de Bill e falar com um dos mdicos. Depois foi-se embora. 
Ficou com a impresso de que ele estava na mesma angstia que ela,  espera de notcias animadoras de algum gravemente doente. No sabia porqu, mas achava que 
havia algo de estranho nele. Parecia preocupado, mas ao mesmo tempo irritado, como se o contrariasse o fato de estar ali. Comentou isso mesmo com uma das enfermeiras 
quando voltou para o quarto onde Bill se encontrava.
       O que Cynthia no sabia era que o estado de Isabelle piorara, e haviam acabado de dizer a Gordon que as hipteses de sobrevivncia tinham diminudo consideravelmente. 
As inmeras leses estavam a debilit-la cada vez mais, no a deixando sair do coma profundo em que se encontrava. Haviam decidido no voltar a oper-la. Estavam 
certos de que no conseguiria resistir. Gordon voltou para o hotel, para telefonar para o banco, ficando a aguardar notcias de Isabelle. Disse  secretria que 
ia passar o fim-de-semana em Londres, sem dizer qual o motivo. Depois, telefonou  enfermeira de Teddy para saber como  que ele estava, no fazendo qualquer referncia 
ao estado da mulher. De repente, via-se com a sobrecarga da responsabilidade do filho. Nunca tivera de se preocupar com tal coisa e no estava nada satisfeito com 
o fato de essa responsabilidade lhe ter cado sobre os ombros.
       Comunicou ao filho que fora passar o fim-de-semana a Londres com a me.
       A mam disse que vinha para casa ontem observou Teddy, algo desapontado. Por que razo ela vai ficar a mais tempo?
       Porque tem coisas para fazer, s por isso retorquiu Gordon, com voz spera, o que no surpreendia Teddy. O pai nunca mostrara qualquer interesse por ele.
       A mam no me telefonou. Pode dizer-lhe que me ligue pediu Teddy, num tom de voz queixoso, o que irritou Gordon.
       Ela acabar por te telefonar. Temos coisas a fazer insistiu, mentindo, mas no tinha alternativa. Teddy estava demasiado debilitado para ouvir a verdade, 
especialmente quela distncia. Se acabasse por ter de lhe contar, tencionava faz-lo pessoalmente, na presena do mdico assistente. Tambm no telefonara a Sophie. 
Queria ver como  que as coisas evoluam. No havia razo para os assustar. Se Isabelle ia morrer sem recuperar a conscincia, achava que a filha no devia v-la. 
Tomara essa deciso de manh.
       Diga  mam que a adoro! exclamou Teddy, enquanto o pai lhe pedia insistentemente para desligar, desejando pr fim  conversa. No gostava de mentir ao filho, 
nem queria contar-lhe o que acontecera.
       Pouco depois, Gordon voltou ao hospital. Quando chegou, instalou-se no quarto, no canto mais afastado da cama, com ar angustiado, e ficou a observar uma srie 
de coisas que estavam a fazer  mulher. Ao contrrio do que Cynthia Robinson fizera com o marido, Gordon nunca se aproximou de Isabelle, nem lhe falou ou tocou. 
Detestava situaes daquele gnero.
       Quer ficar a ss com a sua esposa? perguntou uma das enfermeiras, com enorme pena dele por v-lo to desalentado.
       Mas Gordon no hesitou quando respondeu.
       No, obrigado. De qualquer forma, ela no consegue ouvir-me. Vou l para fora. Se houver alguma alterao, chame-me, por favor. Saiu, apressado, para a sala 
de espera, onde j se encontravam Olivia e Jane. Pouco depois, apareceu Cynthia. No fazia a mnima idia de quem eram e isso tambm pouco lhe importava. E ficou 
surpreendido quando Cynthia lhe sorriu.
       Lamento o que aconteceu com a sua esposa disse Cynthia. Ouvira as enfermeiras falarem de Isabelle e s sabia que se encontrava numa situao ainda mais crtica 
do que Bill.
       Obrigado proferiu Gordon. No tinha o menor desejo de fazer amizades na sala de espera da Unidade de Cuidados Intensivos. Mas tambm no queria ficar sentado 
no horror do quarto de Isabelle. No tinha outro stio  exceo do Claridge's, para onde estava a ponderar ir quando Cynthia lhe dirigiu a palavra. Ento, para 
sua surpresa, esta estendeu a mo e apresentou-se.
       Chamo-me Cynthia Robinson disse, enquanto uma das filhas dormitava e a outra lia uma revista. Nenhuma delas parecia dar ateno a Cynthia ou a Gordon Mas 
os olhos deste esbugalharam-se de espanto ao ouvir o nome dela, fato que Cynthia reparou. Estou aqui com o meu marido. Teve um acidente h dois dias. Chegmos ontem 
 noite.
       Gordon perguntou-se ento se ela saberia toda a verdade e a gravidade de que a situao se revestia. A ser esse o caso, no se mostrava muito afectada com 
o fato. A nica coisa que parecia interessar-lhe era o estado clnico do marido. Ele estava muito mais preocupado com as razes que tinham levado Bill e Isabelle 
at Londres E resolveu ser franco com ela.
       Presumo que est a par do fato de que a minha mulher se encontrava no carro com o seu marido quando o autocarro os atingiu
       Ao ouvir isto, Cynthia deu a impresso de ter sido ela a atingida pelo autocarro. Gordon compreendeu de imediato que ningum ainda a informara desse fato. 
Cynthia ficou sem palavras.
       Que quer dizer com isso? perguntou, ainda mais plida do que estava.
       Exatamente aquilo que acabei de dizer. Estavam juntos na limusine. No fao a menor idia porqu, nem como se conheceram. Estive com o seu marido h vrios 
anos, em Paris, mas no me lembro se a minha mulher se encontrava comigo. Ao que parece, tomaram ch juntos na quarta-feira e ela estava na limusine com o seu marido. 
Encontra-se agora em estado crtico, em coma profundo, e talvez nunca venhamos a saber a razo por que estavam juntos. Presumo que o seu marido tambm no esteja 
em condies de dar qualquer tipo de explicao.
       Cynthia sentou-se ento numa cadeira, diante de Gordon, com a sensao de ter levado uma estalada.
       No me disseram nada. Pensei que ele estivesse sozinho com o motorista. Mostrava-se perplexa.
       Tudo indica que no. A minha mulher veio de Paris para visitar algumas exposies e museus.  uma apaixonada pela arte. E no fao idia do que mais fez aqui 
em Londres.
       Cynthia lembrou-se das brochuras de galerias e museus que encontrara no quarto de Bill. O seu marido falou-lhe alguma vez de Isabelle Forrester? Sentia-se 
algo embaraado, mas havia perguntas para as quais queria encontrar as respostas. E aquela mulher era, pelo menos de momento, a nica forma de as obter. Cynthia 
fez que no com a cabea. Sabia ainda menos do que ele.
       Nunca ouvi tal nome. Nem sequer sabia que ele se encontrava em Londres. A ltima vez que falei com ele estava em Nova Iorque. Contatamos muito pouco um com 
o outro.
       Esto divorciados? perguntou Gordon, intrigado. Cynthia sentiu-se irritada com a pergunta.
       No, mas viaja muito e  muito independente. No queria dizer-lhe que o casamento deles se deteriorara ao longo dos anos.
       A minha mulher, no. Temos um filho deficiente de que ela cuida h catorze anos e raramente sai de casa. Esta viagem  a primeira que faz desde h vrios 
anos e considerei-a perfeitamente inocente. Talvez tenha conhecido o seu marido no Claridge's. Acho que no devemos tirar concluses precipitadas. Mas parece-me 
estranho estarem os dois num carro s duas da manh.
       Sim,  estranho concordou Cynthia, com ar pensativo. Tinha fortes razes para pensar que se tratava de mais uma aventura de Bill. Tivera vrias nos ltimos 
anos. Alm disso, h bastante tempo que no existia qualquer envolvimento fsico de um com o outro. Mas a mulher que Gordon Forrester descrevera no parecia ser 
uma provvel candidata a um fim-de-semana romntico noutra cidade. No conseguia sequer imaginar como se haviam conhecido. Nem gostava da idia de eles estarem juntos. 
Enquanto falava com Gordon, apercebeu-se de que as filhas haviam seguido a conversa com interesse.  pena no podermos perguntar-lhes.
       As brochuras das galerias de arte e dos museus no lhe saiam da cabea. Lembrou-se ento dos recibos do Annabel's e do Harry's. Talvez aquela mulher fosse 
menos inocente do que o marido pensava, apesar do filho deficiente e do fato de ser casada.
       Se eles morrerem, nunca saberemos a resposta.
       Se eles no tivessem tido o acidente, provavelmente nunca iramos saber. Talvez tenhamos de aceitar esse fato.
       No sabia muito bem se queria conhecer a resposta. Havia perguntas que nunca quereria que ele lhe fizesse e outras que ela nunca lhe teria feito. Existiam 
recantos obscuros das suas vidas que no desejava esclarecer. Gordon no era da mesma opinio.
       No creio que outra pessoa que no eles nos venha a contar um dia.
       Se forem espertos, e o que  fato  que, de alguma forma, andavam envolvidos um com o outro, esperemos que mais ningum saiba declarou Cynthia, pragmtica.
       Esperemos que no. O motorista talvez nos tivesse podido dizer alguma coisa.
       Talvez o que tenhamos a fazer seja pr tudo para trs das costas e esquecermos as respostas. Esto ambos a lutar contra a morte e, se sobreviverem, talvez 
seja melhor deixarmos as coisas tal como esto. O que aconteceu antes no so contas do nosso rosrio.
        muita generosidade da sua parte ripostou Gordon, pouco satisfeito com a sugesto de Cynthia. Se Isabelle andava a engan-lo, queria saber. Estava muito 
menos convencido da sua inocncia do que j estivera.
       O meu marido  um homem muito discreto. O que quer que tenha acontecido nunca vir  luz do dia. Nunca se comportaria de forma pouco digna nem provocaria 
um escndalo.
       No estou a ver a minha mulher envolvida com outro homem comentou Gordon, mais em defesa do orgulho do que da reputao, e Cynthia sentiu isso mesmo. No 
creio que ela tivesse um caso com o seu marido. Deve haver uma explicao plausvel.
       Espero bem que sim. Fixou Gordon nos olhos.
       Decidira esclarecer a sua posio perante os fatos. Quero que saiba que no tenciono perguntar o que quer que seja ao meu marido.
       Mas eu tenciono perguntar  minha mulher, caso saia do coma. Acho que eles nos devem uma explicao.
       Porqu? Que diferena faria? contraps Cynthia, para grande pasmo das filhas. O que  que isso iria mudar? E se morrerem no precisamos de saber nada.
       Mas eu preciso. Se ela, de alguma forma, foi desonesta comigo, acho que mereo saber, tal como a senhora. Caso contrrio, seria melhor concedermos-lhes a 
absolvio.
       No tenho nada a ver com a absolvio do meu marido. J  um homem adulto.  evidente que no gostaria de saber que ele andava envolvido com a sua mulher, 
mas h coisas na vida de que  melhor no tomarmos conhecimento.
       No partilho o seu ponto de vista, Mistress Robinson. No conseguiu deixar de se perguntar que tipo de casamento  que eles tinham. Alis, pouco diferente 
do seu, mas nunca teria admitido a ningum que o seu casamento com Isabelle era um fingimento j h vrios anos. E no seria nada de extraordinrio se ela tivesse 
um caso com outro homem. Era jovem, bonita e humana. Gordon sabia melhor do que ningum a vida de solido que Isabelle levava, graas a ele. Era por isso que estava 
curioso em saber o que ela andara a fazer, se o trara com um estranho por pura ingenuidade. Mas, fossem quais fossem as circunstncias, no considerava digno de 
uma mulher decente andar na rua a uma hora to tardia. Nem sequer conseguia imaginar onde teriam estado ou o que andariam a fazer. Se fosse mais cedo, poder-se-ia 
pensar que haviam visitado uma exposio ou um museu, mas no s duas da manh.
       Cynthia foi ento at ao quarto de Bill, enquanto as filhas ficavam de olhos colados em Gordon. Poucos minutos depois, este foi at  recepo e informou 
que iria voltar para o Claridge's e que lhe poderiam telefonar se houvesse qualquer alterao no estado de sade de Isabelle. J no suportava ficar mais tempo na 
sala de espera; alm disso, no gostava de Synthia Robinson, nem das suas atitudes liberais em relao ao marido. Provavelmente este enganava-a com regularidade 
e ela tambm devia tra-lo. Porm, junto  cama onde Bill jazia, de olhos postos nele, e sabendo o que Gordon Forrester lhe contara, Cynthia estava de corao destroado. 
Gordon podia dizer que os encontros dos dois eram perfeitamente inocentes, mas ela no acreditava. Com as lgrimas a correrem-lhe pelas faces, questionava-se se, 
ao cabo de todo aquele tempo, o perdera finalmente. Tinha conscincia de que, durante anos, o tratara com indiferena, por vezes at com alguma agressividade, que 
se mostrara fria e distante, e que sempre fora extremamente crtica perante a vida que ele levava. H muitos anos que optara por no fazer parte dela. E agora que 
estava na iminncia de o perder para sempre, a nica coisa que queria era dizer-lhe que ainda o amava. No sabia se voltaria a ter oportunidade de o fazer, mas s 
queria dizer-lhe, uma ltima vez, o quanto o amava. S na noite anterior  que se apercebera disso e fazia questo de que ele soubesse. No entanto, no conseguia 
deixar de se interrogar sobre o que significaria Isabelle Forrester para Bill e se ele estaria realmente apaixonado por ela. Sabia que, se o tivesse realmente perdido, 
por causa da sua prpria estupidez, merecia-o. No tinha a menor dvida a esse respeito. De repente, compreendeu, perante a eventualidade de o perder, como fora 
estpida durante tantos anos.

CAPTULO CINCO
       Gordon passou a noite de sexta-feira no Claridge's a ler um livro que comprara no caminho de regresso ao hotel. No tinha mais nada para fazer. Podia ter 
telefonado a amigos que moravam em Londres, mas no se sentia preparado para contar s pessoas o que sucedera. Primeiro, queria ver o que acontecia a Isabelle. J 
haviam passado quarenta e oito horas depois do acidente e ela continuava entre a vida e a morte. No registrara quaisquer melhoras. Ainda se lembrou de ir at ao 
hospital, mas no suportava a idia de a ver naquele estado. No teria admitido esse fato a ningum, mas a viso dela assustava-o. Detestava hospitais, pessoas doentes, 
mdicos, enfermeiras, os sons, os cheiros.
       Quando Gordon telefonou, Cynthia continuava sentada junto a Bill. As filhas haviam voltado para o Claridge's  hora do jantar, mas a me resolvera ficar. 
Ia, de quando em quando, at  sala das enfermeiras beber uma chvena de ch. Tinha muito em que pensar. Enquanto assistia  luta de Bill contra a morte, perguntava-se 
se teria oportunidade de lhe dizer as coisas que queria. Tinha muitas explicaes e desculpas a dar. Sabia que, embora ele nunca lho houvesse dito, devia ter tido 
conhecimento de todos os seus casos amorosos. Alguns, evidentes, outros, mais discretos.
       Ao fim de algum tempo, logo que desistira do casamento, deixou de se preocupar com o fato de Gordon saber ou no. E continuava sem saber por que motivo o 
abandonara com tanta determinao. Talvez por cimes da vida absorvente que ele levava e das pessoas que conhecia. Nunca gostara de estar dependente dele e interrogava-se 
agora se no o abandonara para lhe provar que no precisava dele. Sempre a irritara o fato de, como esposa de um poltico, ter de comportar-se como um apndice do 
marido. Bill viajava tanto e estava sempre to ocupado que, por vezes, se sentia rejeitada. Detestava a imagem de ser uma me suburbana com duas filhas. Ansiava 
por uma vida mais mundana e mais excitante. Apercebia-se agora de que o tentara fazer da pior forma. Mas o seu grande receio era ter chegado a essa concluso demasiado 
tarde.
        meia-noite ainda pensava no assunto, sentada numa cadeira, a um canto do quarto. Por uma fraco de segundo ainda pensou ouvi-lo mexer-se.
       Bill? Levantou-se e olhou-o mais de perto. As enfermeiras haviam acabado de sair do quarto. Teve a impresso de o ver mexer as plpebras, como se estivesse 
a sonhar. Cynthia estava de p, junto dele, quando as enfermeiras voltaram. Olharam de imediato para os monitores, mas no havia qualquer problema.
       Est tudo bem, Mistress Robinson? perguntou uma das enfermeiras, enquanto mudava o saco de soro e alisava os cobertores sobre as pernas do doente.
       Acho que sim... no tenho a certeza... Por instantes, pensei... pode parecer ridculo... mas pensei que alguma coisa se mexeu.
       Olharam mais de perto, mas no havia qualquer sinal de recuperao. O estado de Bill mantinha-se estacionrio. J haviam passado quase quarenta e oito horas 
desde o acidente e Cynthia encontrava-se ali h vinte e quatro. Parecia-lhe uma eternidade.
       A enfermeira de servio ajustava o monitor do corao e dessa vez apercebeu-se de um movimento muito tnue numa das mos de Bill. Observou-o cuidadosamente, 
depois examinou-lhe os olhos. Fez incidir um pequeno feixe de luz neles, e dessa vez no houve qualquer dvida: Bill articulou um pequeno som abafado, que mais parecia 
um gemido de dor. Era o primeiro som que emitia e os olhos de Cynthia inundaram-se de lgrimas.
       Oh, meu Deus murmurou, ao mesmo tempo que Bill fazia novamente o mesmo rudo. Era um som quase animalesco e as plpebras dele tremeram quando Cynthia lhe 
tocou nos dedos. A enfermeira chamou o mdico de servio de imediato, que chegou  porta do quarto num pice
       O que se passa? perguntou  enfermeira, enquanto entrava, em passos largos. J estava de servio h horas e exibia um ar to cansado como o de Cynthia. Alguma 
alterao.
       Gemeu duas vezes respondeu a enfermeira.
       E pareceu-me que mexeu a mo h um minuto acrescentou Cynthia, enquanto o mdico fazia incidir de novo o feixe de luz nos olhos de Bill. E, dessa vez, este 
reagiu  luz, gemendo de novo. O mdico levantou os olhos para a enfermeira. Havia uma pergunta no seu olhar e ela assentiu com a cabea. No queriam dizer nada 
prematuramente  esposa, mas tudo levava a crer que Bill comeava a sair do estado de inconscincia. Era o primeiro sinal animador que tinham em dois dias.
       Bill, consegues ouvir-me? Sou eu, estou aqui... Amo-te, querido. Consegues abrir os olhos? Quero falar contigo. Tenho estado  espera que acordes. Bill soltou 
novo gemido, desta vez mais audvel, provavelmente de dor.
       Mister Robinson, vou tocar-lhe na mo. Se me est a ouvir, quero que me aperte o dedo com a mxima fora que puder proferiu o mdico ao ouvido de Bill, pondo-lhe 
um dedo na mo e esperando qualquer reao da parte dele. No se verificou de imediato, mas, lentamente, os dedos de Bill enrolaram-se  volta do dedo que o mdico 
pressionava contra a sua palma da mo. No houve mais nenhum sinal visvel, mas Bill ouvira claramente a voz do mdico e compreendera o que este lhe dissera.
       Oh, meu Deus, ele ouviu disse Cynthia, com as lgrimas a correrem-lhe pelo rosto. Consegues ouvir-me, querido? Estou aqui... Abre os olhos, por favor... Mas 
no se vislumbrou qualquer reao no rosto. Ento, muito lentamente, franziu o sobrolho e abriu ligeiramente a boca, passando a lngua pelos lbios ressequidos. 
Cynthia tinha a sensao de estar a assistir a um milagre.
       - timo, Mister Robinson observou o mdico ao ouvido de Bill. Quero que volte a apertar-me o dedo.
       Bill soltou um gemido de protesto, como se o estivessem a irritar, mas acabou por apertar o dedo, desta vez com a outra mo. As duas enfermeiras e o mdico 
trocaram olhares vitoriosos. Estava a voltar  vida. Era impossvel determinar os seus nveis de audio ou de compreenso, mas comeava a responder aos estmulos. 
Cynthia no cabia em si de satisfao e s tinha vontade de os afastar e de se atirar ao pescoo de Bill. Mas no se mexeu do stio onde se encontrava. Receava mago-lo.
       Acha que consegue abrir os olhos, Mister Robinson? Agradecia-lhe imenso que tentasse. O mdico continuou a incentiv-lo. Bill esteve ento sem dar qualquer 
sinal de vida durante um longo instante e Cynthia receou que ele tivesse entrado em coma de novo. Dava a sensao que adormecera. O mdico tocou-lhe nas plpebras, 
como que para o recordar do pedido que lhe fizera. Bill deixou escapar um pequeno suspiro. Ento, abriu ambos os olhos e olhou para o mdico.
       Ol saudou o jovem mdico, com um sorriso nos lbios. Prazer em v-lo.
       Bill deixou escapar um pequeno "hummm..." e depois fechou os olhos; ainda conseguira estar um ou dois segundos de olhos postos no mdico. Era o melhor que 
conseguira de momento.
       Importa-se de tentar outra vez? Nessa altura ouviu-se um gemido agudo que significava claramente "no", mas, ao fim de um minuto, acabou por abrir os olhos. 
Temos estado ansiosos por v-lo insistiu o mdico, com um sorriso.
       Bill varreu a sala com o olhar. Deparou ento com Cynthia ao fundo da cama e pareceu confuso.
       Ol, querido, estou aqui. Amo-te. Vai correr tudo bem.
       Bill fechou os olhos, dando a impresso de que no queria ver ningum. Pouco depois, adormeceu de novo. Quando Cynthia acompanhou o mdico at ao corredor, 
exibiam todos radiosos sorrisos nos lbios.
       Oh, meu Deus, o que significa aquilo? perguntou Cynthia, a tremer da cabea aos ps. Nunca nada na vida a abalara tanto, e o mdico ficou feliz por ela.
       Significa que saiu do coma, embora ainda no esteja totalmente livre de perigo. Mas  um enorme sinal de esperana.
       Consegue falar?
       Estou certo que sim. O traumatismo craniano no foi assim to forte para lhe ter afectado a fala. O pescoo e a coluna vertebral eram os maiores problemas. 
O crebro precisa de se adaptar quilo que lhe aconteceu. Estou certo de que ele falar quando acordar. O organismo sofreu um choque tremendo. No estou preocupado 
com a fala. Estava mais apreensivo com tudo o resto. O problema a longo prazo ia ser a coluna e as pernas. Mas o fato de Bill mexer as mos era um bom sinal. Encontrava-se 
obviamente muito debilitado, mas conseguiria mexer as mos e os braos, especialmente logo que o pescoo sarasse. Agora deve dormir vrias horas. Amanh veremos 
se realiza outros movimentos. Pode voltar para o hotel e dormir um pouco, Mistress Robinson. Amanh ser outro dia muito longo.
       Cynthia sentia-se muito agitada e no tinha vontade de se ir embora.
       Acha que no voltar a acordar? Se isso acontecer quero estar aqui.
       Julgo que  muito mais provvel que ele esteja cansado do esforo que acabou de fazer. Para ele, deve ter sido como escalar o Evereste. Acabou de instalar 
a primeira base e tem ainda muito que subir nas prximas semanas. Possivelmente nos prximos anos, mas no queria dizer isso a Cynthia. Aquilo era apenas o princpio 
e tinham um longo caminho a percorrer, mas toda a equipe mdica estava animada com aquilo a que haviam acabado de assistir.
       Est bem. Talvez volte para o hotel. H horas que no via as filhas. Prometera telefonar-lhes logo que chegasse ao quarto. Estava ansiosa por lhes contar 
o que acontecera. Quando o fez, Olivia soltou um grito de alegria e Jane simulou uma pequena dana.
       Meu Deus, mam,  a melhor notcia que podia dar-nos! O pap disse alguma coisa?
       No, s abriu os olhos umas duas vezes e gemeu. Apertou o dedo ao mdico tambm por duas vezes e olhou para mim. Mas depois adormeceu. O mdico acha que talvez 
fale amanh.
       No dia seguinte, quando Cynthia chegou ao hospital, Bill estava de olhos abertos e olhava  sua volta, como se no soubesse onde se encontrava. Parecia meio 
adormecido, dando a sensao de ter acordado h pouco tempo, o que de fato acontecera.
       Ol, dorminhoco! cumprimentou Cynthia, com voz meiga, ao chegar junto dele. H uma eternidade que estamos  espera que acordes.
       Bill piscou os olhos, como que querendo dizer "sim", mas o ar era triste, dando a impresso de ter ficado desapontado por v-la e esperasse encontrar outra 
pessoa. Cynthia teve a sensao de que ele teria assentido com a cabea, se pudesse mexer o pescoo
       Sentes-te melhor?
       Bill piscou novamente os olhos. Cynthia fez-lhe ento uma carcia no rosto.
       Amo-te, Bill. Lamento imenso o que aconteceu, mas vais ficar bom.
       Bill no desviou os olhos dos dela. Ento, humedeceu os lbios, tal como fizera na noite anterior, e fechou os olhos. Cynthia teve vontade de lhe dar qualquer 
coisa a beber, mas no se atreveu. As enfermeiras haviam-nos deixado sozinhos durante alguns minutos. Os monitores alert-las-iam se houvesse uma situao de emergncia.
       Queres que te traga alguma coisa? sussurrou Cynthia, quando Bill abriu os olhos e olhou para ela. Parecia preocupado com algo e ela aproximou-se mais para 
o caso de ele querer dizer-lhe alguma coisa. Abriu a boca, mas no conseguiu articular qualquer som.
       Que queres, querido? Consegues falar? Dirigia-se a ele como se o fizesse com uma criana. Havia um ar de frustrao no rosto dele, perante a dificuldade que 
estava a sentir em fazer-se entender Ficou em silncio durante um longo instante e tentou de novo, como se tivesse estado a reunir foras. As meninas esto c. Vieram 
comigo.
       Bill piscou os olhos, depois fez uma careta, como se estivesse a tentar abrir o maxilar. Cynthia ainda pensou que fosse o colar ortopdico que lhe estivesse 
a magoar o pescoo. No devia ser confortvel, mas no parecia estar com qualquer dor aguda.
       Onde. murmurou Bill finalmente, enquanto Cynthia se esforava por ouvir as palavras seguintes, que pareciam nunca mais sair... est Isss...aaa..bell? Fora 
um esforo titnico. Cynthia duvidava que ele a tivesse reconhecido.
       Toda a sua ateno parecia estar centrada na mulher que se encontrava com ele no carro. Tambm desconfiava que ele queria saber se Isabelle estava viva. Sentiu 
aquelas palavras, articuladas com tanto custo, como um soco no estmago. Perguntar por Isabelle tinham sido as suas primeiras palavras para Cynthia, o que vinha 
corroborar as suas suspeitas.
       Est viva respondeu Cynthia. Vou perguntar  enfermeira como  que ela est.
       Bill piscou os olhos por duas vezes, como que em agradecimento; em seguida, tornou a fech-los. Pouco depois, Cynthia saiu do quarto e as filhas precipitaram-se 
para ela de imediato. Mas no lhes contou o que o pai acabara de dizer.
       Como  que ele est? Disse alguma coisa?
       Acho que est melhor. J tenta falar. Informei-o de que vocs estavam c. Cynthia ficara chocada com aquilo que Bill lhe perguntara. As suas primeiras palavras 
haviam sido para Isabelle e no conseguiu deixar de pensar no quanto esta significava para ele. E no fora certamente por uma mera questo de cavalheirismo que perguntara 
pela sua acompanhante na noite fatdica.
       O que disse ele? Olivia e Jane estavam num estado de perfeita euforia.
       Piscou os olhos por duas vezes respondeu Cynthia, tentando dissimular a sua dor.
       Consegue falar? perguntou Jane, que era a perfeita imagem da me. Olivia era mais parecida com o pai.
       Pronunciou duas ou trs palavras, mas ainda  um grande esforo para ele. Julgo que est a descansar agora. Cynthia exibia um ar estranhamente abatido, quando 
disse s meninas que voltava em breve, encaminhando-se de imediato para a recepo. Como est Mistress Forrester? perguntou. Quanto mais no fosse, podia dizer a 
Bill o que este queria saber. Estava no seu pleno direito de se preocupar com Isabelle, mesmo que fossem simples amigos. Haviam feito a viagem de ida e volta at 
ao inferno juntos. O mnimo que podia fazer por ele era dar-lhe a informao sobre Isabelle, j que fizera um esforo enorme para perguntar por ela.
       No est muito bem. O seu estado continua estacionrio. Voltou a ter febre ontem  noite. O marido est junto dela.
       J recuperou a conscincia?
       No, mas no  de estranhar devido s leses e  operao.
       Cynthia agradeceu-lhe a informao e voltou para o quarto. Bill ressonava ligeiramente. Ento, como se a pressentisse a seu lado, estremeceu e abriu os olhos. 
Voltara a sonhar com Isabelle. H dois dias que isso acontecia.
       Perguntei pela Isabelle. Continua na mesma. Ainda no saiu do coma, mas espero que isso venha a acontecer.
       Bill piscou novamente os olhos, em jeito de concordncia. Ao fim de algum tempo, comeou a tentar articular novo conjunto de palavras.
       Obrri...gaadooo, Cinnn... pensei... que... fosses... ela... proferiu, fechando os olhos e voltando a sonhar com Isabelle. No tinha qualquer desejo de ver 
a esposa ou de falar com ela.
       Queres ver as midas? perguntou Cindy, interrompendo-lhe novamente o sonho. Desta vez, Bill piscou os olhos por trs vezes. Vou busc-las. Esto ao fundo 
do corredor.
       Pouco depois, Olivia e Jane encontravam-se no quarto, a tagarelar com Bill, que chegou a esboar um sorriso. Quando tentou falar com as filhas, j conseguiu 
faz-lo com menos esforo. A capacidade de falar comeava a voltar, se bem que muito lentamente, mas era evidente que o esprito estava um pouco mais lcido.
       Amo... vos... filhas...
       Tambm te amamos muito, pap afirmou Olivia, enquanto Jane beijava a mo ao pai, que continuava a soro, entubado e ligado a uma srie de monitores. A felicidade 
de terem o pai vivo era indescritvel.
       Grrrandes... moas disse Bill para Cynthia, quando as filhas saram.
       Tu  que foste um grande homem comentou Cynthia, perante o olhar surpreso de Bill. Pregaste-nos um valente susto. Lembras-te do que aconteceu?
       No. No se lembrava de nada, a no ser da noite que passara com Isabelle antes do acidente.
       A tua limusine foi abalroada por um autocarro. Levaram umas horas para vos desencarcerar.
       Tive... medo... que... ela... tivesse... morrido... articulou Bill, a muito custo, e Cynthia no conseguiu deixar de pensar o quanto era estranho ele estar 
a falar de Isabelle  prpria mulher, mas no parecia importar-se. Os olhos de Bill estavam inundados de lgrimas quando olhou para ela.
       Creio que esteve mesmo s portas da morte. No lhe disse que Isabelle ainda corria risco de vida. O marido est com ela. Estas palavras eram como que um aviso 
para ele voltar  vida real. Isabelle tinha marido. Ele, duas filhas e uma mulher. Bill sabia que, por muito que amasse Isabelle, tinha uma grande responsabilidade 
para com elas. Porm, h dias que sonhava com Isabelle.
       As enfermeiras voltaram ento para o quarto. Tinham coisas para fazer a Bill e Cynthia aproveitou para ir ter com as filhas. Precisava de digerir o que acabara 
de acontecer com ele. J no havia a mnima dvida na sua cabea. Isabelle Forrester era importante para ele. No era nenhuma estranha, como o marido esperara, ou 
at uma amiga fortuita. A sua primeira pergunta fora em relao a Isabelle. E o olhar estava carregado de angstia e preocupao por ela. At confundira Cynthia 
com Isabelle.
       Sentada na sala,  espera que as enfermeiras acabassem o que tinham a fazer com Bill, pegou num exemplar do Herald Tribune. Reparou ento num artigo sobre 
o acidente do autocarro. E qual no foi o seu espanto ao deparar com uma fotografia de Bill acompanhado de uma mulher, ao lado de uma fotografia dos destroos do 
autocarro. O artigo referia que o acidente provocara onze vtimas mortais entre os passageiros do autocarro e o conhecido poltico William Robinson encontrava-se 
na limusine atingida. A legenda da fotografia dizia que fora tirada pouco antes do acidente. Acrescentava ainda que o poltico e a mulher no identificada haviam 
estado no Annabel's, que a viatura fora atingida uns Quarteires mais  frente e que o motorista morrera. Mas no fazia qualquer aluso ao nome de Isabelle, nem 
referia se ela fora ou no ferida no acidente. Mas Cynthia sabia que s podia ser ela. Tratava-se de uma mulher atraente e jovem, de longos cabelos escuros, e estava 
com ar espantado a olhar para a objetiva do fotgrafo. Bill sorria e tinha o brao por cima dela. Ficou sem pinga de sangue. Estavam ambos com ar feliz e descontrado, 
e Bill dava a sensao de estar a conter o riso. Perguntou-se ento se Gordon Forrester tambm vira a fotografia.
       Olivia e Jane olharam uma para a outra quando viram a me a ler o artigo. No disseram nada, mas tambm j o tinham visto. Porm, agora no podiam ficar zangadas 
com o pai, tivesse ele feito o que quer que fosse. O que acontecera fora de tal modo grave que lhe perdoavam praticamente tudo. Cynthia afinava pelo mesmo diapaso. 
O que a preocupava no era o que lhe fizera, mas a hiptese de gostar de Isabelle. O brilho no olhar, quando lhe perguntara por ela, fora demonstrativo de que no 
se tratava de uma mera aventura. Custava-lhe a acreditar que fossem apenas bons amigos. Cynthia e Gordon teriam ficado ainda mais espantados se soubessem que eles 
eram confidentes h mais de quatro anos.
       Uma das enfermeiras veio ento busc-las e conduziu-as at ao quarto de Bill. Pouco antes de fechar a porta, Cynthia viu Gordon Forrester sair do quarto de 
Isabelle. No se atrevia a faz-lo, mas teve vontade de perguntar se vira o artigo no Herald Tribune. Mas Gordon parecia ter outros planos em mente.
       Isabelle continuava a no dar sinais de melhoras e, embora o mdico dissesse que ela podia continuar em coma durante muito tempo, Gordon estava cada vez mais 
preocupado com a eventualidade de ficar com leses cerebrais se sobrevivesse. Alm disso, haviam-lhe dito que o ritmo cardaco era irregular e estava a aparecer 
lquido nos pulmes. Havia um crescente risco de pneumonia e sabia que, se isso acontecesse, ela morreria. O seu estado parecia piorar. Estivera uma hora no quarto 
a falar com os mdicos sobre uma possvel nova operao e ia para o hotel quando Cyntia o viu.
       S ao fim da tarde, depois de ela e das filhas sarem,  que Bill perguntou por Isabelle. Recuperara a fala ao longo do dia. Olivia e Jane no pararam de 
fazer perguntas ao pai, que era forado a responder. Desta vez, Bill perguntou a uma enfermeira como estava Isabelle. A resposta foi cuidadosa.
       Est na mesma. Continua em coma e as leses so mais internas do que as suas. Bill fracturara mais ossos, mas todos os rgos internos de Isabelle haviam 
sido atingidos. Era impossvel dizer qual estava pior. No entanto, ele sobrevivera, enquanto a vida dela continuava periclitante. A nica coisa que sabia era que 
no queria que Isabelle morresse e que daria a vida por ela.
       Posso v-la?
       No creio que seja possvel respondeu a enfermeira. Sabia muito bem que o cirurgio no autorizaria. Tinha de se manter o mais imvel possvel. No havia 
qualquer hiptese de o tirar da cama com as leses que tinha na coluna e no pescoo. Alm disso, Isabelle no daria pela sua visita.
       Nessa noite, Bill fez a mesma pergunta ao mdico.
       S um minuto. S quero v-la, para saber como est.
       No muito bem respondeu o mdico. Tem traumatismos por todo o corpo. Expliquei isso ao marido hoje. Quer transferi-la para Paris. Disse-lhe que  impossvel. 
No estado delicado em que se encontra, seria mat-la. Sentiu as palavras do mdico como uma faca a trespassar-lhe o peito. No queria que a levassem para lado nenhum, 
pelo menos at ele a ver. E certamente no o iriam fazer, dado que a poriam em maior risco. Forrester era louco em pensar transferi-la para Paris to cedo. Acho 
que no  boa idia v-la, Bill. Tratavam-se pelo primeiro nome e o mdico estava encantado com a simpatia demonstrada por ele. Gostava de Bill. O mesmo no acontecia 
relativamente a Gordon Forrester, que era um homem parco em palavras e arrogante, e fora ofensivo com toda a gente. Comeara o dia a pedir para transferirem Isabelle 
para Paris. Ningum lhe deu ouvidos. E s quando o diretor da Unidade de Cuidados Intensivos lhe disse que ele devia estar louco para pedir tal coisa e que Isabelle 
no resistiria  viagem  que Gordon desistiu da idia. Mas toda a equipe ficou convencida de que ele voltaria  carga. Era demasiado teimoso para desistir.
       No me pode levar na cama at ao quarto dela, quando ningum l estiver? suplicou Bill, de novo na posse de todas as suas capacidades vocais. Quero v-la 
com os meus olhos.
       O mdico ficou pensativo durante um longo instante. No sabia da relao entre os dois e no queria question-lo a esse respeito, mas era evidente que ver 
Isabelle tinha um grande significado para Bill. Alm disso, no faria mal a nenhum dos dois. S no queria que Gordon Forrester ficasse zangado se viesse a saber.
       Acha que me podem l levar esta noite? Por pouco tempo que seja
       Porque no esperamos mais um pouco e vemos como  que voc e ela esto amanh. Nenhum dos dois se vai embora.
       Bill sentia-se enlouquecer s de saber que Isabelle estava ali to perto e que no podia v-la. Se pudesse, j l teria ido, mas estava inteiramente dependente 
de terceiros. Tinha o corpo completamente imobilizado. No conseguia sequer levantar a cabea, e os braos estavam extremamente fracos. No possua qualquer sensibilidade 
da cintura para baixo E, de momento, ningum sabia se recuperaria da paralisia. Estava indefeso como um beb num bero, mas tinha uma maneira calma, porm vigorosa, 
de convencer o mdico de que era boa idia.
       Estou a ver que no consigo tirar-lhe essa idia da cabea observou o mdico, finalmente, com um sorriso nos lbios. J passava da meia-noite e no havia 
visitas nos corredores. Foi ento  procura da enfermeira de Bill. Quando esta entrou no quarto, vinha seguida por dois homens. Bill ficou ansioso por instantes, 
preocupado com aquilo que iriam fazer-lhe. Sem dizerem palavra, os homens tomaram posio  cabeceira e aos ps da cama e fizeram-na deslizar lentamente na direco 
da porta.
       Aonde  que vamos, indagou Bill, preocupado. A enfermeira sorriu, e ele percebeu, de imediato, o que se passava. O mdico aguardava-os no corridor.
       Se contar uma palavra disto a algum, volto a p-lo em coma sussurrou. Bill riu-se  uma grave irregularidade. Mas sabia que lhe faria bem, e era pouco provvel 
que fizesse mal a Isabelle. Esta nunca se aperceberia de que Bill estava ao p de si.
       Aps algumas manobras, os dois homens conseguiram que as duas camas ficassem lado a lado. Bill revirou os olhos o mais que pde e a nica coisa que conseguiu 
ver pelo canto do olho foi a cabea de Isabelle envolta em ligaduras. Se mexesse o brao esquerdo, conseguiria tocar-lhe nos dedos. As duas enfermeiras que zelavam 
por ela observavam o que se estava a passar. O mdico dera-lhes instrues para fecharem os olhos. Era bvio para todos o motivo por que Bill se encontrava ali. 
Durante alguns minutos, segurou os dedos de Isabelle na sua mo, depois falou-lhe, completamente alheio s restantes pessoas presentes no quarto.
       Ol, Isabelle... sou eu... o Bill... Tens de acordar! J ests a dormir h demasiado tempo... Tens de voltar... Depois, num sussurro: Amo-te... Vai tudo correr 
bem.
       Deixaram-no ficar mais alguns minutos, depois levaram-no para o quarto. Quando chegou, estava exausto e plido. Ento, ao pensar nela, recordou-se, de repente, 
de um sonho que tivera, mas no se lembrava quando. Estavam os dois a caminhar em direco a uma luz muito brilhante e, pouco antes de a atingirem, obrigou-a a regressar, 
o que a deixara extremamente incomodada. Os filhos de ambos tambm l estavam e ele queria voltar. Mas Isabelle desejava continuar. Agora queria repetir-lhe as palavras 
que lhe dissera ento. Ela tinha de voltar, de acordar. Estava ansioso por v-la de novo. S de pensar que Gordon tentara lev-la para Frana sentia um pavor enorme 
dentro de si. Era evidente que Isabelle no estava em condies de ser transferida. Mas o mdico assegurara-lhe de que nunca permitiriam tal coisa. Sentiu-se mais 
aliviado e mais confortado por saber que Isabelle estava perto de si.
       Nessa noite, adormeceu a pensar nela. Deitada na sua cama no Claridge's, Cynthia tambm pensava em Isabelle. E no quarto que a mulher ocupara dois dias antes, 
deitado em cima da cama, Gordon reflectia sobre Bill. Todos tinham muita coisa em que meditar, e as nicas pessoas que sabiam as respostas para as perguntas eram 
Bill e Isabelle.

CAPTULO SEIS
       No dia seguinte, quando Cynthia chegou, a enfermeira dava de comer a Bill. Era domingo, j haviam passado quatro dias depois do acidente e Bill ainda continuava 
abalado. Mas era uma satisfao enorme estar acordado e vivo.
       Que tal vai isso, querido? perguntou Cynthia, em tom prazenteiro. Trazia uma T-shirt, cales e um par de sandlias que uma das filhas lhe emprestara. Olivia 
e Jane haviam ido dar um passeio por Londres. As horas que permaneciam no hospital eram demasiadas para elas. Planeavam passar pelo hospital ao fim da tarde. Como 
 que te sentes, indagou, aproximando-se da cama.
       Estou pronto para jogar umas partidinhas de tnis. A voz ainda estava um pouco rouca, mas j se fazia entender com clareza.
       Haviam-no barbeado pela primeira vez e j se sentia com um ar mais humano, mas ainda havia um longo caminho a percorrer. Dissera ao mdico que a viso estava 
um pouco turva, o que no era de estranhar. O impato na cabea fora forte e os efeitos do coma ainda se iriam fazer sentir durante mais algum tempo. Um especialista 
viera examinar-lhe as pernas e a coluna, e o mdico assistente dissera-lhe que estavam a pensar em oper-lo, dependendo da opinio do especialista. Era evidente 
para toda a gente que a sua recuperao ia ser demorada. E ainda no se sabia se voltaria a andar. Tinha conscincia disso, mas era um assunto que ele e Cynthia 
queriam evitar, embora ambos soubessem que, dadas as leses ao nvel da coluna vertebral, havia uma possibilidade real de ficar confinado a uma cadeira de rodas 
para o resto da vida.
       Cynthia no tinha pressa de abordar esse assunto com Bill. Este j tinha problemas que chegassem. Nos ltimos quatro dias, ela no parava de pensar em como 
seria viver com o marido nessas condies. No fazia a mnima idia se Bill voltaria a trabalhar ou de como seria a existncia dele se se visse obrigado a retirar-se 
da vida poltica. Nem sequer conseguia imaginar esse cenrio Tal como ele Mas ambos sabiam que as consequncias poderiam ter sido bem piores. Houvera a possibilidade 
de ter ficado completamente paralisado. E mostraram-se aliviados quando souberam que tinha grandes hipteses de manter as funes ao nvel do trax e dos braos, 
se bem que a questo da bacia e dos membros inferiores ainda estivesse em aberto, o que estava a aterroriz-lo.
       Como esto as nossas filhas? perguntou Bill, algo ansioso e tenso, enquanto Cynthia puxava uma cadeira e se sentava.
       Esto boas. Foram dar uma volta. Passam por c depois. Ambas as raparigas estavam extraordinariamente aliviadas por o pai ter sobrevivido. E a me incentivara-as 
a irem dar uma volta para desanuviar.
       Deviam voltar para casa esta semana, Cyn. Nada podem fazer aqui.
       Estvamos para vir  Europa dentro de semanas. No creio que queiram deixar-te agora. Sorriu e, por instantes, Bill desviou o olhar. Talvez as leve a passar 
uns dias a Paris, se te sentires melhor daqui a algumas semanas. No tardas a voltar para casa. Mas no estava to certa como queria fazer crer. O mdico avisara-a 
de que Bill ficaria hospitalizado durante meses. Ela ainda lhe perguntara se havia hiptese de ele fazer a viagem num avio de transporte de doentes, mas todos os 
mdicos haviam sido de opinio de que ainda era muito cedo para fazer qualquer tipo de movimento.
       No sei quando poderei voltar para casa, Cyn. E elas no podem passar todo o Vero aqui sentadas,  minha espera.
       Eu no tenho coisa melhor para fazer afirmou Cynthia, em tom jovial.
       Bill sorriu.
       As coisas devem ter mudado muito nas ltimas semanas. Andas sempre de um lado para o outro. No vais a um torneio de tnis, passear, ou dar uma festa? Vais 
ficar maluca, aqui sentada, a olhar para mim.
       No vou deixar-te sozinho, Bill. Vou acabar por mandar as midas para casa, a no ser que queiram ir a algum lado sozinhas. "Para o bem e para o mal", lembras-te? 
Eu lembro. No vou deixar-te aqui sozinho repetiu.
       J sou um rapaz crescido retorquiu Bill, com ar srio. Havia algo sinistro no seu olhar. Cynthia ficou preocupada. Estava a tentar dar um tom ligeiro  conversa, 
mas no conseguia evitar que ele dissesse o que muito bem lhe apetecia. Ia falar contigo acerca disso, dessa questo do "para o bem e para o mal". Nos ltimos anos, 
temos tido muitas coisas "ms". A culpa  minha. Passei tanto tempo em viagens e embrenhado na poltica, que no vos dei a devida ateno, a ti e s midas. H muito 
tempo que tinha um sentimento de culpa relativamente a essa questo, mas j haviam estabelecido um padro de distanciamento entre eles, que era praticamente impossvel 
dar um rumo diverso s coisas.
       Habitumo-nos. Ningum te culpa por isso. Tenho uma vida. Tenho coisas para fazer. No estou a queixar-me do casamento, Bill. Cynthia exibia um ar srio. 
A enfermeira deixara-os a ss quando comearam a falar.
       Vocs deviam ter protestado, Cyn, h muito tempo E tambm eu deveria ter-me queixado. O nosso casamento j no existe H muitos anos. No fazemos as mesmas 
coisas, no temos os mesmos amigos Nem sequer sei o que fazes a maior parte do tempo. Ultimamente, at me tenho esquecido de te dizer onde estou. Para ser honesto, 
nem sei se te importas com isso. Estou surpreendido por teres vindo at Londres. Sempre pensei que ficarias contente no dia em que eu desaparecesse.
       No estava a armar-se em vtima. Era tudo verdade E no lhe referiu que sabia dos muitos casos que ela tivera nos ltimos tempos, embora houvessem falado 
de uma histria que se passara com ele vrios anos antes. Cynthia ficara furiosa, pois sentira-se humilhada. Mas Bill sempre fora um cavalheiro e nunca referira 
que os breves romances que ela mantivera com os instrutores de tnis, os jogadores profissionais de golfe e os maridos das amigas o haviam humilhado durante anos. 
A fidelidade j no era um aspecto do casamento que ela pudesse oferecer-lhe. Ao princpio, fora a sua forma de vingana por se sentir rejeitada, quando Bill comeara 
a ficar obcecado pela poltica. s vezes, achava que isso era uma forma de atrair as atenes, mas fora a opo errada. Bill acabou por se desprender e obrigou-se 
a no ligar importncia. No lhe dizia nada quando devia dizer, porque era mais fcil fechar os olhos quilo que estava a acontecer. O que outrora sentira por ela, 
trinta anos antes, morrera h muito. A amizade fora a nica coisa que restara, e Bill estava grato por Cynthia se encontrar ali consigo, se bem que j no houvesse 
qualquer tipo de paixo. Apercebera-se disso nas horas que passara com Isabelle.
       Ests a ofender-me ripostou Cynthia, com ar magoado. Como podes pensar que no viria c depois de teres o acidente? Deves considerar-me uma mulher sem corao.
       No, querida, sei que tens corao. E esboou um sorriso triste. S que j no  meu h muito tempo. Quem me dera que tivesse sido. s vezes, desejava que 
ainda fosse, mas j no , e  essa realidade que temos de encarar. Tencionava falar-te no assunto quando chegasse a casa.
       Cynthia fitou-o, em magoado silncio, durante um longo instante, os olhos marejados de lgrimas. No acreditava que Bill estivesse a dizer-lhe aquilo. Por 
ironia do destino, quando percebera que ainda o amava, este dizia-lhe que j nada existia, que estava tudo acabado. Ainda nem sequer sabia o que ele iria dizer-lhe 
a seguir. Mas o prembulo no parecera muito encorajador.
       Isto tem a ver com a Isabelle? perguntou Cynthia, tentando manter-se calma. Ests apaixonado por ela, no ? No era altura de se refugiar atrs de palavras. 
Estava curiosa por saber se Bill pensava casar com Isabelle. No era costume nele ter casos. Tanto quanto sabia, s lhe conhecera um: o romance com a esposa de um 
congressista, caso esse que chegara a ser muito srio. E pusera-lhe termo porque sabia que, se continuasse, teria de deixar Cynthia e as filhas.
       No tem nada a ver com a Isabelle retorquiu Bill, falando-lhe com toda a sinceridade. Tinha de ser assim, para bem de todos. Tem a ver comigo. No sei por 
que razo continumos casados este tempo todo. Por hbito, desconfio. Ou por preguia, ou por uma qualquer iluso de que as coisas melhorassem, ou por comodismo, 
ou talvez porque as miudas eram pequenas. Mas  assim que queres viver? Casada com um tipo que nunca vs? Nunca conversamos, no temos nada em comum, a no ser as 
midas. Tu tens a tua prpria vida, eu tenho a minha. Mereces muito mais do que isso e eu tambm.
       Cynthia sabia que era verdade, mas eram palavras que no queria ouvir.
       Poderamos tentar de novo, se quisssemos. Apercebi-me, quando isto te aconteceu, de que ainda te amo. Eu  que tenho sido estpida ao longo destes anos todos. 
Ao princpio, irritava-me que te divertisses tanto com o que fazias e que no me inclusses nessa grande fatia da tua vida. Por isso, resolvi tambm divertir-me. 
Fi-lo da pior maneira e acabei sempre na merda, comigo prpria e contigo. Mas isso podia mudar. Vejo agora o quanto nos resta, o quanto nos amamos. As lgrimas soltaram-se 
de repente e correram-lhe pelas faces. Inclinou-se para a frente e tocou-lhe na mo. Fiquei aterrorizada quando pensei que ia perder-te. Amo-te, Bill. No nos abandones 
agora. Temos ainda muito tempo  nossa frente.
       Se pudesse, Bill teria abanado a cabea, mas o olhar dizia a mesma coisa.
        demasiado tarde, Cyn. Nada nos resta, a no ser as filhas e o fato de sermos bons amigos.  por isso que ests aqui. Faria o mesmo por ti. No vais perder-me, 
Cyn. No podes  por isso que quero que as coisas no tomem outro rumo, que no continuem tal como estavam. Caso contrrio, acabaremos por nos detestar, e no quero 
que isso acontea, por ns e pelas nossas filhas. Se as coisas terminarem aqui, seremos sempre amigos.
       Sou tua esposa. Cynthia lutava pela sua vida, mas no estava a conseguir vencer. No quero ser apenas tua amiga.
        melhor do que a alternativa. Um destes dias, vais envolver-te com o tipo errado, talvez um dos meus amigos, ou algum de quem gosto, e vou estar-me nas 
tintas para ti e para ele. E a existncia entre ns, depois disso, no ser das melhores. Bill estava admirado por Cynthia nunca ter provocado nenhum escndalo. 
Pelo menos, fora cuidadosa.
       No voltarei a fazer nada disso. Cynthia chorava copiosamente. Era humilhante ouvir o marido dizer que sempre soubera de todas as suas leviandades. Ela que 
sempre se convencera de que ele no sabia de nada e que, provavelmente, tambm fazia a mesma coisa. Mas Bill era um homem demasiado srio para isso e extremamente 
leal. Por essa razo, muito provavelmente, se apaixonara por Isabelle. Por ser um homem nobre de sentimentos. Quando sentia amor por algum, era amor sincero. Nunca 
mais terei nenhum caso. Juro. Agora no ando com ningum. Acabara a ltima ligao amorosa h apenas quatro meses, depois de trs meses de romance com um homem que 
conhecera no Country Club. Tinha mulher e trs filhos, e bebia muito. Era bom na cama, mas Cynthia receara que ele desse com a lngua nos dentes quando estava bbedo. 
No queria passar por embaraos.
       Voltars a faz-lo. Ambos sabemos que sim. E talvez tenhas razo. Estamos a milhes de quilmetros de distncia um do outro, mesmo quando nos encontramos 
juntos. No queremos nem merecemos nada disto. De repente, veio-lhe  mente Isabelle. No pensava noutra coisa durante todo o dia. Passava as noites a sonhar que 
vagueava, sem destino,  procura dela.
       Vais casar com ela? Cynthia acabou a pergunta com um soluo.
       Bill sentia que era a altura de lhe dizer tudo aquilo que ia dentro de si, por muito que lhe custasse. Apesar do acidente, queria pr j um ponto final na 
relao com Cynthia. As coisas s iriam piorar e no era justo estar dependente dela. Cynthia acabaria por odi-lo. No era o tipo de mulher que conseguisse passar 
anos, j para no dizer o resto da vida, a cuidar do marido. Acabar confinado numa cadeira de rodas at ao fim da vida era a ltima coisa que lhe queria infligir, 
sabia que s lhe restava uma alternativa, que era sair de casa e cuidar de si.
       No, no vou casar-me com a Isabelle. Ela no vai abandonar o marido, caso sobreviva. Ele  um sacana, um tipo sem escrpulos. Mas ela tem um filho doente. 
J te disse que no tem nada a ver com ela. Tem a ver conosco. Ainda me agradecers este dia, quando descobrires o tipo certo para que eu nunca fui. No princpio 
de casados, passmos bons momentos, mas nunca queramos as mesmas coisas E no acredito naquela histria de que "os opostos se atraem", na nossa idade, no Nesta 
altura da vida, precisamos de pessoas que queiram as mesmas coisas que ns. Sempre desejaste ter uma vida diferente da minha. Sempre pensei quando ramos jovens, 
que isso no importava, mas estava enganado. Precisas de um tipo divertido que goste de ir a festas e que tenha muito tempo para te dedicar. No precisas de um manaco 
que vive obcecado com o trabalho, que passa o tempo em viagens e que est mais preocupado em saber quem vai ser o prximo presidente do que com as prprias filhas. 
Bill sabia que iria martirizar-se at ao fim da vida por no ter dado o devido acompanhamento s filhas, por mais prximo que estivesse delas agora.
       s um grande pai, Bill Sempre foste maravilhoso para as midas. Elas no poderiam adorar-te mais. As filhas veneravam-no, embora estivessem habituadas a passar 
a maior parte do tempo sem ele. Tinham um profundo respeito e orgulho por tudo o que ele fazia.
       No as acompanhei devidamente, reconheo. Nunca conseguirei compens-las. Mas vou tentar. Irei abrandar um pouco a minha vida poltica. Mas j era demasiado 
tarde. Estavam ambas na faculdade e tinham as suas prprias vidas. Bill j perdera o barco, e essas oportunidades, uma vez perdidas, nunca mais voltavam.
       Que mais queres dizer-me? perguntou Cynthia, comeando a ficar apavorada.
       Acho que devemos divorciar-nos.  a nica maneira de conseguirmos preservar aquilo que ainda nos resta Cyn, quero ser teu amigo.
       Vai-te foder. E sorriu por entre as lgrimas - Nunca pensei que nos abandonasses Cynthia no conseguia acreditar que aquilo estivesse a acontecer-lhe, especialmente 
naquele momento. Trs dias antes, a nica coisa que lhe interessava era que Bill vivesse. Todavia, na manh em que lhe telefonaram a dar a notcia do acidente, chegara 
a pensar que seria melhor ele morrer, caso viesse a ficar com um elevado grau de deficincia. Nunca quisera que Bill a abandonasse, mas agora era o que ele estava 
disposto a fazer no conseguiu deixar de perguntar-se se ele no estaria debaixo de uma depresso e a reagir ao acidente de uma forma histrica. Tens a certeza de 
que  isso que queres? Sofreste um choque terrvel.  natural que...
       Bill interrompeu-a antes que acabasse a frase. Aparentava um ar calmo.
       Devamos ter feito isto h anos, Cyn. S que nunca tive coragem.
       Bem, lamento que a tenhas nesta altura. Agora que estou apaixonada por ti outra vez  que queres abandonar-me. Digo-te uma coisa, Bill Robinson: o teu sentido 
de oportunidade  um nojo. E desatou a chorar. Depois, olhou-o com ar destroado. Por que razo no me fizeste parar, se sabias o que eu andava a fazer ao longo 
de todos estes anos? Porque no me disseste qualquer coisa? Era uma sensao horrorosa constatar que Bill tinha conhecimento dos seus casos amorosos. Mas ambos sabiam 
que no era a ele que competia faz-la parar, mas a ela.
       No sabia o que dizer. No queria encarar o problema sozinho. Primeiro, tentei convencer-me de que nada de anormal estava a acontecer. Depois, habituei-me. 
No sei, Cyn... Talvez no quisesse ser honesto comigo mesmo. Mas agora no tenho alternativa. J no possuo energia suficiente para contar histrias de fadas a 
mim mesmo. E talvez nunca mais volte a ter algum na minha vida. Pelo menos, nenhum de ns estar a viver uma mentira.  melhor. No achas?
       No, no acho. Prefiro viver uma mentira a perder-te, no temos de viver uma mentira. Desta vez podamos tentar tudo como deve ser, se me deres outra oportunidade. 
Ao dizer isto, Cynthia parecia a mesma rapariga que casara com Bill. Este ficou de corao destroado e quase desejou t-la confrontado anos antes, mas no estava 
preparado nessa altura.
        demasiado tarde. Para os dois. S tu  que ainda no sabes isso.
       Que vou dizer s pessoas? As palavras de Bill atingiram-na como um soco. Toda a idia do divrcio era to humilhante para Cyntia que s lhe apetecia fugir 
e esconder-se.
       Diz-lhes que finalmente abriste os olhos e me deste um pontap no rabo. Provavelmente era o que devias ter feito quando endoideci e comecei a trabalhar cento 
e quarenta horas por semana. Ambos fizemos coisas estpidas. A culpa no  tua. Como sempre, Bill mostrava-se equilibrado, simptico e justo, o que a magoava ainda 
mais. Cynthia sabia que nunca mais voltaria a encontrar um homem como ele. Homens como Bill eram muito raros
       O que vou dizer s midas?
       Isso  outra histria. Vai ser difcil. Acho que devamos pensar no assunto. J tm idade suficiente para compreender, mas, provavelmente, isso no ir acontecer. 
Ningum gosta de mudanas.
       Nem eu insistiu Cynthia, com a voz embargada. No pensara nisso, mas iria ser muito mais difcil para Bill. Este tinha um longo e tortuoso caminho  sua frente 
e resolvera fazer-se a ele sozinho. No possua quaisquer iluses relativamente  sua recuperao. Sabia que havia a forte possibilidade de nunca mais voltar a andar, 
e a reabilitao ia ser um processo angustiante, especialmente sozinho. Mas tambm sabia que Cynthia nunca suportaria tal situao, daria em doida. Ela no era como 
Isabelle. Nunca conseguiria fazer aquilo que esta fazia pelo filho. Mas Bill estava disposto a carregar sozinho o fardo que tinha pela frente.
       Cynthia levantou-se e foi at  janela. Estava de olhar perdido no espao e ar descorooado, quando entrou o embaixador americano. Este ouvira falar do acidente 
e lera a notcia no Tribune. Estava destroado. Quando Cynthia se voltou, com os olhos vermelhos e inchados de tanto chorar, o embaixador reparou que ela tambm 
se mostrava desesperada com o sucedido. No lhe passou pela cabea que pudesse encontrar-se no meio de um drama conjugal. Precipitou-se ento para a cama e tomou 
a mo de Bill na sua, com um ar de profunda consternao estampada no rosto.
       Meu Deus, Robinson, o que  que te aconteceu? Estive para me encontrar contigo a semana passada. Nem queria acreditar na notcia quando lha deram. Entretanto, 
reparou no olhar estranho que Cynthia e Bill trocaram.
       Pus-me a competir com um autocarro que vinha a grande velocidade. Ele ganhou. Foi uma estupidez afirmou Bill, com um sorriso, mas estava com ar cansado. A 
troca de palavras com Cynthia deitara-o abaixo. Cyn, porque no vais dar uma volta com as midas? Ir fazer-te bem sares deste ambiente.
       Cynthia fez um gesto afirmativo com a cabea, incapaz de falar. No queria chorar diante do embaixador e sabia que o faria se ficasse. Tambm no lhe apetecia 
estar com as filhas. Pensou ento que talvez fosse melhor voltar para o hotel e chorar  vontade.
       Volto logo  noite disse, dando-lhe um beijo na face. Os olhos ficaram novamente inundados de lgrimas. Amo-te sussurrou, e saiu apressadamente do quarto.
       Pobre Cynthia, sofreu um choque terrvel! observou o embaixador, condodo. Conhecia Bill e Cynthia h vrios anos. Era de Nova Iorque e j uma vez pensara 
em concorrer  presidncia, mas Bill desencorajara-o. Nunca teria ganho, mas estava a fazer um timo trabalho na embaixada. J l se encontrava h trs anos e Bill 
sabia que o presidente ia pedir-lhe que ficasse durante outro mandato.
       Ests bom?
       Agora estou melhor. Apesar da manh que acabara de passar. No esperava ter aquela conversa com Cynthia naquela altura, mas sabia que fizera o que a conscincia 
lhe ditara. Planeara proceder desse modo quando chegasse a casa. E sabia que no podia deixar que o acidente o fizesse mudar de idias. Alm disso, no queria criar 
quaisquer iluses a Cynthia, por mais doloroso que isso pudesse ser.
       Precisas de alguma coisa? indagou o embaixador, sentando-se. A mulher pedira-lhe que no se demorasse muito tempo.
       Nada por a alm. Pescoo novo, coluna nova e um bom par de pernas, esse tipo de coisas. Tentava gracejar com a situao, mas o olhar era triste.
       Que dizem os mdicos?
       Pouca coisa. Ainda  muito cedo para se saber a evoluo. Acho que se o Roosevelt conseguiu percorrer o pas numa cadeira de rodas, eu tambm consigo. Ambos 
sabiam que sim. Toda a sua vida mudara num piscar de olhos, no s a vida poltica, mas tambm muito provavelmente a sua vida pessoal. Nessa altura, ainda era impossvel 
avaliar todas as implicaes do acidente.  parte o fato de no andar ainda no sabia se voltaria alguma vez mais a fazer amor com uma mulher. Tambm j estava ciente 
dessa eventualidade quando dissera a Cynthia que queria o divrcio. Esta nunca conseguiria adaptar-se a tal situao. Mas havia motivos ainda mais convincentes para 
se divorciarem. As suas enfermidades constituam apenas o corolrio de uma situao insustentvel.
       Fazes idia de quanto tempo  que vais c ficar.
       Provavelmente muito tempo respondeu Bill, num tom deprimido. Sentia-se muito cansado. A manh no fora fcil e o fato de acabar com o casamento entristecia-o 
profundamente. No s perdera a esposa como tambm estava em risco de perder Isabelle, a amiga mais chegada. O futuro era sombrio. Nada tinha a esperar deste, a 
no ser um ano muito rduo, a tentar pr-se bom de novo Mas, pelo menos, estava vivo.
       Bem, podes contar conosco afirmou o embaixador Stevens, em tom jovial. A Grace tambm vir visitar-te, mas noutro dia. No te queria cansar. Se precisares 
de alguma coisa,  s telefonares para a embaixada. Basta pedires a Cynthia que ligue  Grace. Presumo que ela vai ficar contigo. A pobre mulher tinha um ar desesperado 
quando sara. Mas encarar a eventualidade de Bill ficar invlido para sempre, pensou Jim Stevens, podia no ser fcil para ela. Vou dizer  Grace para lhe telefonar 
dentro de dias. Bill no lhe comunicou que ia pedir a Cynthia para voltar para o Connecticut com as filhas. Limitou-se a sorrir e a deix-lo falar. Eram velhos amigos, 
mas no queria partilhar a idia do divrcio com ele. Ainda era um assunto muito recente. Alem disso, queria que as filhas fossem as primeiras a saber, por uma questo 
de respeito.
       O embaixador olhou ento para o relgio e depois para Bill, e achou que j se encontrava ali h tempo mais do que suficiente. Grace tinha razo. Bill estava 
com ar extremamente abatido. Cinco minutos depois, saiu De repente. Para Bill, o velho embaixador, que dias antes mais parecia seu pai, aparentava agora uma jovialidade 
e uma vitalidade invejveis, e tudo porque conseguira sair pelo seu prprio p. 
       As horas pareceram custar mais a passar depois disso. Bill dormiu um bocado. O especialista apareceu ao fim da tarde. No voltou a saber mais nada de Cynthia, 
mas desconfiava que estava no Claridge's, a lamber as feridas. Continuava convencido de que, por mais dolorosa que aquela situao estivesse a ser, ela acabaria 
por dar a volta por cima.
       O especialista no tinha nada muito animador para dizer, ps Bill ao corrente de todas as hipteses possveis, do pior ao melhor. Por aquilo que vira nas 
radiografias e nos relatrios da operao, achava pouco provvel que pudesse voltar a andar. Era possvel que acabasse por recuperar alguma sensibilidade nas pernas, 
mas a coluna sofrera leses de tal modo graves que muito provavelmente nunca mais recuperaria o controlo total sobre as pernas. Mesmo que tivesse alguma sensibilidade 
nelas, no conseguiria pr-se de p. Teria mais mobilidade se usasse uma cadeira de rodas. Era essa a boa notcia. A m era que, se os nervos continuassem o seu 
processo de degenerao, juntamente com a leso no pescoo, poderia no recuperar qualquer sensibilidade na parte inferior do corpo. Acabariam por aparecer artroses, 
que piorariam a deteriorao dos ossos e que, juntamente com aquilo que j tinha, iriam provocar-lhe uma vida inteira de sofrimento. Todavia, achava que, com os 
seus cinquenta e dois anos, tinha hiptese de recuperar alguma mobilidade das pernas, mesmo que nunca mais voltasse a andar sozinho. Considerava que o pescoo de 
Bill levaria quatro a seis meses a cicatrizar e o trabalho de reabilitao nas pernas um ano ou mais. Havia ainda uma ou duas operaes suplementares que poderiam 
realizar, mas achava que os benefcios seriam mnimos e os riscos elevadssimos. Se tentassem melhorar aquilo que lhe restava, podia acabar paralisado do pescoo 
para baixo. Bill concordou com tudo o que ouviu. O quadro que o mdico lhe apresentara era real, mas no era bonito, e teria de fazer apelo a todas as suas foras 
para ultrapassar aquela barreira que se atravessara no seu caminho. Teria de aplicar-se ao mximo durante o ano seguinte para conseguir algum grau de mobilidade 
nas pernas Seria igualmente obrigado a fortalecer a parte superior do tronco para compensar, j para referir o trabalho que tinha de efectuar no pescoo.
       Com o tempo e muito esforo, poderia levar uma vida aceitvel, se estivesse disposto a fazer o respectivo acompanhamento psicolgico que o ajudaria a superar 
as limitaes fsicas. Tratava-se de uma situao terrvel, mas no era o fim do mundo.
       Ento, como se conseguisse ler os pensamentos de Bill, O mdico respondeu  pergunta que ele ainda tinha medo de fazer. Era evidente que nunca mais voltaria 
a andar pelo seu p e que se veria confinado a uma cadeira de rodas at ao fim da vida. Mas no tinha ainda qualquer idia de como  que ficaria em termos de vida 
sexual. Bill manteve-se em silncio, embora o pnico o avassalasse. O mdico explicou-lhe, sem rodeios, que havia uma forte hiptese de recuperar a sensibilidade 
sexual e de levar uma vida relativamente normal nesse plano, se bem que ainda fosse muito cedo para garantir tal coisa. O mdico tentava animar Bill o melhor que 
podia. Teria de experimentar, mas os progressos ainda no eram muito grandes. Era horrvel nunca mais voltar a andar, mas o mdico no queria que ele perdesse completamente 
a esperana relativamente ao resto.
       Se a sua esposa for paciente disse o mdico, sorrindo-lhe, as coisas podem correr muito bem.
       No lhe explicou que, dentro de pouco tempo, j no teria esposa e no se imaginava a experimentar com mulheres com quem sasse. No entanto, queria saber, 
pelo menos, se a funo sexual se manteria activa. Teria de esperar para ver, o que era angustiante. O que planeava fazer, logo que estivesse recuperado, era aquilo 
que sempre fizera, atirar-se ao trabalho de alma e corao. O trabalho era a nica coisa que lhe restava.
       Depois de o mdico sair, ficou mergulhado em pensamentos. Estava extremamente deprimido. Acontecera muita coisa em poucas horas. Era difcil adaptar-se  
idia de nunca mais voltar a andar.. Nunca mais voltar a andar. Estas palavras no paravam de lhe matraquear a cabea. Mas sabia que podia ter sido pior. Podia ter 
ficado totalmente paralisado, ou morto, ou o traumatismo cerebral podia t-lo deixado com deficincias mentais permanentes. Porm, apesar de dever estar grato por 
no lhe ter acontecido nada de pior, a possvel perda da masculinidade parecia ter mais peso do que tudo o resto. A angstia em relao a essa probabilidade estava 
a deix-lo num estado de profunda depresso. Ao pensar nisso, o seu esprito vagueou novamente at Isabelle. E ali ficou, de olhos fechados, a pensar nos momentos 
que haviam partilhado no incio da semana. Custava a acreditar que tudo se passara apenas quatro dias antes. Danara com ela no Annabel's, sentira-a junto a si e 
agora no voltaria a danar, e ela debatia-se contra a morte. Custava-lhe acreditar que, possivelmente, no voltaria a falar com ela, nem a ouvir a sua voz, nem 
a ver o seu rosto maravilhoso. Os olhos inundaram-se de lgrimas. Quando a enfermeira entrou no quarto, Bill ainda pensava em Isabelle e as lgrimas corriam-lhe 
pelas faces. Ela conhecia h muito tempo o especialista que estivera com Bill e sabia que as notcias que ele lhe dera no haviam sido boas. Pensou que Bill se mostrava 
destroado por causa disso e tentou anim-lo. No conseguia imaginar o que poderia significar para um homem bem-parecido e cheio de vitalidade como Bill saber que 
nunca mais voltaria a andar na vida. Desde o primeiro dia que as enfermeiras previam que este seria o desfecho mais provvel. As leses eram extremamente graves.
       Quer alguma coisa para as dores, Mister Robinson?
       No, sinto-me bem. Como est Mistress Forrester? H alguma alterao no seu estado? Era a pergunta sacramental que fazia sempre que via uma das enfermeiras 
e nenhuma destas sabia se ele o fazia por se sentir, de alguma forma, responsvel pelo acidente, pois Isabelle sara com ele, ou por estar apaixonado. Era difcil 
dizer. A nica enfermeira que sabia era a que se encontrava no quarto quando ele visitara Isabelle na noite anterior e que prometera ao mdico no dizer nada sobre 
aquilo que ouvira.
       Encontra-se praticamente na mesma. O marido esteve c um bocado e acabou de sair. Acho que vai voltar para Paris. No h nada que ele possa c fazer. A no 
ser estar com ela, falar-lhe e pedir para voltar. Bill detestava Gordon. Achava-o uma pessoa cruel e sem escrpulos. Lembrou-se ento de que, se Gordon j sara 
do hospital, podia fazer noVa visita a Isabelle e referiu isso mesmo  enfermeira. Esta sabia que ele fora visit-la na noite anterior e que o mdico assistente 
de ambos autorizara, mas no sabia o que ele pensaria do fato de Bill fazer nova visita. Porm, quando reparou no olhar deste, constatou de imediato que ele tivera 
um dia extremamente difcil e que se encontrava afectado pelo estado clnico de Isabelle, e ficou cheia de pena dele.
       Vou ver o que posso fazer prometeu a enfermeira e desapareceu. Cinco minutos depois, voltou acompanhada de dois enfermeiros, que destravaram a cama e o conduziram 
lentamente em direco  porta. A enfermeira teve de retirar os fios que o ligavam a alguns monitores, mas a situao clnica de Bill j era suficientemente estvel 
para poder manter-se alguns minutos sem eles.
       A enfermeira que se encontrava no quarto de Isabelle abriu a porta, e os enfermeiros empurraram a cama para dentro do quarto e colocaram-na ao lado da dela. 
As persianas estavam fechadas. As enfermeiras foram ento at um canto para os deixarem a ss. Bill voltou-se o melhor que pde e tocou-lhe nos dedos da mo, tal 
como fizera no dia anterior.
       Sou eu, Isabelle. Tens de acordar, querida. Tens de voltar. O Teddy precisa de ti. Eu tambm Preciso de falar contigo. Sinto imensas saudades tuas. As lgrimas 
corriam-lhe descontroladamente pelas faces. Pouco depois, ficou em silncio, com a mo dela na sua. As enfermeiras estavam prestes a sugerir que voltasse para o 
quarto, enquanto ele exibia um ar estranhamente calmo. Dava a sensao de estar prestes a adormecer. De repente, a porta abriu-se e surgiu Gordon Forrester. As enfermeiras 
ficaram sobressaltadas. Gordon dirigiu-se, ento, em tom rspido,  enfermeira que cuidava de Isabelle.
       Por favor, leve imediatamente Mister Robinson para o seu quarto.
       Bill no proferiu qualquer palavra quando passou por Gordon. No existia qualquer dvida relativamente ao que estava a acontecer, ou ao motivo por que o haviam 
levado at junto de Isabelle. Bill sentia-se aterrorizado. Tinha a certeza de que Gordon insistiria para que o proibissem de visitar Isabelle. Mas uma vez que Gordon 
iria voltar para Paris em breve, Bill envidaria todos os esforos para que o levassem de novo at junto dela. Estava embrenhado nestes pensamentos quando Gordon 
Forrester entrou de rompante no seu quarto.
       Se volto a encontr-lo no quarto dela, Robinson, ou souber que l esteve, ponho-o daqui para fora. Entendido.
       Gordon mal conseguia controlar a raiva que fervilhava dentro de si. Bill estava a invadir o seu territrio, e isso ele no iria tolerar. Isabelle pertencia-lhe 
e ia fazer todos os possveis para que Bill nunca mais se aproximasse dela, fosse qual fosse a natureza da sua relao. Isabelle pertencia-lhe.
       No me impressiona, Mister Forrester retorquiu Bill calmamente, fixando-o nos olhos O embaixador Stevens tambm teria uma palavra a dizer relativamente  
minha transferncia daqui do hospital. Mas no preciso que ele trave as minhas batalhas. A Isabelle e eu somos amigos h muito tempo. Nunca fiz nada que merea a 
sua desaprovao, posso garantir-lhe. A no ser um beijo no carro na noite fatdica, mas Gordon no precisava de saber, era s entre ele e Isabelle. Estou preocupado 
com a Isabelle. Voc  um homem de sorte. Ela  uma mulher maravilhosa e desejo ardentemente que sobreviva. O Teddy precisa dela, ainda mais do que voc. Se o simples 
fato de falar com ela, ou de estar aqui a seu lado, a puder ajudar, ento  isso que farei.
       Afaste-se dela. J basta o que fez. Quase a matou, e que estavam a fazer juntos quela hora da noite? No tem idia. Deixaram-se fotografar pelos paparazzi, 
que fizeram de vocs e de mim parvos. Pensava que ia escapar sem castigo, no era? Agora a melhor coisa que tem a fazer  manter-se afastado do quarto dela e das 
nossas vidas. No precisamos de um escndalo consigo envolvido.
       No ter nenhum escndalo comigo envolvido ripostou Bill, num tom convincente.
       No estou assim to certo disso E probo-o de entrar no quarto dela. Fiz-me entender?
       Por que motivo a detesta tanto? indagou Bill, quando Gordon j ia a sair. Este parou e virou-se para trs. Est louco? No a detesto  a minha esposa. Por 
que razo acha que estou aqui?
       No tinha alternativa. Julga que se no estivesse aqui conseguia continuar a fingir que se preocupa com ela? Seria muito difcil. Ambos sabemos por que razo 
se encontra aqui. Pelas aparncias e porque no tem qualquer alternativa.  responsvel pela Isabelle, mas est-se nas tintas para ela, Forrester, e duvido que alguma 
vez se tenha preocupado com o seu bem-estar.
       Voc  um sacana disparou Gordon, antes de sair. Mas no conseguiu deixar de perguntar a si prprio se fora Isabelle a dizer a Bill que o marido a detestava. 
Gordon tinha a impresso de que Bill sabia de mais.
       Bill pensava ainda na troca de palavras que tivera com Gordon, quando Cynthia e as filhas vieram visit-lo nessa tarde. As raparigas haviam ido s compras, 
enquanto Cynthia fora dar um longo passeio para reflectir em tudo o que o marido lhe dissera. Mas nenhum dos dois revelou o teor da conversa que haviam tido, nem 
quais os seus planos relativamente ao divrcio, diante das filhas. Era demasiado cedo para isso. Ficaram at  hora do jantar. Olivia  que deu de comer ao pai com 
uma colher. Bill ainda tentou comer sozinho, mas espalhou a comida por todo o lado, especialmente a sopa.
       O que disse o mdico? indagou Cynthia, antes de sarem.
       Que irs desenvencilhar-te bem sussurrou Bill. Cynthia ficou de imediato de lgrimas nos olhos. Estava a brincar. Disse que podia recuperar alguma sensibilidade 
nas pernas, com muito trabalho.  um desafio interessante. Quem sabe. Talvez consigam o milagre de me porem a andar. Continuava a acreditar nessa hiptese, embora, 
segundo o mdico, fosse muito pouco provvel. Inicio a fisioterapia dentro de trs semanas. S querem comear quando as fracturas estiverem melhor cicatrizadas.
       Podes fazer a fisioterapia em casa sugeriu Cynthia. Continuava destroada com a deciso do marido, mas ainda acreditava que, com o tempo, ele voltasse atrs.
       Talvez. Veremos retorquiu Bill, evasivo. No queria dizer muita coisa diante das filhas. E tu? Quando  que vais para casa? J pensaste nisso? indagou, algo 
desanimado. Fora uma tarde difcil.
       As midas querem c ficar o resto da semana. Pensei em lev-las a passar uns dias a Paris, se estiveres bem; depois posso voltar. Continuava com a esperana 
de que Bill mudasse de idias, mas a voz deste foi firme. No havia qualquer arrependimento da sua parte. Sabia que estava a fazer aquilo que a sua conscincia mandava.
       No  preciso. Estou bem. Devias voltar com as midas. Sei que tencionas ir ver os teus pais ao Maine. Cynthia j resolvera no voltar  Europa. Depois do 
Maine, iria diretamente para a casa de Hampton. Volto para os Estados Unidos dentro de pouco tempo. Havia muita coisa que Bill tinha de fazer. Se voltasse para os 
Estados Unidos, devia procurar uma clnica de reabilitao onde pudesse ficar durante uns tempos. Depois, precisava de arranjar um apartamento e sair de casa. Mas 
ainda era muito cedo para pensar nisso. E, primeiro, teriam de contar s filhas o que haviam resolvido. Queria faz-lo na companhia de Cynthia, de modo a que as 
filhas percebessem que os pais continuavam a ser amigos. Isso tinha muita importncia para si, e para elas tambm, seguramente.
       Cynthia e as filhas voltaram para o hotel, para jantar. Bill ficou toda a noite em silncio. Tinha uma vontade louca de ir de novo ver Isabelle, mas no queria 
abusar da sorte e Gordon ainda poderia estar na cidade. De qualquer forma, sentia-se cansado. Fora um dia em cheio. Haviam-lhe dito que, muito provavelmente, nunca 
mais voltaria a andar, "talvez" conseguisse manter a funo sexual, embora no tivessem a certeza, vira Isabelle, tivera um embate com Gordon e dissera a Cynthia 
que queria o divrcio.

CAPTULO SETE
       Gordon Forrester partiu para Paris na madrugada de segunda-feira. Telefonou para o hospital antes de partir e informaram-no de que o estado de Isabelle no 
sofrera qualquer evoluo. Levava consigo todos os pertences dela que haviam ficado no quarto do hotel. No fazia sentido deixar-lhe nada no hospital. No estado 
em que se encontrava, no precisava de nada. Ao atravessar o canal da Mancha, sentia que sabia tanto como quando chegara. Os mdicos ainda no tinham a certeza se 
ela sobreviveria ou no. Os rgos internos pareciam estar a recuperar muito lentamente. O corao e os pulmes eram os alvos de maior preocupao. As leses no 
fgado levariam muito tempo a sarar E o traumatismo craniano, se bem que menos grave que o resto das leses, continuava a mant-la em coma profundo. Mas, se iria 
acordar, morrer ou continuar eternamente em coma, era uma histria ainda por contar Havia muitas questes em aberto O fato de estar viva cinco dias depois do acidente 
j era um sinal de esperana Mas o seu estado continuava a ser extremamente crtico.
       Quando aterrou no Aeroporto Charles de Gaulle, em Roissy, Gordon sabia que no podia continuar a encobrir as coisas dos filhos. Estivera  espera que houvesse 
sinais de recuperao da parte de Isabelle, mas isso nunca acontecera E achava perigoso continuar nesse impasse. Sophie j tinha idade suficiente para saber a verdade, 
que estava na iminncia de perder a me E Teddy, por mais doente que fosse, s tinha de encarar o fato. Estava certo de que Sophie lhe daria algum conforto. Iria 
esperar que ela regressasse de Portugal para contar a Teddy. No era o tipo de situao em que se considerassse perito E especialmente naquele caso, em que praticamente 
no tinha qualquer relao com o filho.
       Ao pr as malas num txi, em Rossy, pensou novamente em Bill Robinson e no encontro desagradvel que haviam tido. Continuava enfurecido pela audcia e a 
arrogncia da pergunta de Bill relativa ao motivo por que detestava Isabel. No conseguiu deixar de perguntar-se se essa era a opinio dela. No detestava a esposa. 
Perdera-a nos anos caticos e abismais que se haviam seguido ao nascimento de Teddy. Aos seus olhos, Isabelle j no era sua esposa, era a enfermeira de Teddy, nada 
mais do que isso.
       No se admiraria se Isabelle justificasse o caso com Bill com o fato de o marido a detestar. Se tinham estado juntos no Annabel's, como os jornais e a fotografia 
comprovavam, a ligao no era to inocente como Bill queria fazer crer. Gordon ainda tinha uma grande quantidade de perguntas sem respostas mas, a no ser que Isabelle 
recuperasse, sabia que nunca as iria obter. Bill Robinson no iria dizer-lhe rigorosamente nada. Toda essa questo aborrecia-o, mas era um fato indesmentvel que 
h anos no pensava em Isabelle do ponto de vista romntico ou sexual.
       Deixara instrues expressas no hospital para que Bill no voltasse a ser autorizado a voltar ao quarto de Isabelle. A enfermeira tomara nota do pedido, mas 
ele ficara com a estranha sensao de que iriam fazer letra morta deste. Mostravam uma simpatia descomunal por Bill e nenhuma por ele. J para no falar no enorme 
respeito e admirao por quem ele era. Bill Robinson era um homem muito importante.
       Quando deixou o aeroporto, foi direto ao escritrio, donde fez uma srie de telefonemas. Explicou a situao  secretria e esta no lhe referiu que vira 
a fotografia de Isabelle e Bill no International Herald Tribune. Nessa tarde, a pedido de Gordon, deu-lhe o nmero de Sophie em Portugal. Isabelle deixara-o com 
a secretria quando partira para Londres.
       Sophie estava alojada numa casa alugada em Sintra. No se encontrava em casa, de modo que Gordon no teve outro remdio seno deixar-lhe recado para telefonar, 
o que aconteceu s seis horas, quando se preparava para abandonar o escritrio. Pegou no auscultador e soltou um suspiro, tentando ganhar coragem para aquilo que 
tinha a dizer.
       Que tal estava Londres. Tu e a mam divertiram-se.
       Como  que sabes que fui a Londres? No dissera rigorosamente a ningum,  exceo de Teddy e da enfermeira.
       Telefonei para casa no fim-de-semana e falei com o Teddy. Ele no lhe disse.
       Ainda no o vi. Fui direto do aeroporto para o escritrio disse Gordon, num tom frio. Tentava escolher as palavras certas.
       Ento, telefono para casa. Tenho de perguntar uma coisa  mam.
       Ela no pode falar contigo declarou Gordon, num tom enigmtico. Vivia um pesadelo do qual no conseguia acordar. E para agravar ainda mais a situao, tinha 
de puxar os filhos para dentro desse mesmo pesadelo.
       Porqu. Saiu?
       No, a tua me est em Londres.
       Engraado. Ela ficou l? No era costume a me deixar Teddy sozinho durante seis dias. Sophie sabia que a me partira para Londres na tera-feira. Quando 
 que volta? Mostrava-se confusa.
       Ainda no sabemos. Soltou um ltimo suspiro e foi direto  questo. A tua me teve um acidente. Instalou-se ento um silncio sinistro do outro lado da linha. 
O corao de Sophie batia mais do que nunca. Havia algo aterrador no tom de voz de Gordon. Um acidente muito grave. Acho que devias voltar para casa.
       O que aconteceu? Ela est bem? Mal conseguia articular as palavras.
       Encontrava-se num carro que foi abalroado por um autocarro. Est em coma. No sabem o que vai acontecer. Tem leses internas muito graves. Pode no sobreviver. 
Desculpa estar a dizer-te isto pelo telefone. Mas quero que regresses a Paris o mais depressa possvel. Apesar dos sentimentos pela filha e alegadamente por Isabelle, 
Gordon dava a impresso de estar a marcar uma reunio de negcios. Fazia os possveis para no sentir a dor da filha. Era uma fraqueza que no podia permitir-se
       Oh, meu Deus. oh, meu Deus... Sophie encontrava-se no limiar do histerismo, que no era costume nela. Normalmente, era uma pessoa fria e calma, muito ao jeito 
do pai. Mas aquilo que este lhe dissera suplantava os seus piores pesadelos. Mentalizara-se, toda a vida, para perder o irmo, mas nunca a me, por quem tinha um 
amor incomensurvel Oh, meu Deus, pap, acha que ela vai morrer.
       Gordon ouvia Sophie a chorar e, por instantes, ficou sem saber o que dizer.
        possvel respondeu, com algum desconforto, de olhar perdido no espao. E veio-lhe  memria o dia em que a me morrera. Tentou ento ver-se livre dessas 
recordaes. O fato de ainda estar viva j  um sinal animador, mas o seu estado  extremamente crtico e no tem havido melhoras.
       Sophie desatou a chorar convulsivamente. Gordon ficou sem saber o que dizer. No queria mentir-lhe, nem dar-lhe falsas esperanas. A verdade era que Isabelle 
podia morrer a qualquer momento. Sophie tinha de encarar essa realidade, tal como Teddy.
       Sophie lembrou-se ento de algo que lhe provocou um calafrio na espinha.
       O Teddy j sabe? Ele nunca lhe mentira. Sophie no conseguia imaginar o irmo a esconder aquele tipo de segredo dela.
       No, no sabe. Espero que lhe digas quando voltares. Acho que devias j comear a tratar da viagem de regresso. Tens a algum que possa ajudar-te?
       No sei respondeu, algo desorientada. Quero ir a Londres ver a mam. Parecia uma criana de cinco anos. De repente, sentia-se uma rf.
       Quero que venhas primeiro para casa ordenou o pai, num tom firme. Queria-a consigo quando desse a notcia a Teddy. No queria carregar esse fardo sozinho.
       Est bem retorquiu Sophie, ainda a chorar convulsivamente.
       Telefona-me quando souberes a hora de chegada. Mando algum buscar-te. Nem mesmo naquelas circunstncias ps a hiptese de ser ele prprio a ir busc-la. 
O carcter reservado era to natural nele que nem mesmo pela filha quebrava essas barreiras. Mas Sophie j estava habituada a esse comportamento da parte do pai. 
Alis, todos estavam, embora ela fosse a mais chegada a ele.
       Vou tentar chegar a esta noite. Estava a duas horas de viagem. Ainda poderia apanhar um avio ao fim do dia, se se Despachasse. Caso contrrio, teria de 
esperar at  manh seguinte.
       Depois de desligar, Gordon pediu ao motorista que o conduzisse a casa. Era a primeira vez que via Teddy em quatro dias. Este parecia bem-disposto e perguntou 
pela me logo que viu o pai  porta do quarto
       Onde est a mam. L em baixo. Os olhos at brilharam quando pronunciou a palavra "mam".
       No, no est respondeu Gordon, evitando dar mais pormenores. A Sophie deve chegar logo  noite.
       A srio. Teddy pareceu surpreendido, mas a manobra de diverso no surtira efeito. A mam disse que a Sophie estaria duas semanas em Portugal. Por que volta 
to cedo. Esta no lhe referira esse fato quando lhe telefonara no sbado e, instintivamente, teve um pressentimento. Ento, como um co que volta para o seu osso, 
fez a mesma pergunta. Onde est a mam.
       Gordon nem sequer se deu ao trabalho de lhe responder que ainda se encontrava em Londres. Teddy pressentia que havia algo que no estava bem. Era uma criana 
inteligente e sensvel, que no se deixava enganar facilmente. A Gordon s lhe restava esperar que Sophie chegasse a casa o mais depressa possvel para o ajudar 
a dar-lhe a notcia. Decidiu resolver o problema metendo-se na biblioteca E ficou espantado quando, uma hora depois, levantou os olhos e viu Teddy entrar devagarinho 
na sala. Insistira em descer as escadas sozinho. A enfermeira no conseguira det-lo. Estava com um ar agitado e muito plido.
       Passa-se qualquer coisa disse Teddy, sem flego, encostando-se a uma cadeira, ao mesmo tempo que fixava o pai nos olhos. Gordon sempre o tratara com desdm 
durante toda a vida, mas desta vez no ia ficar calado. Exibia o mesmo ar determinado da me. O pai nunca o vira assim E, pela primeira vez, reparou que Teddy j 
no parecia um mido pequeno. Quero saber onde est a minha me. E sentou-se. Estava disposto a esperar toda a noite por uma resposta. S de rastos o levariam dali. 
Gordon tentou mostrar um ar irritado para dissimular o pavor que sentia dentro de si. A debilidade do filho sempre lhe causara algum desconforto, mas Teddy estava 
muito melhor. Seis meses antes no teria conseguido descer as escadas. Gordon soltou um suspiro, no vendo forma de evitar a resposta.
       A tua me est em Londres respondeu, com a esperana de que no houvesse perguntas subsequentes. Mas o olhar do filho indiciava que a resposta no o satisfizera.
       Porqu?
       Foi a uma exposio de arte retorquiu Gordon, desviando o olhar, e tentando que o filho desistisse de fazer perguntas.
       Eu sei. Foi h seis dias. Porque no voltou consigo? Gordon levantou os olhos e teve a sensao de estar a ver o filho pela primeira vez. Passara a vida inteira 
sem lhe ligar nenhuma importncia. E agora no conseguia evitar o seu olhar fixo.
       Era um rapaz bonito, mas tudo lhe correra mal na vida. As enfermidades de que padecia sempre tinham aterrorizado Gordon, que, agora, ao ver a angstia estampada 
no olhar do filho, no conseguia disfarar uma certa perturbao. No podia adiar por mais tempo o momento de lhe contar a verdade, mas no queria com isso ser responsvel 
por um retrocesso no seu estado de sade. A vida de Teddy sempre se mantivera presa por um fio e no queria ser ele a cortar esse fio vital com a notcia do desastre 
que atirara a me para a cama de um hospital.
       Teve um acidente informou Gordon, em voz baixa, sem olhar para o filho. No conseguiria suportar aquilo que sabia que veria nos olhos do rapaz. Teddy conteve 
a respirao.
       Est bem. A voz saiu-lhe num sussurro. J pressentia que algo se passava, mas estava aterrorizado com aquilo que o pai iria dizer-lhe.
       Vai ficar boa, espero. No sabemos ainda. Est muito mal. Sinto muito disse, algo constrangido. Mas Teddy no chorou. Manteve-se sentado, a respirar cuidadosamente, 
de olhos postos no pai,  espera que este desse mais pormenores.
       No a pode deixar morrer murmurou Teddy, como se Gordon tivesse algum poder para alterar o rumo das coisas.
       No depende de mim. Sabes bem que no quero que lhe acontea nada. Mas o olhar de Teddy falava por si. Sabia muito bem como a me era infeliz, embora ela 
nunca tivesse feito qualquer comentrio a esse respeito. Era a segunda vez em dois dias que algum acusava Gordon de no gostar de Isabelle e isso irritava-o.
        por isso que a Sophie vai voltar para casa? Gordon fez um gesto afirmativo com a cabea. Estava sentado em frente ao filho, do outro lado da sala. Nunca 
lhe passou pela cabea levantar-se e ir abra-lo. Teria sido algo que no era natural nele. Ao contrrio de Isabelle, que estaria abraada a Teddy, caso tivesse 
sido Gordon a ter o acidente. At ele sabia isso.
       Quero ir a Londres com a Sophie ou consigo disse Teddy, com ar determinado. Quando  que l volta? Tinha a certeza de que iria. No conseguia suportar a idia 
de a me l estar sozinha.
       No sei. Achei melhor vir para junto de ti. Teddy tentava perceber o que o pai acabara de dizer.
       Gordon estava espantado com o fato de o filho no estar a chorar. Teddy era mais corajoso do que julgava.
       Quero falar com ela. Pode telefonar-lhe agora? Gordon fez um gesto negativo com a cabea.
       No, no podemos. Est inconsciente desde o acidente. Encontra-se em coma, por causa de uma pancada na cabea.
       Oh, no! exclamou Teddy, imaginando a me gravemente ferida. Desatou, finalmente, a chorar. Quero ir j v-la. Mostrava-se extremamente agitado.
       Ela no dar pela tua presena. E no te faria bem nenhum. Alm disso, no ests em condies de fazer a viagem.
       Era uma realidade com que tinha de viver, por pior que fosse o estado de sade da me. Uma viagem at Londres encontrava-se fora de questo.
       Eu tenho foras suficientes para aguentar a viagem ripostou Teddy, em tom intempestivo, limpando as lgrimas.
       A mam precisa de ns no hospital. Ela est sempre ao p de mim. No podemos deix-la sozinha, pap. No devemos fazer isso. De repente, parecia de novo uma 
criana, a chorar, sem saber o que fazer.
       Esperemos at a Sophie chegar. Gordon exibia um ar cansado. Porque no vais descansar para o teu quarto. 
       Isto no te faz nada bem disse-lhe, como se Teddy fosse uma pessoa adulta, mas este no se importou. A nica coisa que queria era ir para junto da me. Nada 
o iria deter. Ainda falava no assunto quando entrou no pequeno elevador que havia sido montado propositadamente para ele, ao lado das escadas, h vrios anos. Chegou 
ao quarto e deitou-se. O olhar chispava de raiva. Falava sem parar. Depois de jantar, a enfermeira tirou-lhe a temperatura. Estava com febre. Ficara demasiado agitado, 
o que era perigoso. Precisamente o tipo de reao que Gordon esperava que Teddy tivesse quando ouvisse a notcia.
       Este ainda se encontrava acordado quando Sophie chegou, ao fim da noite. Conseguira apanhar um voo das oito, e  meia-noite j se encontrava em Paris.
       Quando ouviu o carro, Gordon levantou-se e foi esper-la  porta de casa. Sophie lanou-se nos braos do pai mal o viu e desatou a chorar.
       Oh, pap... por favor, no a deixe morrer... Gordon nunca vira a filha to transtornada. Logo que ficou mais calma, foi ver o irmo. Teddy aguardava-a na 
cama. E abraaram-se como se no se vissem h vrios anos. A coisa mais terrvel e impensvel acontecera-lhes. Nem queriam acreditar. Era algo que estava para alm 
do tolervel, do racional. Choraram durante muito tempo nos braos um do outro. Finalmente, o pai entrou no quarto, o rosto marcado pelo cansao. As emoes do dia 
haviam sido demasiado fortes para todos.
       Vou contigo a Londres ver a mam afirmou Teddy para Sophie, enquanto o pai os observava, de semblante carregado. A reao dos filhos fora ainda pior do que 
aquilo que receava.
       Acho que ele no devia ir. Ficar pior do que est. Gordon falava de Teddy como se este no o ouvisse.
       A mam no aprovaria acrescentou Sophie, afagando os cabelos do irmo, que estava a arder em febre. Ficaria aborrecida se piorasses, e no ser bom para ela 
quando acordar. Sophie sublinhou a palavra "quando", no pondo Sequer a hiptese de haver um "se". Teddy ouvia-a, de olhos esbugalhados.
       Quero v-la de qualquer maneira, mesmo que esteja em coma Saber que estou ao p dela. Era a mesma teoria de Bill, mas Gordon no concordava. Achava que a 
visita de Teddy no fazia qualquer sentido.
       Ela no tem conscincia de quem est junto de si. Gordon estava seguro disso, no acreditava que as pessoas em coma ouvissem o que quer que fosse, ou sentissem 
o que se passava  sua volta. Especialmente depois de a ver, estava convencido de que era um disparate e no iria permitir que o filho fosse v-la. Seria uma loucura 
e um enorme risco para quem o l levasse. Teddy encontrava-se demasiado debilitado para sair de casa, quanto mais para fazer uma viagem daquela envergadura.
       Ento, Sophie, para que  que l vais, j que a mam no tem conscincia de que l ests, indagou Teddy, num tom algo mordaz.
       A Sophie no est doente ripostou Gordon. E acho que deve ir. Eu fico c contigo.
       No vai, pap? Sophie pareceu algo chocada, mas no fez qualquer comentrio quando o pai abanou a cabea.
       Vou quando regressares. Podes ir amanh e passas l o dia, ou a noite, como preferires.
       Pensei l ficar mais algum tempo, talvez uns dias.
       Veremos como ela est, mas no fiques l muito tempo disse Gordon, e saiu do quarto. No fazia tenes de permanecer sozinho com o filho durante um longo 
perodo de tempo. Queria que fosse Sophie a cuidar dele, o que no poderia acontecer se ela ficasse em Londres com a me.
       Nessa noite, Sophie dormiu na cama de Teddy, abraada a ele. No dia seguinte, levantou-se cedo, ainda ele dormia. Tomou um duche e vestiu-se. Estava pronta 
para partir para o aeroporto quando Teddy acordou.
       J vais, perguntou Teddy, ensonado. Tambm quero ir. Mas estava to exausto e to fraco que mal conseguia mexer-se. A noite anterior fora demasiado cansativa 
para ele.
       Volto o mais depressa que puder sussurrou Sophie, e saiu. Ia despedir-se do pai, mas este j partira para o banco. Conseguira o bilhete na noite anterior 
e tinha reserva no Claridge's. Sabia o nome do hospital onde a me se encontrava internada: Hospital St. Thomas. E ainda tinha dinheiro que lhe havia sobrado da 
viagem a Portugal. O motorista do pai aguardava-a  porta. Meia hora depois, encontrava-se em Roissy. No havia trnsito nas ruas, e aparentava um ar muito mais 
calmo do que na vspera.
       O voo aterrou ao meio-dia, hora local, e um carro do Claridge's conduziu-a de imediato ao hospital. Sophie sentia-se uma pessoa adulta no seu vestido azul-marinho 
e com o par de sapatos que a me lhe comprara. Os cabelos estavam puxados para trs. Porm, para quem a visse, mesmo com os seus dezoito anos, parecia uma criana, 
os seus enormes olhos assustados e carregados de angstia.
       As enfermeiras sorriram quando Sophie se dirigiu  recepo. Depois de se identificar, uma das enfermeiras conduziu-a, de imediato, ao quarto da me. A porta 
em frente deste encontrava-se aberta e viu um homem a olhar para ela. Estava deitado de lado, de olhos postos na porta, incapaz de se mexer.
       P ante p, Sophie entrou no quarto e ficou de imediato chocada com o que viu. A me tinha um ar cadavrico e a cabea envolta em ligaduras. Um ventilador 
ajudava-a a respirar e havia monitores e tubos ligados a todas as partes do corpo. Ao aproximar-se da cama, os olhos inundaram-se de lgrimas. E ficou como que petrificada, 
de olhos pregados na me, a acariciar-lhe a mo. A enfermeira puxou ento uma cadeira para junto da cama e Sophie sentou-se. Instintivamente, comeou a falar com 
a me, com a esperana de que esta ouvisse. Disse-lhe quanto a amava e rogou-lhe para que vivesse. Isabelle no exibia qualquer sinal de vida. As nicas coisas que 
mexiam eram o ventilador e as pequenas linhas dos monitores. No havia qualquer outro som ou movimento no quarto. A me estava com um aspecto ainda mais aterrador 
do que aquilo que esperara. S a muito custo conseguiria sobreviver.
       Sophie manteve-se sentada ao lado da me at por volta das quatro horas, altura em que saiu do quarto. O mesmo homem que a vira entrar olhava de novo para 
ela. As enfermeiras haviam-no informado de que se tratava da filha de Isabelle, mas ele, mal a vira, percebera logo de quem se tratava. Parecia Isabelle em mais 
jovem.
       Sophie? chamou Bill.
       Sophie ficou espantada por ele saber o seu nome. Aproximou-se ento da ombreira da porta.
       Sim respondeu, com alguma hesitao. Ainda estava abalada por aquilo que acabara de ver. Bill teve vontade de a abraar. Seria o mnimo que poderia fazer 
por Isabelle.
       Chamo-me Bill Robinson. A sua me e eu somos amigos. Eu estava no carro com ela disse, como que pedindo desculpa por ela se encontrar ali. Lamento o que aconteceu.
       Sophie assentiu com a cabea, sem tirar os olhos dele. No se lembrava de a me alguma vez ter referido o seu nome, mas parecia um homem simptico e tambm 
ficara muito maltratado, mas, ao contrrio da me, estava acordado e vivo.
       O que lhe aconteceu no acidente? indagou Sophie, cautelosa, receosa de entrar no quarto. Ainda no percebera quem ele era ou por que razo estava com a me.
       Fracturei o pescoo e tive traumatismo craniano. Mas a sua me est pior do que eu proferiu Bill, com ar triste. Daria o que fosse preciso para trocar com 
a sua me. daria at a vida, se pudesse.
       Sophie ficou impressionada por aquilo que ele dissera E estava curiosa por saber como  que ele e a me se haviam tornado amigos. Por causa de Teddy, a me 
nunca ia a lado nenhum.
       Como  que o Teddy est a encarar a situao? J sabe?
       O meu pai contou-lhe ontem  noite respondeu Sophie. Era estranho ele conhecer toda a sua famlia e esta no o conhecer. Ficou um bocado abalado Ontem  noite, 
tinha febre, mas queria vir na mesma. Amanh, tenho de voltar para tratar dele. Preferia ficar, mas ele precisa de mim.
       Bill tinha vontade de estender o brao e tocar-lhe. Era to parecida com a me.
       H alguma coisa que possa fazer por si? perguntou Bill, sentindo-se to desamparado como ela. Ningum podia fazer o que quer que fosse. Ningum podia alterar 
o rumo das coisas. E se Isabelle saa ou no de coma, s Deus sabia.
       No, estou bem. Mas o semblante era triste.
       Onde est alojada?
       No Claridge's.
       A minha mulher e as minhas filhas tambm l esto. Se tiver algum problema, telefone-lhes. Mal acabou de dizer isto, Cynthia e as filhas apareceram  porta 
do quarto e viram Sophie a falar com Bill. Este fez ento as apresentaes. Sophie fez meno de sair. No queria fazer o papel de intrusa. Ficou com a impresso 
de que Jane teria a mesma idade que ela, e no se enganava. Despediu-se delicadamente de todos e saiu. Voltaria ao fim da noite.
        a filha dela? indagou Cynthia.
       . Tambm tem um filho, mas est muito doente. Cynthia no fez qualquer comentrio e comeou a deambular pelo quarto, sem saber bem o que fazer. As filhas 
falavam com o pai.
       Haviam resolvido partir no dia seguinte. Iam permanecer uma semana em Paris. Na viagem de regresso aos Estados Unidos passariam por Londres. Bill achou boa 
idia e pediu-lhes que se divertissem. Concordara com Cynthia em falar-lhes do divrcio nessa altura. Quando chegassem a casa, teriam tempo de se habituar  idia. 
Bill no queria estragar-lhes a viagem a Paris. Nessa noite, Cynthia ia levar as filhas a jantar fora. Iam aproveitar-se do fato de Bill ser cliente habitual do 
Bar Harry's. Ao ouvir isto, Bill pensou de imediato em Isabelle e lembrou-se dos momentos inesquecveis passados na sua companhia.
        noite, quando Sophie voltou para ver a me, Bill estava deitado de costas, a pensar em Isabelle. Desta vez, entrou no quarto para se informar do seu estado 
de sade.
       Como  que se sente, Mister Robinson?
       Praticamente na mesma. E a Sophie? Como est?
       Ela encolheu os ombros e os olhos inundaram-se de lgrimas. Cortava-lhe o corao ver a me naquele estado, e no havia qualquer sinal de ela estar em vias 
de recuperar a conscincia. Isabelle encontrava-se suspensa num lugar remoto de onde ningum sabia se regressaria algum dia. As enfermeiras haviam-lhe dito que ela 
podia viver assim durante anos, sem sair do estado de coma, at morrer. Alm de ser uma perspectiva hedionda e representar a perda de uma mulher extraordinria, 
era uma injustia desesperante. Desde o acidente que Bill desejava morrer e que Isabelle fosse poupada.
       Como  que conheceu a minha me? indagou Sophie, colocando-se ao lado da cama. Desde essa tarde que a questo no lhe saa da cabea. O pai no lhe dissera 
que a me se encontrava no carro com outra pessoa. Ficara espantada quando Bill lhe referira esse fato.
       Conhecemo-nos h muito tempo, na Embaixada dos Estados Unidos, em Paris. Bill sentiu, de repente, necessidade de falar de Isabelle, e ficou grato a Sophie 
por puxar o assunto. Almoamos umas duas vezes por ano e conversamos, s vezes, ao telefone. E ela conta-me tudo acerca do Teddy e de si.
       Sophie teve vontade de lhe perguntar se estava apaixonado pela me, ou esta por ele, mas, como eram ambos casados, achou que seria um pouco grosseiro da sua 
parte. Mas achava estranho a me nunca lhe ter falado nele.
       Tambm conhece o meu pai? Bill sorriu e convidou-a a sentar-se.
       Sim, tambm o conheo. Julgo que est furioso comigo desde o acidente. Cr que isto nunca teria acontecido se no tivssemos ido jantar fora. No lugar dele 
tambm pensaria assim.
       A culpa no  sua. A enfermeira disse que o motorista morreu.  tudo to terrvel. No compreendo como uma coisa assim pode acontecer E os olhos ficaram novamente 
marejados de lgrimas. A minha me  uma pessoa to boa que no merecia uma coisa assim.
       Sim,  uma pessoa muito boa. Tambm havia lgrimas nos olhos de Bill. Estendeu a mo e apertou a de Sophie. De certa forma, era como tocar em Isabelle; em 
contrapartida, para Sophie, aquele homem, amigo da me, era como que um meio para chegar at ela. Havia um estranho elo que os unia a Isabelle.
       Nem sempre fui boa para ela confessou Sophie. 
       Zangava-me muitas vezes. Passava demasiado tempo com o Teddy, quando eu era mais nova. Achava que ela no tinha tempo para mim. Tratava-se de uma forma de 
confessar as suas angstias e as coisas de que agora se arrependia. Bill ouvia-a com ar compreensivo.
       Ela adora-a, Sophie. No disse outra coisa de si a no ser que  uma rapariga extraordinria.
       Mostrava-se feliz nessa noite? A voz era triste. Estava a divertir-se?
       Era uma pergunta estranha e a nica coisa em que Bill conseguia pensar era no primeiro e ltimo beijo que haviam trocado.
       Sim, estava. Visitmos uma magnfica exposio nessa tarde e ela ficou maravilhada com o que viu. Depois, fomos jantar. Vim a Londres para me avistar com 
o embaixador americano. Encontrmo-nos, por acaso, no Claridge's, e combinmos jantar juntos. No via motivo para lhe dizer que se haviam encontrado em Londres propositadamente 
e que estava apaixonado por Isabelle. Esta no quereria que a filha soubesse, nem ele prprio queria. H muito tempo que no nos vamos.
       A minha me nunca se diverte. Est sempre em casa, a tratar do Teddy.
       Eu sei. A vontade dela  essa. Adora-vos.
       Sophie ficou uns instantes em silncio. Por fim, levantou-se. Ainda no sabia muito bem quem Bill era, mas sentia que encontrara um novo amigo. Antes de sair, 
esboou um sorriso. Ao olhar para ela, Bill s via Isabelle e a mulher que Sophie seria um dia.
       Venho v-lo amanh. Estarei c de manh antes de partir.
       Teria imenso gosto. Obrigado por falar comigo, Sophie. Fora um momento de conforto no meio da terrvel solido em que se encontrava mergulhado. A vida, tal 
como a conhecera, estava prestes a tomar um rumo totalmente diferente. Nunca mais voltaria a andar, a saltar, a danar ou a Passear pela rua. A sua movimentao, 
tal como a sua vida, seria complicada da para a frente. Acabara com o casamento e perdera a mulher que amava. De momento, no tinha nada a que se apegar, andava 
 deriva no meio do oceano, sem qualquer sinal de terra  vista. Os poucos minutos que passara com a filha de Isabelle proporcionaram-lhe um imenso conforto. Mesmo 
que nunca mais voltasse a v-la, o que era uma forte possibilidade, estava satisfeito por a ter conhecido.
       Na manh seguinte, a caminho do aeroporto, Cynthia e as filhas vieram despedir-se de Bill. Sophie chegou pouco depois de elas terem sado. Sentou-se ao lado 
da me durante mais de uma hora e depois foi despedir-se de Bill. Encontrou-o deprimido, presumindo que pelo fato de a famlia ter ido embora e o ter deixado sozinho. 
No fazia idia de que era por causa de sua me. Ainda no tinha a certeza de que Bill estava apaixonado por ela, embora suspeitasse.
       Adeus, Mister Robinson disse Sophie, delicadamente, preparando-se para sair. Fao votos para que melhore o mais depressa possvel.
       Bill no lhe perguntou se voltaria, pois no se sabia ainda se Isabelle conseguiria sobreviver.
       Tome bem conta de si... pela sua me, Sophie. Sei que ela ficaria preocupadssima. E cuide do Teddy proferiu, com lgrimas nos olhos. Ficarei a pensar em 
si.
       Rezarei uma orao pelo senhor quando for  igreja. Sophie sentia-se triste por o deixar. Era como se deixasse um pouco da me.
       Tambm rezo uma pela Sophie. Bill estendeu o brao, pegou-lhe na mo e beijou-a. Ento, com um tmido sorriso, Sophie saiu. E Bill ali ficou, de olhos fechados, 
a pensar em Isabelle.
       Pouco depois, conduziram-no at ao quarto da sua amada, cujo estado no sofrera qualquer alterao. Bill falou-lhe ento da visita que Sophie lhe fizera.
        uma rapariga maravilhosa. J sei porque tens tanto orgulho nela disse, como se Isabelle conseguisse ouvi-lo. E ali ficou, ansiando por que ela lhe estendesse 
a mo e acordasse finalmente daquele sono de morte. Sentia-se cansado quando o levaram para o seu quarto. As frequentes visitas a Isabelle acabaram por provocar 
comentrios entre a equipe de enfermagem. Encaravam-nas como um gesto nobre da parte de Bill. Ningum perguntava por que motivo  que ele as fazia ou o que acontecera 
entre eles. Alm disso, havia uma srie de enfermeiras que acreditava que s Bill conseguiria traz-la de volta  vida.

CAPTULO OITO
       Sophie pensou bastante em Bill na viagem de regresso a Paris e percebia por que razo a me gostava daquele homem. Parecera-lhe uma pessoa ntegra. Tinha 
imensa pena dele. Uma das enfermeiras dissera-lhe que ele nunca mais voltaria a andar. Bill parecia encarar esse fato de forma filosfica. Estava destroado por 
Isabelle ter sofrido o acidente ao sair com ele.
       Quando o avio aterrou, os pensamentos de Sophie centraram-se de novo na me e no irmo. Sentia-se dividida relativamente ao lugar onde achava que devia estar. 
Resolvera passar uns dias em casa e depois queria voltar a Londres.
       Apanhou um txi no aeroporto. Quando chegou a casa, esta estava mergulhada num estranho silncio. No se ouvia o mnimo rudo. Quando subiu, reparou que os 
aposentos do pai se encontravam s escuras. Ao entrar no quarto de Teddy, ficou chocada com o estado de sade do irmo. Ardia em febre. O mdico acabara de sair, 
como explicou a enfermeira, e dissera que, se a febre no baixasse nessa noite, teria de ser internado.
       O que aconteceu? Sophie sentou-se numa cadeira, com ar esgotado. Tinha a sensao de ter envelhecido de um dia para o outro. Teddy nem sequer sabia que ela 
se encontrava ali. Estava sob o efeito de sedativos, num sono profundo.
       Julgo que est preocupado com a sua me sussurrou a enfermeira. H dias que no dorme como deve ser. E praticamente no come nem bebe. O mdico ainda adiantara 
a hiptese de o pr a soro, mas Teddy fez tal gritaria que o mdico achara por bem deixar isso para outra altura, se ele prometesse comer e beber. Sophie achava-o 
mais magro.
       Onde est o meu pai, perguntou Sophie, passando as mos pelos cabelos, cada vez mais parecida com Isabelle.
       Saiu respondeu a enfermeira, sem mais qualquer outro comentrio. No o via desde o dia anterior, mas no disse nada a Sophie. Como estava a sua me?
       Na mesma. Ningum sabe o que acontecer. Disseram que ela podia estar em coma durante muito tempo at conseguir recuperar. Mantinha a esperana, mas tambm 
lhe haviam dito que a me podia morrer a qualquer momento. S lhes restava rezar e esperar. Volto l dentro de dias.
       A enfermeira mediu novamente a pulsao a Teddy. Estava elevada. Franziu o sobrolho e registrou o valor. Parecia no haver dvidas de que iriam ser obrigados 
a hospitaliz-lo. Sophie concordou. Era o mais seguro.
       Nessa noite, esperou pelo pai, para discutirem o estado de sade de Teddy. Ficou espantada por  meia-noite ele ainda no ter chegado. Perguntou ento  enfermeira 
se o pai sabia que Teddy se encontrava naquele estado.
       Falei com ele esta manh no escritrio. No deve tardar.
       Porm, s trs da manh, Sophie ainda estava acordada e ele ainda no chegara. Horas antes, j telefonara para o hospital, mas ainda no havia qualquer evoluo 
no estado da me. Por instantes, esteve quase a pedir para falar com Bill, apenas para o cumprimentar, mas acabou por no o fazer, por constrangimento.
       Na manh seguinte, acordou ainda vestida e sentada numa cadeira do quarto de Teddy, como vira tantas vezes a me fazer. No era sua inteno dormir ali. Estivera 
 espera do pai e acabara por adormecer. Pensou ento que, provavelmente, o pai tivera o cuidado de no a acordar, ou no sabia que estava  sua espera.
       Quando saiu do quarto para ir  procura do pai, Teddy j se encontrava acordado e com melhor aspecto. A febre baixara, mas ainda no estava totalmente bem. 
Foi, ento, pelo corredor fora, para falar com o pai, e ficou espantada ao ver as Portas do quarto abertas e ningum l dentro.
       Foi ter com a criada, com um ar de espanto estampado no rosto.
       O meu pai dormiu em casa, Josephine.
       A mulher fez um gesto negativo com a cabea e desapareceu pelas escadas abaixo. No era uma resposta adequada para dar a uma rapariga daquela idade. Mas Sophie 
conseguiu saber que o pai no passara a noite em casa. As persianas e os cortinados estavam corridos, as luzes apagadas e o quarto com aspecto de no ter tido a 
presena de ningum durante a noite. A cama estava feita e tudo no seu lugar. Por instantes, ficou em pnico. E se alguma coisa tivesse acontecido ao pai? Ficariam 
rfos. No conseguia imaginar onde  que ele poderia ter estado. Uma hora mais tarde, telefonou para o escritrio e a voz do pai mostrava-se perfeitamente calma 
quando atendeu. Nem queria acreditar que o pai no passara a noite em casa com Teddy naquele estado. Achava uma irresponsabilidade da parte dele.
       O Teddy est doente afirmou Sophie, em tom de acusao, como se a culpa fosse do pai. Gordon no pareceu mostrar grande preocupao com o fato.
       Eu sei. Estive em contato com a Marthe ontem  tarde. O mdico foi v-lo e j falei com ele hoje. No estava para receber lies de moral de uma mida de 
dezoito anos.
       No passou a noite em casa! acrescentou Sophie, em tom sombrio. Quase desatou a rir do tom de voz da filha, mas esta no estava a achar graa nenhuma  situao.
       Sei disso. Estive em casa de amigos fora da cidade. Como j era tarde, achei mais prudente ficar l do que vir a conduzir at casa.
       Sophie desconfiava que o pai estivera a beber e, dado o que acontecera  me, tinha de concordar com o fato de ele no querer conduzir nesse estado.
       Acabei de telefonar para Londres e no h qualquer evoluo.
       Oh! O estado de esprito de Sophie esmoreceu com a notcia. Mas continuava aborrecida com o fato de o pai no ter passado a noite em casa. Se Teddy tivesse 
piorado ainda mais, a presena dele poderia ter sido necessria. Alm disso, ningum sabia onde se encontrava. Mas no havia o menor sinal de arrependimento da parte 
dele, e Sophie deu consigo a perguntar se o pai passava a noite fora regularmente. Nunca dera por isso. E no conseguia deixar de pensar se havia coisas relacionadas 
com os pais que ignorava, especialmente desde que conhecera Bill. Achava estranho nunca ter ouvido falar da amizade da me com ele. Alm disso, nunca se aventurara 
a ir aos aposentos do pai  noite ou de manh, talvez houvesse outras alturas em que tambm passava as noites fora. Saa frequentemente  noite, e a me raramente 
o acompanhava. Teve, de repente, a sensao de que toda a sua vida estava num autntico turbilho, no s por causa do que acontecera  me, mas por causa de tudo 
o que trouxera  tona. Sempre vira o pai como um deus, e agora interrogava-se sobre se o pai no teria segredos. Talvez houvesse mais motivos do que apenas Teddy 
para a me no sair de casa e dormirem em quartos separados.
       Est em casa logo  noite? indagou Sophie, nervosa, sentindo-se mais esposa do que filha e bastante insegura. Estavam a passar-se coisas extremamente assustadoras.
       Claro. Vou jantar fora. Mas estarei em casa antes de ires para a cama.
       Se o Teddy precisar de ir para o hospital,  necessrio que o pap esteja em casa.
       O mdico parece menos preocupado. O Teddy sofreu um choque e agora precisa de tempo para recuperar.
       Todos ns precisamos retorquiu Sophie, num tom triste. Quando  que volta a Londres?
       Dentro de poucos dias. No h nada que possamos l fazer. Telefonam-nos se houver novidades.
       Porm, se a me morresse, pensou Sophie, ningum estaria ao p dela. E se alguma outra coisa acontecesse, ir de Paris a Londres levaria ainda algumas horas. 
Tinha vontade de l estar, mas Teddy tambm precisava da presena dela. E agora que constatara que, de vez em quando, o pai passava a noite fora, sentia que no 
podia deix-lo sozinho. Era difcil decidir qual era a melhor coisa a fazer. O pai parecia muito menos preocupado do que ela.
       Gordon foi ento para uma reunio, e Sophie passou o dia com o irmo a ler e a contar-lhe histrias, e a falar-lhe da me. Fazia o melhor que podia, mas no 
conseguia substituir a me. Depois do jantar, quando o pai chegou a casa, Sophie Parecia uma sombra do que era. Ele, porm, estava bem disposto. sentou-se na biblioteca 
a fumar um charuto. SoPhie ouvira-o entrar e foi ter com ele. Ficou surpreendida com o fato de o pai no ter sequer ido ao piso de cima. Fora sempre to afvel e 
to interessado por tudo o que lhe dizia respeito que achava estranho o distanciamento com que a tratava ultimamente, sobretudo com a me no estado em que se encontrava. 
De repente, ao olhar para o pai, perguntou a si prpria se o anterior interesse dele por ela no seria s aparente, talvez uma forma de aborrecer a mulher, para 
a fazer sentir menos importante em relao  filha. Sophie fora sempre tratada como "a sua pequerrucha" Mas mostrara-se constantemente frio e distante com a me, 
tal como fazia agora com ela.
       Que tal foi o seu dia, pap. indagou Sophie, cautelosa. O dela fora horrvel, dividida entre a preocupao com a me e a necessidade de dar carinho a um irmo 
doente.
       Muito longo. Como foi o teu.
       Estive todo o dia com o Teddy. Sophie esperava que o pai fizesse mais perguntas sobre o assunto, mas, quando referiu o nome do irmo, ficou instantaneamente 
aborrecido E encheu um clice de vinho do Porto.
       Que mais fizeste? perguntou Gordon, concentrado no charuto.
       Sophie achava estranho estar ali sentada a conversar com o pai como se nada tivesse acontecido. A me em coma num hospital de Londres, o irmo com uma recada 
desde que recebera a notcia E o pai parecia pouco preocupado com esses fatos. Ao olhar para ele, lembrou-se do ar destroado de Bill Robinson quando lhe falou da 
me. No viu nada disso no olhar do pai. Este parecia sempre distante e frio de todas as vezes que se referia  mulher.
       Mais nada, pap. Fiquei com o Teddy. Est muito abalado.
       Gordon fez um gesto de concordncia com a cabea e no retorquiu. Dava a sensao de praticamente se ter esquecido de quem ela era. Entretanto, o telefone 
tocou. Gordon atendeu e disse que ligaria em seguida. O corao de Sophie quase parou quando soou a campainha do telefone. Sempre que este tocava, ficava aterrorizada 
com a hiptese de o telefonema ser de Londres a informar o pior.
       Devias ir para a cama disse Gordon, enquanto bebia o porto. Tiveste um longo dia. Era bvio que no queria falar, e Sophie ficou magoada. Nunca se sentira 
to s na vida.
       Quando  que volta a Londres?
       Quando achar que devo ir ripostou Gordon, franzindo o sobrolho. Sophie estava a irrit-lo. Transformara-se na me de um dia para o outro.
       Tambm quero ir retorquiu Sophie, percebendo que o pai no estava contente com ela, mas pouco lhe importando esse fato.
       O teu irmo precisa de ti aqui.
       Quero ver a mam outra vez insistiu Sophie, e Gordon comeou a ficar irritado com essa obstinao da parte da filha.
       Ela nem sequer dar conta de que ests ao p dela. Preciso de ti aqui. No posso passar o dia preocupado com esse mido e as enfermeiras. Durante todo o dia, 
telefonam-me para o escritrio, e no tenho tempo para isso. Tens de cuidar dele. No se tratava de um pedido, mas de uma ordem.
       "Esse mido"  seu filho, pap. Ele no precisa s de mim ou da mam, precisa tambm de si. O pap nunca fala com ele. No conseguia conter-se por mais tempo.
       Ele no tem nada para dizer observou Gordon, com aspereza, enchendo novo clice de vinho do Porto. E no s tu quem me diz o que tenho que fazer.
       Era a mesma conversa que Isabelle tivera com ele muitas vezes ao longo dos anos, e das quais desistira h muito tempo. Por razes que s ele conhecia, estava 
determinado a no ter qualquer relacionamento com o filho. Na sua ingenuidade, Sophie no conseguia alterar essa situao. Se Teddy tivesse nascido saudvel e forte, 
a histria teria sido diferente. Mas, tal como era, para Gordon, o rapaz no existia e no tinha qualquer interesse. Irritava-o, embora agora sentisse pena dele- 
Teddy no passava de um incmodo, de um fardo. Fazia Parte das tarefas de Isabelle, no das dele. E, na ausncia desta das de Sophie.
       A caminho do quarto, Sophie no conseguia esconder a tristeza que sentia pelo fato de o pai falar do irmo daquela forma. Ela e Teddy j haviam abordado o 
assunto vrias vezes, e o irmo sempre dissera que o pai no morria de amores por ele. Mas agora via que era verdade. Teddy afirmava que ele era mau, egosta e frio, 
e que o detestava. E agora constatava que Teddy conhecia uma faceta do pai que ela nunca quisera ver. Ter um filho como Teddy no trazia qualquer proveito a Gordon. 
Preferia ignor-lo, esquec-lo, tal como fizera com a mulher.
       Sophie vestiu a camisa de noite e voltou para o quarto de Teddy. A enfermeira informou-a de que ele estava outra vez com febre. Meteu-se ento na cama e aninhou-se 
ao lado do irmo. Tinha a sensao de que eram duas crianas que haviam acabado de perder a me. Nunca se sentira to triste e to solitria na vida. E a sua nica 
esperana, enquanto as lgrimas caam na almofada, era que a me acordasse do coma o mais depressa possvel. No conseguia imaginar o que seria a sua vida se ela 
morresse.

CAPTULO NOVE
       As coisas no hospital continuavam a avanar. Os fisioterapeutas avaliaram o estado de Bill e estabeleceram um plano de reabilitao. Viravam-no frequentemente 
na cama para activar a circulao sangunea e prevenir uma pneumonia, mas, para ele, os dias eram entediantes E, uma ou duas vezes por dia, levavam-no at ao quarto 
de Isabelle. As enfermeiras no haviam dado a mnima importncia s instrues de Gordon e vrias delas consideravam que as visitas de Bill faziam bem a Isabelle, 
alm de melhorar sobremaneira o seu prprio estado de esprito. Sentia-se sempre melhor quando a visitava. Tinha umas saudades loucas das conversas fora de horas. 
Passava imenso tempo a pensar nela, ansioso pelos poucos minutos em que o levavam at junto de Isabelle,
       Bill j ia sentindo certas melhoras. O pescoo e a coluna ainda lhe provocavam algumas dores, mas j conseguia mexer-se mais do que antes, e j sentia um 
formigueiro nas pernas muito ligeiro. Porm, o prognstico mantinha-se. Tentava manter o moral elevado, pensando naquilo que iria fazer quando chegasse aos Estados 
Unidos, mas a volta que a sua vida dera no era fcil de digerir,
       Bill tornara-se o doente favorito da equipe de enfermeiras. Estas continuavam a tentar adivinhar qual era a relao que existia entre ele e Isabelle, mas 
a explicao para aquilo que viam no era fcil. Muitas diziam que tinham um caso, uma ouvira-o dizer  mulher que queria o divrcio, mas, fosse qual fosse o tipo 
de relao entre os dois, sabiam que gostavam dele e achavam-no muito simpatico,
       Eu levo-o. afirmou uma das enfermeiras, em conversa com um grupo de colegas no bar.  um homem muito giro. Mas Bill nunca tentara seduzir nenhuma das enfermeiras, 
nem fora atrevido ou grosseiro com qualquer uma delas. Toda a gente que lidava com ele admirava-o profundamente. Tambm repararam que o embaixador americano viera 
visit-lo vrias vezes,
       Que faz ele? perguntou outra enfermeira, algo confusa, sem se lembrar do que ouvira, embora soubessem que era um homem importante.
       Qualquer coisa a ver com a poltica informou uma das enfermeiras de Isabelle. Parece louco por ela.  pena.
       Nisso estavam todas de acordo.
       Gordon e Sophie ainda no haviam voltado a visitar Isabelle, quando Cynthia e as filhas regressaram da viagem a Paris. Estas entraram bem-dispostas e saram 
com ar circunspecto, depois de Cynthia e Bill lhes comunicarem que iam divorciar-se.
       Porqu? Olivia sentou-se e rebentou num pranto.
       Vocs amam-se... no amam? Mam?... Pap??... Olivia e Jane sempre tinham pensado que os pais se amavam, mas Bill tentou explicar que h vrios anos que viviam 
afastados um do outro e que achava melhor para ambos seguirem caminhos diferentes. No quis falar-lhes dos casos amorosos da me ou da infelicidade em que viviam. 
Preferia manter esses segredos bem guardados. E tinha de admitir que, de algum modo, as coisas estavam melhores entre eles desde que dissera a Cynthia que estava 
tudo acabado. Sentia que havia mais sinceridade na relao com ela. Mas esta deixou claro, antes de partir, que, se ele mudasse de idias, preferia continuar casada. 
Bill manteve-se inflexvel. J no queria estar casado com ela. Todos os seus sonhos encontravam-se agora centrados em Isabelle.
        melhor assim insistiu, mas Cynthia ficou preocupada com a reao das filhas. Bill no queria explicar que no conseguiria v-la casada com um invlido. 
Mas, acima de tudo, j no estava apaixonado por ela. O que sentia por Isabelle revelara-lhe muitas coisas acerca de si prprio e daquilo que no tinha. No queria 
continuar a viver uma mentira. Sabia que nunca teria uma vida em comum com ela, independentemente do fato de ela recuperar ou no, mas o amor que sentira e continuava 
a sentir era suficiente para Saber que estava na hora de acabar com um casamento sem afeto.
       Depois de Cynthia e as filhas sarem, ficou em silncio pensativo. Prometera telefonar s filhas com frequncia. A caminho do hotel, estas perguntaram  me 
se achava que o pai ficara um bocado perturbado da cabea e se ainda havia hipteses de ele mudar de idias. Cynthia esboou um sorriso triste e fez um gesto negativo 
com a cabea.
       Ele no est perturbado da cabea. Eu  que andei de cabea perdida durante muitos anos. No fui uma boa esposa para ele confessou. Encarei-o sempre como 
algo adquirido e fiquei ressentida com o seu sucesso e a sua independncia, o que foi uma estupidez da minha parte.
       Olivia e Jane estavam abaladas com a perspectiva de os pais irem viver em casas separadas.
       Como  que o pap vai conseguir cuidar de si sozinho? indagou Jane, preocupada. As leses eram graves e haviam-lhes dito que existia a possibilidade de ele 
nunca mais voltar a andar.
       No sei respondeu Cynthia, soltando um suspiro. Ele  muito orgulhoso e tem uma grande fora interior. Conseguir superar todas as adversidades Mas, respondendo 
 tua pergunta, Jane, no, no acredito que ele mude de idias. Nunca muda. Se mete uma idia na cabea, geralmente leva-a avante, por mais contrariedades que encontre. 
Nem sequer admitir o erro, se o cometer. Esse viver sempre com ele. Mas por mais que deteste o que est a fazer, no acho que esteja a cometer um erro. De certa 
forma, Bill fizera aquilo que a sua conscincia mandava e preservara a amizade, acabando com o casamento, apesar do arrependimento de Cynthia. Esta admirava-o por 
isso. S tinha pena das filhas. Era um choque tremendo para estas. Estava assustada consigo prpria. Sabia que nunca encontraria outro homem como ele.
       Acha que o pap tinha um caso com a Isabelle Forrester perguntou Olivia, sem rodeios; Cynthia ficou pensativa durante alguns instantes. J ponderara essa 
hiptese muitas vezes.
       No sei. Ele diz que no, e nunca me mentiu, que eu saiba. Julgo que est apaixonado por ela, mas no acredito que tenham feito algo que no devessem. Ela 
est casada com Gordon Forrester, e o teu pai acha que nunca o abandonar. Talvez no passe de uma simples paixoneta, ou talvez sejam s simples amigos.
       Mas pensa que o pap querer casar com a Isabelle Forrester, se ela sobreviver? insistiu Jane, preocupada.
       No acho que essa questo se ponha agora respondeu Cynthia. A pobre criatura estava s portas da morte.
       No, no acredito, nem mesmo que ela viva. O teu pai diz que nunca deixar o marido porque toda a sua vida gira em torno de uma criana deficiente.
       Que acha que o pap vai fazer agora, depois de chegar a casa... quero dizer, aos Estados Unidos...? perguntou Olivia, com ar triste.
       No sei. Arranjar um apartamento. Voltar ao trabalho. A reabilitao demorar muito tempo. No creio que ele regresse antes de dois meses. Querem fazer-lhe 
a fisioterapia aqui.
       Olivia e Jane no voltaram a abrir a boca at chegarem ao hotel. Ainda no acreditavam naquilo que haviam acabado de ouvir. Nem Cynthia conseguia imaginar 
a sua vida aps a deciso tomada por Bill.
       No entanto, Cynthia saa do casamento com um profundo respeito por Bill e sabia que nunca mais encontraria outro homem como ele. Tinha pena de no ter visto 
isso h mais tempo. Sabia que a maior fatia de responsabilidade pelo divrcio era dela, independentemente das culpas que Bill assumia para si prprio.
       Cynthia e as filhas partiram para os Estados Unidos no dia seguinte, to cedo que nem sequer tiveram tempo de passar pelo hospital. Telefonaram do aeroporto 
a despedir-se. Olivia e Jane choravam copiosamente quando desligaram. No comentou esse fato com ningum, mas, depois de as filhas desligarem, Bill ficou mergulhado 
numa profunda tristeza. Sentia-se s. Comeava a perceber o longo e difcil caminho que tinha pela frente. Teria de enfrentar pelo menos um ano ou mais de trabalho 
de reabilitao. Mas no existia alternativa. De quando em quando, fazia telefonemas de negcios e recebia outros de pessoas que haviam tomado conhecimento do acidente. 
Porm, a maior parte do tempo, tinha a sensao de viver num ninho, rodeado de enfermeiras e mdicos. E Isabelle continuava em coma. No eram tempos fceis.
       Duas semanas depois do acidente, Bill j evidenciava algumas melhoras. Gordon Forrester no voltara a visitar a mulher. Bill j estabelecera a rotina de a 
ir visitar de manh e  noite. Ficava ao lado dela e falava-lhe, na esperana de que ela o ouvisse no seu sono profundo, e depois voltava para o quarto.
       As enfermeiras haviam-no informado de que Forrester no podia vir porque o filho se encontrava muito doente. Esperava que no fosse nada de grave.
       Na terceira semana aps o acidente, Bill perdera quase todas as esperanas de que Isabelle sasse do estado de coma e perguntava-se se Gordon iria deix-la 
ali, esquecida e desprezada. No havia qualquer forma de a transferir para Paris, enquanto estivesse ligada ao ventilador. Era muito perigoso. Comeava a ficar preocupado 
com o que lhe aconteceria depois de ele regressar aos Estados Unidos. Os mdicos achavam que ele estaria em condies de partir mais ou menos dentro de um ms. No 
suportava ter de a deixar, sem ningum que a visitasse, que falasse com ela, que a confortasse, que se preocupasse com o seu estado. No conseguia compreender como 
era capaz de a abandonar naquela altura, mas esta era a triste realidade. Pensava nisso, certa noite, deitado numa cama ao seu lado, ao mesmo tempo que falava com 
ela e lhe segurava na mo. As enfermeiras j no achavam a situao anormal. Sorriam e conversavam com ele, quando a visitava, como se j esperassem encontr-lo 
no quarto dela vrias vezes ao dia.
       Nessa clida noite de Julho, Bill dizia a Isabelle que era muito bonita e que tinha imensas saudades de conversar com ela. As janelas estavam abertas e ouvia-se 
o barulho que vinha da rua. E deu consigo a pensar na noite em que haviam ido ao Harry's e depois ao Annabel's. S tinha vontade de rodar os ponteiros do relgio 
para trs e reviver essa noite. Lembras-te dos bons momentos que passmos? murmurou, afagando-lhe os dedos e depois beijando-os. adoro danar contigo, Isabelle. 
Se acordares, podemos voltar a danar um dia. Mas isso no passava de uma recordao, de um sonho distante.
       De repente, teve a impresso de sentir uma leve presso na palma da mo. Primeiro, pensou tratar-se de um reflexo e continuou a falar. Ento, sentiu de novo 
a mesma ligeira presso. Algo aturdido, parou de falar por instantes e olhou para a enfermeira que entrava naquele momento. No quis dizer-lhe nada, mas a conversa 
com Isabelle prosseguiu num tom ligeiramente mais determinado. Depois, fez uma pausa e procurou posicionar-se de modo a poder olhar para ela.
       Tive a sensao de que me apertaste a mo. Quero que ma apertes outra vez. Aguardou um longo instante, que mais lhe parecia uma eternidade, perante o olhar 
atento da enfermeira, mas nada aconteceu, e esta desviou o olhar. Repete, Isabelle! Aperta a minha mo, s um bocadinho... Quero que tentes outra vez. Ento, como 
se estivesse a contatar com ele de outro mundo, apertou de novo, quase imperceptivelmente. O rosto de Bill abriu-se num largo sorriso e as lgrimas inundaram-lhe 
os olhos. Que maravilha! Estava esfuziante de alegria. Agora quero que abras os olhos. S um pouquinho... Eu estou a olhar para ti, Isabelle. Quero que olhes para 
mim. No se vislumbrava qualquer sinal de vida no rosto dela, mas voltou a mexer os dedos. Bill ainda pensou tratar-se de novo de um simples reflexo. J estava a 
ficar desanimado, quando Isabelle franziu o nariz, mas os olhos continuavam fechados. O corao de Bill comeou a bater aceleradamente. Estava a voltar a si. O que 
foi isso? Fizeste uma cara engraada. Que tal um sorrisinho? As lgrimas corriam-lhe pelas faces. Todos os seus esforos, toda a sua fora e todo o seu amor estavam 
concentrados nela. A enfermeira que se encontrava no quarto ficou como que petrificada. Mas vira com clareza a fugaz careta que Isabelle fizera. No se tratara de 
nenhum reflexo. Consegues sorrir-me, meu amor? Abre apenas um olho. Tenho sentido tantas saudades tuas... Suplicava-lhe para voltar para junto dele. Apetecia-lhe 
mergulhar no abismo onde ela se encontrava e tir-la de l. Continuou a falar com ela durante mais meia hora, sem qualquer resultado. Estava exausto, mas recusava-se 
a desistir. Isabelle.. v l, faz aquela cara engraada que fizeste h pouco. V l... Franze o nariz. Desta vez, em vez disso, ergueu a mo vrios centmetros acima 
da cama e depois deixou-a cair, como se o esforo tivesse sido demasiado. timo! timo! Mas sentes-te fatigada... Descansa um pouco, querida. Depois, repetes. Falava 
sem parar, tentando que ela pestanejasse, mexesse uma parte do rosto, que abrisse os olhos, ou que lhe apertasse novamente a mo. Durante um longo instante, nada 
se mexeu. Ento, vislumbrou uma muito ligeira agitao nos seus olhos.
       Oh, meu Deus... sussurrou para a enfermeira, que foi a correr chamar um dos mdicos para ver o que estava a acontecer. Depois de trs semanas s portas da 
morte, Isabelle comeava a recuperar a conscincia. E fora Bill que com todo o carinho e afeto a trouxera de novo  vida.
       Isabelle chamou Bill, num tom mais firme. Tens de abrir os olhos, meu amor. Sei que  difcil. Ests a dormir h muito tempo. Mas chegou a hora de acordares. 
Quero ver-te a olhar para mim. Quero ver-te e sei que tambm queres ver-me. Abre os olhos. S um pouco. Mal acabou de dizer isto, Isabelle abriu os olhos. Nem sequer 
esperava que fosse isso que ela fizesse. Depois de todo aquele tempo, j ficava satisfeito com qualquer sinal que ela fizesse. Mas, dessa vez, os olhos, h muito 
fechados, abriram-se. Isso isso... podes abri-los mais. mais um pequeno esforo, querida.. Abre esses olhos maravilhosos. O mdico j se encontrava no quarto nesse 
instante, mas manteve-se  distncia, sem interferir. Bill estava a alcanar grandes progressos e achava que no conseguiria fazer melhor. Isabelle, estou  espera 
que olhes para mim. H muito que anseio por este momento. Ouviu-se ento um longo e gracioso suspiro, e Isabelle abriu os olhos, voltando a fech-los de imediato, 
como se o esforo tivesse sido excessivo. V l, querida, mantm-nos abertos o tempo suficiente para olhares para mim. Por favor, meu amor... V-la recuperar a conscincia 
era como observ-la chegar  Terra vinda de um planeta distante. Ento, por fim, Isabelle abriu de novo os olhos, virou a cabea e fitou-o, ao mesmo tempo que soltava 
um pequeno gemido. Bill ficou com a impresso de que o movimento que ela realizara com a cabea lhe causara dor. Isabelle esboou ento um sorriso, com os olhos 
novamente fechados. Dava a sensao de que queria articular uma palavra.
       Durante muito tempo, tentou, sem xito. Ento, reabriu os olhos e disse o nome dele, numa voz que mais parecia um vagido.
       Bill.
       Este beijou-lhe a mo e teve de conter um soluo para conseguir falar. Queria compens-la por aquilo que fizera.
       Isabelle, amo-te tanto... Foste uma menina linda. Fizeste um esforo tremendo para voltares a ti.
       Sim murmurou Isabelle, fechando novamente os olhos para os abrir de imediato. Amo-te... Bill proferiu ela, como que saboreando a palavra.
       Julgo que foi a que ficmos acrescentou Bill, sorrindo por entre as lgrimas. Desde a noite em que se haviam beijado e sido atingidos pelo autocarro, passara 
uma eternidade. Estiveste ausente durante tanto tempo! Tive tantas saudades tuas!
       Fala comigo... pediu Isabelle, baixinho, com um sorriso, enquanto Bill, a enfermeira e o mdico se riam. H trs semanas que ele no fazia outra coisa que 
no fosse falar com ela. Era como se soubesse que conseguiria traz-la de volta. Nunca desistira, embora, para o fim, j comeasse a desanimar; mas nunca perdera 
a coragem. Gosto de te ouvir... falar disse, com voz cansada. O esforo fora muito grande.
       Tambm gosto de te ouvir falar. H muito que esperava escutar a tua voz. Onde estiveste, meu amor? perguntou Bill, quase num sussurro, com a mo dela ainda 
na sua.
       Fora respondeu Isabelle, com novo sorriso nos lbios. Olhou ento para Bill, com um ror de perguntas no olhar. Sabia que ele tinha as respostas. H quanto 
tempo.
       Trs semanas.
       Tanto tempo. As palavras pareciam sair a custo, mas estava a recuperar muito bem.
       Sim, foi muito tempo. Havia tanta coisa para lhe dizer, tanto para partilhar, mas ainda era muito cedo para isso. Acabara de chegar de um lugar distante.
       Isabelle lembrou-se ento de algo e olhou-o com ar preocupado.
       O Teddy e a Sophie j...
       Esto timos. Esperava no estar a mentir-lhe, uma vez que no havia notcias recentes e sabia que Teddy no estivera bem. Mas tinha a certeza de que o pequeno 
melhoraria assim que soubesse que a me estava a recuperar. A Sophie esteve c. Veio visitar-te.  uma rapariga maravilhosa e parecida contigo. Isabelle sorriu e 
fechou os olhos. Quando os abriu, havia outra pergunta neles. Bill sabia qual era. Ele esteve c.
       Isabelle estremeceu.
       Di-me... a cabea.
       Aposto que sim. Era de esperar.
       As outras coisas, tambm O mdico interessou-se de imediato por aquilo que Isabelle dizia e fez-lhe algumas perguntas. Estava extremamente satisfeito e sugeriu 
que ambos descansassem, pois havia sido uma noite de muita excitao. Isabelle pareceu preocupada com o que o mdico acabara de dizer. Entretanto, os enfermeiros 
j haviam entrado no quarto para levar Bill. No. no o levem!.. Apertou a mo de Bill com mais fora. Este olhou para o mdico com ar interrogador.
       Posso ficar aqui?
       Instalou-se um longo silncio, enquanto o mdico ponderava a hiptese. No havia qualquer razo para ele ali no poder ficar. Eram adultos e amigos, e as 
enfermeiras podiam vigiar a recuperao de ambos no mesmo quarto. Era o prmio adequado por aquilo que Bill fizera nessa noite.
       Acho boa idia. Bill j no estava ligado a monitores. A nica coisa de que precisava era do saco de soro ao lado da cama e dos medicamentos para as dores, 
para o caso de precisar, o que raramente acontecia.
       Quero que durmas aqui insistiu Isabelle, agarrando-lhe a mo com fora. Estava consciente, recuperara a vida e voltara para Bill. Era a noite mais feliz deste. 
O mdico examinou-a ento, e ficou satisfeito. Fez-lhe mais umas Quantas perguntas e ela disse-lhe como sentia a cabea. Acrescentou ainda que tambm sentia o corpo 
muito pequeno e que tudo dentro dela estava extremamente apertado. O mdico explicou-lhe que essa sensao se devia s leses internas e que se manteria durante 
mais algum tempo. Teria oportunidade de a examinar em pormenor mais tarde. O que ambos precisavam agora era de descansar.
       A enfermeira deixou apenas uma pequena luz ligada e uma outra veio ajudar a colocar Bill de lado. Este ficou satisfeito porque via melhor Isabelle assim. 
No lhe apetecia dormir. S queria ficar toda a noite a olhar para ela e a tocar-lhe na mo. Isabelle, que ainda tinha a mo dele na sua, esboou um sorriso. Exibia 
um ar acrianado. Era a imagem da filha.
       s to bonita murmurou Bill, e amo-te tanto.
       Valera a pena a longa espera de trs semanas.
       Tive muitas saudades tuas.
       Como  que sabes? retorquiu Bill, enquanto a enfermeira sorria, num canto do quarto.
       Pareciam duas crianas aos cochichos, no quarto escuro. As enfermeiras trocaram um sorriso e detiveram-se demoradamente  porta, a olhar para o par amoroso. 
Nenhuma delas esperava que Isabelle sobrevivesse.
       Nessa tarde, o mdico telefonou a Gordon para inform-lo de que a esposa j no se encontrava em coma. Sentia que era esse o seu dever. Mas Gordon no estava 
em casa e o mdico pediu  mulher que atendeu, a enfermeira de Teddy, para dizer a Mister Forrester que telefonara. No quis dizer do que se tratava. Bill e Isabelle 
ter-lhe-iam ficado gratos se tivessem sabido desse fato.
       Dava a sensao de que sempre haviam dormido juntos. Isabelle tentou virar-se de barriga para cima uma vez, mas as dores na cabea eram muitas e teve de manter-se 
voltada para Bill, que no despregava os olhos dela.
       O que te aconteceu? perguntou Isabelle, reparando no enorme colar cervical que Bill tinha a imobilizar-lhe o pescoo.
       Sofri leses no pescoo e na coluna. Vou ficar bem.
       E certamente que iria. J tinha aquilo por que esperara durante trs semanas.
       Tens a certeza.
       Absoluta. Nunca me senti to bem como agora.
       Eu tambm Olhou-o ento com ar pensativo. No me lembro de nada... Como  que viemos aqui parar
        uma longa histria, meu amor. Podemos falar dela amanh. Fomos abalroados por um autocarro. No lhe iria dizer que onze pessoas haviam perecido no acidente 
e que ela estivera prestes a engrossar esse nmero. S me lembro de estar a beijar-te e depois de me encontrar aqui.
       Tambm  o que eu recordo disse Isabelle, bocejando. Bill sentiu uma vontade louca de a beijar, mas no podia mexer-se. A nica coisa que conseguia fazer 
era tocar-lhe no rosto ou na mo. Um destes dias, gostaria de te beijar de novo.
       Bill no respondeu. Fez-se um longo silncio, enquanto ele reflectia na possibilidade de, aos seus prprios olhos, j no ser homem. E pegou-lhe na mo. Era 
a nica coisa que podia oferecer agora.
       Espero que os midos estejam bem prosseguiu Isabelle, pensando nos filhos e desconhecendo os terrores de Bill relativamente s suas capacidades sexuais.
       Eles viro para c mal saibam que j no ests em coma asseverou-lhe.
       De repente, Isabelle ficou com um ar triste e apertou-lhe a mo com mais fora.
       E ele vir tambm, no ?
       Bill no quis dizer-lhe que Gordon no a visitava h duas semanas. Achava que no era a ele que competia conform-la. Detestava Gordon por tudo o que no 
fizera por ela e pelas coisas horrveis que lhe fazia.
       No pensemos nisso agora. Porque no fechas os olhos e tentas dormir? Tinha vontade de lhe afagar os cabelos.
       Pensei que me quisesses acordada gracejou Isabelle. Avanava a olhos vistos para a recuperao, depois de trs semanas em coma e de um acidente ao qual quase 
no sobrevivera. Mantinha a mesma fora interior de outrora. Fora esta, juntamente com o amor de Bill, que a trouxera de novo  vida.
       Dorme. Ests a falar muito, vais ficar esgotada. No conseguia deixar de sorrir. Parecia ainda mais bonita do que antes.
       Quero passar a noite toda a conversar. Depois lembrou-se de mais uma coisa. Quero danar contigo outra vez.
       Um dia.
       E quero voltar ao Harry's. Isabelle fazia a lista de desejos. Bill limitava-se a sorrir.
       Agora? gracejou, mais feliz do que nunca. Sentia um prazer imenso em estar ali deitado a conversar com ela.
       Est bem. Amanh. E depois vamos ao Annabel's. Temos de recuperar o tempo perdido. H semanas que no dano.
        melhor estares quietinha, se no, os mdicos pem-te a dormir outra vez.
       S quero ficar aqui deitada contigo. E riu baixinho. Agora j podemos dizer que dormimos juntos.
       Para quem esteve trs semanas em coma, ests a portar-te muito mal. No devias pensar nessas coisas gracejou Bill, em tom de reprimenda, com uma vontade incontrolvel 
de a abraar; porm, no corao, estava a faz-lo No corao, Isabelle seria sempre sua. Desde essa noite que o era Acontecesse o que acontecesse, nada alteraria 
esse fato. Ela atravessara as trevas para voltar para ele e agora nunca mais iria perd-la.
       Caminhvamos em direco a uma luz muito brilhante.. amos para um stio qualquer, por um caminho estreito. e os midos comearam a chamar-nos, e demos meia 
volta.
       Bill teve a sensao de ter sido atingido por um raio ao ouvir aquelas palavras. Quando acordara do estado de coma, lembrava-se de ter tido exatamente a mesma 
viso, tal qual Isabelle a descrevia.
       Como era a luz?
       Muito brilhante... e eu estava muito cansada, e sentei-me numa pedra. No queria voltar, mas tu continuavas a insistir para voltarmos, que podamos l ir 
noutra altura. Eu no queria, mas deixei que me puxasses. E fora o que acontecera nessa noite. A primeira vez, Bill retirara-a das mos da morte, a segunda, das 
trevas onde se encontrava mergulhada num sono profundo. Aquilo que Isabelle descrevera da pedra e da luz brilhante fora exatamente o que ele vira. 
       Isabelle, tambm l estive. Bill mostrava-se estupefato e ela no sabia porqu. Tive o mesmo sonho que tiveste. Tal qual o descreveste.
       Eu sei, eu estava l afirmou Isabelle, como se se tratasse de algo normal. Vi-te, dei-te a mo e voltmos.
       Porqu? Bill fazia um esforo de memria, tentando entender o que lhes acontecera. No era uma coisa normal. Havia pessoas que falavam dessas experincias, 
mas muitas delas no partilhavam a mesma luz brilhante no mesmo sonho, a mesma pedra, o mesmo caminho, a mesma lembrana. Bill acreditava que, algures, numa outra 
vida, as suas almas se haviam encontrado e tornado uma s.
       Voltei porque me pediste. Mas depois tornei a perder-me. Acho que adormeci  beira do caminho.
       Claro. E se voltares a fazer isso outra vez, zango-me a srio contigo. Nunca mais te percas de mim!
       No, nunca mais prometeu Isabelle, beijando-lhe os dedos. Obrigada por teres esperado por mim e me teres trazido de volta. Estava a ficar emocionada. Bocejou 
vrias vezes e, antes que ele conseguisse dizer o que quer que fosse, deixou-se adormecer num sono tranquilo. Ao olhar para ela, Bill recordou perfeitamente aquilo 
que Isabelle descrevera, a caminhada em direco  luz brilhante, com ela  sua frente. Fizera um esforo titnico para a trazer de volta. No sabia muito bem o 
que isso significava, mas estava convencido de que algo de extraordinrio lhes acontecera. Sabia que, apesar de tudo o que se passara, era um homem cheio de sorte.

CAPTULO DEZ
       No dia seguinte, s oito da manh, o mdico telefonou a Gordon Forrester com o intuito de lhe dar a notcia, mas a mesma voz informou-o de que ele no se 
encontrava em casa. s dez, conseguiu, finalmente, apanh-lo no escritrio. Este ficou algo perplexo e disse que estava muito contente com a notcia. Perguntou ento 
se podia falar com a mulher, mas esta ainda no tinha telefone. O mdico informou-o de que ia mandar instalar um para Isabelle, e Gordon poderia telefonar-lhe para 
o quarto nessa tarde.
       De certeza que os filhos querem falar com a me sugeriu o mdico, algo atrapalhado.
       Gordon j tomara como dado adquirido o fato de a mulher nunca mais sair do estado de coma e mostrava-se espantado com a notcia.
       Como  que isso aconteceu? indagou. O mdico fez uma ligeira pausa. No queria falar do papel de Bill Robinson nesse processo, e tanto este como Isabelle 
tambm no desejariam certamente que o fizesse. E no se enganava.
       Sozinha respondeu o mdico. Era a nica coisa que Gordon precisava de saber.
       Boa recuperao comentou Gordon, como se estivesse a falar de um torneio de golfe ou de uma partida de tnis. Em claro contraste com as lgrimas de alegria 
de Bill na noite anterior, como se falasse de um amigo distante. Parecia inacreditvel que Isabelle fosse sua esposa. Talvez isso explicasse a relao dela com Bill. 
Depois de os ver na noite anterior, havia perguntas a que o mdico no queria responder E interrogou-se sobre quando  que Gordon voltaria a Londres. Para bem dos 
dois doentes, esperava que ele no voltasse to depressa ao hospital. Via-se que estavam loucamente apaixonados. Era impossvel resistir a um amor assim, que fora 
at ao limiar da morte e voltara. Isso era algo de muito precioso que poucas pessoas partilhavam. Informe-a que telefonarei logo  tarde, quando chegar a casa. Foi 
tudo o que disse, e o mdico asseverou-lhe que o faria.
       A enfermeira deu o recado a Isabelle quando lhe instalaram o telefone. Estava ansiosa por falar com os filhos, mas no com Gordon.
       Que vamos fazer agora? perguntou a Bill, nessa tarde, enquanto almoava pela primeira vez, desde que sara do estado de coma. Haviam-lhe trazido uma tigela 
de sopa muito ligeira e gelatina.
       Que queres dizer? Uma partida de croquet ou de golfe, ou um passeio no parque? gracejou Bill, mas desta vez Isabelle no sorriu.
       O Gordon vai querer levar-me para Paris, logo que melhore. Queria ver os filhos, como  bvio, mas no queria deixar Bill.
       No creio que isso acontea a curto prazo declarou Bill, tentando manter a calma. No acredito que possas saltar da cama e sair pela porta a correr. Ainda 
tinha de realizar muitos tratamentos e a cabea precisava de extremos cuidados. Nessa manh, o mdico dissera-lhe que esperava t-la no hospital durante, pelo menos, 
quatro semanas. Era mais ou menos o tempo que tinham estipulado para Bill.
       E depois? perguntou Isabelle, enquanto a enfermeira lhe dava a sopa. Ainda no tinha fora suficiente nas mos para se alimentar sozinha. Encontrava-se extremamente 
debilitada, o que no era surpresa para ningum.
       Havemos de arranjar uma soluo. Bill ainda no lhe dissera que, muito provavelmente, no voltaria a andar. Tinha de pensar no assunto. Achava que, de momento, 
ela no precisava de saber. A menos que as coisas tivessem mudado radicalmente durante o perodo que estivera em coma, sabia que Isabelle voltaria para casa, para 
cuidar do filho.  claro que poderia telefonar-lhe e v-la de vez em quando, mas no queria que sentisse pena dele, caso ficasse confinado a uma cadeira de rodas. 
A nica coisa que desejava dela era o seu amor. Mas se nunca mais voltasse a andar, era possvel que nunca mais a visse depois de sarem do hospital, e teriam de 
continuar a relao por telefone. Ainda no sabia muito bem o que iria fazer. De momento, Isabelle pensava que o estado de Bill era temporrio e este sentia-se inclinado 
a deixar as coisas tal como estavam. No queria que ela pensasse que estava a pression-la. Sabia muito bem que chegaria o dia em que Isabelle teria de ir para casa, 
para junto da famlia. Agora a nica coisa que queria era gozar os dias que lhes restavam.
       Nessa tarde, quando Gordon telefonou, Isabelle encontrava-se no quarto, na companhia de Bill. O marido comunicou-lhe ento que estava muito mais aliviado 
por saber que ela j melhorara, como se Isabelle se encontrasse a recuperar de uma luxao no tornozelo ou de uma queda. Na verdade, Bill tinha a sensao de que 
Isabelle regressara da morte. No instante em que ela acordou, Gordon j no alimentava qualquer esperana de que ela vivesse ou sasse do coma. Comeava a ver-se 
no papel de vivo e teve de voltar a pr os ponteiros do relgio para trs, a fim de retomar o casamento com ela. O tom de voz de Gordon era muito estranho e Isabelle 
concluiu, corretamente, que o marido devia estar furioso com Bill e com ela prpria. Falou depois com os filhos. Sophie chorou ao ouvir a voz da me e a nica coisa 
que Teddy conseguiu fazer foi soluar. Achou-o muito debilitado e perguntou a Gordon, quando os filhos lhe passaram o auscultador, como se encontrava realmente Teddy. 
No conseguiu conter a emoo de os ouvir. Estava extremamente preocupada com eles.
       Ele vai ficar muito melhor agora afirmou Gordon, em tom de indiferena. Sophie queria visitar a me, mas o pai disse-lhe que ela no tardaria a voltar para 
casa. Quando  que te do alta? indagou, com algum pragmatismo. Achava que no havia razo para ir v-la, uma vez que viria para casa em breve.
       Dentro de quatro semanas, dependendo do fgado, do corao e da cabea. No se tratava de problemas pequenos, mas no pareceu impressionado. Agora que a mulher 
j sara do estado de coma, pouco lhe importava o resto.
       Quatro semanas parece-me muito tempo, no achas. Estou certo de que te daro alta mais cedo, se eu pedir. Gordon desconfiava que Isabelle no queria sair 
do hospital to cedo, porque Bill ainda l se encontrava. No iria tolerar tal coisa. Vou eu prprio falar com o mdico. Podes ter todos os cuidados mdicos de que 
precisas aqui em Paris.
       Isabelle ficou em pnico quando desligou o telefone e avisou, de imediato, o mdico de que Gordon iria telefonar-lhe a pression-lo para a mandar para Frana.
        isso que quer, Isabelle? Podemos transferi-la para um hospital de Paris mais ou menos dentro de uma semana. Ainda no est em condies de ir para casa
       Quero ficar aqui. E ambos sabiam porqu.
       Eu trato do assunto asseverou-lhe o mdico. Estava disposto a fazer isso por ela e por Bill. Gostava de ambos. Haviam estado s portas do inferno e conseguido 
regressar. Os filhos podiam esperar. Porm, mais tarde, admitiu a Bill que se sentia preocupada com Teddy, que no lhe parecera estar bem, e que era a nica coisa 
que a faria voltar para casa mais cedo do que o planeado. Estava a ficar louca s de pensar na falta que estaria a fazer-lhe, apesar de saber que se encontrava em 
boas mos.
       Isto deve ter sido um choque tremendo para ele. S Deus sabe o que Gordon lhe disse sobre o estado em que te encontravas. Mas agora que ouviu a tua voz e 
sabe que estars em casa dentro de poucas semanas, estou certo de que melhorar de dia para dia.
       Isabelle sentiu-se mais animada com as palavras de Bill.
       Espero bem que sim. Graas a Deus, a Sophie est l. queria vir ver-me, mas aconselhei-a a no o fazer. O Teddy precisa mais dela l do que eu preciso aqui. 
Alm disso, ali tinha Bill. Queria gozar os dias que lhes restavam at se separarem. E a Cindy? Achas que ela vir c ver-te?
       No limitou-se a proferir, sem explicar porqu. E as filhas andariam ocupadas durante todo o Vero. Disse-lhes que as veria quando regressar. Bill tambm 
pedira ao mdico que no informasse Isabelle sobre a extenso das leses na sua coluna e sobre o fato de que, muito provavelmente, nunca mais voltaria a andar. Esta 
era uma coisa, para alm do divrcio, que no queria que ela soubesse. Precisava de tempo para ver como  que o seu estado iria evoluir. Isabelle sabia que o perodo 
de convalescena de Bill seria prolongado, de seis meses a um ano, por isso no ficaria espantada com o fato de ele no andar.
       Se ela estivesse disposta a deixar Gordon, ento ele teria de equacionar as coisas de outra maneira. E teria de lhe contar a verdade quanto s pernas. Mas 
uma vez que estava determinada a voltar para Gordon, no queria arranjar-lhe motivos de preocupao. J tinha problemas que chegassem com o filho deficiente. E agora 
que j vira o marido dela, Bill sabia o que a esperava em Paris. Gordon parecia no ter considerao, nem amor, nem simpatia, nem respeito por ela. Todo o seu mundo 
girava em torno dele prprio, e Isabelle no passava de um simples peo, da assistente do filho deficiente. Estava preocupado com a vida difcil que a esperava, 
talvez at ainda mais difcil do que antes. Gordon desconfiava dela e, se calhar, iria castig-la pelos pecados que supostamente teria cometido nas suas costas. 
Isabelle teria de ter cuidado com ele, ou veria a sua vida transformada num inferno. Nem sequer quando a mulher estivera em coma, s portas da morte, se preocupara 
em ficar com ela mais do que dois dias.
       Ao fim da tarde, quando falou com ele, o mdico referiu novamente que Isabelle s podia ser transferida da a, pelo menos, quatro semanas. No se mostrou 
satisfeito. Achava que os mdicos no estavam a ser razoveis, considerando-os demasiado zelosos. O mdico acabou por assust-lo com a hiptese de poderem ocorrer 
complicaes horrveis, ou at de poder entrar de novo em coma.
       Ainda me tiram a carteira profissional gracejou o mdico, quando falou do telefonema a Bill e a Isabelle. Era de opinio de que eles tinham direito a um pouco 
de felicidade e a uma compensao pela agonia por que ambos haviam passado. Por outro lado, os tormentos de Bill no estavam acabados. O mdico sabia muito bem que 
a sua reabilitao iria ser longa e difcil. Teria lugar num hospital de Nova Iorque, onde iriam ajud-lo a readquirir o mximo de sensibilidade nas pernas. Tanto 
um como outro no faziam idia do que estava reservado para Bill.
       Para j, tinham quatro semanas para estarem juntos, a rir, a conversar e a gozar o seu amor. O hospital era um refgio seguro para ambos, depois da situao 
traumtica por que haviam passado e antes de regressarem s suas vidas. No tardaria a terem o choque com a realidade.
       Nessa noite, voltaram a dormir no quarto de Isabelle.
       No dia seguinte em diante, passaram a dormir no de Bill. Estavam livres de monitores. Passavam longas horas  tarde a falar das suas vidas, das suas esperanas, 
dos seus sonhos. O tempo que partilhavam era uma rara ddiva, ganha a muito custo.
       Jogavam s cartas, liam livros e Bill at lhe ensinou jogos de dados. Ficavam horas esquecidas a conversar, tomavam as refeies no mesmo quarto. O fgado 
de Isabelle estava melhor e a cicatrizar lentamente. O ritmo cardaco continuava irregular, se bem que ligeiramente melhor. s vezes, tinha dores de cabea fortssimas. 
Cansava-se com muita facilidade e dormia bastante. Bill continuava com o colar cervical no pescoo. As leses na coluna estavam a cicatrizar e, por vezes, tinha 
dores nas costas. Nessas alturas, Isabelle massajava-lhe os ombros e os braos. J reparara na pouca mobilidade que ele tinha nas pernas, mas este continuava a garantir-lhe 
que da prxima vez que se encontrassem j andaria. No achava estranho Bill ainda no conseguir andar. Passara-se apenas um ms desde o acidente, o que no era muito 
tempo. Falavam muito pouco das dores que sentiam. A maior parte do tempo, trocavam confidncias, falavam sem parar e gracejavam um com o outro.
       Numa tarde soalheira de Junho, Isabelle, que sara do coma precisamente duas semanas antes, estava deitada na cama de Bill. Contavam histrias da sua infncia. 
Tinha o cuidado de no lhe tocar em algo que ainda lhe doesse, especialmente na coluna. Enquanto falava dos tempos com os avs no Hampshire, passava-lhe os dedos 
pelo brao. Depois, fazia-os deslizar pelos ombros e pelas costas, onde sabia que no havia qualquer problema. Bill olhava-a com ar enternecido. E, de sbito, esboou 
um sorriso de mido traquinas.
       Porque ests a olhar-me dessa maneira? perguntou Isabelle, julgando que Bill troava dela. Estava a falar a srio do meu av. Era um homem muito bom.
       Tenho a certeza que sim. Deixei de ouvir o que ests a dizer h cinco minutos. O desejo est a dar comigo em doido.
       O que tinhas em mente? Uma partida de dados? Melhor do que isso respondeu Bill, beijando-a nos lbios. Conseguira arranjar maneira de o fazer, incllinando-se 
ligeiramente para a frente. Beijavam-se muitas vezes, especialmente  noite. Isabelle, no sei o que  que isto vai dar, mas apetece-me fazer amor contigo. O grau 
de excitao aumentara na ltima meia hora. Sentia um bem-estar to grande que estava disposto a tentar. Ainda se encontravam ambos muito fragilizados, mas j h 
muito que Bill experimentava uma incontrolvel vontade de fazer amor com Isabelle. J antes do acidente sentia esse desejo.
       Est bem, meu amor. Isabelle estava disposta a fazer amor com ele, mesmo que no fosse alm de se enlaarem nos braos um do outro. Percebia perfeitamente 
o que Bill tinha em mente. Que dizes a trancarmos a porta? Havia fechos nas portas que ningum utilizava, mas esta parecia uma excelente oportunidade para comear.
       Achas que vo expulsar-nos do hospital? perguntou Bill, esboando um amplo sorriso, enquanto Isabelle se levantava para ir fechar a porta. Mal conseguia mexer-se, 
mas sentira um irresistvel desejo por Isabelle na ltima meia hora, de tal modo que agora no conseguia pensar noutra coisa. H muito que andava ansioso por saber 
se a funo sexual fora afectada. O nervosismo era muito, mas nenhum dos dois conseguia resistir ao impulso. A relao era terna, apaixonada e assentava na confiana 
mtua.
       No creio que fosse isto que tinham em mente, quando nos deixaram dormir no mesmo quarto disse Isabelle, com um sorriso malicioso nos lbios.
       Eles  que o permitiram retorquiu Bill, algo nervoso. Esta  a melhor parte. Pelo menos, esperava que fosse. E se no fosse? Estremecia s de pensar.
       Isabelle interrompeu-o, com ar srio, e beijou-o carinhosamente nos lbios.
       A melhor parte  aquilo que j temos.. amor um pelo outro, estarmos juntos... Adoro tudo em ti, Bill. Qualquer coisa que venha agora  uma ddiva suplementar, 
mas no  a melhor parte. Tu  que s.
       Bill no fazia a mnima idia se conseguia fazer amor. mas o desejo era incontrolvel. O mdico dissera-lhe que era possvel e esperava que ele tivesse razo. 
Caso contrrio, seria uma enorme desiluso para ambos e um falhano da sua parte.
       Mas no lhe queria dar conta dos seus receios. Tinha medo que Isabelle ficasse preocupada ou sentisse pena dele. Esta ultima hiptese era a que mais receava.
       Isabelle despiu ento a bata de Bill, pondo a descoberto toda a beleza do seu corpo. Bill ardia de desejo. No havia vergonha ou pudor entre eles, era como 
se tivessem estado sempre juntos. Enquanto Isabelle o acariciava, Bill no conseguia disfarar o nervosismo. Sentia emocionalmente tudo o que ela lhe fazia, mas 
no sabia como  que o resto iria reagir. Isabelle despiu ento a sua bata, ao mesmo tempo que ele lhe acariciava os seios. Os corpos que haviam sofrido tanto esqueceram, 
de repente, todas as suas dores. Comeou por beij-lo na boca, depois no peito, sempre com extrema sensualidade. Ao mesmo tempo que o tentava excitar, tinha o cuidado 
de no o magoar, no exercendo peso sobre ele, apenas o suficiente, nos stios certos. Bill sentia o requintado prazer por que h muito ansiava, mas o efeito desejado 
no tinha lugar, para grande consternao sua.
       Mesmo sentindo prazer, tinha conscincia de que o seu corpo se encontrava, de alguma forma, adormecido. Apesar da enorme paixo por Isabelle, no estava na 
plena posse das suas faculdades fsicas. Havia algo dentro de si que no permitia a reao aos estmulos. No sabia se era o crebro, se a coluna vertebral. E no 
obstante o desejo intenso de fazer amor com Isabelle, sentia o medo de falhar a apossar-se progressivamente de si. Com ela de ccoras, por cima dele, Bill comeava 
a dar-se conta de que o corpo no iria conseguir dar resposta aos estmulos que recebia. Sentia-se no s um idiota como um doido varrido por ter tentado.
       Isabelle percebeu o que se estava a passar com Bill, mas o amor por ele era tanto que a nica coisa que queria era que se sentisse feliz e amado. J estava 
preparada para a eventualidade de as coisas no funcionarem, pelo menos a primeira Vez. Bill sofrera traumatismos graves. Teria de esperar pacientemente pelo retorno 
das suas capacidades sexuais. Isabelle s quisera dar-lhe esperana e vida. Mas em vez de esperana, a nica coisa que vislumbrava no olhar de Bill era desespero, 
por os esforos para consumar a sua paixo terem falhado.
       Tudo bem, meu amor tudo bem. Tens de ter pacincia murmurou Isabelle, enquanto Bill a abraava, para depois a afastar delicadamente e se virar de lado, destroado 
por no ter conseguido fazer amor com a mulher que amava. Achava que nada do que ela pudesse dizer poderia alterar esse fato E prometeu a si prprio que nunca mais 
voltaria a tentar. Apesar da ternura e o amor que Isabelle tinha por ele, sentia-se humilhado e mais dependente do que nunca. Era o pior dia da sua vida. J no 
se sentia um homem E nada o convenceria a tentar outra vez. E muito menos com Isabelle.
       Veste-te sussurrou Bill.
       Isabelle hesitou, querendo fazer qualquer coisa por ele. Bill encontrava-se num estado de profunda depresso, e qualquer esforo ou carcia para o confortar 
s o perturbaria ainda mais. Meteu-se ento debaixo dos lenis, muito juntinha a ele.
       Tudo bem, Bill murmurou Isabelle, num tom terno. Essas coisas acontecem. Ambos sabiam os sentimentos que ele nutria por ela, mas quisera mais do que isso.
       Isto  s o princpio. Beijou-o na face e tentou pegar-lhe na mo. Bill repeliu-a. Tentava conter as lgrimas a muito custo. S lhe apetecia fugir, mas, no 
estado em que se encontrava, no tinha qualquer hiptese de o fazer.
       No, isto no  o princpio retorquiu, irritado. Estava furioso consigo prprio, no com Isabelle.  o fim.
       O fim da sua vida enquanto homem.
       No  o fim de nada ripostou, como se estivesse a falar com uma criana. O mdico disse-te que a recuperao da funo sexual pode levar algum tempo. Mas 
Bill estava aterrorizado com a hiptese de a incapacidade sexual ser permanente. Outra mulher no teria conseguido imaginar o que esse fracasso, do ponto de vista 
sexual, representava para ele. A nica coisa que este via  sua frente era um aterrorizante futuro sem sexo. Como qualquer outro homem, j passara por essa situao 
algumas vezes na vida, quando andava muito cansado, ou aborrecido, ou preocupado com a poltica, ou quando bebera demasiado. Mas agora era a primeira vez que fazia 
amor com Isabelle, e a primeira vez, depois do acidente, que tentava provar que ainda era homem, independentemente de voltar ou no a andar. Isabelle foi compreensiva 
e tentou acalm-lo. Acreditava que Bill acabaria por recuperar a funo sexual E mesmo que no recuperasse, estava preparada para aceitar qualquer tipo de limitaes 
que ele tivesse e continuaria a am-lo. Para Isabelle, nada alteraria, mas, para Bill, todo o seu mundo ruria Caso no recuperasse a sua masculinidade, estava disposto 
a sair da vida de Isabelle. Nessa noite, perdera muita coisa o auto-respeito, a auto-estima, o sentido da sua prpria masculinidade e toda a esperana em qualquer 
tipo de futuro com Isabelle, se as suas capacidades estivessem perdidas para sempre. Para ela, era uma insensatez da parte dele chegar a esse ponto por causa de 
uma tentativa falhada de fazer amor com ela. Bill sentia-se aterrorizado com o fato de aquilo poder significar o fim da estrada para ambos, embora a sua incapacidade 
de realizar o ato sexual no significasse nada para ela. Continuava a am-lo cada vez mais e a sentir uma infinita ternura por ele

CAPTULO ONZE
       O estado de esprito de Bill sofreu um duro golpe depois da tentativa falhada de fazer amor E embora continuassem a dormir no mesmo quarto, mantinha-se inflexvel 
quanto  idia de no voltar a fazer nova tentativa. Isabelle tentava anim-lo, mas no queria pression-lo. Dizia-lhe que, com tempo e pacincia, acabaria por recuperar 
as suas capacidades sexuais. Mas Bill recusava-se a aceitar que houvesse a mnima esperana de recuperao. A porta para a vida como homem encontrava-se fechada. 
Continuavam a manter uma relao ntima e a confortarem-se mutuamente, mas Bill no estava disposto a voltar a tentar fazer amor com Isabelle.  medida que os laos 
emocionais entre os dois iam ficando mais fortes, o tempo parecia escoar-se a um ritmo cada vez mais veloz. Os fisioterapeutas iriam iniciar o trabalho de reabilitao 
com Bill, e Isabelle submetera-se a um sem-nmero de exames, de todo o gnero, de electroencefalogramas a ecografias ao corao. A pouco e pouco, o processo de recuperao 
de ambos ia avanando, e tanto Bill como Isabelle estavam cada vez mais cientes de que os dias juntos no tardariam a chegar ao fim. O acidente fora um preo demasiado 
elevado a pagar por alguns meses a viverem ao lado um do outro. Porm,  medida que o tempo avanava, comeavam a sentir-se como se fossem casados.
       Passavam o dia sentados no quarto, no dele ou no dela. Bill acompanhava-a aos exames, liam o jornal, tomavam o pequeno-almoo juntos e,  noite, dormiam em 
duas camas de hospital colocadas lado a lado. A nica coisa que faltava na sua vida conjugal era o sexo, que continuava a ser um assunto doloroso para Bill. Apesar 
da ausncia do lado fsico da relao, Isabelle nunca fora to feliz na vida.
       Isto parece mais uma estncia balnear do que um hospital gracejou uma das enfermeiras, quando os dois entraram no quarto, depois de terem estado ao sol. Isabelle 
tivera dores de cabea nesse dia e haviam-lhe feito um electroencefalograma depois de almoo, mas o mdico disse que no havia qualquer problema. O seu estado clnico 
continuava a evoluir satisfatoriamente. O regresso a Paris estava j a poucas semanas de distncia. Sentia um pavor tremendo de deixar Bill e no sabia quando voltaria 
a v-lo.
       Falava com os filhos todos os dias e achava que Sophie andava debaixo de um enorme stresse, o que a preocupava. Toda a responsabilidade por Teddy repousava 
nos seus ombros, e, embora Isabelle falasse com ele com frequncia, Teddy no se encontrava nas melhores condies. Sentia-se culpada por estar h tanto tempo longe 
deles, mas, de momento, no tinha alternativa que no fosse ir para um hospital de Paris. Mas sabia que se, por um lado, seria uma tremenda alegria rever os filhos, 
por outro, seria uma dor excruciante deixar Bill.
       s vezes, falavam do assunto, e Isabelle dizia que talvez pudessem continuar a encontrar-se num lugar qualquer, como acontecera em Junho. No sabia como  
que iria conseguir sair de casa, mas arranjaria maneira de o fazer. Aquilo que agora partilhava com Bill era algo de que no abriria mo facilmente, mesmo que s 
se encontrassem duas ou trs vezes por ano. Bill quase no falou quando ela se referia a estarem um com o outro de vez em quando. No queria pensar nesse assunto 
agora. Embora j sentisse algumas melhoras, a recuperao estava a ser mais lenta do que a de Isabelle e o estado de esprito no era o melhor. No queria comprometer-se 
a encontrar-se com ela antes de saber como  que a sua reabilitao iria correr. Continuava a no querer ser um fardo. Mas tambm no queria deixar de ver Isabelle. 
Depois daquilo que haviam partilhado no hospital e do tempo a passado, no era difcil imaginar que os telefonemas no seriam suficientes para qualquer um deles.
       No sei se ests a ser realista relativamente  hiptese de nos encontrarmos em Paris disse Bill, um dia. O Gordon no sabe o que aconteceu aqui em Londres, 
mas sabe que estvamos juntos naquela noite. Disse-me para sair do teu quarto, com maus modos, quando eu estava aqui ao P de ti. No creio que fique impvido e 
sereno, quando tu saires para passear. Acho que vai andar sempre desconfiado. E lembrou-se de que at podia mandar pr os telephones sob escuta. Ficara furioso quando 
descobrira que Isabelle fizera amizade com um homem sem que ele soubesse.
       No disse nada a Isabelle, mas Bill tomara a deciso, semanas antes, de que, se ficasse confinado a uma cadeira de rodas at ao fim da vida, se recusava a 
ser um fardo para ela, ou para quem quer que fosse. Fora um dos fatores, se bem que no o mais importante, para se divorciar de Cynthia. Alm disso, se no conseguisse 
ser um homem com Isabelle, em todos os sentidos, iria pr fim  relao.
       Se voltasse a andar, encontrar-se-ia com Isabelle algures em Frana, quando ela conseguisse sair de casa. Mas a questo sexual permanecia um ponto de interrogao. 
Se o centro de reabilitao nos Estados Unidos no tivesse mais xito em p-lo a andar do que os mdicos em Inglaterra, no voltaria a ver Isabelle. A questo sexual 
nem sequer se poria. No estava disposto a sobrecarreg-la com as suas limitaes, como aconteceria se ficasse confinado a uma cadeira de rodas para sempre. Vivia 
os seus ltimos dias no hospital atormentado por ambas as questes a da eventual paralisia das pernas e a possvel perda da virilidade. E no estava disposto a que 
qualquer um desses problemas fizesse sofrer Isabelle, que no fazia a mnima idia do estado de desespero em que ele vivia. Tinha o cuidado de no dar qualquer sinal 
de pessimismo, se bem que ela, por vezes, o sentisse.
       Admitiu ao mdico que tentara fazer amor com Isabelle e que fora um tremendo fracasso. O mdico tentou ento anim-lo o melhor que pde.
       No estou surpreendido. Depois dos extensos traumatismos que sofreu, era de esperar que isso acontecesse da primeira vez. Tem de dar tempo ao tempo.  normal 
a dificuldade de ereo e de atingir o orgasmo no primeiro ano. Ainda  muito cedo para tanto entusiasmo e tanto otimismo.
       Porm, apesar das palavras encorajadoras do mdico, Bill no acreditava nele. Continuava apegado  idia de que a situao era irreversvel e que nunca mais 
iria recuperar a funo sexual. Estava determinado a no voltar a tentar ter relaes sexuais com Isabelle no futuro prximo, apesar de ela estar mais do que disposta 
a ser criativa com ele. Abandonara toda e qualquer idia de uma relao fsica com Isabelle de momento e talvez para sempre. E no fazia idia de quando  que voltariam 
a ter a oportunidade de tentar, se  que viria a acontecer.
       No entanto, apesar da situao torturante em que se deixara cair, continuava a partilhar o quarto com Isabelle, que meditava no que fazer com a sua vida. 
Sabia que nunca acabaria com o casamento, por causa de Teddy e de Sophie, mas tambm no estava disposta a abdicar de Bill. Ser sua amante era algo que nunca lhe 
passara pela cabea, mas agora era isso que queria e a nica coisa que poderia ter Com ele partilhava aquilo que julgara no existir. Tinha, muitas vezes, a sensao 
de serem dois corpos numa s alma E nada conseguiria faz-la desistir disso.
       Falava com Gordon de quando em quando. Este mandava a secretria telefonar para o hospital todos os dias para saber do estado de sade da mulher. Isabelle, 
geralmente, telefonava-lhe para o escritrio, por uma questo de respeito e nica e exclusivamente para saber de Teddy, se bem que Sophie a mantivesse informada 
a esse respeito. Ela prpria telefonava a Teddy todos os dias. Quando falava com Gordon, este respondia-lhe, deixando-a sempre com a sensao de que interrompera 
qualquer coisa ou que telefonara numa m altura. Alm disso, era parco em palavras. Dava a impresso de que j no confiava nela, se bem que nunca o tivesse referido 
expressamente. Isabelle achava que Gordon iria puni-la e sabia que, logo que chegasse a Paris, haveria uma conversa muito sria entre ambos. O fato de ter estado 
com Bill no Annabel's e no Harry's Bar, alm de estarem juntos a uma hora imprpria aquando do acidente, falava por si. No s a mulher com quem casei. Na verdade, 
j no sei quem s, dissera ele num dos telefonemas. Por vezes, Isabelle sentia-se culpada e sabia que no era correto prosseguir a sua relao com Bill. Porm, 
esta era como uma droga, toda a sua vida Dependia dela e no queria desistir.
       Isabelle falava com Bill sobre o assunto, certa noite, enquanto lhe massajava as pernas paralisadas, que j haviam recuperado uma muito ligeira sensibilidade. 
Ia contar-lhe a conversa que tivera com Gordon nesse dia. Este fora extremamente seco e ela soltara um suspiro de alvio quando desligou o telefone.
       No creio que volte a confiar em mim. E tem razo. Nem quero imaginar qual vai ser a recepo quando chegar a casa. E tu? A Cynthia ficou muito irritada. 
Reparara que Bill nunca falava na mulher, s nas filhas. Mas a relao entre Bill e Cynthia fora sempre muito diferente da sua com Gordon. Levavam vidas muito mais 
independentes e praticamente nem se podia falar em relao. Bill ainda no lhe falara do divrcio. Era o nico segredo que no lhe revelara. No queria que Isabelle 
soubesse que, em breve, seria um homem livre. No pretendia pression-la. Sabia que no estava disposta a acabar com o casamento, por isso achava melhor que pensasse 
que ele tambm continuava casado.
       Acho que a Cindy no ia muito contente quando se foi embora. Fui franco quanto aos meus sentimentos em relao a ti E no tinha de o ser. Mas ela conhece-me 
bem e apercebeu-se da minha preocupao por ti.
       Isso no a aborreceu? indagou Isabelle, algo surpreendida.
       Estou certo que sim, mas no fez grandes protestos. Tambm teve uns quantos casos no seu passado. Alm disso, no se pode prender um homem por estar apaixonado. 
E h muito tempo que ela faz a sua prpria vida. No  pessoa para se preocupar com futilidades.
       Acho que o Gordon nunca me traiu com outra mulher.  extremamente conservador para fazer uma coisa dessas.
       No entanto, Bill no estava to certo disso, mas no queria dizer-lho. Era estranho que um homem que era to frio e to cruel como Gordon no fosse  procura 
de conforto noutras paragens. Desde o primeiro dia em que se conheceram que o achava o tipo de homem que no era fiel ou leal com quem quer que fosse. Uma amante 
escondida algures explicava o seu comportamento rude com a mulher.
       Que te leva a pensar isso? perguntou Bill, cautelosamente. No queria lanar mais achas para a fogueira. S desejava que Isabelle tivesse uma vida tranquila, 
no a queria incitar a uma guerra contra um homem to cruel e de to baixo carcter.
       O afeto no  importante para ele, nem o sexo. H anos que no dormimos no mesmo quarto. Bill percebeu o que Isabelle queria dizer e sorriu. Era uma mulher 
tmida, pelo menos verbalmente, e de extrema franqueza com ele. Mas de alguma ingenuidade no que dizia respeito ao marido.
       Na semana seguinte, Bill e Isabelle comearam a andar um pouco mais tensos. Ela tinha uma grande quantidade de exames marcados, e, se os mdicos ficassem 
satisfeitos com os resultados, iria para casa. Encontravam-se internados h dois meses. Gordon andava cada vez mais irritado com os mdicos, acusando-os de excesso 
de zelo para no darem alta a Isabelle. E o centro de reabilitao onde Bill iria passar os meses seguintes aguardava-o a todo o momento. O estranho idlio estava 
prestes a acabar. No era fcil para qualquer um deles encarar esse fato de nimo leve.
       Prometes telefonar-me todos os dias? perguntou Isabelle, certa noite, com ar triste, deitada ao lado de Bill. Ia fazer o ltimo electroencefalograma no dia 
seguinte. O fgado aparentava melhoras, o corao parecera normal na ltima ecografia e os pulmes encontravam-se limpos.
       Telefonar-te-ei dez vezes por dia prometeu Bill, puxando-a para si. Tambm podes telefonar-me.
       Claro. Levantar-me-ei bem cedo para poder ligar-te antes de ires para a cama. Mas Isabelle sabia que, se o fizesse com muita frequncia, Gordon ou a secretria 
descobririam o nmero nas facturas. No tinha a mesma liberdade que Bill para telefonar. Tambm estava ciente da ambiguidade que era continuarem a relao por telefone, 
mas no conseguia suportar a idia de no falar com ele. Viviam juntos h dois meses.
       Estava aterrada com a idia de irem cada um para seu lado. No sabia quando voltariam a encontrar-se. Os mdicos haviam dito a Bill que iria estar no centro 
de reabilitao de seis meses a um ano. Era como se ambos estivessem prestes a serem condenados a priso perptua.
       Tens de te pr bom depressa disse Isabelle, ao mesmo tempo que o beijava no peito. Quero que venhas a Paris logo que possas. No teria qualquer hiptese de 
ir a Nova Iorque. Sophie suportara o fardo de cuidar de Teddy durante tempo suficiente e estava prestes a recomear as aulas. Sabia que to cedo no teria qualquer 
oportunidade de sair de Paris. Sentia-se desesperada por rever o filho. Tinha a impresso de que ele estava cada vez mais fraco
       Bill no fez qualquer comentrio relativamente a vir a Paris, mas ela no reparou. Prometera a si prprio ir-se afastando dela a pouco e pouco, caso ficasse 
paraltico ou, pior, perdesse a sua virilidade. Tratava-se de um acordo consigo mesmo. Nunca falara dos seus prognsticos sombrios com Isabelle. Primeiro, queria 
saber o que diriam os mdicos quando regressasse aos Estados Unidos. Ainda no acreditava na idia de ficar preso a uma cadeira de rodas Mas, se ficasse, no iria 
permitir que ela suportasse dois deficientes na sua vida. J lhe bastava um.
       No conseguia tolerar a idia de Isabelle estar consigo por pena, ou que cuidasse de si tal como fazia com o filho. Passara catorze anos cuidando de um filho 
com uma doena fatal. Porm, mesmo que nunca mais a visse, no conseguia encarar a hiptese de no falar com ela ao telefone. J nem sequer se imaginava a acordar 
de manh sem a ter a seu lado. Sentia uma angstia tremenda s de pensar que ela estaria to longe e que no poderia v-la, nem cuidar dela, nem sorrir-lhe quando 
entrasse no quarto. Os dias que passara na sua companhia eram os mais felizes da sua vida. O seu nico desejo era que a vida tivesse tomado outro rumo, que Teddy 
fosse mais saudvel e que Gordon exercesse menos ascendente sobre ela. Possua uma mirade de desejos e receava que nenhum deles se concretizasse.
       Os ltimos dias no hospital pareciam passar  velocidade do som. Todos os exames de Isabelle se revelaram bons e esta j recuperara alguma fora. Estava pronta 
para sair e encontrava-se j tudo tratado relativamente  alta. Em princpio, Gordon devia vir busc-la, porm,  ltima hora, pediu que uma enfermeira a acompanhasse 
na viagem at Paris. Desculpou-se com o fato de estar muito atarefado com os negcios. Mas Isabelle preferiu assim. No queria que ningum nem nada a afastasse de 
Bill na sua ltima noite no hospital. As enfermeiras deixaram-nos a ss. S queriam estar calmamente ao p um do outro. Isabelle partia de manh, Bill na semana 
seguinte. Ainda tinha de fazer mais alguns exams.
       No acredito que vou deixar-te amanh proferiu Isabelle, com ar triste, ao lado de Bill, abraados um ao outro. Tinha vontade de fazer amor com ele, mas no 
queria deix-lo desiludido, caso no fosse capaz de realizar o ato, especialmente na ltima noite que passavam juntos. No conseguia imaginar que ia voltar para 
junto de Gordon. Porm, tinha o consolo de praticamente no haver qualquer relao entre os dois. Mal se lembrava de como era viver com ele. Sentia-se muito mais 
casada com Bill.
       Quero que tomes conta de ti, meu amor disse Bill, apertando-a contra si. Haviam substitudo o enorme colar cervical por um mais pequeno e j conseguia mover 
a cabea um pouco mais. J lhe permitia volt-la e olhar para Isabelle com maior facilidade. Nenhum dos dois precisava de palavras para exprimir o que sentiam. Agora 
tinham de aprender a viver sem se verem todos os dias, sem se tocarem. Isabelle no conseguia imaginar essa situao, mas sabia que seria bem real quando transpusesse 
a porta de casa, na Rue de Crenelle. Sentia o corao destroado s de pensar que ia deixar Bill.
       No posso continuar assim murmurou Isabelle, enquanto as lgrimas lhe corriam pelas faces. No posso continuar sem ti.
       Claro que podes. No me afastarei um milmetro do telefone.
       Ambos sabiam que as coisas agora seriam diferentes. Isabelle sentia algo de estranho no seu ntimo, face ao regresso a casa. Gordon fora to frio consigo 
ao telefone que estava certa de que ele iria castig-la pelas transgresses cometidas, como era o caso de estar com Bill na altura do acidente. Como se o sucedido 
nessa noite no tivesse sido punio suficiente
       Ficaram um longo instante em silncio, a olhar para a lua cheia. A manh no tardou. Permaneceram mais alguns minutos abraados um ao outro. Entretanto, uma 
enfermeira veio lembrar Isabelle que tinha que se levantar. Tomou um duche e vestiu-se. Levaram-lhes o pequeno-almoo, mas nenhum dos dois conseguiu comer fosse 
o que fosse. Ficaram de olhos pregados um no outro. Conteve um soluo e tomou Bill nos braos, enquanto este a confortava.
       Vai correr tudo bem. Telefono-te esta noite. No chores, meu amor.
       Isabelle parecia uma criana de corao destroado. Deixar Bill era pior do que abandonar o lar. Era a nica fonte de conforto e amor que possua.
       Gordon mandara-lhe algumas roupas: um fato Chanel preto, que agora lhe ficava largo, e um par de sapatos de pele preta, que tambm eram grandes de mais. Perdera 
muito peso e o corpo parecia ter mudado. Apesar de muito magra, Bill achava-a mais bela do que nunca. Apanhara os longos cabelos escuros num bonito rabo-de-cavalo. 
No usara maquilhagem, apenas batom. Ao v-la assim, lembrou-se do dia em que chegaram a Londres, do primeiro dia em que foram almoar fora e da ida ao Bar Harry's 
nessa noite. Tanta coisa acontecera, tantas pontes atravessadas. Era incrvel pensar que haviam estado ambos s portas da morte e que tinham voltado  vida. E agora 
os sonhos estavam prestes a acabar. Eram obrigados a voltar ao mundo real, a um mundo em que no podiam viver juntos.
       Cuida bem de ti disse Isabelle, abraando-o. Volta para mim o mais depressa possvel murmurou. Bill sorriu, com o olhar embaciado. E no te esqueas que te 
amo muito.
       Fora, Isabelle... Tambm te amo muito.
       Isabelle encaminhou-se, com ar resoluto, para a porta, parou, lanou um ltimo olhar a Bill e, de lgrimas nos olhos, saiu.
       Agradeceu s enfermeiras e despediu-se de ambos os mdicos, enquanto a enfermeira que fora contratada para a viagem se mantinha junto dela para evitar qualquer 
queda. Encaminhou-se ento para o elevador, embora a sua nica vontade fosse voltar a correr at ao quarto de Bill, pr o relgio a andar para trs, nem que fosse 
at ao perodo do estado de coma, se necessrio. O que interessava era que pudesse ficar com ele. Entrou ento no elevador, de cabea baixa e lgrimas nos olhos. 
E todos lhe acenaram em sinal de despedida, ao mesmo tempo que as portas se fechavam.
       Ningum entrou no quarto de Bill depois de Isabelle ter partido. Ningum o viu chorar ou a olhar, angustiado, para o tecto. Se algum tivesse encostado o 
ouvido  porta, t-lo-ia ouvido a soluar. Era o choro de um homem que sabia que nunca mais voltaria a ver a mulher que amava. E quando, finalmente, horas mais tarde, 
as enfermeiras foram ver como ele estava, encontraram-no a dormir, com ar de quem estivera a chorar.

CAPTULO DOZE
       O avio que a secretria de Gordon reservara poisou na pista do Aeroporto Charles de Gaulle pouco passava das duas da tarde. Isabelle no trazia bagagem consigo, 
apenas uma pequena mala de mo, com os seus artigos de maquilhagem, alguns livros e fotografias dos filhos e de Bill. Com uma leve vista de olhos ao passaporte, 
o funcionrio da alfndega fez-lhe sinal para passar. No havia ningum  sua espera. Gordon no viera nem dissera a Sophie em que voo  que a me chegava.
       Quando entrou no carro que Gordon enviara, estava espantada com o cansao que sentia. Mal conseguia pr um p  frente do outro. Sabia que isso tinha a ver 
no s com a emoo, mas tambm com o fato de ser a primeira vez depois do acidente que tomava contato com o mundo real. A enfermeira conduzira-a numa cadeira de 
rodas at ao carro. No conseguia pensar seno em Bill. Tentara telefonar-lhe antes de entrar no carro, mas as enfermeiras do hospital informaram-na de que ele se 
encontrava a dormir. No queria acord-lo. De qualquer forma, no tinha nada para lhe dizer, a no ser que o amava e que detestava estar longe dele. J sentia a 
sua falta e ainda no chegara a casa. No entanto, sabia que, logo que chegasse, ficaria feliz de voltar a ver os filhos.
       A enfermeira falou muito pouco na viagem at casa. Havia sido contratada no hospital, mas trabalhava por conta prpria. Voltaria a Londres no voo das seis. 
Era uma simples dama de companhia, como Bill dissera. Achara uma boa idia, uma vez que Gordon no fora busc-la. Se ficasse mal disposta, se casse, se se mostrasse 
assustada ou confusa, era bom ter algum por perto. Estivera enferma durante muito tempo e sofrera um enorme choque. A mulher fizera-lhe algumas perguntas pertinentes 
sobre o acidente, apesar de ter lido o relatrio mdico, e, ao fim de algum tempo, calou-se. Durante a viagem, leu um livro. 
       Isabelle sentiu-se estranhamente deprimida quando entrou na cidade. No experimentou qualquer emoo ao ver Paris de novo. A Torre Eiffel no lhe dizia nada. 
Tinha vontade de estar do outro lado do canal da Mancha, no hospital, ao lado de Bill. Ao atravessar para a margem esquerda do Sena, fez um esforo para pensar em 
Teddy e Sophie. De repente, sentiu um frmito de entusiasmo quando o carro virou para a Rue de Crenelle. Os filhos eram o seu nico pensamento. Ansiava t-los de 
novo nos braos. Mas tambm sentia tristeza e saudade ao lembrar-se de Bill.
       As enormes portas de bronze que davam para o ptio interior encontravam-se abertas de par em par. Quando o carro entrou no ptio, Isabelle levantou os olhos 
para a casa que se erguia  sua frente. No viu ningum, se bem que os quartos dos filhos dessem para o jardim, tal como o dela. No esperava que Gordon se encontrasse 
em casa quela hora. Havia-lhe dito que estaria em casa s seis horas, como de costume, pois tinha um dia muito ocupado no banco. Respondera-lhe que compreendia. 
Ele demonstrava mais poder no se encontrando ali do que se ajudasse a lev-la at ao quarto. Era a sua forma de mostrar que ela no o controlava, nem nunca controlaria. 
Quando saiu do carro, no havia ningum a dar-lhe as boas-vindas.
       A enfermeira acompanhou-a na subida do pequeno lano de escadas, que ia dar  porta principal da casa.
       Tocou  campainha e, por instantes, ningum veio  porta. Ento, apareceu Josephine, a governanta. Olhou para Isabelle e desatou a chorar, ao mesmo tempo 
que a abraava.
       Oh, madame... Sempre pensara que a patroa no escaparia  morte. O ar de felicidade que exibia era autntico. Trabalhava para Isabelle desde que esta casara.
        to bom voltar a ver-te!
       Isabelle entrou e olhou  volta. O vestbulo parecia-lhe diferente. Maior, mais sombrio e triste. A mente pregava partidas estranhas. A casa j no lhe oferecia 
qualquer conforto- Tinha a estranha sensao de estar na casa errada. Perguntou a si prpria se o traumatismo craniano que sofrera  que a fazia sentir assim, ou 
se aquilo que via era autntico. EstiVera ausente durante muito tempo. Haviam-se passado mais de dois meses desde que partira para Londres, em junho.
       Tanta coisa acontecera. E agora que regressava, sentia-se invadida pela estranha sensao de que aquela casa j no era a sua. A nica coisa que a ligava 
a ela eram os filhos.
       Isabelle agradeceu  enfermeira por t-la acompanhado at casa, deixou-a com Josephine e subiu lentamente as escadas para ir ver os filhos. Fez uma ligeira 
pausa ao cimo, para recuperar o flego. Ouviam-se vozes ao longe. Por instantes, tudo  sua volta se desvaneceu,  exceo da voz do filho. Ouvia a voz de Teddy 
a falar com algum. E, p ante p, encaminhou-se at ao quarto dele e abriu a porta.
       Teddy no a viu de imediato. Estava deitado na cama a conversar com a sua enfermeira preferida, Marthe. Isabelle apercebeu-se logo, s pela voz, de que estava 
cansado e algo queixoso. Sem se fazer anunciar, entrou, com um largo sorriso nos lbios.
       Teddy olhou para a me, perplexo, e, soltando um grito de alegria, saltou da cama e correu para ela. E abraou-a com tanta fora que a ia fazendo cair.
       Mam! Voltaste! Abraava-a, puxava-a e beijava-a com tal mpeto que Isabelle ainda pensou que iam cair os dois no cho. A enfermeira pediu-lhe que tivesse 
cuidado com a me. Ao sentir o filho nos braos e o odor dos seus cabelos, no conseguiu conter as lgrimas.
       Oh, meu Deus, tive tantas saudades tuas... nem acredito.. Teddy, adoro-te.
       Parecia um cachorrinho  volta da me, aos puxes, aos beijos, s festas. Quando conseguiu afastar-se um pouco dele e se sentou na cama, Isabelle reparou 
que o filho estava extremamente plido. Alm de mais magro e mais fraco. Mal se sentou ao lado da me, comeou a tossir sem parar e era a custo que conseguia respirar.
       Isabelle olhou para a enfermeira, que fitava me e filho de lgrimas nos olhos. Pela quantidade de comprimidos e xaropes na mesa-de-cabeceira, era evidente 
que o estado de sade de Teddy no era o melhor. Os ltimos dois meses haviam sido extremamente desgastantes.
       Que ests a fazer na cama a esta hora? perguntou Isabelle, os olhos preocupados. Teddy sorriu, a felicidade estampada no rosto, gatinhou para cima da cama 
e deitou-se de barriga para cima, de olhos pregados na me.
       O mdico no me deixa levantar respondeu Tedy, como se essa questo no fosse relevante. Agora que a me voltara, pouco lhe importava a doena. Disse-lhe 
que era uma estupidez. Ontem quis ir para o jardim, mas a Sophie decidiu que eu no podia. Ela  ainda mais tonta do que tu. Est sempre preocupada comigo. E no 
me deixa fazer nada.
       Acho muito bem. Parece que tratou muito bem de ti.
       A mam sente-se bem? indagou Teddy, preocupado. A tosse parara, mas as mos tremiam-lhe. Isabelle suspeitava que isso se devia  medicao, mas, mesmo assim, 
no gostou desse sintoma. Alguns dos medicamentos para as dificuldades respiratrias j lhe haviam provocado tremores. O problema  que eram muito fortes para o 
corao. Mas Sophie no sabia e Isabelle tinha a absoluta certeza de que a filha fizera um bom trabalho. O pap disse que a mam esteve em coma e depois acordou 
e agora est bem.
       No foi bem assim. As coisas no foram to rpidas. Mas agora estou bem, e isso  verdade.
       Como foi estar em coma? Foi bonito? perguntou, com um olhar estranho e melanclico. Lembra-se?
       No. S me lembro de um sonho que tive e tu tambm entravas nele. Havia uma luz muito brilhante e eu ia-me embora, e tu obrigaste-me a voltar, tal como veio 
a acontecer. Era o mesmo sonho que Bill tivera e de que haviam falado muitas vezes. Mas no podia referir Bill ao filho. Gostava que ele conhecesse Teddy. Haviam 
falado tanto dele que achava injusto que no se conhecessem, embora esperasse que isso pudesse acontecer um dia.
       Doeu muito? Teddy continuava muito preocupado com a me. Assemelhava-se ao Principezinho do livro de Saint-Exupry, quando se sentou na cama, de pernas cruzadas, 
com os sedosos cabelos encaracolados  volta do rosto. Parecia muito mais novo do que aquilo que era. Aos catorze anos, nunca fora  escola, raramente saa de casa 
e no tinha amigos. S Sophie e os pais. E era com Isabelle que sempre Pudera contar.
       Apenas ao princpio. Depois disso, s tive de descansar muito, fazer exames, tomar medicamentos e pr-me boa para voltar para junto de ti.
       Tive muitas saudades. As palavras de Teddy no conseguiam descrever, nem de perto nem de longe, as emoes por que passara e o terror em que andara perante 
a perspectiva de a me nunca mais voltar para casa.
       Tambm tive muitas saudades. Isabelle olhou  volta e deitou-se ao comprido na cama. Sentia-se confortvel naquele quarto, muito mais do que se sentira no 
vestbulo, ou no seu prprio quarto. Era ali que costumava passar o tempo quando se encontrava em casa. Onde est a Sophie
       Saiu. As aulas comeam na prxima semana. Foi bom a mam ter voltado para casa. O pap passa o tempo todo fora, e a Sophie est furiosa com isso.
       Ento vamos ler muito e fazer muitos quebra-cabeas. Se o pap anda assim to ocupado, ento temos mais tempo para ns, no ? Isabelle parecia pouco preocupada 
com a questo, mas no conseguiu deixar de perguntar-se por onde Gordon andava. Tambm sabia que essa era a preocupao de Teddy, mas, provavelmente, Gordon no 
passaria assim tanto tempo fora de casa como Teddy dizia.
       Isabelle e Teddy falavam e riam animadamente quando Sophie entrou no quarto, com um monte de revistas para o irmo. Soltou um grito de espanto quando viu 
a me deitada ao lado dele.
       Mam! Correu para a me e quase se atirou para cima dela. De repente, ficou apreensiva com a eventualidade de a poder magoar. Achava a me com um ar muito 
debilitado, no muito diferente do irmo. Est to magra, mam!
       A comida do hospital era horrvel! Sorriu. No lhe disse que, em vrias ocasies, Bill mandara vir de fora excelentes refeies. No passara fome. Alm disso, 
ultimamente o apetite era pouco. As roupas ficavam-lhe largas.
       Sente-se bem? O ar era de consternao. Fora ela a encarregada de olhar pela famlia, enquanto a me estivera no hospital.
       Agora que estou outra vez convosco, sinto-me maravilhosamente bem.
       S ao fim de uma hora  que Isabelle foi para o seu quarto descansar um pouco. Sentia-se exausta. Marthe, a enfermeira, de Teddy, disse que iria fazer-lhe 
uma visita mais tarde.
       Deitou-se em cima da cama e descalou os sapatos. Vagueou ento o olhar  sua volta. O quarto encontrava-se todo decorado com sedas s flores muito delicadas 
e de cores claras. Havia rosas brancas e azuis cor de alfazema sobre um fundo marfim. Os mveis eram todos Lus XV. Sentia-se bem ali, outra vez completa, agora 
que j vira os filhos, mas, ao mesmo tempo, havia uma pea que faltava. As saudades de Bill como que a sufocavam, provocando-lhe uma sensao de quase pnico. Tinha 
saudades de ouvir a sua voz, de o ver sorrir, de lhe tocar na mo. Sentia-se estranhamente s na casa em que vivia com os filhos e o marido, que, h muito, no passava 
de um estranho.
       S queria descansar uns minutos, mas acabou por adormecer, s acordando quando Sophie lhe deu um ligeiro toque no ombro.
       Sente-se bem, mam?
       Sophie amadurecera muito nesse Vero. Dava a impresso de ter saltado diretamente da infncia para a idade adulta. Parecia mais a me que a filha. Deu meia 
volta na cama e sorriu-lhe. Parecia haver uma maior proximidade entre me e filha.
       Estou bem, querida. Ainda dormitei um pouco. Estou muito cansada.
       No se canse com o Teddy. Est to contente que no vai larg-la um minuto, como um cachorrinho. Tem andado com febre nos ltimos dias informou Sophie, preocupada.
       Est muito magro comentou Isabelle, dando uma palmadinha na cama para a filha se sentar ao seu lado.
       A mam tambm est observou Sophie, olhando para a me mais de perto. Tinha um ar diferente daquele que exibia antes. Como se algo tremendamente importante 
lhe tivesse acontecido. E era a pura realidade. Estivera s portas da morte e renascera. Alm de se ter apaixonado loucamente por um homem maravilhoso.
       Fizeste um trabalho extraordinrio com o Teddy afirmou Isabelle, em tom de elogio. Sabia melhor do que ningum que cuidar de uma criana deficiente como o 
filho no era fcil. Este era carinhoso e mostrava-se sempre grato pelas coisas que as pessoas faziam por si, mas tinha de estar constantemente sob cuidados extremos. 
Era uma vida de eterna vigilncia e nenhum descanso para aqueles que cuidavam dele. Desculpa a minha demora.
       O que importa  que est viva. E estou imensamente feliz por isso disse Sophie, com um sorriso cansado.
       Agora quero que descanses. Amanh fico a fazer companhia ao Teddy. Quero que te divirtas antes de comearem as aulas.
       E, desta vez, quando Sophie sorriu, j parecia de novo uma rapariga. No queria queixar-se  me das dificuldades por que passara e da solido que sentira. 
No tivera ningum com quem falar ou partilhar as suas preocupaes,  exceo dos amigos quando telefonavam. Estes vinham visit-la de vez em quando, mas, ao fim 
de algumas semanas, estavam fartos. Durante a maior parte do Vero, tinham deixado de aparecer. Dois longos meses de solido e de muito trabalho para Sophie. E o 
pai no lhe dera a mnima ajuda. Era como se no quisesse saber nada do filho. Tinha uma mulher doente, um filho deficiente e a sua prpria vida. Enquanto Isabelle 
estivera internada, raramente falara com Sophie, que se sentira mais uma empregada sobrecarregada com trabalho do que filha dele.
       Isabelle levantou-se, lavou a cara e penteou-se. Pensou em telefonar a Bill, mas no sabia se tinha tempo antes de Gordon chegar a casa. O que veio a acontecer 
s sete horas. Encontrava-se no quarto de Teddy a ler-lhe um livro quando viu passar um vulto alto e com ar sombrio. Devia ter reconhecido a voz de Isabelle, mas 
passou pelo quarto sem espreitar, nem a cumprimentar.
       Isabelle acabou a pgina e pousou o livro. Teddy jantara num tabuleiro, uma hora antes, e depois da emoo de rever a me sentia-se cansado. Sophie sara 
com amigos, pela primeira vez em dois meses. Depois de beijar o filho e de lhe prometer que voltaria, foi ter com o marido. Gordon encontrava-se no quarto de vestir, 
ao telefone. Ao encarar a mulher, ficou com ar surpreso, como se se tivesse esquecido de que ela voltava para casa. Isabelle sabia que isso no era possvel, mas 
fazia parte do seu modo de ser no fazer grande alarde com as chegadas e as partidas. Raramente se despedia quando ia de viagem, e nunca o fazia quando saa para 
o escritrio todas as manhs; ao regressar, geralmente refugiava-se nos seus aposentos, para descansar um pouco antes de ver Isabelle e os filhos. E nessa noite 
no agiu de forma diferente. Presumira que ela se encontrava com o filho e, alm disso, sabia que a veria mais cedo ou mais tarde. No tinha qualquer pressa em estar 
com ela.
       Que tal foi a viagem? indagou Gordon, sorrindo, ao longe. No fez meno de se dirigir a Isabelle, que, prudentemente, ficara  porta.
       tima. Parecia que os ltimos dois meses nunca haviam existido. Isabelle experimentou, de repente, a sensao de ter estado ausente durante apenas dois dias. 
Gordon no prestou qualquer ateno ao fato de a mulher ter estado dois meses fora e s portas da morte. A enfermeira foi muito til. Teria sido complicado viajar 
sem ela. Os midos parecem-me bem. Descontando o fato de Teddy ter perdido peso e estar quase a arder em febre e Sophie ter envelhecido cinco anos em dois meses. 
Tirando isso, estava tudo "timo". Isabelle sabia que Gordon no quereria ouvir falar desse assunto. Todas as questes referentes aos filhos e  casa no faziam 
parte das suas preocupaes.
       Como  que te sentes? perguntou Gordon, com ar preocupado, o que a surpreendeu. Isabelle esperava que ele agisse como se ela nunca tivesse estado internada. 
Gordon tinha tal averso a doenas e enfermos, que achava um sinal de fraqueza o fato de as pessoas adoecerem. Qualquer tipo de perturbao fsica trazia-lhe a me 
 lembrana, o que lhe provocava uma profunda angstia. No seu esprito, toda a sua infncia fora manchada pela doena da me.
       Sinto-me bem. S um pouco cansada. Ainda vai levar algum tempo at voltar a ser a mulher que era.
       Isabelle tinha de ir a um especialista, na semana seguinte, por causa do corao e do fgado. O mdico que a assistira em Londres avisara-a de que se tivesse 
dores de cabea, por mais ligeiras que fossem, teria de ser imediatamente vista por um mdico. A recuperao total, de acordo com o mesmo mdico, levaria aproximadamente 
um ano, se no mesmo mais.
       Ests com muito bom aspecto observou Gordon com ar satisfeito, alimentando o desejo de que fosse mesmo assim. Por uma srie de razes, desejava que os ltimos 
dois meses nunca tivessem acontecido. Ainda no se levantara para a abraar ou beijar E no tinha inteno de o fazer. Era muito diferente de Bill. Isabelle questionou-se, 
mais uma vez, se Gordon estaria zangado com ela. Este sabia da sua amizade com Bill, que lhe dissera que Gordon dera instrues para o porem fora do quarto dela. 
No entanto, o marido no fez qualquer pergunta, nem qualquer referncia a Bill. Isabelle tinha conscincia de que Bill Robinson era agora um assunto tabu entre eles. 
J jantaste? perguntou, num tom frio.
       Isabelle fez um aceno negativo com a cabea. Lembrou-se ento de que no podia fazer movimentos bruscos.
       Ainda no. Estava  tua espera. O Teddy j comeu e a Sophie saiu com os amigos.
       Gordon franziu o sobrolho.
       Pensei que te apetecesse ir para a cama quando chegasses. Para primeiro dia de alta, foi muito longo para ti. Tenho um jantar de negcios com um cliente de 
Banguecoque.
       Est bem disse Isabelle, com um sorriso nos lbios. Continuava  porta do quarto. Gordon nunca a convidara a entrar e essa era uma formalidade que respeitava. 
Sempre frisara que todos precisavam de um convite seu para entrar nesses aposentos, inclusive Isabelle. Peo  Josephine que me traga o jantar num tabuleiro. De 
qualquer forma, no estou com fome. S lhe apetecia uma sopa ou talvez uma torrada com ovos.
       Acho uma excelente idia. Jantamos amanh.
       No passado, Isabelle no teria ficado surpreendida pelo fato de Gordon se ter mantido impvido e sereno depois da sua longa ausncia. Mas, agora que conhecia 
Bill to intimamente e o modo como a tratava, causava-lhe alguma perplexidade que Gordon se mostrasse to distante e frio. Os dois homens no podiam ser mais diferentes. 
No houve qualquer manifestao de interesse por se inteirar do seu estado de sade, ou de regozijo, nem uma simples flor. Nem sequer se dignou ir abra-la. Isabelle 
sabia que no voltaria a v-lo nessa noite. E ficou espantada quando ele passou pelo seu quarto pouco antes de sair. Envergava um fato azul-escuro, uma camisa branca, 
uma gravata Hermes azul e cheirava a gua-de-colnia. Dava a impresso de que ia para uma festa, mas no lhe perguntou.
       J comeste? A pergunta era um sinal de solicitude pouco habitual nele. Ficou sensibilizada com a ateno. Eram aquelas migalhas de afeto que a haviam satisfeito 
no passado.
       Comi ovos e sopa.
       Vai descansar um pouco. No passes a noite com o Teddy. Ele tem a enfermeira para isso.
       Isabelle teria adorado ficar com o filho, mas sabia que ainda no estava em condies para tal.
       J est a dormir. Fora v-lo antes de ir para a cama.
       Devias fazer o mesmo opinou Gordon, mais uma vez, sem se aproximar da cama. Raramente tocava na mulher e nunca a abraava, h anos que no a beijava e mantinha 
uma considervel distncia dela quando se encontrava na mesma sala. A nica ocasio em que lhe demonstrava mais afeto era quando se encontravam em pblico. Anos 
antes, fora induzida em erro por esse comportamento, pensando que Gordon estava a mostrar-se mais cordial com ela. Porm, ficara novamente frio mal fechavam a porta 
do quarto. Mostrar afeto por algum era a coisa mais difcil do mundo para ele, contrastando com Isabelle, que era afvel com toda a gente. At amanh. Gordon teve 
uma leve hesitao. Por instantes, Isabelle ainda pensou que ele entrasse no quarto e se aproximasse dela. Porm, sem dizer mais nada, deu meia volta e foi-se embora. 
No era o casamento que alguma vez sonhara, mas de nada valia pensar nisso agora. Era o nico que tinha. Depois dos meses que passara com Bill, era sua obrigao 
voltar a adaptar-se  situao. No seria uma tarefa fcil.
       Poucos minutos depois de ele sair, levantou o auscultador e ligou para o hospital. Quando a telefonista atendeu, pediu-lhe para falar com Bill. Encontrou-o 
deprimido, mas, mal a ouviu, o seu estado de esprito melhorou consideravelmente.
       Estava a pensar em ti. O tom de voz de Bill contrastava claramente com o tom com que Gordon a cumprimentara. Como esto as crianas?
       Maravilhosas. Sorriu ao ouvir a voz de Bill. Parecia um marido em viagem, a querer saber como fora o dia da mulher. Ficaram radiantes por me verem. A pobre 
Sophie parece esgotada.
       Como est o Teddy?
       Muito magro E com febre outra vez Mas, hoje  noite, parece-me um pouco melhor. Amanh vou passar o dia com ele.
       No abuses. Ainda no ests em condies de fazer tudo o que fazias.
       Eu sei, querido. Como foi o teu dia?
       Fora horrvel, mas Bill no lhe disse nada. Passara o dia todo sozinho, mas sabia que tinha de se habituar  idia. Agora s lhe restavam os telefonemas. 
Tal como nos velhos tempos. Mas, ao fim de dois meses de vida em comum, os telefonemas sabiam-lhe a pouco.
       Foi bom mentiu. Tive imensas saudades tuas. Esto a fazer os possveis para me darem alta na prxima semana. Sinto-me como se fosse para um campo de instruo 
militar. Ia para o centro de reabilitao com o programa mais rigoroso, pois achava que assim conseguiria obter melhores resultados. O seu futuro, alis, o futuro 
de ambos, estava dependente da sua recuperao plena E apesar daquilo que lhe haviam dito em Londres sobre as pernas, sentia-se esperanoso. Ainda se mostrava confiante 
de que nos Estados Unidos lhe pudessem dizer algo diferente.
       Falaram um pouco sobre a sua chegada a casa e dos filhos. Bill recebera um telefonema de Jane nessa tarde, o que o deixara um pouco mais animado E s no final 
da conversa  que perguntou a Isabelle por Gordon.
       Como  que ele te recebeu?
        maneira do Gordon. Chegou tarde a casa e hoje  noite saiu. No h problema. Isabelle deixara o seu corao com Bill, em Londres,  exceo da parte que 
pertencia aos filhos. Nada restava para o marido. Era demasiado tarde e muita coisa acontecera ao longo dos anos. Mesmo que nunca mais voltasse a ver Bill, sabia 
que era demasiado tarde para si e para Gordon. A nica coisa que lhes restava era um casamento que vivia de aparncias, ao qual faltava a substncia.
       Parece-te que esteja zangado contigo? Bill ficara preocupado com essa eventualidade. Achara-o to irritado naqueles primeiros dias em Londres.
       No, no me parece. Mas ele nunca demonstra. Se estiver, s saberei quando menos esperar.  assim que funciona. Primeiro, guarda as coisas para si, a paga 
vem sempre mais tarde.
       S no quero que se vingue em ti por estares comigo na altura do acidente. Sei que ficou irritado com isso.
       Falaste com a Cynthia? Isabelle reparara, em Londres, que a mulher nunca lhe telefonava. Bill tivera vrias conversas com o seu advogado no hospital e tratara 
dos papis do processo do divrcio sem contar a Isabelle.
       A Jane disse que a me estava em South Hampton. Vejo-a quando estiver em Nova Iorque, no hospital.
       Espero bem que sim. Isabelle sentia-se chocada com a falta de ateno da parte de Cyntia
       Bill prometeu ento telefonar-lhe no dia seguinte. Isabelle estaria em casa durante todo o dia. Agora, com apenas uma hora de diferena entre Paris e Londres, 
era fcil trocarem telefonemas. Quando ele estivesse em Nova Iorque, seria muito mais difcil, mas Isabelle sabia que acabariam por arranjar maneira de tornear as 
dificuldades, como haviam feito ao longo dos anos. Antes de desligar, Bill disse, mais uma vez, que a amava. Nessa noite, deitada na sua cama, na casa que era, em 
princpio, o seu lar, Isabelle sentia que se encontrava num lugar estranho. Era como se o seu lar fosse em Londres, ao lado de Bill. Nessa noite, Isabelle no ouviu 
Gordon entrar. Dormia profundamente. No dia seguinte, no patamar, quando ia ver Teddy, deu de caras com Gordon. Dormira at mais tarde do que era costume. Eram quase 
noVe horas quando se levantou. Ia de camisa de noite, cara lavada e cabelos penteados, quando o viu, em passo apressado e de pasta na mo, em direco s escadas. 
Este no lhe falou, limitando-se a acenar com a mo, enquanto descia as escadas a correr. Falava ao telemvel. Pouco depois, ouviu o carro arrancar. Isabelle e Teddy 
passaram um timo dia. Ela leu-lhe muitas histrias, deitada ao lado dele, o que lhe trouxe  memria os momentos passados com Bill no hospital. Depois de almoo, 
Teddy dormiu uma longa sesta. Entretanto, apareceu o mdico, que o achou muito melhor. Porm, quando Isabelle o conduzia  porta, o mdico virou-se para ela com 
uma expresso estranha no semblante.
       Sabe que o estado dele est a deteriorar-se, no sabe? Era isso que Isabelle receava, mas pensava que se tratava de uma situao temporria. Agora que estava 
em casa, iria envidar todos os seus esforos para trazer o filho de volta ao estado em que o deixara dois meses antes, quando partira para Londres. E tinha a certeza 
de que conseguiria. Sophie tomara bem conta do irmo, mas no conhecia todos os truques de que Isabelle se servia para o pr em melhores condies.
       Est plido e perdeu peso, mas pareceu-me melhor esta manh disse, esperanosa.
       E est mais contente. Mas encontra-se cada vez mais fraco. A funo cardaca est a piorar e os pulmes funcionaram mal durante todo o vero.
       O que quer dizer-me, doutor? indagou Isabelle, preocupada.
       Que o corpo no est a acompanhar o crescimento.  medida que ele vai ficando maior, o corao e os pulmes vo ficando sujeitos a um maior esforo.
       E um transplante?
       Nunca iria sobreviver  operao.
       Isabelle sabia que, sem a operao, os dias de Teddy estavam contados. Era muita coisa para enfrentar, ainda mal chegara a casa, e ela prpria ainda se encontrava 
muito debilitada. O mdico aconselhou-a a no fazer esforos.
       Gostava de v-lo ganhar algum peso, e voc, Isabelle tambm tem de engordar. O mdico estava preocupado com ela. O seu organismo sofrera um choque tremendo 
e as sequelas ainda eram visveis.
       Tratarei disso. Iremos entrar os dois num regime de engorda. Sorriu, pensando naquilo que o mdico acabara de lhe dizer. Fora um Vero terrvel para Teddy, 
alis, para ambos, mas, agora que regressara a casa, estava determinada a dar uma volta s coisas, e tinha a certeza de que conseguiria.
       Volto a v-lo dentro de um dia ou dois, mas, se tiver quaisquer problemas, telefone-me.
       No entanto, os problemas que Isabelle enfrentava no estavam relacionados com Teddy. Tinham a ver com Gordon. Nessa noite, este chegou a casa com ar taciturno 
e no deu qualquer explicao para isso. Pegou num tabuleiro e foi jantar para o quarto, deixando Isabelle sozinha  mesa. Evitava falar com ela e nunca entrava 
no seu quarto. Ao fim da noite, Isabelle ouviu-o sair. No fazia a mnima idia onde  que o marido ia quando saa quelas horas da noite. E s voltou a v-lo na 
manh seguinte. Deu de caras com ele quando desceu para tomar o pequeno-almoo, sentado na sala de jantar, a ler o jornal e a beber uma chvena de caf. S ao fim 
de muito tempo  que se apercebeu da presena da mulher. Pousou ento o jornal e acabou o caf. Isabelle tinha a impresso de que Gordon estava irritado com ela 
e no fazia a mnima idia do motivo dessa irritao.
       Tiveste notcias do teu amigo de Londres? perguntou Gordon, num tom seco. Isabelle ficou perplexa com a pergunta. No queria mentir-lhe, mas no estava disposta 
a dizer-lhe que telefonara a Bill duas vezes no dia anterior.
       Sim, falei com ele. Ficou surpreendida por Gordon se referir a Bill. No dissera uma palavra sobre ele no dia em que chegara, mas agora mostrava-se furioso 
com ela.
       No achas que  uma falta de dignidade da parte dele telefonar c para casa, Isabelle? Devia ter vergonha na cara. Quase te matou.
       O autocarro  que quase nos matou aos dois. Ele no teve culpa.
       Se no tivesses sado com ele, nada disso teria acontecido. No creio que gostasses que os teus filhos soubessem que estavas com outro homem, quando ocorreu 
o acidente. Havia uma ameaa implcita nas palavras de Gordon.
       Claro que no. Mas as coisas no foram como queres fazer crer. ramos simples amigos ripostou Isabelle, num tom calmo, embora o corao batesse com mais fora.
       Ests a dizer-me que a vossa amizade acabou?
       No diria isso. Passmos por muita coisa juntos. Lanou um olhar cauteloso ao marido. Sabia que este era uma pessoa vingativa e no queria iniciar uma guerra 
com ele. Gordon  que detinha o poder e no admitia que ela o pusesse em causa. No tens nada a recear dele. J estou em casa.
       A questo no  essa. Estou a aconselhar-te a pores um ponto final nisso tudo. Corres um grande risco se me irritares. E no te aconselho que o faas.
       No tenho qualquer desejo de te irritar. Desculpa ter-te criado uma situao embaraosa. Ao dizer isto, baixou os olhos.
       Interessante escolha de palavras. O olhar fulminante de Gordon era um srio aviso para ela. Estares envolvida num acidente que quase te ceifou a vida, enquanto 
me enganavas com outro homem, , sem dvida, uma "situao embaraosa".
       No estava a enganar-te. Tinha ido jantar.
       E danar. Eram duas da manh. Isabelle teve vontade de lhe perguntar onde  que ele passara a noite anterior, ou onde  que fora quando saiu de casa ao fim 
da noite. Nunca se atreveria a tal coisa. Gordon  que estabelecera as regras do casamento e agora era livre de fazer o que quisesse. Sempre esperara que a mulher 
se mantivesse sob as suas ordens. Estava estabelecido entre os dois ela no fazer perguntas, nem questionar a autoridade ou a independncia do marido. A punio 
por isso teria sido extrema, se alguma vez ela se tivesse atrevido. Essa questo encontrava-se bem definida entre ambos. Nunca houvera qualquer pretenso de igualdade 
no casamento. Gordon nunca proporcionara nem prometera tal coisa. A nica circunstncia que agora a espantava era o fato de ter aceite sempre, sem pestanejar, essa 
regra autoritria. O casamento fora sempre mais uma ditadura do que propriamente um casamento. s uma mulher casada e conto que te comportes como tal. Espero que 
tenhas aprendido a lio
       Isabelle perguntou-se ento o que Gordon lhe faria se soubesse que partilhara o quarto de hospital com Bill. Estava a ser muito claro. No iria tolerar outro 
tipo de comportamento da parte da mulher que no fosse exemplar. Qualquer passo em falso seria punido com silncio, ameaas, rejeio, insultos, se necessrio, ou 
talvez at com a expulso de casa, ou retirando-lhe os filhos. E se ele se divorciasse dela, Isabelle no poderia tratar de Teddy, que era o nico fato que lhe importava.
       Tens sorte por estar disposto a perdoar-te. Mas se descubro que andas a portar-te mal, ou que ele te vem c visitar, as coisas vo ficar muito ms entre ns. 
E sugiro que lhe digas para no te telefonar mais.
       Isabelle sabia que nunca faria tal coisa. Os telefonemas de Bill eram a nica tbua de salvao que agora tinha. No ia haver, certamente, qualquer cordialidade 
ou apoio da parte de Gordon. Este levantou-se ento da mesa, pegou na pasta e saiu da sala. J transmitira a sua mensagem. Pouco depois, partiu para o escritrio.
       Isabelle sentou-se ento na sala de jantar durante alguns instantes a organizar as idias. Sentia-se combalida. Agora era uma presa em liberdade condicional, 
e se quebrasse de novo as regras, e Gordon descobrisse, s Deus sabia o que ele iria fazer-lhe. Era capaz de pedir o divrcio e ficar com a custdia de Teddy. Esse 
seria o seu pior pesadelo. Estava convencida de que o marido era bem capaz disso. Tinha vontade de telefonar a Bill, mas no se atrevia. Teria de esperar que ele 
telefonasse. O que veio a acontecer ao meio-dia, depois de Bill fazer a fisioterapia. Parecia cansado, mas com um estado de esprito satisfatrio e feliz por falar 
com ela.
       Ol, querida, como ests perguntou Bill, num tom prazenteiro, apercebendo-se, quase de imediato, de que algo acontecera. O que se passa? Pareces preocupada.
       No, estou bem mentiu, admitindo, de seguida, quando pressionada a dizer a verdade, que o seu estado de esprito no era o melhor. Falou-lhe ento da conversa 
com Gordon nessa manh.
       S est a tentar assustar-te. Quer reinar atravs do medo. Bill detestava tudo nele. Lembrou-se ento de que Gordon nunca mais voltara a visit-la no hospital, 
para a punir e assustar, e faz-la sentir-se insegura. O que Gordon no sabia era que isso se transformara numa ddiva para Isabelle; alis, para ambos. Ele no 
pode fazer-te nada. Nem pode tirar-te o Teddy. Tentava, em vo, anim-la.  medida que a conversa prosseguia, Bill sentia que Isabelle estava assustada.
       Os tribunais aqui costumam conceder o poder paternal ao pai. Ele  capaz de convencer o juiz de que sou uma m me.
       Bill sentia o corao destroado ao ouvi-la assim to preocupada. Isabelle estivera toda a manh a reflectir no assunto.
       Como pode ele convencer o juiz de que s m me Dizendo-lhe que passaste catorze anos a tratar dele? Querida, no sejas tonta. S quer aterrorizar-te e, pelos 
vistos, est a conseguir. Era um receio infundado, mas Gordon sempre a assustara com aquele ar todo-poderoso, de quem  dono da verdade.
       Ele impressiona qualquer pessoa.
       A mim no me impressiona declarou Bill, num tom algo irritado. Adoraria t-lo confrontado com o fato de sempre ter maltratado a esposa. Gordon Forrester era 
um tirano. Tenta ignor-lo, despreza-o.
        o que estou a fazer
       Vais jantar com ele?
       No sei. Nunca avisa se vem ou no jantar.
       Bill sentia-se estupefato com tudo aquilo por que Isabelle passava, mas no podia fazer nada. Gostava que ela se divorciasse, mas sabia que isso nunca aconteceria. 
Havia muita coisa em jogo e Isabelle sentia medo daquilo que o marido pudesse fazer-lhe. E era isso mesmo que este queria. Bill tentou explicar-lhe a situao, mas 
Isabelle continuava a bater na mesma tecla que estava inteiramente  merc de Gordon. No tinha o seu prprio dinheiro e o filho era deficiente, precisando de constantes 
cuidados mdicos, extremamente dispendiosos. Ouvi-la falar assim irritava-o solenemente. Adoraria casar com ela e cuidar de Teddy Mas agora era tarde de mais, pelo 
menos de momento. No podia pedir-lhe para casar consigo se ia ficar deficiente. Estava de ps e mos atados. E homens como Gordon arranjavam sempre a arma certa 
para empunhar contra as suas vtimas. Neste caso, era medo.
       Afasta-te do caminho dele. Eu  que passo a telefonar-te. Bill achava que era melhor o seu nmero no aparecer nas facturas do telefone. Liga-me s se for 
estritamente necessrio. Eu  que te telefono
       Isabelle sentiu-se invadida por uma profunda solido ao tomar conscincia da situao em que se encontrava mergulhada. Gordon estava disposto a obrig-la 
a pagar, at ao ltimo cntimo, aquilo que ela lhe fizera em Londres.
       Conversaram durante mais alguns instantes. Depois, Bill teve de voltar para a fisioterapia. Prometeu ligar mais tarde, antes de Gordon chegar a casa.
       Porm, desta vez Gordon surpreendeu Isabelle. Em vez de chegar tarde a casa, chegou s quatro da tarde, com ar de quem esperava apanhar a mulher em flagrante 
delito. Mas Bill j telefonara. Isabelle encontrava-se estendida em cima da cama de Teddy, a jogar s cartas com ele. Este tinha uma paixo pelo gmrummy. Tambm 
gostava de fazer pacincias, mas preferia jogar com a me.
       Gordon esboou um ligeiro aceno com a mo ao passar pela porta do quarto, mas no parou para falar com o filho ou com a mulher. Era exatamente o mesmo comportamento 
que Sophie presenciara durante todo o Vero. Dera-lhe uma nova perspectiva do pai, que no gostara. Detestava a forma como costumava falar com ela, ignorando Teddy 
por completo, como se este fosse invisvel ou nunca tivesse existido. Aos olhos de Gordon, o filho era uma criana defeituosa e rejeitava-o por isso. No merecia 
a sua ateno, e Teddy tinha conscincia disso. H anos que no sentia qualquer respeito ou afeto pelo pai. Sophie s agora comeava a compreender isso E comentou 
o fato com a me, ao final da tarde, antes de sair com os amigos.
       Por que razo deixa o pap trat-la dessa maneira? perguntou Sophie, em tom de acusao. Queria que a me reagisse, mas esta no estava disposta a isso, o 
que a irritava no mais profundo do seu ser. Embora se tivesse oposto, durante anos,  me, era agora, potencialmente, a sua aliada mais forte.
       O pap no faz isso por mal, querida. O seu modo de Ser  assim. Isabelle mostra-se sempre lesta a defender o marido das queixas dos filhos, por mais razo 
que estes tivessem. Ele no  uma pessoa expansiva.
       Sophie mantinha o mesmo ar irritado. Ficara a saber muita coisa dele nesse Vero, mais do que queria. Todas as suas iluses relativamente ao pai haviam ido 
por gua abaixo. A sua simpatia ia inteiramente para a me. Isabelle tornara-se a sua herona.
       O pap mostra constantemente indiferena e desprezo por tudo o que se passa  sua volta. Trata a mam de forma horrvel e no quer saber do Teddy ripostou, 
furiosa.
       No  bem assim, Sophie. Isabelle ficou algo nervosa ao ouvir as palavras da filha, embora soubesse que havia uma grande dose de verdade nelas.
       Ele s quer saber dele. Tambm no me liga qualquer importncia.
       O pap tem muito orgulho em ti.
       Sophie no contradisse a me a esse respeito, mas no acreditava naquilo que lhe dizia.
       Mesmo que isso seja verdade, no tem o direito de a tratar como trata, e muito menos ao Teddy. Gordon agia ligeiramente melhor com Sophie, mas, ultimamente, 
j se mostrava mais frio com ela. Nunca lhe agradecera tudo aquilo que fizera e do que abdicara pelo irmo, durante a ausncia da me. Sophie comeara a ver o pai 
como um homem frio, duro e sem sentimentos. Precisamente aquilo que ele era. A nvel profissional, esta postura trouxera-lhe dividendos, mas em casa, com a mulher 
e os filhos, isso no acontecia.
       No te preocupes com isso. O teu pai  um bom homem. Mas tanto uma como outra sabiam que era mentira. Gordon no tinha nada de bom ou de simptico. O teu 
pai e eu j estamos habituados um ao outro. Conhecemos as nossas divergncias e os sentimentos de cada um. As coisas no so to ms como parecem.
       No entanto, Sophie sabia que eram piores. Compreendia agora a razo de os pais terem quartos separados. Alm disso, o pai passava a maior parte do tempo fora. 
Raramente dormira uma noite em casa quando Isabelle estivera no hospital mas no iria dizer nada disso  me, para no a magoar. No acreditava que o pai tivesse 
uma amante. No parecia ser esse tipo de homem. Mas no fazia a mnima idia de onde  que ele ia. Nunca lhe deixara nenhum contato.
       Est tudo bem repetiu Isabelle, mas no conseguia convencer a filha.
       Ele foi sempre assim? Agora que assistira ao comportamento do pai nos ltimos dois meses, Sophie no conseguia lembrar-se de ele tratar a me de outra forma. 
Nem de uma ocasio em que houvesse calor e afeto entre eles. Nem de o pai dar um beijo ou um abrao  me. E tinham quartos separados desde o nascimento de Teddy. 
A me afirmara que isso acontecia para poder cuidar do filho e no perturbar o descanso do pai, mas agora percebia que os motivos estavam muito para alm disso. 
E s no compreendia como no ficara chocada com esse fato h mais tempo. Sempre tomara o partido do pai e agora sentia-se tambm culpada da situao em que a me 
vivia. Enquanto esta permanecera no hospital, ficara a saber muita coisa e crescera como pessoa. E o fato de ter estado na iminncia de a perder fizera com que sentisse 
agora um carinho especial pela me, como nunca sentira. Ele era diferente quando casaram? indagou, triste pela me. Sentia uma ternura imensa por ela.
       Era uma pessoa muito protectora quando casmos. Muito forte, muito determinado, embora eu pensasse que isso era amor. Eu era muito jovem. E ele ficou muito 
feliz quando nasceste. Mas Isabelle no disse  filha que o pai queria um rapaz. Depois, teve um aborto espontneo. Ento, quatro anos depois do nascimento de Sophie, 
dera  luz Teddy. E as relaes com Gordon tornaram-se azedas. Repreendera-a pelo nascimento prematuro do filho, insistindo na idia de que ela devia ter feito qualquer 
coisa para provocar aborto e que a culpa era toda dela.
       Gordon rejeitara o filho doente desde o primeiro momento em que o vira. Ao fim de alguns meses, comeara a adoptar o mesmo tipo de comportamento relativamente 
a isabelle, que precisava do seu amor e do seu apoio, pois eram tempos difceis. Haviam estado prestes a perder Teddy, por diversas vezes, nos dois primeiros anos 
de vida deste. Essa Perspectiva aterrorizava-a. Teddy era uma criana de extrema debilidade e em constante luta com a morte, mas Gordon no fazia outra coisa seno 
culpabilizar Isabelle pelo estado do filho, alm de a acusar constantemente de ser incapaz e incompetente. Minara-lhe completamente a sua auto-estima assim como 
qualquer confiana que tivesse em si prpria, enquanto me, mulher e esposa. Ao fim dos dois primeiros anos de vida de Teddy, Gordon conseguira p-la de lado. Isabelle 
nunca compreendera porqu, mas comeava a acreditar que talvez a culpa fosse dela. Por vezes, ainda tinha essa sensao. Sempre achara que, se tivesse tratado das 
coisas da melhor forma, Gordon am-la-ia ainda e tudo teria sido bem diferente. Passava a vida a censur-la, tal como acontecera, nessa manh, com a histria do 
acidente e do seu comportamento em Londres, e at estava disposta a assumir a sua culpa. S que, desta vez, menos do que era costume. Sabia que no fora um comportamento 
correto encontrar-se com Bill em Londres, clandestinamente. Mas, nessa altura, no fizera nada de mal. Fora sua inteno que se tratasse de um encontro inocente 
e dissera a Bill que honrava o seu casamento. S no hospital, depois do acidente,  que tudo se alterara. E agora amava Bill e era com satisfao que arcava com 
a culpa, s para o ter na sua vida. No via qualquer forma de o deixar naquele momento.
       No sei por que razo casou com o pap comentou Sophie, preparando-se para ir ter com os amigos. O que descobrira, nesse Vero, acerca do pai, entre outras 
coisas, era que ele tinha m ndole, ao ponto de, por vezes, ser cruel. E detestava isso nele.
       Casei com ele porque o amava disse Isabelle, esboando um sorriso triste. Tinha vinte e um anos e sonhava com uma vida maravilhosa. Era um homem bem-parecido, 
inteligente e lanado na vida. O meu pai achava-o abenoado pelo Sol. Disse-me que seria o marido ideal para mim, e acreditei. O teu av ficou muito bem impressionado 
com teu pai. Era um homem muito talentoso. Aos trinta e oito anos, Gordon era j diretor do banco, e ficara muito impressionado com as ligaes de Isabelle  alta 
sociedade e  realeza. No incio, esta conseguira dar um toque de classe  sua vida. Tinha amigos que lhe podiam ser teis. Mas, logo que os conheceu pessoalmente, 
Gordon ps Isabelle  margem e deixou, pura e simplesmente, de mostrar qualquer sinal de afeto ou amor por ela. Passou de um marido atencioso para um ser extremamente 
cruel, metido consigo mesmo, tratando a mulher como se ela no existisse, a no ser para o servir.
       Cinco anos mais tarde, j no se mostrava interessado em desperdiar o seu charme com ela. E muito menos agora. Nessa altura, o seu pai morrera e o casamento 
transformara-se num pesadelo, mas Isabelle nunca admitira tal fato a quem quer que fosse. Sentia vergonha, e Gordon convencera-a de que a culpa era dela. Desde a, 
Isabelle canalizara todo o seu amor para Sophie e Teddy.
       Sophie saiu pouco depois. Gordon e Isabelle jantaram na sala de jantar. Aps o tom da conversa dessa manh, foram poucas as palavras que trocaram. Isabelle 
no queria irrit-lo mais e a conscincia aconselhava-a a no fazer tal coisa. O nico assunto que costumavam abordar era sobre as crianas, o que o aborrecia profundamente. 
Isabelle no abriu a boca durante todo o jantar e, depois do caf, foi para o quarto de Teddy. Gordon, como de costume, barricou-se no seu quarto. Ao sair da sala 
de jantar, disse apenas que tinha trabalho para fazer. Mais tarde, j na cama, Isabelle pensava em tudo aquilo que Sophie lhe dissera. Era uma rapariga inteligente, 
saudvel e perspicaz. O comportamento e as atitudes do pai assustavam-na, mas o comportamento e as atitudes da me irritavam-na ainda mais. Queria que esta fizesse 
frente ao marido, mas, em vez disso, defendia-o, independentemente daquilo que lhe fazia.
       Nessa noite, Isabelle no ouviu Gordon sair. Mas descobriu que a cama dele no estava desfeita quando foi cham-lo para atender um importante telefonema de 
Nova Iorque, de manh. No conseguia imaginar onde  que o marido fora e no podia perguntar a ningum. Ficou espantada com o que viu. Ento, de repente, perguntou-se 
se ele faria aquilo com frequncia. Nunca se apercebera das sadas nocturnas do marido. Mas agora tinha os olhos mais abertos. No falou desse ato a ningum e disse 
 pessoa que estava ao telefone para falar para o escritrio. Teve vontade de lhe telefonar e de lhe perguntar onde estivera, mas no estava disposta a rebaixar-se 
a tanto. Em vez disso, foi tratar das suas coisas, como Bill sugerira. Cuidou de Teddy e esperou que Gordon chegasse a casa  noite. Quando isso aconteceu, no lhe 
fez qualquer pergunta, nem disse nada. O confronto no era o seu estilo, e j no ligava importncia s suas rejeies. Tinha Bill e o amor que partilhavam. Depois 
de jantar, foi para a cama. Entretanto, j a noite ia avanada, Gordon saiu, fechando cuidadosamente a porta atrs de si.

CAPTULO TREZE
       Bill deixou o hospital cinco dias depois de Isabelle ter regressado a Paris. Os dias ali sem ela haviam-no deixado num profundo estado de depresso. Sentia-se 
s, mas sabia que tinha de se habituar a essa realidade. Alm disso, ainda tinha de escalar o monte Evereste da sua vida. Os fisioterapeutas descreveram-lhe o que 
teria de fazer no ano seguinte. No entanto, avisaram-no para no colocar a fasquia demasiado alta. Achavam que a probabilidade de voltar a andar era muito remota. 
E embora admirassem a sua determinao, no o queriam ver destroado, caso tivesse de resignar-se a ficar permanentemente numa cadeira de rodas. Mas era o mais provvel. 
No entanto, achavam extraordinrio que Bill tivesse alguma sensibilidade nas pernas, atendendo s leses na coluna. Mas havia uma grande diferena, como explicaram, 
entre ter alguma sensibilidade nas pernas e ser capaz de andar.
       Quando saiu do hospital, todas as enfermeiras vieram abra-lo e no conseguiram conter as lgrimas. Era grande a sua dedicao por ele e mostravam-se impressionadas 
com o profundo afeto que o ligava a Isabelle. Achavam que o fato de terem sobrevivido ao acidente era uma das maiores ddivas da vida. Todos, na Unidade de Cuidados 
Intensivos, haviam ficado espantados com o fato de ambos terem conseguido sobreviver.
       Bill prometeu enviar-lhes postais quando chegasse a Nova Iorque e mandou vir presentes do Harrods para cada uma delas. Comprou-lhes pulseiras em ouro, e ao 
mdico ofereceu um relgio Patek Philippe. Uma enfermeira e um enfermeiro acompanharam-no at ao aeroporto e instalaram-no no avio. No Aeroporto Kennedy, em Nova 
Iorque, estavam representantes do centro de reabilitao  sua espera.
       Telefonou s filhas a anunciar que iria regressar a Nova Iorque. As duas prometeram visit-lo no dia seguinte, no Centro de reabilitao. No telefonou a 
Cynthia propositadamente. Tentava manter uma certa distncia entre eles. Achava melhor assim, por causa do processo de divrcio. Prontificara-se a conceder-lhe uma 
considervel penso em dinheiro dera-lhe a propriedade, vrios carros e uma impressionante carteira de investimentos. Apresentara os papis para o divrcio no ms 
anterior. Cynthia ficara espantada com a celeridade com que Bill desencadeara o processo e com a sua generosidade. Continuava a acreditar que ele fazia isso porque 
ainda imaginava poder casar com Isabelle, mas negara terminantemente tal possibilidade. Se Cynthia no tivesse presenciado o amor que Bill dedicava a Isabelle, teria 
acreditado.
       Bill conseguiu manter-se sentado durante as primeiras horas da viagem, mas depois o pescoo e a coluna comearam a doer-lhe, apesar de os ter imobilizados. 
Viajou no seu avio particular. O mdico aconselhara-o a no ingerir alimentos ou bebidas durante o voo. Tambm sugerira que fosse acompanhado de uma enfermeira, 
mas Bill opusera-se  idia, e arrependeu-se mal descolou. Mas queria provar a si prprio que era independente. Quando aterrou em Nova Iorque, estava absolutamente 
esgotado e cheio de dores.
       No aeroporto, encontravam-se dois enfermeiros e um motorista  sua espera. Na alfndega, no o mandaram parar.  porta, encontrava-se uma ambulncia. Os enfermeiros 
levaram-no primeiro  casa de banho. Ainda pensou em telefonar a Isabelle, mas resolveu esperar at chegar ao centro de reabilitao. As dores eram muitas e estava 
ansioso por se deitar na ambulncia.
       O vo parecia que nunca mais acabava. Passara boa parte da viagem deitado. Reclinara o assento, transformando-o numa cama. No entanto, este manteve uma ligeira 
inclinao, que lhe provocou dores excruciantes. Lembrou-se ento de que ainda tinha um longo caminho a percorrer at  recuperao plena, e no sabia se conseguiria 
chegar at l.
       Haviam-lhe trazido um termo com caf, bebidas frescas e uma sanduche. Sentiu-se muito melhor quando a ambulncia arrancou. Estava um bonito dia de Outono 
e o ar continuava quente.
       Levou meia hora a chegar ao centro de recuperao, nos arredores de Nova Iorque. Este parecia mais um country do que um local de reabilitao, mas estava 
de tal modo cansado que, quando chegaram, nem foras teve para olhar  sua volta. A nica coisa que queria era uma cama. Havia homens e mulheres em cadeiras de rodas 
e canadianas por todo o lado. Duas equipes de doentes em cadeiras de rodas jogavam basquetebol. O ambiente parecia ser de grande cordialidade e muito movimentado. 
Dava a sensao de que as pessoas transbordavam de energia, o que o deixou algo deprimido. Aquele ia ser o seu lar durante o prximo ano, ou, na melhor das hipteses, 
durante os prximos nove meses. Sentia-se um mido que fora mandado para um colgio interno e que estava morto de saudades de Isabelle e do St Thomas, e de todos 
os rostos amigos que l conhecera. Nem sequer se lembrou da sua casa no Connecticut. Isso agora fazia parte de um passado distante. E quando o conduziram numa cadeira 
de rodas at ao seu quarto, no conseguiu conter as lgrimas. Nunca se sentira to vulnervel e to s.
       Tudo bem, Mister Robinson.
       Bill limitou-se a fazer um aceno de assentimento.
       O quarto parecia o de um hotel confortvel. Apesar do preo, que era exorbitante, no era luxuoso. Tinha mobilirio moderno, uma alcatifa imaculada, e a cama 
era semelhante quela onde dormira ao lado de Isabelle. Na parede havia um pster do Sul de Frana. Tratava-se de uma reproduo de uma aguarela que parecia representar 
Saint-Tropez. Tinha casa de banho privativa e a iluminao era boa. Havia ainda um faxe, uma ligao para computador e um telefone particular. Disseram-lhe que no 
podia ter um microondas no quarto. Agiam assim para que os doentes no se isolassem, fazendo as refeies sozinhos no quarto. Queriam que comesse na cafetaria juntamente 
com todos os outros doentes, se juntasse s equipes desportivas, usasse as salas de convvio e fizesse amigos. Tudo isso se integrava no mtodo de reabilitao que 
haviam estabelecido para ele. E o processo de socializao nas novas circunstncias fazia parte da reabilitao. IndePendentemente de quem ele era, fora, ou viesse 
a ser outra vez queriam que fosse parte activa da comunidade enquanto ali estivesse
       Bill lembrou-se ento de que tinha que telefonar  secretria. A sua atividade poltica ficara reduzida praticamente a zero desde h dois meses e meio. No 
poderia fazer aquilo que precisava a partir da cama; como tal, a secretria cancelara tudo o que ele agendara. No havia qualquer forma de apresentar as pessoas 
umas s outras, planear campanhas ou dar apoio aos seus protegidos sobre a forma como conduzir uma campanha de sucesso. Enquanto passeava o olhar, tentava conformar-se 
com a idia de pr a atividade poltica de lado, durante pelo menos um ano.
       No quarto, havia ainda um pequeno frigorfico com as mesmas coisas existentes no minibar de um quarto de um bom hotel: refrigerantes, refeies rpidas, tabletes 
de chocolate e, para sua surpresa, duas garrafas pequenas de vinho. Depois de os enfermeiros sarem, abriu uma Coca-Cola, bebeu um gole e olhou para o relgio. Sentia 
uma vontade incontrolvel de telefonar a Isabelle, mas receava que Gordon se encontrasse em casa. Desligaria se Gordon surgisse do outro lado da linha.
       Atenderam ao segundo toque, e Bill ouviu ento a voz de Isabelle. Eram onze horas da noite, hora de Londres, mas ela no dava mostras de estar ensonada. A 
voz doce trespassou-lhe o corao que nem uma faca.
        uma boa altura? perguntou Bill, de imediato. Isabelle riu-se.
       Para qu, meu amor?  uma tima altura. Quem me dera que estivesses aqui. O Gordon foi passar a noite a Munique. Que tal correu a viagem?
       Tive muitas dores. Sinto-me como se estivesse na priso. Passou novamente o olhar pelo quarto. E embora soubesse que era um bom quarto e que tudo o que havia 
nele era da melhor qualidade, sentia-se deprimido. Detesto estar aqui. Parecia um mido cheio de saudades da famlia a telefonar do colgio interno.
       V l, tens de ter pacincia. Vai fazer-te bem. Irs habituar-te e, quando menos esperares, j estars bom. Talvez sejam s uns meses. Isabelle tentava anim-lo, 
mas Bill parecia estar muito abatido. queria fazer qualquer coisa por ele, mas, quela distncia, era muito difcil. Ambos tinham de travar as suas batalhas sozinhos. 
E, em muitos aspectos, a de Bill era muito mais dura do que a dela.
       E se eu c ficar uns dois anos?
       Isso no vai acontecer. Aposto que sairs mais cedo do que esperas. Que tipos de pessoas  que esto a?
       Ambos haviam receado que o centro de reabilitao estivesse cheio de idosos a recuperar de ataques cardacos. Bill tinha muito pouco a ver com eles. Porm, 
por aquilo que vira, muitos eram jovens e encontravam-se ali como resultado de acidentes de esqui, mergulhos em piscinas, acidentes de viao. As pessoas que estavam 
motivadas para ali estar eram, na sua esmagadora maioria, jovens com longas e potencialmente produtivas vidas  sua frente.
       Parece ser boa gente. Bill soltou um suspiro e olhou para a piscina olmpica, que se via da janela do quarto, e avistou uma srie de pessoas a nadar e as 
respectivas cadeiras de rodas  volta da piscina. S no quero c estar. Quero voltar para Washington ou para Paris, para junto de ti. Sinto que a vida est a passar 
ao meu lado. Porm, nenhum desses dois locais eram possibilidades para ele nesse momento. E o que Bill mais receava era que nunca mais fossem. Teria de conseguir 
sentar-se durante longos perodos, manter-se de p durante horas, viajar sozinho, cuidar de si, ter resistncia, mobilidade e clareza de esprito, se quisesse retomar 
a sua carreira poltica. E tambm receava que agora houvesse alguma resistncia psicolgica relativamente a ele. Era possvel que as pessoas sentissem que, pelo 
fato de se encontrar confinado a uma cadeira de rodas e, de alguma forma, invlido, no estava em condies de dirigir uma campanha de sucesso. Tornava-se difcil 
prever os preconceitos que iam na cabea das pessoas. Era de primordial importncia para si, por muitas razes, voltar pelo seu p.
       Isabelle no estava preocupada com a eventualidade de Bill nunca mais andar, se bem que desejasse ardentemente que isso no viesse a acontecer. O seu amor 
por ele nunca Seria afectado por esse fato. Estava farta de lhe asseverar isso. Mas havia uma obsesso a que Bill no conseguia fugir- recusava-se a ficar dependente 
de quem quer que fosse. Nem de Cynthia, nem das filhas, nem dos seus colaboradores ou amigos, nem de Isabelle. Se no conseguisse proteg-la, cuidar dela, estar 
a seu lado como um homem e fazer amor com ela, ento no tinha qualquer inteno de partilhar a vida com a mulher que amava. Isabelle sentia que Bill colocara a 
fasquia demasiado alta. A nica coisa que podia fazer por ele era rezar.
       Como est o Teddy? E tu. Como ests.
       Estou tima. A Sophie recomeou as aulas ontem. O Teddy ainda est muito cansado e estou preocupada com o seu corao. s vezes, parece que est a piorar, 
depois, tem um dia estupendo e sente-se melhor. No sei explicar. Mas o seu estado de esprito est timo. Melhorara desde que Isabelle voltara para casa, mas o 
seu instinto de me dizia-lhe que o mdico tinha razo e que h muito tempo que Teddy no se encontrava to fraco.
       A Olivia e a Jane recomearam as aulas a semana passada, mas disseram que viriam ver-me este fim-de-semana.
       A Cynthia tambm ir. Isabelle tinha alguns cimes dela, embora no gostasse de o admitir. Sabia que Bill ficaria lisonjeado com esse fato. Cynthia oferecera-se 
para visit-lo com as filhas, mas Bill achara melhor ela no o fazer. No explicou isso a Isabelle, porque ainda no lhe falara do divrcio. Continuava a acreditar 
que ela no se sentiria to pressionada se pensasse que ele e Cynthia continuavam casados. Assim, no pensaria que ele estava  espera dela ou de outra pessoa qualquer. 
Se se visse livre de Gordon, Bill estaria  sua espera. Mas este achava que isso s complicaria as coisas. Assim, continuava a iludi-la com o fato de continuar casado 
com Cynthia e de que tudo entre eles corria bem.
       A Cynthia foi passar uns dias fora.
       Isabelle sempre achara que Cynthia era de uma grande insensibilidade ao fazer questo de levar a sua prpria vida, sem atender  situao de Bill, mas no 
fez qualquer comentrio sobre o assunto.
       O Gordon foi passar a noite a Munique. Est numa conferncia. Vem passar o fim-de-semana a casa. Acho que tem planos em mente.
       Gordon, porm, j no a inclua nos seus planos e ela tambm no tinha qualquer desejo que tal acontecesse. Desde os acontecimentos ocorridos em Londres que 
se sentia completamente separada dele e j no a preocupava o fato de Gordon no a convidar para nada. Este presumia que ela preferia ficar em casa com o filho, 
e no se enganava. Alm disso, continuava a sentir-se extremamente cansada. Nessa noite, foi cedo para a cama. Passara todo o dia com Teddy, fora almoar com Sophie, 
mas esse esforo deixara-a muito abatida. De acordo com o mdico, ainda decorreriam muitos meses at se sentir de novo como antes do acidente.
       Que vais fazer esta noite? indagou Isabelle, num tom suave. Percebia, pela voz, que Bill se sentia cansado e triste, o que a deixou preocupada.
       Vou para a cama. No h servio de quartos, mas no tenho fome. Sentia demasiadas dores para comer e no queria tomar analgsicos. Fizera o desmame deles 
semanas antes, com medo de ficar viciado. Tal no sucedera, felizmente, mas no queria recomear a tom-los.
       Talvez devesses dar uma volta a pelo centro. Isabelle no gostava da idia de ele ficar sozinho no quarto. Receava que entrasse num estado de depresso profunda.
       Amanh. Eles aqui no do muitas alternativas. Comeo a terapia s sete da manh e s volto para o quarto s cinco. Tratava-se de um regime rigoroso, mas 
Bill escolhera aquele centro por essa razo. Achava que quanto mais se aplicasse, mais rpidos seriam os resultados, se bem que o seu nico desejo naquele momento 
fosse sair dali. Telefono-te, de manh, quando me levantar. Seria meio-dia para Isabelle e Bill sabia que era uma boa hora. Se telefonasse quando voltasse para o 
quarto, ao fim do dia, seriam onze da noite para ela e, se Gordon atendesse, Isabelle ver-se-ia metida em problemas.
       Posso telefonar-te de vez em quando.
       No entanto, Bill achava que seria melhor que fosse ele a ligar.
       Telefono-te amanh, querida disse, demasiado cansado para articular mais uma palavra que fosse. Sentia dores horrveis na coluna, o pescoo rgido, o estado 
de esprito de rastos e tinha a sensao de estar noutro planeta, longe de Isabelle e da vida que outrora conhecera. Regressara finalmente aos Estados Unidos, mas 
no se sentia melhor por isso. Encontrava-se numa ilha deserta e estava condenado a l ficar durante um ano. No era uma idia muito agradvel.
       Amo-te, querido sussurrou Isabelle Depois de desligarem, deitou-se na cama, com o pensamento em Bill e o desejo ardente de o abraar, apertar contra si e 
confortar.
       Na manh seguinte, Bill levantou-se s seis horas. Adormecera vestido e s acordou quando o despertador acabou de tocar. Ainda sofria os efeitos da diferena 
horria, sentia-se cansado e mal conseguia mexer-se. Chamou um enfermeiro para o ajudar a sentar na cadeira de rodas e o levar at ao chuveiro. Meia hora depois, 
sentia-se melhor. Telefonou, ento, a Isabelle, antes de sair do quarto.
       Como te sentes, querido perguntou Isabelle, preocupada. Bill parecia mais animado do que na noite anterior.
       Muito melhor do que ontem. Estava arrasado.
       Eu sei. Isabelle sorria. Teddy acordara bem disposto e estava um dia maravilhoso de Setembro. Era meio-dia em Paris.
       Desculpa as lamrias de ontem  noite. Sentia-me um mido num colgio interno.
       Isabelle achou graa. Tambm pensara o mesmo.
       Eu sei. S tenho vontade de voar at a e trazer-te para casa.
        o que as mes fazem. Os pais limitam-se a dizer ao mido para se aguentar  a diferena bsica entre os dois sexos. As midas ficavam sempre mortas de saudades 
quando iam acampar. A Cindy queria ir logo busc-las e eu achava que elas deviam ficar l at ao fim.
       - Quem costumava ganhar. Isabelle parecia divertida. Era uma faceta de Cynthia de que Bill nunca lhe falara. Teria feito o mesmo. S deixara Sophie ficar 
fora de casa ao entrar para a universidade E preferira que ela ficasse na Sorbonne em vez de ir para Grenoble.
       Ela, claro. Eu estava sempre fora e no podia impor as minhas regras. Quando voltava a casa, j elas l se encontravam.
       Melhor para ela.
       Bem, tenho de ir ver que torturas  que eles me reservaram. Mas Bill no estava preparado para o intenso regime que o esperava.
       Depois do que comeara a fazer em Londres, aquilo assemelhava-se  recruta dos fuzileiros. Fez calistenia o melhor que pde, sentado na cadeira. Puseram-no 
a levantar pesos para fortalecer o trax e a trabalhar em aparelhos. Havia uma terapia especial para o pescoo, uma longa sesso de treino na piscina e exerccios 
especiais para as pernas. Tinha meia hora para almoo e pouco tempo lhe restava para ir  cafetaria para falar com algum. s cinco horas, quando chegou ao quarto, 
estava to cansado que mal conseguia mexer-se. Nem sequer teve foras para passar da cadeira para a cama e teve de chamar um ajudante, que sorriu quando o ouviu 
gemer.
       Teve um bom treino, Mister Robinson? Era um jovem afro-americano que treinara com os Jets e que se lesionara cinco anos antes. Estudava fisioterapia. Bill 
ficou animado ao verificar que no havia qualquer sinal das leses anteriores e aparentava estar em boa forma fsica. Tinha apenas vinte e seis anos.
       Est a gozar? Eles esto  a ver se me matam.
       Daqui a duas semanas j no sentir dores. E vai comear a gostar. O ajudante ofereceu-se ento para lhe dar uma massagem. Quando este saiu, Bill resolveu 
no jantar e ficar na cama. Estava a dormitar quando ouviu bater  porta. Ao abrir os olhos, um jovem numa cadeira de rodas encontrava-se j no quarto.
       Ol, chamo-me Joe Andrews. Estou no quarto ao lado. Posso convid-lo para uma partida de basquetebol s oito horas?
       Bill olhou para ele e riu-se. Andrews estava sentado numa cadeira de rodas e parecia s ter uma perna. Era um moo simptico. Devia ter uns vinte e poucos 
anos de idade. Estivera envolvido num acidente de viao onde pereceram quatro pessoas, seis meses antes.
       Uma partida de basquetebol? Est a gozar? S se for comigo a servir de bola. No creio que volte a ser capaz de se sentar direito na cadeira.
       Ao princpio, custa. Depois, as coisas vo ficando mais fceis. Este centro  timo. H seis meses, encontrava-me totalmente imobilizado e s conseguia mexer 
os olhos. Nessa altura, j ficava contente se fosse capaz de coar o nariz.
       Voc tem a idade do seu lado. Mas Bill tambm se encontrava em excelente forma fsica at ser atingido pelo autocarro. Eu j estou velho
       Aqui a idade no conta. O capito da equipe tem oitenta e dois anos. Teve uma trombose. Jogou nos Yankees h sessenta anos.
       Eu j desci de diviso. Devia ter-me alistado nos Fuzileiros.
       Seria mais fcil, mas no to divertido. H mulheres muito bonitas aqui.
       Bill gostava do rapaz. Tinha olhos risonhos, um sorriso simptico e cabelos ruivos.
       Voc no deve ter mos a medir. No era esse o caso, mas, pelo menos, j se interessava pelas mulheres. A noiva morrera no desastre de viao, mas no referiu 
esse fato a Bill.
       Costumo ir a Nova Iorque aos fins-de-semana. Se quiser, um dia pode vir comigo. So vinte minutos de comboio.
        uma idia. Neste momento, no consigo mexer um nico msculo.
       Porque no vem ver? Apresento-o a alguns dos tipos. Joe estava determinado a cativar Bill para as atividades do centro. Era importante para o moral dos pacientes 
envolv-los em atividades para alm da terapia. Fora o que salvara a vida de Joe. Quando entrou no centro de reabilitao, ainda pusera a hiptese de se suicidar.
       E as midas? gracejou Bill.
        casado? Joe continuava a puxar por Bill. Era excelente no trato com as pessoas. Bill achava-o um mido simptico, s o entristecia o fato de estar numa 
cadeira de rodas.
       No. Estou a divorciar-me.
        pena. H duas moas na equipe. Uma tem dezoito anos.
       Acho melhor no me meter outra vez na gaiola. Que idade tem a outra?
       Sessenta e trs respondeu Joe, com um sorriso malicioso.
       Fico com essa. Est mais prxima da minha idade.
       Que idade tem?
       Cinquenta e dois. Hoje, da forma que me sinto, noventa.
       J jantou?
       Achei melhor no jantar. Tambm no o fizera na noite anterior.
       No  muito boa idia. Passo por aqui a busc-lo s seis e meia. Depois, falamos do jogo. No perguntou se Bill queria ir ou no e, antes que este pudesse 
colocar alguma objeo, saiu.
       Bill apareceu s seis e um quarto e sentia-se melhor do que uma hora antes. Tomara um duche, barbeara-se e penteara-se. Vestira um T-shirt e calas de ganga. 
Ele e Joe pareciam dois midos a caminho do salo de jantar. Joe parecia conhecer toda a gente. Apresentou Bill a todas as pessoas que pde. Soube ento que Joe 
tinha vinte e dois anos, era de Minneapolis e queria entrar para o curso de Direito no ano seguinte. Tinha duas irms e um irmo gmeo que tambm se viram envolvidos 
no acidente. O irmo gmeo e a noiva tiveram morte imediata, assim como os dois ocupantes do outro carro. O irmo ia ao volante quando o outro chocou de frente, 
numa noite de nevoeiro. Muitas das pessoas internadas no hospital tinham histrias dolorosas para contar: uma mulher que fora atingida por uma bala na coluna durante 
um assalto a uma loja de convenincia, quando parara, a meio do dia, para comprar Coca-Cola para os filhos; pessoas vtimas de acidentes e com traumas de todo o 
gnero. Muitas delas encontravam-se no s em tratamento de fisioterapia como tambm em tratamento psiquitrico, como era o caso de Joe e da mulher que fora atingida 
na coluna. Quando tivessem alta, a idia era que conseguissem levar uma vida perfeitamente normal.
       O centro tinha duzentos doentes internos e mais de trezentos externos, que vinham diariamente aos tratamentos. Mas os que viviam ali formavam um ncleo que 
se comportava como se de uma famlia se tratasse. O barulho na cafetaria fazia lembrar a Bill a confuso prpria de um cocktail. Toda a gente a rir, a falar, a fazer 
planos, a gabar-se das suas vitrias do dia, ou a queixar-se da dificuldade dos exerccios. H muito tempo que no via tantas caras sorridentes. Nunca esperara encontrar 
ali aquele panorama.
       Vai haver um torneio de tnis na prxima semana. Joe inscreveu Bill, ao mesmo tempo que falava com meia dzia de outros pacientes, quatro deles raparigas. 
Havia muitos jovens em cadeiras de rodas. Bill calculava que metade das pessoas que vira andava na casa dos vinte e eram homens. A outra metade abrangia um largo 
leque de idades e menos de metade eram mulheres ou raparigas. Trs quartos da populao do centro pertenciam ao sexo masculino. Eram estes que apresentavam mais 
problemas, que tinham mais azar, conduziam a maior velocidade, corriam mais riscos e praticavam os desportos mais perigosos. Mas tambm havia uma srie de homens 
e mulheres da idade dele.  mesa, encontrava-se uma rapariga de extraordinria beleza, mas cuja fala mal se percebia. Era modelo e cara de um lano de escadas de 
mrmore e sofrera um forte traumatismo craniano. Estivera em coma oito meses. Chamava-se Helena e a sua melhor amiga no centro era uma jovem bailarina que sofrera 
um acidente de viao, e estava determinada a voltar a danar. Todas aquelas pessoas enfrentavam desafios impressionantes e faziam esforos sobre-humanos para os 
ultrapassar. Estava espantado com a fora de vontade que elas demonstravam.
       Quando o jantar acabou, sentia-se muito melhor. Joe e Helena haviam-no convencido a ir at ao ginsio, mas no lhe apetecia jogar. S queria assistir.
       Eles jogam muito bem comentou Helena com um sorriso nos lbios, mal se percebendo o que dizia. Tambm se encontrava numa cadeira de rodas, mas s porque tinha 
vertigens, provocadas pelo traumatismo craniano, e, por vezes, caa quando menos esperava. Sentia-se mais em segurana na cadeira. Bill ficou impressionado com a 
sua beleza. Achava-a parecida com Isabelle. Joe contara-lhe que Helena trabalhara em Nova Iorque, Paris e Milo, e fora capa da Vogue e da Harper's Bazaar. Ainda 
de acordo com Joe, estava a recuperar muito bem. Da prxima vez, tem de jogar disse ela, em tom de incentive.
       E por que razo voc no joga, gracejou Bill. Era mais alta do que muitos dos homens, tinha umas pernas que pareciam nunca mais acabar. Trazia cales e sandlias, 
e os ps impecavelmente tratados e com as unhas pintadas de vermelho. A maioria dos homens no tirava os olhos dela, mas o namorado era o fotgrafo com quem trabalhava 
na altura do acidente e que tinha por ela uma devoo enorme. Iam casar quando ela sasse do centro. E usava um anel de noivado que Cynthia teria descrito como do 
tamanho de um ovo.
       Bill e Helena assistiram ao jogo lado a lado. Muitos dos doentes davam gritos de incentivo s equipes. Havia grande alegria e animao, independentemente 
da equipe que marcava. O fato de estarem a jogar j era uma vitria. Bill sentia-se impressionado com o espectacular ginsio.
        casado? indagou Helena. Toda a gente sabia que era comprometida e louca pelo noivo. A pergunta fora feita por mera curiosidade. Bill era um homem bem-parecido. 
Noutras circunstncias, ter-se-ia sentido atrada por ele, mas naquele momento era feliz com o noivo que tinha.
       Divorciado. Quase. Dentro de meses.
       Sinto muito. Ser muito popular aqui. E esboou um largo sorriso. Mas Bill nunca vira tantos homens bem-parecidos juntos, e muitos deles com metade da sua 
idade. No se mostrava preocupado com esse fato. No se considerava um homem livre. Estava apaixonado por Isabelle. Tem namorada?
       Bill esteve tentado a dizer que no, mas resolveu ser franco.
       Tenho.
       Vai casar com ela? Helena mostrava-se implacvel.
       No respondeu Bill, atirando com todas as cautelas para trs das costas. No precisava de estar com segredos. Ela  casada e vai continuar assim.
       Que quer dizer com isso? Helena olhou fixamente Para Bill, alheando-se por completo do jogo. A algazarra no ginsio era ensurdecedora, mas estava mais interessada 
naquilo que Bill acabara de dizer.
       Quero dizer que ela no precisa de acrescentar os meus problemas aos dela. Tem um filho deficiente. No precisa de um marido numa cadeira de rodas.
       Porque no? Que diferena  que isso faz? Tem de ultrapassar isso.  essa a opinio dela?
       Acho que no Mas  assim que me sinto. No quero ser um fardo para ela.
        muito simptico da sua parte E aqueles ali? E apontou para os jogadores, a chocarem uns com os outros, a deslizarem a toda a velocidade, de sorrisos abertos 
e caras lavadas em suor. Divertiam-se  grande. Eles parecem-lhe um fardo para si?
       No estou casado com eles. Mas talvez se tornassem, se fosse esse o caso. Olhe, Helena, no consigo danar, pr-me de p, passear pela rua, nem sequer sei 
se voltarei a trabalhar. No posso obrigar ningum a viver comigo nestes moldes. E nem sequer lhe referiu que da ltima vez que tentara fazer amor no conseguira.
       O que fazia na vida? Era patinador? indagou Helena, franzindo o sobrolho. Era uma rapariga inteligente. Bill gostava do estilo.
       Estou na poltica.
        algo que no se possa fazer sentado? Isso  novidade para mim.
       Sabe do que estou a falar.
       Eu tambm me sentia assim. Depois, achei que era uma estupidez. Agora falo de uma maneira engraada. s vezes, esqueo-me das coisas. Perco o fio  meada 
s conversas. Situao bastante embaraosa. E tambm no sei se poderei voltar a trabalhar. Mas iria amaldioar-me para todo o sempre se desistisse da vida. Tenho 
qualidades. Posso fazer outras coisas. Ainda estou a meio caminho afirmou, com alguma modstia. J eram amigos. As amizades ali faziam-se rapidamente. Encontravam-se 
todos no mesmo barco e partilhavam o mesmo tipo de problemas. Ainda me considero inteligente, embora possa parecer por vezes estpida. E se no gostarem de mim assim, 
que se lixem. O meu noivo est-se nas tintas para isso, mas, caso no estivesse, mandava-o dar uma volta. Talvez voc devesse dar a essa mulher uma oportunidade 
para se decidir.
       A questo  um pouco mais complicada.
       H alguma coisa que no seja complicada? Ripostou Helena, pouco impressionada com o que Bill dissera, olhando, por instantes, para o jogo. Depois, virando-se 
novamente para ele, acrescentou: No tome uma deciso precipitada. Quase apostaria a minha vida em como ela merece o seu amor e se est nas tintas para o fato de 
voc andar ou no. Bill sabia que o que ela dizia era verdade. Mas para Isabelle havia ainda o problema de Teddy. Bill decidira que s tornaria a v-la se conseguisse 
voltar a andar. Era uma condio que impusera a si prprio, mas que ela desconhecia.
       Sabe, Helena, gostava de fazer essa aposta consigo. Ouvira tudo o que ela dissera e ficara profundamente impressionado, no s pela coragem da jovem, mas 
tambm pela sua candura.
       Que aposta?
       A sua vida respondeu Bill, soltando uma gargalhada.
       Calma a, hein? Voc est apaixonado e eu estou noiva, e a minha vida pertence ao meu rapaz.
        pena. E continuaram sentados, lado a lado, como velhos amigos, at ao fim do jogo.
       A equipe de Joe foi a vencedora. Quando este chegou ao p dos dois, estava feliz e todo suado. Dirigiram-se ento at  cafetaria, onde a maioria dos jogadores 
e respectivos apoiantes j se encontravam. Fora uma tarde divertida. Quando Helena os deixou, para voltar para o quarto, Joe perguntou a Bill, com um sorriso de 
orelha a orelha:
       Ela vai acabar com o noivado? J todos tentmos.
       Estou a tratar do assunto, mas ainda demorar algum tempo. Ambos sabiam que no passava de um gracejo. Helena estava loucamente apaixonada pelo noivo e Joe 
disse at que ele era uma tima pessoa. Planeavam casar na Primavera. Helena estava determinada a caminhar pelo seu prprio p at ao altar. Pela indomvel fora 
que demonstrava, Bill acreditava que conseguiria alcanar esse objetivo. Era uma rapariga extraordinria.
       Tem uma irm que a vem visitar comentou Joe, enquanto se dirigiam para os quartos. Parece uma r. Bill soltou uma gargalhada. Devem ser filhas de mes diferentes, 
ou uma coisa desse gnero. A Helena apresentou-ma e fiquei espantado. Mas  muito simptica.
       s vezes essas coisas acontecem.
       Joga conosco da prxima vez? perguntou Joe, j no corredor dos quartos.
       Acho que prefiro ficar a assistir. Gostara da conversa com Helena e pensava naquilo que ela lhe dissera, mas ainda no concordava com as idias dela. No 
ia ser um fardo ou um invlido na vida de ningum e muito menos na de Isabelle, mesmo que s se encontrassem duas vezes por ano. Era uma dor de cabea de que ela 
no precisava. J tinha dores de cabea suficientes na vida.
       Quer ir a Nova Iorque amanh? Vo mais uns tipos. Vamos jantar e depois ao cinema.
       Adoraria, mas as minhas filhas vm visitar-me. Olivia vinha de Georgetown, Jane, de Nova Iorque.
       Que idade tm? indagou Joe, curioso. Estava interessado em conhecer raparigas, embora no tivesse sado com nenhuma desde a morte da noiva.
       Dezenove e vinte e um. Gostava que as conhecesse.
       S samos s seis horas retorquiu Joe, entrando no quarto de Bill. Tenho um festival de natao amanh, mas estarei aqui. Bill fora capito da equipe de natao 
da faculdade.
       Espero por si prometeu Bill, e despediram-se. Estava aborrecido por no ter tido tempo de telefonar a Isabelle nessa noite e agora era muito tarde para o 
fazer. Eram cinco da manh em Paris. Resolveu ento esperar uma hora e telefonar-lhe quando ela acordasse.
       Deitou-se na cama e ps-se a ler tentando no adormecer. Ento,  meia-noite, telefonou. Isabelle atendeu de imediato, parecendo aliviada por ouvir a sua 
voz.
       Ests bem? Estava preocupada contigo.
       Estou timo. Fui assistir a um jogo de basquetebol. Aqui do cabo de mim Mas  um stio extraordinrio. Falou-lhe ento das pessoas que conhecera, das histrias 
que ouvira e da terapia que fizera durante todo o dia.
       Meu Deus, acho que no conseguiria fazer nada disso.
       Tambm no sei se vou aguentar. S temos um dia livre. As midas vm visitar-me amanh. Vai fazer-me bem v-las. H dois meses que no as via e sentia imensas 
saudades.
       E estava espantado por tambm sentir saudades de Cynthia. Mas no referiu esse fato a Isabelle. Ao fim de trinta anos, a presena dela tornara-se um hbito 
na sua vida que era difcil de quebrar, mesmo tratando-se de um hbito que j no fazia parte da sua existncia. E tu, como ests, querida?
       Estou tima. Acabei de me levantar. O Teddy ainda est a dormir.
       Tagarelaram durante mais uns instantes, depois tiveram de desligar, quando Isabelle ouviu o filho mexer-se na cama. Deu-lhe os medicamentos da manh e ele 
voltou a adormecer. Foi ento at ao seu quarto, vestiu-se e deteve-se demoradamente  janela, a olhar para o jardim, sempre com Bill no pensamento. Causava-lhe 
uma profunda tristeza saber que no o veria to cedo, mas era por uma boa causa. Provavelmente no se veriam seno da a um ano.
       Nessa noite, pouco antes de adormecer, Bill sorriu ao lembrar-se das palavras de Helena, que at faziam sentido, mas continuava a achar que ela no tinha 
razo. Ele no poderia pertencer  vida de Isabelle, ou de quem quer que fosse, se no readquirisse a capacidade de andar. Era uma questo de princpio, embora contrariada 
por tudo o que via naquele local. Mas Helena era bonita e jovem, e mulher... no entendia como se sentia... Ele via as coisas de modo diferente... Era homem.

CAPTULO CATORZE
       No dia seguinte, quando Olivia e Jane vieram visitar o pai ficaram entusiasmadas com o seu bom aspecto. Bill mostrou-lhes ento o centro de recuperao e 
os terrenos circundantes, e apresentou-as s pessoas que conhecia. Quando encontraram um canto sossegado, sentaram-se, saboreando o ar quente de Setembro. Estava 
uma tarde soalheira. As raparigas irradiavam felicidade. Tinham muita coisa para contar. Falaram da me, das saudades que haviam sentido e do desejo de ambas para 
que ele voltasse para casa. Ainda estavam muito aborrecidas com a questo do divrcio, se bem que as atenes j estivessem centradas nas aulas.
       Ao fim da tarde, antes de se irem embora, foram comer um hambrguer  cafetaria. Quando l chegaram, deram de caras com Joe. Bill apresentou os trs jovens 
e a empatia entre eles foi imediata. Olivia conhecia algum que fora colega de Joe em Minneapolis. O mundo estudantil era pequeno. Joe perguntou a Jane o que achava 
da Universidade de Nova Iorque, pois pensava inscrever-se a no curso de Direito. Esta respondeu que adorava, e a conversa continuou a um ritmo animado. Joe pediu 
tambm um hambrguer e conversaram de todos os assuntos que lhes interessavam. E o fato de se encontrar numa cadeira de rodas era irrelevante para todos eles. Ningum 
parecia importar-se com a circunstncia. Quando saram da cafetaria, Bill reparou que Olivia caminhava a seu lado e Jane ao lado de Joe. Este parecia sentir-se atrado 
por ela e convidou-a para ir ao cinema com ele e alguns amigos, nessa noite, em Nova Iorque. Mas Jane disse que tinha outros planos, mas que ficava com pena de no 
poder ir. Combinaram ento que Joe lhe telefonaria para marcarem uma sada para outro dia. Parecia terem muito em comum. Joe era uma pessoa sensvel, delicada e 
inteligente. Quando se foi embora, Bill comentou que gostava muito dele.
        simptico. Foram as nicas palavras de Jane, e Olivia riu-se.
       No digas que ele  "simptico", diz antes que  "fogo"! Era um rapaz bem-parecido. Bill estava divertido com a forma como os jovens daquelas idades se relacionavam. 
Faziam-lhe lembrar cachorros na brincadeira uns com os outros.
       Nessa noite, Olivia e Jane iam ficar com a me. Mal saram, Bill voltou para o quarto. Quando a chegou, Joe j o aguardava, com ar preocupado.
       Gostava de lhe pedir uma coisa disse, no conseguindo dominar o nervosismo.
       Esteja  vontade. O que deseja, Joe? Bill presumia tratar-se de outro jogo de basquetebol.
       Queria saber se... Estava a pensar... Devia ser coisa sria. Joe ficou, de repente, com a lngua presa e corado at  raiz dos cabelos.
       No deve ser coisa boa gracejou Bill. Parece que quer pedir-me o carro emprestado. No tenho e, alis, nenhum dos dois pode conduzir.
       Joe Andrews riu-se.
       Gostava de saber se no se importava... Inspirou fundo e continuou: ...se no se importava que eu telefonasse  Jane um dia destes? No o farei se no me 
der autorizao para tal. Alm disso, ela pode no querer voltar a ver-me... isto ... voc sabe... muito bem... como essas coisas so.
       Acho uma tima idia. Jane tivera um namorado que todos detestavam, durante dois anos. Para alvio de Bill, haviam acabado no ano anterior. Tanto quanto sei, 
no est comprometida, embora no esteja muito a par desses pormenores. Tem de lhe perguntar.
       Ela disse que podia telefonar-lhe e deu-me o nmero da casa da me e da faculdade. Mas no quis telefonar-lhe sem pedir primeiro a sua autorizao.
       Bill ficou sensibilizado com o ato de Joe.
       Diria que  um sinal de esperana. Ento,  melhor do que a irm da Helena?
       Est a brincar? Nem sequer tm comparao. A Jane  Bestial! Isto ... a irm da Helena  uma moa simptica, mas...
       J sei Parece uma r.
       No diga  Helena que eu disse isso.  uma rapariga doce e muito inteligente. Estava em pnico perante a perspectiva de Bill contar a Helena o que ele dissera 
da irm.
       Prometo que no digo nada. Sinto-me lisonjeado por gostar da Jane. E orgulhoso das duas.
       Joe tambm gostara de Olivia, mas achara-a mais velha e mais reservada. Sentia-se mais  vontade com Jane.
       Talvez lhe telefone logo  noite.
        consigo disse Bill, num tom paternal. Daqui em diante, no quero ter nada a ver com isso. A Jane  maior e vacinada. Ficou sensibilizado com o fato de aquele 
rapaz, por quem tinha uma amizade especial, sentir algumas afinidades com Jane. Seria bom para ambos. Ela precisava de algum inteligente, decente e simptico na 
sua vida, e ele merecia alguma felicidade depois do que lhe acontecera. A Bill nem sequer lhe passou pela cabea a hiptese de a ligao entre os dois no resultar, 
pelo fato de Joe se encontrar confinado a uma cadeira de rodas. No que tocava  sua relao com Isabelle, j no pensava assim.
       Olivia e Jane ficaram encantadas com a visita ao pai. No dia seguinte, antes de sarem para as aulas, telefonaram-lhe. Jane no fez qualquer referncia a 
Joe; como tal, Bill ficou sem saber se este lhe telefonara ou no, mas no queria intrometer-se. Antes de desligarem, Cynthia pegou no auscultador e perguntou se 
podia visit-lo nessa semana. Hesitou, mas acabou por concordar. No via qualquer mal nisso. Afinal de contas, dissera-lhe que se ia divorciar para poderem ficar 
amigos. No via Cynthia h dois meses.
       Dois dias depois, na tera-feira, Cynthia veio jantar com Bill. Quando entraram na cafetaria, lado a lado, ficou espantada. As pessoas sorriam e riam sem 
se importarem se conseguiam andar pelo seu p, se estavam confinadas a cadeiras de rodas ou se andavam apoiadas a canadianas. Todos pareciam conhecer-se e conversavam 
animadamente uns com os outros. No se lembrava de ver um stio com tanta animao.
       Helena aproximou-se para cumprimentar Bill, que a apresentou a Cynthia, explicando-lhe tratar-se da sua mulher.
       Quem era aquela?  muito bonita.
        modelo.
       Andas com ela? perguntou Cynthia, sentindo-se invadir por um sbito ataque de cimes.
       Bill riu-se.
       Est noiva.
       O noivo  um tipo cheio de sorte! Cynthia sentiu algum alvio.
       Foi o que eu lhe disse. Bill soltou uma gargalhada. Voltaram ento para o quarto e ficaram a conversar durante algum tempo. Estava bem-disposta, mas ficou 
algo triste quando falaram da questo do divrcio.
       Tens a certeza de que  isso mesmo que queres? Acho uma estupidez divorciarmo-nos, na nossa idade, ao fim de todos estes anos.
       J no havia nada entre ns, Cyn. Sabes bem disse Bill, em tom afvel, mas firme.
       Eu acho que havia. E continua a haver. Estamos a falar h horas. Ainda te amo, Bill. Porque no tentamos outra vez?
       J nada me resta para dar. Tambm gosto muito de ti, mas falta-me a chama. Sempre te amarei, mas se tornssemos a tentar, julgo que voltaramos ao mesmo. 
Se regressar ao trabalho, passarei a maior parte do tempo a viajar e ficars aborrecida, entrars outra vez na mesma vida. No quis explicitar, mas ambos sabiam 
ao que se referia. Voltaria a ter casos amorosos com este e com aquele. E se no puder trabalhar de novo, andarei a arrastar-me pela casa, enquanto fazes a tua vida, 
e nessa altura serei eu a ficar irritado. Prefiro desenvencilhar-me sozinho. E tu tens de fazer o mesmo, at encontrares o tipo certo.
       Tu eras o tipo certo retorquiu Cynthia, com ar triste. No podia dizer-lhe que no tinha razo. Mas no se sentia bem com a sua conscincia ao deix-lo sozinho.
       Talvez fosse, talvez no. Se tivesse sido, as coisas no teriam ido dar ao que deram.
       Fui estpida. Agora sinto-me mais adulta.
       Sentimo-nos ambos. Por isso, vamos tratar disto como adultos.
       Cynthia permaneceu em silncio durante alguns instantes, depois, soltou um suspiro. Sentira que Bill tomara uma deciso inabalvel
       E a Isabelle?
       A Isabelle? No queria falar dela com Cynthia. No h nada a dizer.
       Porque no. Ficou espantada. Custava-lhe a acreditar que Bill estivesse disposto a deixar Isabelle, depois de ter constatado a paixo que tinha por ela. Perguntou-se 
ento se no estaria deprimido.
       Ela  casada. Eu estou aqui. No se passa nada.
       No costumas desistir facilmente das coisas. Por que razo desististe dela? Ela no pode ser feliz com o icebergue que vi em Londres. Tem um ar de m pessoa.
       E . Mas a Isabelle tem um filho deficiente. No se atreve a deixar o Forrester, pois acha que pode ser muito traumtico para o rapaz. Acredita, Cyn,  uma 
situao complicada. Alm disso,  uma questo discutvel. No vou arranjar-lhe mais problemas. Ela merece melhor. E tu tambm.
       Cynthia fitou-o demoradamente.
       Foi por isso que quiseste o divrcio. Estava horrorizada com a idia.
       Em parte. Mas tambm temos outros motivos. Fi-lo por mim. E vou manter-me afastado dela A menos que consigam realizar um milagre aqui E apontou para as pernas.
       Sabes o que te disseram em Londres. Isso no vai acontecer. No vais sair daqui a andar. No te iludas. No esperes milagres.
       E no espero. A mnima coisa que aqui conseguir ser uma vitria. S quero dizer que, enquanto estiver assim, no entrarei na vida dela.
       Ela sabe isso? Era um motivo terrvel para se deixar algum que se amava, pior ainda do que os motivos por que quisera divorciar-se. Cynthia achava que, de 
certa forma, Bill tinha razo para querer divorciar-se, mas nunca se atreveria a dizer tal coisa. Caso ainda estivesse disposto a aceit-la de volta, no pensaria 
duas vezes. Mas h muitos anos que ele a tratava com indiferena. O tempo deles j passara. Ela sabe por que razo vais pr termo ao romance que tens com ela? Sentia 
pena de ambos.
       Bill fez um sinal negativo com a cabea.
       Nem sequer sabe que vou faz-lo. Mas  possvel manter algo vivo a esta distncia, sem nos vermos durante muito tempo. No entanto, talvez acabemos por ficar 
cada um para seu lado. Vou permanecer aqui muito tempo. Ela tem a sua vida. Vai conseguir aguentar-se.
       No estou muito certa disso. Parece-me que ela tem muito pouca coisa na vida. E mais importante ainda: ser que tu vais aguentar? Se ela for metade do ser 
humano que desconfio que , visto gostares tanto dela, vai estar-se nas tintas para o estado em que te encontras. s melhor do que muitos tipos que andam. Era exatamente 
o que Helena lhe dissera. O amor no  isso.
       Talvez no. Mas  assim que eu sou. Nunca lhe farei uma coisa dessas. Ela no vai deixar o Forrester. No pode.
       Cynthia considerava a situao dramtica. Depois de esta sair, Bill ficou em silncio durante um longo instante. Por que razo toda a gente insistia tanto 
em que o fato de estar confinado a uma cadeira de rodas at ao fim dos seus dias no tinha grande importncia? Para ele, tinha. E sabia que, a longo prazo, tambm 
teria para Isabelle. Recusava-se a seguir esse caminho, com ela ou com outra pessoa qualquer, independentemente daquilo que Cynthia dissera. Esta no fazia a menor 
idia da situao. Sabia muito bem que ela no iria tolerar isso. Acabaria por detest-lo por aquilo que ele no era e j no podia ser. Nunca faria tal coisa a 
Isabelle, nem que isso significasse mentir-lhe. Estava determinado a no voltar a v-la em Paris se no conseguisse sair do avio pelo seu prprio p. E como Cynthia 
lhe lembrara, no havia praticamente nenhuma esperana de voltar a andar.
       As semanas no centro passavam a uma velocidade incrvel. Andava to ocupado, to cansado, a trabalhar com tal afinco nas suas terapias, que mal tinha tempo 
para respirar.
       Gostava da maioria dos terapeutas com quem trabalhava. Eram inteligentes, enrgicos e jovens, e mostravam-se extraordinariamente interessados nos seus pacientes. 
Ficara impressionado com eles desde a primeira hora. Havia apenas uma terapeuta com quem no se sentia  vontade: Linda Harcourt, que se ocupava da recuperao a 
nvel sexual. Dissera-lhe, logo na primeira vez que se encontraram, que no tinha qualquer interesse em abordar aquele tipo de terapia com ela.
       Por que razo? perguntou ela, fitando-o com ar calmo, sentada  secretria. Era uma mulher muito bonita inteligente e mais ou menos da sua idade. Est a pensar 
desistir do sexo? indagou, de sorriso nos lbios. Ou est tudo bem? Bill ainda pensou em mentir-lhe, mas, ao constatar a franqueza com que ela lhe falava, deteve-se. 
No fazia teno de lhe falar da inexistente vida sexual, mas o olhar determinado com que ela o fitava levava-o a ponderar essa hiptese. Linda Harcourt era uma 
mulher que impunha ateno e respeito, mas, ao mesmo tempo, exibia um ar dcil. Vejo na sua ficha que  casado. Acha que a sua esposa gostaria de falar comigo? Tinha 
praticamente a certeza de que a funo sexual fora afectada pelas leses e se ele no queria discutir o assunto com ela, talvez a mulher quisesse. Ao princpio, 
era costume os homens sentirem algum retraimento em falar sobre os seus problemas sexuais. Por vezes, a conversa com as mulheres facilitava a abordagem dos problemas. 
Mas Bill acenou logo negativamente com a cabea.
       Estou a tratar do divrcio disse, fechando-lhe essa porta na cara.
       Interessante. O acidente teve a ver com essa deciso. Bill desviou o olhar, ficou alguns instantes em silncio, depois voltou a fazer um gesto negativo com 
a cabea
       No propriamente. J devamos ter tomado essa deciso h anos. O acidente s acelerou a abordagem do assunto
       A especialista em sexologia foi ento um pouco mais direta.
       J fez ou tentou fazer sexo depois do acidente? indagou, algo cautelosa. Bill ficou surpreendido consigo prprio ao proferir a resposta, tal a naturalidade 
com que o fez.
       J.
       Como foi? O tom era amvel, mas firme. Tratava-se de uma pessoa prtica, objetiva, e o seu rosto no denotava o menor sinal de compaixo.
       Como foi para mim? Bill riu-se. A sexloga sorriu. Era o que os homens costumavam dizer, quando as coisas no tinham corrido bem E tambm sabia o que ele 
diria a seguir. No aconteceu nada.
       Nem ereo, nem ejaculao, nada? perguntou, com a maior das naturalidades, como se lhe estivesse a perguntar se queria natas ou acar no caf.
       Nem uma coisa nem outra.
       Teve alguma sensao de excitao sexual? Bill assentiu com a cabea.
       Muito forte. Mas no cheguei a ter ereo. Conseguia sentir tudo... bem, quase tudo.
       Muitas vezes, isso demora o seu tempo. Por aquilo que est a dizer-me,  ainda possvel que as coisas melhorem at ao ponto de vir a ter uma vida sexual relativamente 
normal. Grande parte do xito reside na forma de encarar o problema e na criatividade.
       Bill sentiu-se deprimido ao ouvir aquelas palavras. No queria ser "criativo" nem redefinir o seu conceito de "xito". Alis, nem sequer tinha vontade de 
voltar a tentar. E com quem  que tentaria a experincia? Com Isabelle? Ela estava em Paris e ele no estava disposto a faz-la passar por novo fracasso. Alm disso, 
no tinha o mnimo desejo de voltar a dormir com Cindy. Seria ainda mais humilhante. J no se sentia apaixonado por ela.
       Tem alguma parceira?
       No.
       No faz mal. Pode fazer a experincia em si prprio. Grande parte do xito, como lhe disse, reside na forma como encarar o problema, assim como na forma de 
lidar com ele, no s a nvel das sensaes fsicas, mas tambm ao nvel da forma de desempenho.
       No quero fazer nada disso retorquiu Bill, dando a entender  sexloga que no queria voltar a v-la. No acho que seja relevante nesta altura.
       E algum dia ser? Olhou-o fixamente.
       Doutora, no vou fazer figura de parvo, sabendo que as coisas no vo funcionar.
       E se funcionarem? Est a abdicar de uma parte importante da sua vida.
       s vezes, as coisas no resultam da forma que queremos. A minha vida  dedicada ao trabalho.
       Tambm a minha. A sexloga sorriu e entregou-lhe um livro com orientaes mdicas sobre o assunto. Bill ainda hesitou em aceit-lo, mas acabou por faz-lo. 
 para voc se entreter a ler. Na prxima semana, vou fazer-lhe um teste. Bill pareceu ficar em pnico. Ela riu-se. Tenha calma. No  nada do que est a pensar. 
 capaz de achar o livro interessante
       A sexloga deu ento o encontro por terminado. Para primeiro dia, j havia conseguido considerveis avanos. Sabia qual era a viso de Bill sobre a questo 
e qual fora o resultado da sua primeira experincia sexual depois do acidente. Estava muito mais optimista do que ele. Quando este chegou ao quarto, atirou o livro 
para cima da cama e, com um semblante que denotava alguma irritao, sentou-se a olhar pela janela E a ficou durante longos minutos. No queria fazer nenhuma terapia 
sexual, nem aprender a ser criativo. Queria ser homem, mas, caso isso no pudesse vir a acontecer, fazia tenes de desistir de tudo aquilo que amava, inclusive 
de Isabelle E, naturalmente, no ia comear a sair com mulheres para comprovar se conseguia atingir e manter a ereo. Estava determinado a preservar a sua dignidade, 
quanto mais no fosse.
       No falou do encontro com Linda Harcourt a Isabelle. Foi o nico aspecto do seu processo de reabilitao que no partilhou com ela. S dias depois  que, 
finalmente, Bill pegou no livro, ficando espantado com a informao que ele disponibilizava De acordo com aquilo que leu, a sua primeira experincia no fora atpica 
e poderia ainda sentir melhorias considerveis  medida que as leses fossem cicatrizando. Mas mantinha ainda algum cepticismo quando acabou de o ler. Continuava 
a acreditar que poderia vir a pertencer quela vasta categoria de homens que tinham sensibilidade, mas controlo deficiente e ereces que desapareciam com facilidade. 
E no estava minimamente disposto a verificar a evoluo do problema, quer com parceira, quer sozinho. Na semana seguinte, quando se encontrou com Linda Harcourt, 
insistiu novamente que era mais fcil para si fechar a porta daquela parte da sua vida. Acrescentou ainda que no queria voltar a encontrar-se com ela. Depois de 
lhe dar mais dois livros, a sexloga props que se vissem mais uma vez, pois queria conhecer a reao dele aos livros que lhe sugerira. Era uma mulher extremamente 
inteligente e com uma abertura extraordinria. Bill gostava dela, s no queria abordar com ela a sua potencial vida sexual. Achava-se um eunuco e queria manter-se 
assim. Humilhao, fracasso e desiluso eram palavras que no queria que fizessem parte do seu mundo. Preferia manter-se celibatrio e s.
       Alguns dos seus amigos da poltica haviam descoberto que ele se encontrava ali. Dois deles eram de Washington e, os restantes, de Nova Iorque. Pareciam ignorar 
o seu estado fsico e passaram o tempo todo da visita a pedir-lhe conselhos. Por altura do Natal, Bill sentia alguma dificuldade em concentrar-se nas variadas formas 
de terapia. Os velhos correligionrios estavam determinados a pux-lo novamente para a poltica. Adorava saber o que toda a gente fazia e quais eram as suas esperanas, 
estratgias e planos. O que eles queriam dele, como sempre acontecera, era que os ajudasse a garantir os resultados.
       Bill combinara passar o Natal na manso de Greenwich, com Cynthia e as filhas. Arranjaria uma limusine para o levar na vspera e prometera s filhas dormir 
l. Teve uma sensao estranha, mas Cynthia dissera que podia ficar num dos dois quartos de hspedes. As filhas haviam-lhe dito que a me tinha um homem novo na 
sua vida. Bill ficou feliz por ela.
       O carro veio busc-lo s quatro horas. Uma hora depois, encontrava-se em Greenwich, no caminho que ia dar  velha casa. Tratava-se de um edifcio imponente, 
que sempre adorara, mas que lhe fazia sentir uma nostalgia dos tempos a passados. Mas, logo que viu as filhas, sentiu-se muito melhor.
       Olivia e Jane decoravam a rvore de Natal, quando Bill, sentado na cadeira de rodas, entrou na sala de estar. A aparelhagem estereofnica transmitia canes 
de Natal. Cynthia sentiu uma paz interior como h muito no sentia. Quando se virou para cumprimentar as filhas, Bill ficou de olhos esbugalhados ao encarar com 
Joe Andrews, sentado na sua cadeira de rodas.
       Como chegou at c? indagou Bill, espantado. Vira-o,  tarde, no salo de jantar. Joe, com ar acanhado, riu-se. Bill desfez-se num sorriso de orelha a orelha. 
Joe ficou aliviado por Bill no se mostrar aborrecido. Jane veio ento sentar-se a seu lado e pegou-lhe na mo.
       A Jane foi buscar-me depois de sair das aulas explicou Joe. Queramos fazer-lhe uma surpresa.
       Bill ficou intrigado. Joe no lhe dissera uma nica palavra sobre Jane, desde que se conheceram. No fazia a mnima idia de que andavam a encontrar-se e 
que as coisas pareciam ter avanado bastante bem nos ltimos trs meses.
       Ora, sinto-me espantado. Sorriu para os dois. Mas estava satisfeito. Achava Joe um rapaz estupendo.
       Nessa noite, jantaram todos juntos e depois foram  missa. Na manh seguinte, Bill e Joe entraram na sala de estar no exato momento em que Olivia e Jane desciam 
as escadas. Cynthia j fizera o pequeno-almoo. O seu novo namorado acompanhou-os ao almoo. Parecia ser um homem muito afvel e inteligente. Era vivo, tinha quatro 
filhos crescidos e parecia gostar bastante de Cynthia, o que agradava a Bill. Este estava surpreendido consigo prprio, ao constatar que no se sentia ciumento, 
nem possessivo, o que vinha confirmar, mais uma vez, que o divrcio fora a melhor opo.
       Bill e Joe voltaram para o centro de recuperao ao fim do dia de Natal, satisfeitos com os momentos agradveis que haviam partilhado. Porm, para Bill, para 
a satisfao ser completa, s faltara Isabelle. Telefonara-lhe vrias vezes, tendo-lhe ela respondido que estava tudo bem, mas a voz denotava tristeza e nervosismo. 
Gordon dificultara-lhe a vida nos ltimos dois meses. Continuava a puni-la pelo caso amoroso que acreditava que ela tivera, como se o acidente no houvesse sido 
castigo suficiente. Alm disso, Teddy parecia estar a perder peso. Sophie viera passar as frias a casa. No dia a seguir ao Natal, ia esquiar com uns amigos em Courchevelle.
       No est aborrecido comigo por andar com a Jane? perguntou Joe, cautelosamente.
       Bill sorriu e disse que no com a cabea.
       Ela merece um bom tipo como voc , e Joe merece algo melhor do que uma moa parecida com uma r.
       E riram-se ambos ao lembrarem-se da irm de Helena. A modelo fora a Nova Iorque passar o Natal com o noivo. Antes de partirem, todos tinham trocado presentes 
entre si.
       Bill estava convencido de que a relao entre Jane e Joe no iria durar muito. Eram demasiado jovens para pensar em compromissos mais srios. Olivia confessara 
que tambm tinha um novo namorado. Era assessor de um senador que Bill conhecia. Na viagem de regresso ao hospital, no conseguiu deixar de pensar que toda a gente 
tinha algum nas suas vidas, menos ele. Continuava apaixonado por Isabelle. Mas com esta em Paris, com Gordon e os filhos, tinha a sensao de que ela se encontrava 
a anos-luz de distncia. E, pela primeira vez, em muito tempo, sentia-se s e triste. Joe sara com amigos. Jane vinha visit-lo no dia seguinte. Meteu-se ento 
na cama e tentou ler um livro, mas no conseguiu concentrar-se nele. E sentiu um alvio quando Jane lhe telefonou, j a noite ia adiantada.
       Ests zangado comigo, pap? O tom de voz era o mesmo de quando batera com o carro do pai, no primeiro ano do secundrio.
       Bill soltou uma gargalhada.
       Claro que no. Por que motivo  que haveria de estar zangado contigo?
       No sabia o que irias pensar de mim e do Joe.
       Que achas dele? Bill comeava a ficar com pena de no ter tido aquela conversa mais cedo, em casa, para poder ver-lhe a cara enquanto falavam. O tom de Jane 
era srio.
       Amo-o muito. Nunca conheci ningum como ele.
       Tambm gosto dele. E tem passado por situaes muito complicadas. A paralisia das pernas, o trauma do acidente, a perda da noiva e do irmo gmeo. Uma vida 
destroada para sempre.
       Eu sei. Ele falou-me disso. A noiva morreu-lhe nos braos. Diz que nunca ir perdoar-se a si prprio.
       Daquilo que sei, o acidente no foi culpa dele. O que ele tem  o complexo de culpa do sobrevivente, porque est vivo e as outras pessoas morreram. Ultrapassar 
isso com o tempo.
       Quero estar ao lado dele, pap.
       Instalou-se ento um longo silncio, enquanto Bill assimilava todo o peso daquilo que Jane acabara de dizer.
       O que queres dizer-me, Janie? De repente, perguntou-se se a filha estaria a tentar dizer que iam casar-se. Tratava-se de uma perspectiva que no via com bons 
olhos. Eram ambos muito novos e Joe ainda tinha um longo e sinuoso caminho  sua frente. No havia qualquer esperana de voltar a andar pelo seu p. Sentia que era 
demasiada responsabilidade para ela. Como romance, no haveria problema, mas achava que algo mais srio que isso seria um erro para ambos.
       Que a minha relao com o Joe  sria.
       Comeo a perceber essa mensagem. Ele tambm pensa o mesmo.
       Julgo que sim. Ainda no falmos sobre o assunto, mas ele  um tipo estupendo.
       Acho que no deves assumir um compromisso srio nesta altura. Ainda ests na faculdade e bem falamos disso um dia. Mudou ento de assunto. Falaram do maravilhoso 
Natal que haviam passado juntos, como nos velhos tempos. No houvera qualquer tenso entre ele e Cynthia e at gostara do novo namorado dela. Jane dissera-lhe ento 
que iria dar-lhe um beijinho no dia seguinte, quando fosse ver Joe.
       A conversa deixou-o algo pensativo. Nessa noite, quando falou com Isabelle, p-la a par do que se passava.
       Nem sequer quero que ela pense em casar-se com o rapaz. Custa-me dizer isto, porque  um mido bestial.
       Ento por que razo  que no podem casar-se um dia. Muita gente o faz com a idade que eles tm. So jovens, mas a Jane parece-me j madura para a idade E 
o pobre rapaz j sofreu tanto.
       Seria um desastre para ela, Isabelle. Precisa de algum que consiga acompanh-lo para todo o lado. Adora esquiar, correr e andar de bicicleta. Um dia, querer 
ter filhos. O Joe ficar confinado  cadeira de rodas at ao fim da sua vida. Ela merece mais do que isso E ele tambm, mas no tinha escolha. Jane tinha.
       Que coisa horrvel ests para a a dizer ripostou Isabelle, num tom algo irritado. Que diferena  que isso faz, se ela esquia com os amigos, ou dana com 
outra pessoa qualquer. Ests a querer dizer-me que te opes a que se casem, mesmo que se amem, s porque ele no pode andar de bicicleta?  uma posio extremamente 
conservadora da tua parte.  um tremendo disparate.
       Sei do que estou a falar teimou Bill, franzindo o sobrolho.
       No sabes, no! retorquiu Isabelle, num tom firme. Era a primeira discusso que tinham. Espero que a me da Jane seja mais inteligente do que tu. Nunca ouvi 
tamanha estupidez! Nem digas tal coisa  Jane. Ela nunca te perdoaria e teria toda a razo.
       Mudaram ento para outros assuntos e ficaram mais calmos. Bill contou o que passara no Natal com Cynthia e as filhas, mas no fez qualquer referncia ao novo 
namorado dela, uma vez que Isabelle ainda no sabia que Cynthia j no fazia parte da sua vida. Isabelle comunicou-lhe que Gordon ia para Saint-Moritz, no dia seguinte, 
esquiar com amigos. Ela ia ficar em Paris, com Teddy, e assistiriam  entrada do novo ano sozinhos. Sophie j partira para fora.
       Bill no parava de se espantar com a pouca ateno que Gordon dispensava a Isabelle. Porm, sentiu-se aliviado com o fato de ele no ter ficado em casa a 
tortur-la. A sua ausncia era uma bno dos cus. Nessa noite, falaram durante horas esquecidas. Bill tinha vontade de desabafar e sentia-se vulnervel e um pouco 
triste. H quatro meses que no via Isabelle e as saudades eram imensas. Nem sequer podiam falar em encontrar-se de novo. Ainda tinha longos meses de reabilitao 
pela frente.
       Depois de desligar, ficou muito tempo a matutar naquilo que Isabelle dissera sobre Jane e Joe. Continuava a no concordar. Esta no sabia do que falava, nem 
fazia idia dos enormes desafios que iriam ter pela frente. Bill queria algo muito mais simples para Jane, por muito que gostasse de Joe. Era a primeira vez que 
discordava veementemente de Isabelle. Esta era demasiado ingnua e idealista para perceber as implicaes do que dissera. Bill estava determinado a abordar seriamente 
o assunto com Jane, se necessrio. Pelo menos, at ao momento, no pareciam estar dispostos a tomar decises precipitadas. Esperava que o bom senso imperasse.
       Adormeceu ento. Sonhou com a rvore de Natal e, pela primeira vez desde h muito tempo, com a luz branca. 
       Caminhava na sua direco, de mo dada com Isabelle, e quando se virou para ela a fim de a beijar, ficou perturbado ao ver Jane e Joe a virem na sua direco. 
Ele, de cadeira de rodas ela, em passo lento ao lado dele, com ar magoado. Quando parou, voltou-se para o pai e perguntou-lhe por que razo ele no a avisara das 
dificuldades que ela iria enfrentar.

CAPTULO QUINZE
       Quando Gordon partiu para Saint-Moritz e Sophie para Courchevelle, a casa ficou mergulhada num silncio sepulcral. Isabelle passou toda a tarde no quarto 
de Teddy a ler-lhe livros. O dia estava nublado e muito frio. Tivera de lhe vestir uma camisola de l sobre o pijama e pr-lhe uma colcha por cima.
       Teddy tivera um bom Natal. Recebera uma tonelada de livros e jogos novos. Isabelle comprara-lhe um enorme urso de peluche para lhe fazer companhia. Mas a 
nica coisa que ela gostava de lhe ter oferecido era sade. O filho representava uma constante fonte de preocupaes.
       Bill telefonava-lhe com maior frequncia desde que soubera que Gordon fora passar alguns dias fora. Chegava a telefonar-lhe duas vezes por dia. Tinha saudades 
dos tempos no hospital, em que podia falar-lhe quando queria. Isabelle no sentia o mnimo desejo de sair ou de visitar os amigos. Depois de o marido partir, ao 
abrir o correio, ficou espantada ao ver um convite dirigido a ambos. Era de um casal seu conhecido do mundo da moda. A mulher estava  frente de uma casa de alta-costura, 
o marido j tinha uma idade avanada, possua um ttulo honorfico e fora diretor de um banco importante. No se lembrava de alguma vez se ter encontrado com eles, 
mas presumiu que Gordon talvez os tivesse conhecido nalguma das suas atividades sociais, em que ela no participava, ou talvez no banco. O convite era para o casamento 
da filha em Janeiro. Ainda pensou em mandar uma prenda  noiva, depois ps de lado a idia. J no ia a festas daquele gnero h muito tempo e Gordon nunca a convidava 
para o acompanhar quando ia a alguma.
       Passou os dias seguintes com Teddy e a conversar com Bill. Este ia festejar a passagem do ano no centro de reabilitao, onde estavam a preparar uma grande 
festa. Bill prometeu telefonar quando fosse meia-noite em Paris, a fim de poderem entrar no Ano Novo juntos; e Isabelle telefonar-lhe-ia  meia-noite, para Nova 
Iorque. Esta aguardava a chamada de Bill quando o telefone tocou e uma mulher do outro lado da linha pareceu espantada ao ouvir a sua voz.
       Oh, que estupidez a minha! Lamento imenso, enganei-me no nmero. Estava a telefonar para dizer que perdi o avio. Com isto, parecendo ainda mais confusa e 
um pouco alcoolizada, desligou. Quem era ou para onde ia era um mistrio para Isabelle, que, convencida realmente de que a mulher marcara o nmero errado, desligou.
       Bill telefonou logo a seguir, tal como prometera, e brindaram ao Ano Novo em Paris. Teddy dormia profundamente. s seis da manh, hora de Paris, Isabelle 
telefonou para Nova Iorque, onde era meia-noite. Depois de falar com Bill, foi at  cozinha fazer uma chvena de ch e ler o jornal. Dera o dia de Ano Novo de folga 
 enfermeira de Teddy. Estava felicssima por poder cuidar do filho sozinha.
       No dia seguinte, Teddy dormiu at tarde. Isabelle aproveitou para dar uma nova vista de olhos ao jornal e ficou espantada ao ver o nome de Gordon na coluna 
da vida social, onde se noticiava a sua presena em Saint-Moritz na companhia de amigos. Aga Khan, o prncipe Carlos e uma srie de notveis encontravam-se entre 
eles. Reparou ento noutro nome. A condessa de Ligne tambm iria juntar-se ao grupo. Era a mulher que os convidara, no dia anterior, para o casamento da filha. Presumiu 
ento que ela e Gordon deveriam ser amigos. E lembrou-se do telefonema, na noite anterior, de uma mulher que dizia que perdera o avio. Por instantes, sentiu um 
arrepio no corpo. Por que motivo a mulher teria telefonado para casa de Gordon? E por que raio seria a condessa de Ligne e no outra pessoa qualquer? O seu primeiro 
nome era Louise. No conseguia imaginar que ela tivesse um caso com Gordon. Provavelmente era amiga de outros dos presentes. Mas a coincidncia no lhe saiu da cabea 
durante todo o dia. s seis horas, resolveu cometer uma loucura. No tinha nada para fazer e queria ouvir a voz da condessa de Ligne. Telefonou para o Servio Informativo 
e obteve o nmero facilmente. Aps alguma hesitao, marcou os algarismos. Do outro lado da linha atenderam de imediato.
       Alo? Sim?
       Madame de Ligne? indagou, eliminando o ttulo.
       Sim
       Estou a telefonar-lhe para confirmar o seu voo para Saint-Moritz proferiu Isabelle, no fazendo a mnima idia do que dizer a seguir.
       J lhe disse h uma hora que s poderei ir amanh. O meu marido encontra-se muito doente retorquiu Louise de Ligne, algo irritada, mas Isabelle j ouvira 
aquilo que queria. Tratava-se da mesma voz da noite anterior.
       Oh, peo imensa desculpa. Deve ter sido a minha colega. As minhas desculpas, Madame de Ligne.
       Preciso de confirmar de novo? perguntou a condessa, num tom algo imperial. Tinha o mesmo tom de arrogncia na voz que Gordon. Pareciam gmeos.
       No  necessrio. Boa viagem! disse, num tom cordial, e desligou. No sabia porqu, mas estava a tremer, tentando coordenar as idias. E no conseguia deixar 
de se perguntar por que motivo a condessa telefonara a Gordon na noite anterior. No queria tirar concluses precipitadas, mas o seu sexto sentido dizia-lhe que 
o marido tinha um caso com a condessa. Esta devia ter querido ligar para Saint-Moritz para lhe dizer que perdera o avio, mas, como estivera a beber, telefonara 
para a casa de Paris.
       Quem era? perguntou Teddy, entrando no quarto da me, o que raramente acontecia. Mas ficou espantado quando viu o ar preocupado dela. H algum problema?
       No, eu... s estava a tentar ligar para o pap, mas ele saiu.
       Provavelmente foi esquiar, ou a uma festa. Quando Bill telefonou, Isabelle deu-lhe conta das suas suspeitas.
       Parece-me um pouco forado comentou Bill, com alguma cautela. Mas as mulheres tm uma intuio extraordinria para essas coisas. Confio mais no teu instinto 
do que na minha cabea. Sempre soube quando a Cynthia andava com algum. Olhava-me sempre de modo diferente e era mais simptica e mais jovial.
       Nem sequer sei por que motivo  que lhe telefonei. Ela podia ter-se enganado no nmero, mas mostrou-se demasiado delicada. Se tivesse sido mesmo engano, teria 
desligado de imediato. E por que razo nos convidaria para o casamento da filha?
       Se a tua teoria estiver correta, talvez o Gordon lhe tivesse dito que no mas ela quer que ele v. Portou-se com grande compostura. Podia t-lo convidado 
s a ele.
       Eu devia aceitar. S para os assustar.
       Tens coragem para isso? perguntou Bill, curioso com a reao de Isabelle. Sabia que esta no dormia com Gordon h anos. Alm disso, tratava-a to mal desde 
o acidente que seria um alvio se ele tivesse um caso com algum. No era uma forma agradvel de abordar o problema, mas Isabelle estava farta de ser tratada como 
uma criminosa na sua prpria casa.
       No sei se me sinto magoada, aborrecida, aliviada ou humilhada. Talvez sejam apenas amigos e eu esteja a magicar coisas.
       Seria interessante saber.
       Como vou descobrir? Mesmo que eu tenha razo, ele no vai admitir. No fao idia do que ele faz, onde vai ou com quem se encontra.
       Contrata um detetive.
       Acho que seria uma atitude despropositada. Ficaria furioso se descobrisse e atormentar-me-ia ainda mais para encobrir a culpa.
       Bem, mantm-te atenta. Talvez aparea alguma coisa na imprensa depois de ela chegar a Saint-Moritz.
        demasiado esperto para se expor.
       Depois de desligarem, Isabelle teve outra idia. Havia uma mulher do mundo da alta-costura que conhecia h vrios anos. Haviam estudado juntas e eram boas 
amigas, mas no a via desde o nascimento prematuro de Teddy. Chamava-se Nathalie Vivier.
       Telefonou de novo para o Servio Informativo a fim de saber o nmero de Nathalie. Esta nunca se casara e era um nome firmado no mundo da alta-costura. Tinha 
basicamente a mesma importncia que Louise numa casa rival. Sentia que estava a desvendar um grande mistrio e era com grande determinao que procurava descobrir 
o que podia sobre Louise de Ligne. Nas ltimas duas horas, tornara-se uma obsesso.
       Aguardou por uma hora respeitvel para lhe telefonar. Era sbado e foi ela prpria que atendeu. Ficou muda de espanto quando reconheceu Isabelle.
       Meu Deus, h anos que no falo contigo... Como est o teu filho?
       Isabelle explicou-lhe que Teddy era uma criana extremamente doente h catorze anos, desde que nascera.
       Desconfiei que uma coisa dessas tivesse acontecido. Toda a gente diz que te tornaste uma reclusa. Ainda pintas?
       No tenho tempo.
       Puseram ento a conversa em dia. A me de Nathalie morrera, o pai voltara a casar, ela vivera com um senador durante dez anos, depois este voltara para a 
esposa, que estava moribunda. Nunca se casara, nem tivera filhos, e continuava a adorar o trabalho que fazia. Dava a sensao de que no existira nenhum hiato de 
tempo desde a ltima vez que se haviam encontrado. Partilhavam uma grande amizade at Isabelle se casar com Gordon. Nathalie detestava-o. Achava-o pomposo e arrogante, 
e estava convencida de que casara com ela por causa das ligaes sociais de Isabelle. Nunca confiara nele, mas no lhe recordou esse fato.
       Tenho uma pergunta terrvel a fazer-te. S quero saber uma coisa e no sei de que outra forma conseguirei saber.
       Ouviu-se um longo silncio do outro lado da linha. Nathalie perguntou-se se devia responder-lhe com toda a franqueza, no ficando inteiramente surpreendida 
com o telefonema de Isabelle, s estranhando que esta apenas o tivesse feito ao fim de tanto tempo.
       Que queres que te diga?
       Quero fazer-te uma pergunta sobre uma pessoa e gostaria que me dissesses a verdade. Que sabes sobre a Louise de Ligne?
       Nathalie soltou um suspiro e resolveu responder-lhe com toda a franqueza.
        uma mulher muito talentosa, muito difcil, muito inteligente, bem-parecida, embora um pouco mais velha do que ns e, por vezes, muito grosseira. Extremamente 
fria. E muito ambiciosa. Dizem que  ela que financia a casa onde trabalha. Julgo que o marido lhe comprou uma boa quota.  um velho de alguns cem anos, completamente 
gag e muito doente. Ela herdar o dinheiro quando ele morrer. Ele j era casado e, por aquilo que dizem, os filhos dele tm-lhe um dio de morte. Mas ela  suficientemente 
inteligente para mexer os cordelinhos de modo a que eles recebam o menos possvel da herana. J se gaba disso. Casou pelo dinheiro, quando ele j tinha uns oitenta 
anos e teve um filho dele para garantir o futuro. O velho deve ter uns noventa e tal. Pouco mais pode durar.  uma das maiores fortunas de Frana. A informao era 
interessante, mas no era inteiramente aquilo que Isabelle queria ouvir.
       Que mais sabes?
       Isabelle, no procures coisas que podem magoar-te. A vida j  suficientemente dolorosa. Porque ests a perguntar-me isso?
       Porque quero ter a certeza. Sabes alguma coisa, no sabes?
       Nathalie fez uma longa pausa e soltou novo suspiro
       No  propriamente um segredo. Meia Paris sabe. Isabelle sentiu o corao bater mais depressa
       Ela anda metida com o Gordon?
       Nathalie riu-se. Isabelle continuava a ser extremamente ingnua, ao fim de todos aqueles anos. Sempre adorara essa caracterstica da amiga, mas j era hora 
de crescer.
        amante dele h uns dez, doze anos. Vo a todo o lado juntos. Surpreende-me que nunca te tenham contado... H anos que vo a eventos sociais. Toda a gente 
sabe
       J no conheo ningum declarou Isabelle, perplexa. Ests a falar a srio?
       Estou. Ele passa a vida a oferecer-lhe jias e at lhe deu um carro. Acho que tm um apartamento na Rive Gache. Rue du Bac, julgo. No Vero, vo para o Hotel 
du Cap. O ano passado encontrei-os em Samt-Tropez. Ele vai deixar-te? Se for, tens de lhe exigir uma boa penso. Por aquilo que ouvi, gasta uma fortuna com ela.
       No consigo acreditar, Nathalie. Como  possvel? Tens a certeza?
       Absoluta. Se no acreditas, telefona a dez pessoas com quem te davas e todas te diro a mesma coisa. H anos que funcionam como casal.
       Ele no vai deixar-me. Mas nunca pensei que as coisas tivessem chegado a este ponto. S ontem  que comecei a suspeitar que algo se passava. Sempre imaginara 
que se tratava de um caso fortuito, nunca de uma vida inteira de doze anos com outra pessoa, enquanto ela, em casa, cuidava do filho.
       Ele ainda no tem motivos para te deixar. Ela no pode abandonar o marido enquanto ele for vivo. Quando isso acontecer, tenho quase a certeza de que o Gordon 
no querer perd-la.  poderosa e rica. Talvez nessa altura esteja farta dele. Nunca se sabe.  uma autntica cabra. Se souber que representas uma ameaa,  capaz 
de te fazer a vida negra. No olha a meios. Era uma costureirinha de segunda quando conheceu o velho. Este f-la condessa e meteu-a na alta-costura. Se bem que seja 
uma boa profissional, tenho de reconhecer. Mas no  flor que se cheire. Acaba contigo num abrir e fechar de olhos, tenha ela de fazer o que fizer. Se quiser o Gordon, 
pe-no a rastejar a seus ps, se necessrio for. Alis, era o que j fizera.
       No represento qualquer ameaa para ela observou Isabelle, algo assustada. Sentia-se uma perfeita idiota.
       Ela pode no ver as coisas dessa maneira. Sinto muito, Isabelle. Nathalie detestara ser a pessoa que lhe dera a m notcia. Sempre gostara daquela amiga.
       Isabelle no conseguia imaginar Gordon junto com outra mulher. E no deixava de se interrogar se a culpa no teria sido sua, por passar a maior parte do seu 
tempo a cuidar do filho. Nathalie dissera-lhe que o romance j durava h dez, doze anos. Gordon pusera-a fora do quarto, do corao e da sua vida precisamente na 
mesma altura. Tudo fazia sentido.
        melhor continuares a tua vida sem ele.  um indivduo extremamente egosta. Sempre pensei que ele detestava as mulheres.
       Isabelle falou-lhe ento do acidente, mas no de Bill, e prometeram voltar a contatar muito em breve. Ficou satisfeita por ter ouvido a verdade, por mais 
dolorosa que tivesse sido. Aps desligar, permaneceu em silncio durante algum tempo e depois telefonou a Bill. Acordou-o de um sono profundo, mas estava ansiosa 
por comunicar-lhe o que soubera.
       Contou-lhe tudo de seguida. Quando acabou, Bill j estava sentado na cama, de olhos bem abertos e com ar perplexo. Tudo aquilo era tipicamente francs. Ter 
amantes durante uma dcada ou mais era pouco vulgar nos Estados Unidos. A maioria das pessoas divorciava-se. Mas a condessa aguardava que o marido morresse para 
receber a herana.
        uma histria dos diabos! Tens a certeza de que a Nathalie te contou mesmo a verdade? No entanto, apenas confirmava aquilo de que sempre suspeitara: Gordon 
era um estupor e um sacana.
       A Nathalie sempre soube de tudo. Por que motivo nunca me contaram? Era humilhante constatar que toda a gente em Paris sabia, menos ela. Sentia-se uma idiota
       Talvez pensassem que sabias e no quisessem atirar mais achas para a fogueira. Muitas pessoas fazem isso, especialmente na Europa, se bem que tambm o faam 
aqui. Tambm nunca ningum lhe falara dos casos amorosos de Cynthia.
       O que achas que deva fazer? Isabelle no tinha a menor idia de como actuar aps a informao que possua.
       Que queres fazer?
       No sei. Adoraria atirar-lhe com isso  cara no preciso momento em que entrasse em casa, ou telefonar-lhe para Saint-Moritz, mas reconheo que no  uma atitude 
muito inteligente. Sabia que Gordon lanar-se-ia sobre ela como um animal selvagem.
       Acho que deves esperar e, da prxima vez que ele for desagradvel contigo, atiras-lhe com isso  cara. Queres deix-lo? Queria, mas achava que no devia faz-lo. 
A mudana seria muito violenta para Teddy e no tinha a certeza de que Gordon lhe desse uma penso suficiente para cuidar do filho. De qualquer forma, a amante no 
podia casar-se, por isso no estava ansioso por se divorciar de Isabelle ou ser generoso com ela. Gordon no quereria que rebentasse um escndalo, dada a sua proeminncia 
e reputao no banco. Era mais prudente aguardar, como Bill dizia. Teria muito tempo para reflectir no assunto e tomar as decises que achasse melhor. Bem, agora 
j tens munies. Talvez devas guard-las para o momento certo e depois ds-lhe um tiro entre os olhos.
       Se toda a gente j sabe, no seria um grande escndalo se nos divorcissemos, pois no?
       Acho que sim. Uma coisa  ter uma amante, mesmo que seja do conhecimento pblico, outra coisa completamente diferente  ter uma mulher furiosa a armar um 
escndalo, a falar com a imprensa, a fazer acusaes pblicas, a pedir-lhe uma quantia exorbitante, a virar a opinio pblica contra ele. Pareces a Virgem Maria 
com um filho deficiente nos braos. Se um dos meus candidatos estivesse metido numa embrulhada dessas, aconselh-lo-ia a manter a maior discrio possvel, a continuar 
casado contigo, a exibir um ar respeitvel, a comear a dar de comer a rfos ou a adoptar freiras cegas. O Gordon querer que toda essa trapalhada se resolva o 
mais discretamente possvel, e isso depende de ti, meu amor. A bola est nas tuas mos. A ltima coisa que ele querer  um escndalo pblico ou um divrcio. Especialmente 
se ela ainda no estiver livre. Ele desejar sair de casa o mais discretamente possvel, quando ela ficar viva, e no antes disso. E conhecendo a personalidade 
dele como conheo, no creio que v pedir-te desculpas e ser simptico contigo. Acabar sempre por te culpar de tudo. Quanto mais tiver de se esconder, mais cruel 
se tornar. Se o enfrentares, ir-te- ameaar de tudo e mais alguma coisa. Tem cuidado, querida. Se o encurralares, corta-te o pescoo. Conheo o gnero. No recuar, 
nem sair pacificamente da tua vida. Matar-te- primeiro. O casamento tem servido os seus propsitos e no vai querer que armes confuso. E talvez ela queira ver-te 
casada com ele para lhe dar um certo ar de respeitabilidade, pois nunca ir deixar o velho antes de ele morrer. Acho que se esto a passar coisas que nem consegues 
imaginar. Tem cuidado. No o pressiones demasiado.
       Era um conselho sensato. Reconhecia que Bill tinha razo, s no sabia o que fazer com a informao que possua. Pensou ento nas muitas noites que Gordon 
no dormira em casa e em que provavelmente estava com a condessa no apartamento que Nathalie referira. Vieram ento  memria as viagens com os amigos, as frias 
que fazia "sozinho", as festas a que ia, os lugares que frequentava. Nathalie tinha razo, tudo isso durava h uma dzia de anos.
       Quero que penses maduramente no assunto. No faas nada por enquanto aconselhou Bill, pensativo. No queria que Isabelle sasse magoada de toda aquela situao.
       No farei.
       Lembra-te de que, se o encurralares, ele ripostar No tenho a menor dvida.
       Isabelle concordava a cem por cento. Gordon podia ser de extrema crueldade se se visse atacado. Descobrira essa caracterstica dele h alguns anos.
       Nos dias seguintes, continuaram a falar sobre o assunto, mas no chegaram a novas concluses. Quando regressou, Gordon exibia um ar feliz e um bronzeado invejvel, 
e mostrou-se surpreendentemente simptico com Isabelle. At lhe perguntou pelo estado de Teddy, mas a mulher no disse uma nica palavra sobre a condessa de Ligne.
       Isabelle entregou-lhe ento o correio. Abrira apenas um envelope, pois era dirigido a ambos e anunciou-lhe, com o ar mais natural do mundo, que o conde e 
a condessa de Ligne os haviam convidado para um casamento. Disse-lhe ainda que aceitara o convite em nome dos dois. Gordon no esboou qualquer reao.
       O mdico do Teddy diz que devo sair um pouco mais e acho que tem razo. Deduzi que os conhecesses e, como veio no nome dos dois, achei que talvez no te importasses 
que eu tambm fosse disse numa voz suave e de olhos arregalados.
       De modo nenhum ripostou Gordon, com ar despreocupado E, por instantes, Isabelle perguntou-se se Nathalie no estaria enganada. Gordon virou-se ento para 
ela com uma expresso estranha no rosto. Se bem que seja um casal aborrecido e muito velho.  capaz de ser incmodo para ti. Se vais comear a sair outra vez, acho 
que devias escolher algo um pouco mais divertido acrescentou, num tom mais solcito que amedrontado.
       Que idade podero ter com uma filha que vai casar, indagou Isabelle, com ar inocente.
       Gordon encolheu os ombros.
       No creio que seja muito nova. Deve ser uma matrona e com poucos atributos de beleza. Acho que vai ser uma grande chatice.
       Gordon estava determinado a convenc-la a no ir. E, pela primeira vez, desde h muitos anos, Isabelle sentia um prazer enorme em trocar impresses com o 
marido.
       Tens razo, no deve ser muito divertido. Achas que lhes escreva a dizer que, afinal, no vamos? No ser uma indelicadeza da nossa parte?
       Eu trato do assunto. A propsito, onde est o convite?
       Em cima da minha secretria.
       Levo-o quando sair. Vou pedir  minha assistente que trate do assunto.
       Obrigada, Gordon. Manda-lhes um bom presente a acompanhar as desculpas.
       Tambm vou pedir  Elizabeth que trate disso. J tens preocupaes suficientes.
       Isabelle agradeceu-lhe. Quando saiu, Gordon j levava o convite na mo. Quando soube do sucedido, Bill riu-se.
       s um monstro, no h dvida. Mas lembra-te do que te disse. Tem cuidado, ele no  parvo nenhum. Pode estar  espera de ver o que fazes.  possvel que desconfie 
que algum te disse qualquer coisa, uma vez que, de acordo com as palavras da tua amiga, toda a gente de Paris sabe.
       No farei nada de nada. Nos dias seguintes, a nica coisa que fez foi verificar se o marido se encontrava no quarto a altas horas da noite e de madrugada. 
Tal como calculara, no passava as noites em casa e no esperava que Isabelle viesse a saber, pois estava expressamente proibida de entrar nos seus aposentos. Encontrava-se, 
presumivelmente, no apartamento na Rue du Bac, na companhia de Louise.
       Isabelle e Gordon passaram o ms seguinte a brincar ao gato e ao rato, e as coisas no se alteraram, como acontecia h vrios anos. Ele tinha a amante, um 
apartamento, uma relao e, de alguma forma, era mais casado com ela do que com Isabelle. Tal como esta se sentia mais casada com Bill.
       Este encontrava-se no centro de reabilitao h cinco meses. H muitos anos que no se sentia em to boa forma fsica. O pescoo praticamente j no lhe provocava 
qualquer problema, os ombros estavam mais fortes e os quadris mais magros. De fato de banho, quando nadava, parecia um jovem. Tinha mais sensibilidade nas pernas, 
o que lhe permitia mo ver-se mais facilmente na cadeira de rodas. Porm, no conseguia andar, nem pr-se de p. As pernas no tinham fora, incapazes de suportar 
qualquer peso sobre elas. As perspectivas de voltar a ter Isabelle nos seus braos eram cada vez menores. Continuava a encontrar-se com a Dr.a Hartcourt, a sexloga, 
apesar da renitncia inicial. Insistia que o sexo j acabara para si. O fato de no ter conseguido consumar o ato sexual com Isabelle fora extremamente traumtico 
e estava convencido de que as coisas no iriam alterar-se. Mas gostava de falar com Linda Hartcourt, que continuava a dar-lhe a ler uma srie de livros interessantes. 
No entanto, no conseguiam convenc-lo.
       Para complicar ainda mais as coisas, Jane e Joe vieram ter consigo, em Maro, para lhe comunicar que estavam noivos. Embora gostasse muito de Joe, ficou preocupado 
com o assunto e teve muitas conversas telefnicas com Cynthia. Esta mostrava-se muito mais compreensiva e discutiram o assunto durante vrias semanas. Bill acabou 
por ter uma longa conversa com Jane, quando esta veio visit-lo.
       Pap, sabemos o que estamos a fazer. No somos crianas. H sete meses que nos conhecemos. Sei aquilo com que vou contar. Devido  natureza das leses, Joe 
usava fraldas, tomava medicamentos e s tinha mobilidade num dos braos. As suas limitaes eram maiores do que as de Bill. Fora aceite na faculdade de Direito. 
Era uma pessoa inteligente E os mdicos achavam, mas no tinham a certeza, que ainda poderia vir a ter filhos. Linda explicara a Bill que homens com incapacidade 
de desempenho sexual podiam engravidar as mulheres atravs de inseminao artificial. No se sabia ainda se Joe, que tambm era paciente de Linda, estava nessa situao. 
Mas, ao contrrio de Bill, era jovem, e isso jogava a seu favor. Na sua idade, este j no estava disposto a fazer "experincias" ou papel de idiota. Estava preparado 
para se abster do sexo at ao fim da vida. Aceitava isso como uma inevitabilidade, ao contrrio de Joe.
       No sabes no que te vais meter. Ele estar completamente dependente de ti, tanto no plano fsico como emocional.
       No  verdade. O Joe preocupa-se comigo, como nenhum outro homem alguma vez se preocupou, alm do pap. Vai ser advogado, investiu o dinheiro da indemnizao 
do acidente, tem um milho de dlares em aces e outros timos investimentos. O corretor da mam deu uma vista de olhos  carteira de aces e disse que o Joe fez 
os investimentos certos. E se ele no puder fazer montanhismo ou danar a valsa, no me importo.
       Talvez um dia te importes.
       O pap e a mam no foram bem-sucedidos no casamento e o pap andava quando se casaram. Que tem isto agora de to diferente? Por que razo estamos ns em 
pior situao do que vocs estavam nessa altura?
       Porque ele  deficiente insistiu Bill. Vai ser um tremendo fardo para ti. A tua me e eu no tivemos sorte no casamento quando eu conseguia andar, mas hoje, 
tal como estou, no poria sequer essa hiptese.
        uma patetice. No acredito que o pap pense dessa maneira.
       Bill estava mais do que arrependido por t-la apresentado a Joe. Pensara que no tivesse qualquer mal e enganara-se. Nas duas semanas seguintes, discutiu 
o assunto com Isabelle, Cynthia e as duas filhas. Finalmente, teve uma conversa com Joe. Esperava sinceridade e seriedade da parte dele e era bvio que se mostrava 
aborrecido ainda antes de a conversa ter comeado. Mas no estava preparado para o que Joe tinha a dizer.
       Sei o que sente, Bill proferiu, calmamente. Jane j lhe contara tudo. Estava furiosa com o pai e disposta a fugir com Joe, se necessrio fosse. Mas este respeitava 
demasiado Bill e Jane para fazer tal coisa. No posso dizer-lhe que est enganado. No posso dizer-lhe que ser um caminho fcil, ambos sabemos que no. Eu sei. 
Compreendo isso melhor do que a Jane. Somos jovens. O casamento no  fcil. Os meus pais esto divorciados, voc e a Cynthia tambm. No h nada garantido na vida. 
Mas acho que existe um lao especial entre mim e a Jane, e julgo, com toda a sinceridade, que as coisas iro dar certo. Vou fazer tudo o que puder para a proteger, 
amar e cuidar dela. Havia lgrimas nos seus olhos. Bill virou a cara, no queria deixar-se influenciar. Mas tambm o respeito muito para fazer algo que lhe desagrade. 
Aceito a sua opinio, embora a considere errada. Julgo que tanto voc como eu temos o direito de usufruir de uma boa vida e de um bom casamento como o resto das 
pessoas. Apesar de no andar e de no conseguir mexer um brao, tenho direito ao amor. Espero que pense o mesmo. Porm, se no quiser que case com a sua filha, dir-lhe-ei 
a ela que pensei melhor no assunto e que mudei de idias. Se  isso que quer, prefiro que ela me odeie a mim. Voc  o pai, precisa de si, talvez ainda mais do que 
de mim. Alm disso, no quero fazer parte da sua famlia se no for essa a sua vontade.  consigo.
       As palavras de Joe deixaram-no algo perturbado queria que tudo fosse diferente, mas achava que seria uma vida muito dura para ambos. O seu nico intento era 
proteger a filha. Queria que ela tivesse um homem que a pudesse levar, pelo seu prprio p, a ver o pr do sol.
       E se descobrir que no pode ter filhos? Este era um dos principais problemas com que Bill se debatia E acreditava que Jane tambm se debateria com ele no 
futuro.
       Adoptamos uma criana. J falmos do assunto. No h nada garantido na vida. Muitos dos casais que no tm os nossos problemas vm a descobrir que no podem 
ter filhos. Faremos o que nos parecer ser melhor para ambos.
       Bill sabia que no poderia exigir mais de outro homem. Joe era honesto, afvel, louco por Jane, inteligente, educado, atencioso, culto, financeiramente estvel, 
mas estava confinado a uma cadeira de rodas para o resto da vida. Era a deciso mais difcil que alguma vez era obrigado a tomar. Depois de ouvir o jovem durante 
longo tempo, estendeu-lhe os braos e, de lgrimas nos olhos, os dois homens abraaram-se.
       Tudo bem, seu reles patife! balbuciou Bill, mal contendo a comoo. Avance! Mas se a fizer infeliz, mato-o.
       Juro. Farei tudo o que puder por ela at ao fim da vida.
       Limparam as lgrimas e sorriram um para o outro. Bill tirou ento uma garrafa de vinho do frigorfico.
       Quando  que esto a pensar casar? indagou Bill, enquanto enchia dois copos de vinho. Tinha a sensao de ter acabado de escalar os Alpes, tal como Joe.
       Talvez em Junho ou Julho. Vou entrar na Faculdade de Direito da Universidade de Nova Iorque e podemos arranjar alojamento para um casal. No Outono, Jane teria 
vinte anos. Joe, vinte e trs. Eram jovens,  certo, mas outros antes deles j haviam feito o mesmo e tinham tido sorte. Bill esperava que eles pertencessem a esse 
grupo.
       Quando  que tem alta?
       Dentro de um ou dois meses. J c estou h um ano. Pensei ir passar uns tempos a Minneapolis.
       Bill teve vontade de dar pulos de alegria. Estavam ambos um pouco brios. Quando chegou ao seu quarto, Joe telefonou, de imediato, a Jane. Sentia-se extremamente 
aliviado. Tivera medo daquilo que Bill pudesse dizer, mas as coisas haviam corrido maravilhosamente. Mal ouviu a novidade, Jane no conseguiu conter as lgrimas 
de alegria. A bno do pai era de extrema importncia para si. Tanto ela como Joe no queriam casar sem o consentimento de Bill.
       Cinco minutos depois de Joe sair do quarto, Jane telefonou ao pai, extremamente emocionada, a agradecer-lhe. Depois de desligar, foi a vez de Cynthia telefonar 
a Bill.
       Fizeste bem. Fiquei um bocado preocupada contigo, mas fizeste o que devias. Parecia mais calma e mais madura. Todos haviam crescido no ltimo ano, no s 
as filhas.
       O que te faz ter tanta certeza? perguntou Bill, ainda algo preocupado.
       Sinto. Tu ests apenas assustado. Ele vai ser bom para ela. Era a nica coisa que poderiam pedir. O resto estava nas mos do destino.
       Espero bem que sim. Caso contrrio, vai-me ter  perna.
       Tenho orgulho em ti.
       No tenhas. Ele  um puto porreiro, e eu no podia dizer que no.
       Sinto-me imensamente feliz.
       Isabelle disse a mesma coisa quando telefonou a saber como  que a conversa com Joe correra.
       Nunca te perdoaria se tivesses dito que no. Estivera preocupada toda a noite. Levantara-se s quatro da manh para lhe telefonar, desejando que tudo tivesse 
corrido bem. No havia nada mais irresistvel do que o amor. E uma coisa era certa Joe e Jane amavam-se loucamente. Bill s esperava que a vida os tratasse bem. 
Joe, pelo menos, j pagara a sua conta.
       A Primavera chegara a Paris. Nos ltimos dois meses, a vida de Isabelle continuara na mesma rotina de sempre. Nunca confrontara Gordon com a sua descoberta. 
Esperava a altura adequada para o fazer. Porm, desde que descobrira o envolvimento do marido com Louise, o modo de encarar as coisas alterara-se por completo. J 
no nutria o complexo de culpa por causa do que sentia por Bill e, a maior parte do tempo, mantinha-se longe de Gordon. No esperava nada dele. Era simplesmente 
o homem que, por acaso, vivia na mesma casa que ela. S temia que ele suspeitasse do seu comportamento estranho.
       Bill continuava a telefonar-lhe todos os dias, mas sabia que tinha de tomar algumas decises muito em breve. H sete meses que se encontrava no centro de 
reabilitao e, embora se sentisse em tima forma fsica e o estado de sade tivesse sofrido algumas melhoras, nada de significativo ocorrera. Planeara ficar um 
ano no centro, mas os terapeutas diziam-lhe que no tardaria a ter alta. Era provvel que sasse em Maio. Haviam-lhe dito, finalmente, que no podiam fazer mais 
nada. Estava confinado  cadeira de rodas at ao fim dos seus dias. No havia nenhum milagre, nem nenhuma operao que pudessem oferecer-lhe. Tinha de fazer as pazes 
com a vida tal como ela era agora. Era o golpe mais cruel que sofrera. O pior teria sido se Isabelle no tivesse sobrevivido ao acidente. O fato de no conseguir 
andar significava que nunca mais a veria. Preferia morrer a ser um fardo para ela. Alis, tivera a sensao de ter morrido quando lhe comunicaram que no poderiam 
fazer mais nada. Ainda no dissera nada a Isabelle, mas sabia que tinha de o fazer em breve.
       Os amigos continuavam a telefonar-lhe de Washington, e um importante candidato a senador insistia para que Bill dirigisse a campanha, em Junho. Tinha em vista 
as presidenciais, que seriam dentro de quatro anos e sabia que Bill era a pessoa certa para o levar at  Casa Branca.
       Falou do assunto com Isabelle, que achava que devia aceitar, pois far-lhe-ia bem voltar ao trabalho. Por vezes, sentia-se algo desalentado por no ter conseguido 
mais progressos no centro, mas, se isso no acontecera, no fora por culpa dos terapeutas, inexcedveis na forma como o haviam tratado. Deixar o centro era como 
abandonar o tero materno.
       As leses de Isabelle j haviam cicatrizado. As anlises estavam normais e raramente tinha dores de cabea. Fizera uma recuperao extraordinria e no ficara 
com marcas do acidente,  exceo de uma cicatriz ao longo do brao esquerdo, no stio onde a artria afectada fora suturada. Nada mais restara a no ser a forte 
relao que nascera no hospital com Bill. Continuava a sentir imensas saudades e pedira-lhe para vir v-la quando sasse do centro. Mas sempre que lhe pedia tal 
coisa, Bill dava respostas vagas. Sabia que ainda era muito cedo para ele fazer planos de viagem, mas esperava que o fizesse o mais brevemente possvel. H sete 
meses que no o via, o que lhe parecia uma eternidade.
        medida que o tempo passava, Bill atormentava-se constantemente com o fato de no ver Isabelle. Sentia uma enorme vontade de o fazer, mas no achava correto. 
A partir do momento em que aceitara verdadeiramente o fato de nunca mais voltar a andar, tudo se alterara para ele. Os telefonemas deixaram de ter a inocncia que 
sempre haviam tido. Sentia que estava a engan-la, dada a deciso que tomara. Nada mais tinha para lhe oferecer que no fosse conforto e, eventualmente, alguns fugazes 
momentos de conversa, uma meia dzia de vezes por ano. No podia proporcionar-lhe um futuro digno, nem proteg-la de Gordon, nem ajud-la a tratar do filho deficiente. 
S podia dar-lhe palavras. A nica coisa que no queria era que Isabelle sentisse d em relao a ele. E sabia que, se optasse por deix-la, ela tinha de acreditar 
que ele no o fazia por causa dos problemas fsicos. Caso contrrio, nunca permitiria que ele a deixasse. Mas sempre que pensava em afast-la da sua vida ou em nunca 
mais lhe telefonar, sofria um aperto no corao. No queria que Isabelle se sentisse abandonada, mas, a longo prazo, seria melhor para ela Se pudesse dar-lhe o futuro 
que queria, esperaria eternamente por ela, mas agora que sabia que iria ficar para sempre na cadeira de rodas, o melhor que tinha a fazer era afastar-se. Alm disso, 
no podia fazer amor com ela. Apesar de Joe e Jane serem suficientemente loucos para tentar construir uma vida em comum, nunca faria tal coisa com Isabelle. Bill 
vivia em luta constante com a sua conscincia.
       A outra graa divina na vida de Isabelle, para alm de Bill, era o fato de Teddy ter registrado melhoras considerveis nos ltimos dois meses. Chegara a jantar 
com a me na sala de jantar vrias vezes Em Abril, Isabelle levou-o a passear de carro no Bois de Boulogne pela primeira vez desde h vrios anos. Comeram um gelado 
no Jardin d'Acclimatation. Estava extasiada quando contou a Bill. No fazia nada igual desde que Teddy era pequeno E deu graas a Deus pela bno que o filho era 
na sua vida, quando ele fez quinze anos, no dia um de Maio.
       Na tarde do dia seguinte, Bill telefonou e comeou a preparar o terreno para aquilo que se convencera que tinha de fazer. Contou ento a primeira mentira. 
Reflectira maduramente no assunto. Por mais horrvel que pudesse parecer, sabia que estava a fazer aquilo para bem dela. Amava-a o suficiente para se sacrificar 
por Isabelle. H vrios meses que Gordon no a incomodava. Quase nunca se encontrava em casa. Sabia que no haveria uma ocasio melhor para fazer o que acreditava 
ser o mais correto. Com o corao a bater desenfreadamente, Bill ligou-lhe a dizer que tinha novidades fantsticas e tentou dar um tom convincente s palavras. Isabelle 
conhecia-o to bem que receava que ela suspeitasse de que estava a mentir-lhe. Porm, por milagre, Isabelle acreditou quando lhe disse que j conseguira dar uns 
passos e que as pernas j respondiam aos estmulos cerebrais. Ficou atnita e no conseguiu conter as lgrimas. A felicidade que evidenciou foi tanta que Bill sentiu-se 
ainda pior Mas, apenas, podia fazer o que a conscincia lhe ditava. Isabelle j tinha Teddy para cuidar, no precisava de outro fardo. Bill sentia que no possua 
nada para lhe oferecer, independentemente do rumo que Gordon viesse a dar ao casamento deles. Recusava-se a destruir-lhe ainda mais a vida e a transform-la na sua 
ama-seca. No podia deixar que ela sentisse pena dele. O que acabara de contar a Isabelle era o primeiro passo para a deixar. Como abrir a porta da gaiola a um pssaro 
de grande beleza.
       Conversaram demoradamente. Isabelle perguntou-lhe o que sentira quando dera os primeiros passos e se fora aterrorizador ou maravilhoso, e Bill deu-lhe todos 
os pormenores sobre o assunto. Nos dias seguintes, acrescentou mais detalhes  histria, para a tornar mais convincente. Agora, de cada vez que lhe telefonava, sentia-se 
mal consigo mesmo. Detestava mentir-lhe. Via-se como um homem reduzido a metade, ou menos, que j no tinha nada para oferecer a uma mulher. Mesmo que parte dele 
funcionasse, havia outra que no, nem nunca mais funcionaria. O prognstico dos terapeutas destrura-lhe o que restava da sua vida e o que partilhava com Isabelle.
       Quando no estava a falar com ela, encontrava-se a tratar da sua vida futura em Washington. Comeava, finalmente, a fazer planos para quando deixasse o centro 
de reabilitao. Prometera conduzir a campanha do candidato a senador, em finais de junho.
       Antes disso, tinha de arranjar um apartamento e queria passar algum tempo com o candidato e saber tudo o que pudesse sobre ele. E antes de voltar ao trabalho, 
havia o casamento de Joe e Jane, em Junho. A filha ia ter meia dzia de damas de honor e planeavam realizar a cerimnia na casa de Greenwich. Haveria trezentos convidados, 
para os quais seria armada uma grande tenda no relvado principal. Andavam todos numa enorme azfama. Cynthia dedicava-se que nem uma louca a tratar dos preparativos 
com os fornecedores e as floristas e ainda arranjava tempo para ir com as filhas s provas dos vestidos.
       Joe e Jane estavam fora de si. Tinham conseguido alojamento para casal na Universidade de Nova Iorque. Jane fora a Minneapolis conhecer os sogros. Iriam passar 
a lua-de-mel em Itlia. Ao ver a alegria esfuziante em que Joe andava, Bill sentia-se cada vez pior consigo mesmo, com aquilo que estava prestes a fazer a Isabelle. 
Mas j tomara a deciso E no havia a menor hiptese de recuo. A nica coisa que faltava era dizer a Isabelle.
       Sente-se bem? perguntou-lhe Joe, uma tarde, ao voltarem para os quartos. Tem andado to calado ultimamente. Estava preocupado com o futuro sogro. Achava o 
seu comportamento estranho. Sabia que Bill sofrera uma enorme decepo quando lhe disseram que nada mais poderiam fazer relativamente  sua recuperao e preocupava-o 
o efeito que isso poderia ter tido sobre ele. Todos haviam passado pelo mesmo, ao ter de encarar a verdade.
       Estou a preparar-me para voltar ao mundo real. Tenho imenso trabalho depois do casamento explicou Bill, mas Joe reparara que o seu futuro sogro perdera praticamente 
todo o interesse pelo tratamento no ms anterior E deixara de ir s sesses teraputicas com Linda Harcourt. No tinha nada para dizer e perdera toda a esperana 
de poder usufruir de uma vida em comum com Isabelle. Concordara em ficar mais um ms no centro de reabilitao, mas a motivao era pouca ou nenhuma. A cabea j 
no se encontrava ali. Andava quase sempre de ar ausente, dando a sensao de estar mergulhado em profunda depresso.
       No final de Maio, ao sair do salo de jantar, deu de caras com Helena, que estava lavada em lgrimas. Esta quase o deitou abaixo da cadeira, prosseguindo 
de imediato o seu caminho, a toda a velocidade.
       Alto a, bater e fugir  crime gritou Bill. Helena parou e, sem voltar a cabea, levou as mos  cara e desatou a soluar. Bill moveu a cadeira para o lado 
da dela e tocou-lhe no ombro. Precisa de ajuda?
       Helena abanou a cabea e no respondeu. Ao fim de um longo instante, tirou a mo do rosto e fitou-o com ar destroado. Reparou ento que ela j no exibia 
o enorme anel de diamantes que usava h nove meses, quando se conheceram. Era fcil adivinhar o que acontecera. No quer conversar um pouco?
       A jovem assentiu com a cabea. Foram ento at ao quarto de Bill. Depois de se assoar a um leno de papel que ele lhe dera, Helena agradeceu-lhe com um sorriso 
triste.
       Desculpe. Estou destroada. Mesmo a chorar, continuava bonita como sempre. Era de uma beleza espectacular, apesar de estar confinada a uma cadeira de rodas.
       Devo adivinhar, ou quer dizer-me?
        o Srgio. Telefonou-me... as coisas tm estado esquisitas ultimamente. Est a trabalhar em Milo e passa a maior parte do tempo fora. Adimos o casamento 
h meses atrs, porque achvamos que precisvamos de mais tempo... Merda, Bill, h seis anos que namoramos... mas s ficmos noivos depois do acidente. Julgo que 
ele s o fez porque se sentiu culpado da queda que dei, quando estava a trabalhar para ele. E agora comunicou-me que j no pode ser, que seria muito difcil para 
ele, pois eu preciso de muita ateno. Diz que tem necessidade de uma pessoa que seja mais independente. Bateu com as palmas das mos nos braos da cadeira e desatou 
novamente a chorar. Bill ps-lhe um brao  volta dos ombros. A fala melhorara consideravelmente nos ltimos nove meses, mas o resto no, nem havia perspectivas 
de que alguma vez isso viesse a acontecer. Era exatamente o que receava que se passasse entre Joe e Jane, e fora tambm por essa razo que tomara a deciso de deixar 
Isabelle, antes que ela viesse a detest-lo por aquilo que j no era ou que j no podia fazer.
       Provavelmente ficou com medo. Srgio era um dos jovens fotgrafos com mais sucesso no mundo da moda e tinha apenas vinte e nove anos. E tambm podia ter a 
modelo que quisesse, e no uma que se encontrava numa cadeira de rodas. Teria sido timo que tivesse conseguido manter a promessa de casamento com ela, mas j que 
achava que seria demasiada carga para si, fora melhor ter desistido agora. Helena, se ele v que  uma situao que no pode suportar, ento fez aquilo que tinha 
a fazer. No quer que ele a abandone depois de casar. Se no  o tipo certo,  melhor saber agora. Era essa a sua teoria relativamente a Isabelle, embora soubesse 
que ela nunca o teria abandonado, se bem que achasse que era isso que ela deveria fazer. Nas ltimas semanas, pensara muito sobre o assunto e convencera-se de que 
era essa a atitude mais correta. O que Srgio fizera vinha confirmar tudo aquilo que pensava sobre o assunto. Helena, acredite, um dia ainda vai ficar satisfeita 
por isto lhe ter acontecido.
       Helena irrompeu num choro convulsivo. Nada daquilo fazia qualquer sentido para ela. Amava-o e achava que ele tambm a amava. J arranjara o vestido de noiva, 
o fotgrafo, e tratara do copo-d'gua. Mas o casamento era mais do que isso, especialmente nas circunstncias em que eles se encontravam.
       Por que razo ficaria mais satisfeita por isto ter acontecido. O que Bill dizia no fazia qualquer sentido para Helena.
       Porque no quer ser um fardo para o Srgio. Ele odi-la-ia mais cedo ou mais tarde.
       No sou nenhum fardo. No mudei com o acidente. Continuo a ser a mesma pessoa. Joe e Jane teriam aplaudido o que ela dizia, mas Bill no. Tinha exatamente 
a opinio contrria.
       Nenhum de ns  a mesma pessoa. No podemos ser. Temos limitaes. H coisas que nunca mais voltaremos a fazer.
       Como o qu? Danar, Esquiar, Patinar? Quem  que se importa com isso.
       Pelos vistos, o Srgio. Pelo menos, foi honesto. Tem de admir-lo por isso.
       No o admiro.  uma merda de homem. No fiz nada de mal para ele me deixar assim.
       Pois no. Voc s teve um azar dos diabos. Alis, todos ns tivemos.  por isso que aqui estamos.
       Est a dizer-me que ningum voltar a amar-nos porque estamos assim. Acho que isso  uma parvoce. Olhe para o Joe e para a Jane.
       Voc j tem idade suficiente para ser mais esperta do que eles. Helena tinha vinte e oito anos e queria desfrutar de uma vida normal, com marido e filhos. 
Continuo a achar que esto a cometer um erro e, um dia, pagaro por ele. Talvez um dia a Jane faa o que o Srgio fez E depois Nessa altura,  provvel que tenham 
j filhos e ficaro todos com a vida estragada.
        isso que pensa. Que ningum nos quer?  um disparate. E sabe bem que . Pelo menos, espero que saiba. Temos direito s mesmas coisas que todas as outras 
pessoas.
       Talvez no. Eu, pelo menos, no. S posso falar por mim E no tenho o direito de obrigar as outras pessoas a pensar o mesmo. No seria justo. Ambos sabiam 
que falava de Isabelle, e Helena ficou ainda mais irritada.
       Tem falado com o psiquiatra ultimamente indagou Helena, de repente, mais preocupada com Bill do que consigo prpria. Penso que devia falar com ele. A sua 
atitude  horrorosa. Acho que o Srgio  um idiota e talvez voc tenha razo, talvez tenha sido melhor acabarmos agora do que ele abandonar-me mais tarde, mas no 
acho que devesse ter a ver com isto E apontou para a cadeira de rodas. Acho que devia ter a ver com o fato de me amar ou no e com o tipo de mulher que pensa que 
vou ser. Talvez pense que no sou suficientemente boa para ele.
        a minha posio sobre o assunto disse Bill, num tom presunoso.
       Helena lanou-lhe um olhar fulminante.
       No , no, Bill Voc est confuso. Acha que perdemos o direito a sermos amados no dia em que ficmos presos a uma cadeira de rodas. No acredito nisso, nem 
nunca acreditarei. H muitas pessoas que se esto nas tintas para o fato de conseguirmos pr-nos de p ou ficar sentados. Tambm no gosto de estar nesta situao. 
Gostaria muito mais de andar a correr de um lado para o outro e de usar saltos altos. Mas no posso. Para qu chatear-me. Quer dizer que voc no amaria uma mulher 
que estivesse retida numa cadeira de rodas?  assim to mesquinho. No creio.
       Talvez no retorquiu Bill, esquivando-se  pergunta, mas reconhecendo que havia alguma verdade nas palavras da jovem. Porque se fosse Isabelle que estivesse 
presa a uma cadeira de rodas, am-la-ia na mesma, talvez mais. S quero dizer que no temos o direito de sermos um fardo para as pessoas que amamos. No podemos 
sujeit-las a tal. Se as amamos de verdade, a nossa obrigao  deix-las. Falava de si prprio.
       Helena parecia confuse.
       Por que razo no nos pem a todos em cima de um icebergue, num stio qualquer? Talvez isso resolvesse o problema. Assim, no representaramos um problema 
para ningum nem teriam de nos tratar com compaixo. Sabe uma coisa? Tenho uma admirao tremenda pela Jane e pelo Joe e por aquilo que vo fazer. Amam-se e isso 
vale tudo. O resto, se anda de cadeira de rodas ou de canadianas, no tem importncia. Para mim, no. No me interessa se o tipo com quem vou casar  surdo, mudo 
ou cego, desde que seja boa pessoa e que nos amemos. Para mim,  suficiente. Esta cadeira de rodas no significaria nada para mim se outra pessoa estivesse sentada 
nela que no eu.
       timo. Ento, case comigo gracejou Bill. Helena endireitou-se na cadeira e sorriu.
       Voc seria um chatarro terrvel! E riu-se. Continuo a achar que devia ir falar com o psiquiatra antes de se ir embora, ou ainda vai cometer uma estupidez. 
Tambm era uma das doentes de Linda Harcourt e dera-se bem com ela.
       Como o qu? Gostava de Helena. Era uma moa muito inteligente e haviam-se tornado bons amigos.
       Como deixar a pessoa que ama, porque acha que  um fardo para essa pessoa. Porque no a deixa decidir sozinha, em vez de decidir por ela? No tem o direito 
de controlar o que ela pensa ou de tomar decises por ela.
       Quando se ama uma pessoa, devemos proteg-la dela prpria.
       Voc no tem esse direito. Helena trabalhara sempre com afinco e tivera de enfrentar uma srie de situaes. Bill passara o tempo todo a levantar pesos e 
evitava sempre ir ao psiquiatra. As pessoas tm o direito de tomar as suas prprias opes. No lho podemos retirar, do mesmo modo que elas no o podem retirar a 
ns.  uma questo de respeito.
       Talvez tenha razo retorquiu Bill, pensativo. No tenho as respostas. S as perguntas. Alm disso, sou muito mais velho do que voc. Com a sua idade, talvez 
fosse muito mais corajoso. Talvez tenha razo, talvez o Srgio seja uma merda de homem. Mas, se for,  melhor ficar a saber agora.
       Concordo, mas no deixa de ser doloroso.
       Mas a vida tambm o . H muitas coisas nela que nos magoam. Algumas pessoas nunca deixam de nos desapontar. E o melhor que temos a fazer  cortarmos logo 
o mal pela raiz. E o mais cedo possvel. Pensava em Cynthia, e o fim da relao no tivera nada a ver com a cadeira de rodas.
       Acho que o Srgio  uma dessas pessoas.
       Talvez da prxima vez tenha um anel de menor qualidade e um tipo melhor.
       Helena fez um sinal de concordncia com a cabea. Conversaram mais um pouco. A jovem voltou depois para o seu quarto, no sem antes aconselhar Bill a consultar 
o psiquiatra antes de abandonar o centro. Quando Isabelle telefonou ao fim da noite, Bill parecia algo perturbado. Algumas das coisas que Helena dissera haviam-no 
deixado confuso. Dera tanta nfase ao fato de as suas limitaes fsicas no fazerem qualquer diferena s pessoas que os amavam, que quase se perguntava se a jovem 
no teria razo.
       Ests com voz cansada. Andaste muito hoje? Isabelle acreditara que Bill j conseguia andar de novo. Este olhou para a cadeira de rodas, embaraado. Era a 
mentira que o impossibilitava de voltar a v-la. Era como se tivesse envenenado a comida, ficando impedido de se aproximar dela. Mas fora o seu plano. E no fazia 
tenes de recuar, independentemente daquilo que Helena lhe dissesse. A nica questo em aberto era a de quando  que iria comunicar a sua deciso a Isabelle.
       Sim. Tenho muitas coisas para tratar antes de sair.
       Fizeram um grande trabalho observou Isabelle, num tom mais doce do que nunca. Bill ficou de corao destroado. Por mais disparatada que a sua atitude pudesse 
ser, a nica coisa que queria era libert-la de um fardo que, estava certo, arruinaria a sua vida. E sabia que Helena lhe teria dito que Isabelle tinha o direito 
de fazer a sua prpria escolha e que ele estava a retirar-lhe essa possibilidade. Mas tambm sabia que ela tinha demasiado bom corao para o deixar. Durante dias, 
Isabelle notara-lhe algo de estranho na voz, mas no conseguia dizer o que era. Achava-o diferente, distante, infeliz. A nica explicao plausvel seria o nervosismo 
de deixar o ambiente protegido do centro para iniciar uma nova vida. Que tal esto a correr os preparativos para o casamento? perguntou, esperando distra-lo daquilo 
que o aborrecia.
       A Cynthia est a dar em maluca. Eu tento manter-me  parte. S tenho de pagar as facturas.  a parte mais fcil. A parte mais difcil era aquilo que planeava 
fazer-lhe. Mas essa, ela ainda no conhecia. Como est o Teddy perguntou, mudando rapidamente de assunto. Isabelle reparou que h vrios dias que ele fazia isso, 
saltando de um assunto para o outro, como se sentisse desconforto em discutir qualquer coisa em profundidade. No era normal nele. Mas ela conhecia-o melhor do que 
ele pensava, melhor ainda do que ele queria.
       Est timo respondeu Isabelle, o que o tranquilizou Bill nunca poderia acabar com ela se Teddy no se encontrasse em boas condies. Nunca esteve to bem 
acrescentou, selando o seu destino.
       timo. Bill comunicou-lhe ento que ia a Washington procurar um apartamento na prxima semana.
       Podias vir a Paris depois do casamento, se no estiveres muito cansado. S uns dias, antes de comeares a trabalhar. Isabelle sabia que estava a pedir-lhe 
muito, mas receava que no tivesse tempo depois do casamento.
       Terei de ver. Devo entrar em campanha nessa semana. Outra mentira. A campanha no comeava antes dos finais de Junho. Teria tempo de dar um salto a Paris, 
mas no podia dizer-lhe que no conseguia andar. 
        um caso a ver
       Quando desligaram, Isabelle ficou preocupada. Tinha a sensao de que Bill a evitava e no sabia porqu. Comeara a agir assim de um dia para o outro. O que 
ela tambm no sabia  que tudo tivera incio no dia em que os terapeutas haviam confirmado que ele nunca mais voltaria a andar. Esse fora o ponto de viragem para 
Bill. Prometera sempre a si prprio que, quando isso acontecesse, deixaria de lhe telefonar e nunca mais voltaria a v-la. Mas ainda no tinha coragem suficiente 
para cumprir a promessa. Isabelle receava ter dito algo que o tivesse ofendido. Porm, no dava mostras de estar zangado com ela, apenas distante. Haviam-se passado 
nove meses desde a ltima vez que o vira e no fazia a menor idia de quando  que Bill iria visit-la. E no havia qualquer forma de ir ter com ele a Nova Iorque 
ou a Washington. No podia deixar Teddy tanto tempo sozinho, nem aventurar-se para to longe.
       Quando o dia do casamento chegou, Isabelle estava em pnico. Bill no lhe telefonava h algum tempo. Quando lhe perguntou o motivo, desculpou-se com o fato 
de andar muito ocupado. Arranjara um apartamento em Washington e encontrara-se com o jovem senador para falarem da campanha. Pareceu excitado quando abordou o assunto. 
Nos dois dias que se seguiram ao casamento, no fez qualquer telefonema a Isabelle. E esta, por uma qualquer razo recndita ou instintiva, no se atreveu a ligar-lhe. 
Bill comeava a afastar-se progressivamente dela.
       Fora uma cerimnia encantadora e toda a gente ficara de lgrimas nos olhos quando Joe e Jane fizeram o juramento de fidelidade. Com ele na cadeira de rodas 
e ela de p, ao lado dele, a segurar-lhe a mo, o quadro no podia ser mais comovente. E ningum chorou mais do que Bill, confinado  sua cadeira de rodas, ao lado 
de Cynthia, na ponta da primeira fila de convidados.
       Sentes-te bem? perguntou Cynthia. Achava-o extremamente calado. Ests com um ar tenso.
       Estou a pensar no trabalho. Vou deixar o centro e partir para Washington dentro de poucos dias. Sabes como sou. Do ponto de vista fsico, estava com um ar 
estupendo, mas Cynthia desconfiava que havia algo a perturb-lo.
       Pareces aborrecido. Cynthia acabou por concluir que talvez se devesse  emoo de ver a filha casar-se.
       Olivia veio sentar-se ao p do pai durante algum tempo. E quando Jane devia danar com ele, f-lo com o av, enquanto Bill e Joe ficaram a ver, de sorriso 
nos lbios. O fato no pareceu aborrecer Joe, mas magoou Bill. E bastante. Foi uma cerimnia maravilhosa, um banquete magnfico, e toda a gente se divertiu. Nessa 
noite, na viagem de regresso ao centro de reabilitao, no conseguia deixar de pensar em Isabelle.
       Durante dois dias no saiu do quarto e nem sequer foi  fisioterapia. Ento, ganhou coragem e ligou a Isabelle, que estava preocupada com ele e j lhe telefonara 
vrias vezes nos ltimos dois dias. Bill no atendera. Sabia que era ela. Preferia ficar deitado na cama, a pensar nela, a desejar que a noite o poupasse quele 
sofrimento.
       Onde  que tens andado? indagou Isabelle, com algum pnico na voz. Pensei que tambm tivesses ido em lua-de-mel gracejou.
       Bill sabia que a preocupao que a acometia no era nada em comparao com a dor que iria sentir. Depois de cinco anos de conversas quase dirias, era inconcebvel 
j no a ter na sua vida. Mas estava certo de que esta seria a ltima prova do seu amor por ela.
       Que tal foi o casamento? Bill soltou um suspiro.
       Foi bonito. Toda a gente chorou na cerimnia e depois divertiu-se  grande.
       Conta-me como foi. Teddy ainda estava a dormir. Ultimamente dormia at tarde, o que lhe permitia ter muito tempo livre.
       Bill contou-lhe ento todas as peripcias do casamento. Depois, soltou novo suspiro. Tinha a sensao de ir mergulhar da prancha mais alta da piscina.
       Tenho uma coisa para te dizer.
       Isabelle sentiu o corao parar. Sabia, ainda antes de ele articular qualquer palavra, que o que iria ouvir no seria agradvel
       No estou a gostar desse tom de voz. Conteve a respirao, preparando-se para o choque.
       Eu e a Cynthia renovmos os nossos votos.
       Do outro lado da linha instalou-se um longo silncio. Isabelle tentava perceber o que acabara de ouvir.
       O que quer isso dizer? Tentava manter a calma, mas s lhe apetecia gritar. Como sempre, mostrou-se delicada e esperou que Bill se explicasse.
       Renovmos o compromisso matrimonial. Era mais uma mentira que Bill lhe contava. A primeira ocorrera ao dizer-lhe que j conseguia andar. As coisas alteraram-se 
desde que estou no centro de reabilitao. Pensmos que fosse importante para as midas. Uma estava casada, a outra tinha vinte e dois anos. Que importncia poderia 
ter para duas mulheres adultas o fato de os pais terem renovado o compromisso matrimonial? Mas no questionou o bvio. O que contava era o fato de o terem feito.
       Quando  que tomaste a deciso? Sentia todo o corpo a tremer, mas esforava-se por se manter calma.
       Nas ltimas semanas proferiu Bill, num tom algo arrogante, tentando no pensar naquilo que estava a fazer.
       Eu sabia que havia qualquer coisa de estranho. J o conhecia bastante bem, o que no era surpresa ao fim de cinco anos. Era por isso que no fazias planos 
de vir a Paris?
       Acho que no devamos continuar a falar.
       As palavras atingiram-na com uma violncia desmesurada. Isabelle permaneceu alguns instantes sem conseguir articular qualquer palavra e ainda pensou que ia 
desmaiar. Ficou sem respirao e, pela primeira vez desde o acidente, sentia o corao bater freneticamente. Era como se tivesse sido atingida por uma enorme bola 
de demolio. Mas sabia que tinha de dizer qualquer coisa. No esperava aquilo, mas no podia critic-lo. Ela tambm se recusara a deixar Gordon, por causa de Teddy. 
Tinha muito pouca coisa para oferecer a Bill,  exceo dos telefonemas. Apesar da mgoa que sentia, achava que Bill tomara a melhor atitude. Amava-o o suficiente 
para lhe desejar a melhor sorte do mundo.
       No sei o que dizer. Sinto-me feliz por ti. Bill recuperara no s o movimento das pernas como tambm o casamento. Ao ouvi-la chorar, s teve vontade de morrer. 
Mas achava que era a melhor coisa para ela. S o seu grande amor por Isabelle o levava a tomar aquela deciso horrvel. Era o ltimo sacrifcio que fazia por ela.
       Quero que cuides de ti. No deixes o Gordon pr-te as mos em cima. Poupa as munies. Se ele te torturar, joga o teu trunfo. Nunca mais ir incomodar-te. 
Enquanto o marido da Louise for vivo, querer continuar casado contigo. Pensara muito no assunto e era a nica coisa que o preocupava agora. No queria que Gordon 
a atormentasse, mas nunca mais saberia se isso iria acontecer. No a poderia proteger do marido, a no ser com amor, o que era manifestamente pouco.
       Folgo em saber que te preocupas com isso retorquiu Isabelle, parecendo algo chocada e confusa. No compreendo... No me contaste em que  que as coisas entre 
ti e a Cynthia melhoraram... Como e quando  que isso aconteceu?
       No sei. Talvez quando o Joe e a Jane resolveram casar-se. Decidimos ento renovar os votos de casamento. A verdade era que o processo de divrcio ficara 
concludo em Maro, depois de Jane e Joe lhes dizerem que iam casar-se. Cynthia parecia ter um caso a srio com o homem com quem andava h nove meses, e Bill estava 
feliz por ela.
       Quero que sejas feliz, Bill, signifique isso o que significar para ti. E quero que saibas, se  que vale a pena dizer, que te amo do fundo do corao.
       Eu sei. As lgrimas rolavam-lhe pelas faces, mas no podia deixar que ela as pressentisse no seu tom de voz. Tambm te amo, Isabelle. Bill teve vontade de 
lhe dizer que sempre a amaria, mas no podia faz-lo. Cuida de ti. Se precisares de alguma coisa, liga-me. Estarei sempre ao teu dispor.
       No creio que a Cynthia gostasse disso.
       Trinta anos  muito tempo.  difcil fugir disso. Mas fugira. Por razes semelhantes. Mas era Isabelle a dona do seu corao e sempre haveria de ser. Mas 
s ele sabia.
       Vou sentir umas saudades loucas disse Isabelle, comeando a soluar. Mas quero que sejas feliz... feliz...  bom para ti prprio. Mereces tudo.
       Bill considerava que o que merecia era arder no inferno, mas continuava a acreditar que era justo o que estava a fazer e isso compensava a enorme mgoa que 
sentia. Ela, um dia, dar-lhe-ia razo.
       Adeus disse Bill, desligando.
       Quando pousou o auscultador, Isabelle irrompeu num choro lancinante. Dava a sensao de que morrera algum. E, at certo ponto, no fugia muito  verdade.
       O que se passa, mam? Teddy entrou a correr no quarto, com olhar assustado. Nunca a ouvira chorar daquela maneira. Estava sem flego quando chegou junto da 
me.
       Por instantes, Isabelle no conseguiu articular qualquer palavra, mas sabia que tinha de se recompor diante do filho.
       Um velho amigo meu morreu. No sabia que mais havia de lhe dizer. At certo ponto, fora isso que acontecera. Bill acabara de morrer. No conseguia imaginar 
viver sem ele, nem como seria a vida sem os seus telefonemas. Era como uma sentena de morte numa vida que j possua to pouco. A nica coisa que tinha era os filhos. 
Ento, levantou-se, vestiu o casaco e deu um abrao a Teddy. Estou tima. Apenas triste. Vou dar um passeio. Levou-o at ao quarto dele e deitou-o na cama. Saiu 
e passeou durante horas. Estava quase na altura do almoo quando voltou. Tinha um ar cadavrico. E at a enfermeira de Teddy se assustou ao v-la.
       Sente-se bem, Mistress Forrester? H vrios anos que se conheciam e nunca vira Isabelle com um ar to abatido.
       Isabelle assentiu com a cabea, tentando esboar um sorriso. Os olhos eram dois poos cheios de mgoa.
       Estou tima afirmou mecanicamente. No havia mais nada que pudesse dizer. Nessa tarde, quando lia histrias a Teddy, havia rios de lgrimas a correrem-lhe 
pelas faces. Teddy tentava confort-la, dando-lhe palmadinhas na mo. No sabia o que lhe dizer. Nessa noite, quando o abraou, depois de o meter na cama, Isabelle 
no conseguiu conter um soluo.
       Sinto muito, mam disse Teddy, num tom carinhoso, abraando-a com fora.
       Tambm eu, querido. E esboou um sorriso triste.
       Isabelle estava destroada, mais do que alguma vez se sentira em toda a sua vida. Bill levara-lhe a esperana, o riso, o amor e o conforto dos dias tristes. 
No tinha ningum para quem se virar agora e sabia que nunca mais teria. Morreria prisioneira de Gordon. Mas isso pouco lhe importava. Viveria para servir Teddy 
e Sophie, at morrer.
       Entretanto, no seu quarto, s escuras, Bill mantinha-se imvel em cima da cama. No se mexera desde que desligara o telefone. No pregara olho durante toda 
a noite. Chorara sem parar. A nica consolao que tinha era saber e acreditar que fora a melhor opo que tomara.

CAPTULO DEZESSEIS
       Para Isabelle, depois de Bill terminar a relao, os dias eram interminveis. No havia nenhuma parte do dia que lhe desse algum alvio. Cuidava de Teddy 
como sempre fizera e agora era ela que estava com ar doente. No comia, no dormia, pouco falava, embora fizesse um esforo quando estava com o filho. Tinha a sensao 
de ter cado num abismo de trevas. Sentia saudades de ouvir a voz de Bill, mas nem sequer sabia onde  que ele se encontrava. S sabia que fora para Washington, 
e gostava de saber se Cynthia tambm o acompanhara. Mas para onde quer que ele fosse, j no lhe pertencia, nem nunca pertencera. Fora uma ddiva temporria na sua 
vida e estava grata por isso. Mas a mgoa de o perder era to forte que no sabia se sobreviveria. Perder Bill custou-lhe mais do que sobreviver ao acidente. O impato 
desta vez atingira-lhe a alma.
       At Gordon reparou no seu ar extremamente abatido, mas relacionava-o com o desastre. Quando Sophie a viu, ficou abismada. Parecia estar a definhar.
       Ests doente? perguntou Gordon, um dia, ao pequeno-almoo. Dormira naquela noite em casa. Ainda no lhe passara pela cabea que Isabelle sabia que ele ficava 
fora com frequncia. Ela perdera tanto peso que as roupas lhe estavam mais largas do que alguma vez haviam estado depois do acidente.
       No tenho andado bem. So as enxaquecas disse Isabelle, para explicar o seu ar cadavrico. Tambm tinha conscincia do seu estado, mas no conseguia comer 
nem dormer.
       Deve ser uma sequela das leses que tiveste afirmou Gordon, com ar ligeiramente preocupado.  melhor chamares o mdico. Era o primeiro sinal de interesse 
que mostrava h vrios meses. Vou viajar na prxima semana e acho que ele devia ver-te antes de eu partir.
       Isabelle perguntou-se se ele iria com Louise. Estava convencida de que Gordon passara todo o tempo com ela, no vero anterior, durante o perodo do seu internamento. 
A sua ausncia devia ter sido uma bno dos cus para ele. E o fato de no ter voltado ao hospital a visit-la no tinha nada a ver com ela, nem com Bill, nem com 
a raiva relativamente ao seu relacionamento com este, mas com o seu envolvimento com Louise. Mas j no ligava importncia a isso. Esse era um fato da vida deles 
que j durava h vrios anos.
       Onde vais? perguntou Isabelle, tentando mostrar-se interessada. Mas no estava. Alis, perdera o interesse em tudo. A nica coisa em que se empenhava era 
a cuidar de Teddy. E estava satisfeita por Sophie vir passar alguns dias a casa.
       Visitar clientes no Sul de Frana. Isabelle estava certa que o "cliente" era Louise, mas, como  bvio, no lhe perguntou. Quero que chames o mdico hoje 
lembrou-a Gordon, quando saiu, mas Isabelle no chamou. Sabia o que se passava consigo. Tinha o corao destroado, mas no em consequncia do acidente, que fora 
h exatamente um ano. Custava-lhe a acreditar que Bill estivesse fora da sua vida. Chegou a desejar ter morrido no desastre. Teria sido muito mais fcil do que aquilo 
que estava a sofrer naquele momento. E duvidava que a mgoa desaparecesse alguma vez. Cada dia que passava era pior do que o anterior. Bill levara tudo o que a vida 
tinha de bom e no lhe deixara nada a no ser as recordaes e o desgosto que a consumia. E o pior de tudo  que nem sequer estava zangada com ele. Continuava a 
am-lo e sabia que sempre o amaria. Era como um animal que perdera o seu companheiro e que procurava um lugar calmo para morrer.
       Mam, o que se passa? perguntou Sophie, preocupada, quando se encontraram,  porta do quarto de Teddy, nessa tarde.
       Nada, querida. Estou cansada. Isabelle tinha muito mau aspecto e no havia ningum que no notasse. Sophie e Marthe, a enfermeira de Teddy, haviam falado 
sobre o assunto essa tarde. Teddy disse que a me ficara assim desde que recebera um telefonema a comunicar-lhe que um amigo morrera. Mas Sophie e Marthe achavam 
que as causas eram mais profundas e receavam no s pela sua sade, como tambm pela sua vida.
       Nessa noite, quando Gordon indagou pelo seu estado de sade, Isabelle disse-lhe que o mdico a achara tima. Nem sequer se dera ao trabalho de lhe ligar, 
mas sabia que Gordon nunca iria confirmar isso.
       Gordon desconfiava que devia haver um enorme desgosto de amor por trs. Uma campainha de alarme na sua cabea levou-o a pensar em Bill, mas rejeitou a idia 
de imediato. Isabelle no se atreveria a comear tudo de novo, depois dos avisos que lhe fizera. Mas no sabia da fora do seu amor por Bill.
       No dia seguinte, Gordon partiu para o Sul de Frana, com ar despreocupado. Deixou o nmero de telefone do Hotel du Cap. Tencionava l ficar trs semanas. 
Isabelle no fez qualquer pergunta sobre o fato. Era um alvio t-lo longe de si. J no teria de arranjar desculpas para o seu ar doentio. Era muito mais fcil 
estar s.
       Quando regressou, trs semanas depois, Gordon ficou chocado ao v-la ainda pior. Ele tinha um ar saudvel e bronzeado e Isabelle dava a sensao de sofrer 
de uma doena em estado terminal. Sophie no conseguiu conter as lgrimas quando falou do assunto ao pai. Mas este disse-lhe que o mdico vira a me semanas antes 
e no lhe encontrara nada. Gordon no queria saber mais do que isso, nem encarar a possibilidade de poder ter outra pessoa invlida em casa.
       Em Agosto, Gordon partiu numa longa viagem de negcios a Itlia e Espanha. Sophie fora passar algumas semanas  Bretanha. Isabelle ficou contente por ficar 
sozinha com Teddy. Lia-lhe livros e fazia um enorme esforo para no o preocupar, mas no conseguia imaginar-se de novo a mulher de outrora. Fora mais fcil todo 
o processo de recuperao depois do acidente do que perder Bill. Acordava todas as manhs a pensar nele e a desejar a morte.
       E foi quando Gordon e Sophie se encontravam fora que Teddy contraiu uma forte gripe de Vero. Comeou por aquilo que, ao princpio, parecia uma dor de cabea, 
depois apanhou-lhe o peito. A febre subiu e o mdico p-lo a antibiticos para evitar que o seu estado de sade piorasse. Mas a febre no parava de subir e nada 
do que Isabelle e a enfermeira lhe davam conseguia faz-la baixar. Ao terceiro dia, mal conseguia respirar. At o mdico ficou preocupado com o fato de no estar 
a responder  medicao. Dois dias depois, contrara uma pneumonia. Estava a ir de mal a pior. Trs dias depois, o mdico internou-o no hospital e Isabelle ficou 
l com ele. Ainda pensou telefonar a Gordon, mas preferiu no o incomodar. Nunca se preocupara com os problemas de Teddy. Essas preocupaes sempre haviam recado 
sobre ela.
       Vou morrer? perguntou Teddy, de olhos esbugalhados, enquanto Isabelle lhe fazia festas na cabea e punha compressas de gua fria na testa e nos pulsos. As 
enfermeiras estavam-lhe gratas pela ajuda.
       Claro que no. Mas tens de te pr bom. Esse bichinho  estpido e j ests doente h tempo suficiente. Mas Teddy tinha quarenta graus de febre nessa noite. 
No dia seguinte, Isabelle teve mesmo de telefonar a Gordon.
       No sei o que . Deve ser um vrus qualquer. Mas o Teddy est muito doente. A voz denotava mais cansao que nunca.
       Est sempre doente retorquiu Gordon, algo aborrecido. Encontrava-se na Toscana e a Isabelle custava-lhe imaginar que tipo de negcios  que ele tinha ali. 
Eram, indubitavelmente, outras frias com Louise, mas j no queria saber. Nada posso fazer.
       S pensei que quererias saber acrescentou Isabelle, arrependida de lhe ter telefonado. Fizera-o mais por uma questo de cortesia.
       Telefona-me se ele piorar.
       "E depois o que farias?", teve ela vontade de perguntar. "E se ele morrer, devo telefonar-te? No ser mais incmodo para ti?", mas no disse nada.
       Aguardou mais dois dias e depois telefonou a Sophie. Teddy delirava com febre e Isabelle, em pnico, tentava falar com o filho. Estavam a ministrar-lhe antibiticos 
por via intravenosa, mas os pulmes enfraqueciam de dia para dia e o mdico estava preocupado com o corao. Isabelle receava que este fosse o momento que mais temia. 
Ao contrrio do pai, Sophie, que se encontrava na Bretanha, veio imediatamente para Paris nessa noite. As duas mulheres sentaram-se ao p dele e ali ficaram longas 
horas, sem dormir, cada uma com uma mo de Teddy nas suas, enquanto este dormitava. Por vezes, delirava, mas muito pouco do que dizia fazia sentido.
       Finalmente, na manh seguinte, quando acordou, Teddy exibia um ar mais tranquilo. No entanto, continuava a arder em febre e a dizer que tinha frio, apesar 
de estar um calor abrasador.
       O mdico andava de um lado para o outro e as enfermeiras no o largavam um segundo. Ao fim da noite, o mdico disse a Isabelle que as coisas estavam a complicar-se.
       O que quer dizer?
       Estou preocupado com o corao. No aguenta tanta presso.  um rapaz extremamente debilitado.
       Isso j Isabelle sabia e sentia alguma frustrao por, aparentemente, no estarem a conseguir quaisquer resultados positivos. Para seu grande horror, Teddy 
passou outra semana a debater-se entre a vida e a morte. Tanto ela como a filha estavam esgotadas e quase com to mau aspecto como Teddy. Sentia-se escandalizada 
com o fato de Gordon no ter voltado a ligar para se inteirar do estado do filho, desde o ltimo telefonema que lhe fizera duas semanas antes. Ele devia supor que 
o filho melhorara. E quando a terceira semana comeou, Teddy entrou num estado de perda de conscincia. Teve vrias apoplexias e a pneumonia piorara. Isabelle no 
sabia como  que o filho conseguira resistir tanto tempo. Nada podia fazer a no ser sentar-se no corredor a chorar, voltando depois para o quarto para se sentar 
ao lado dele. Nessa noite, telefonou a Gordon.
       Tal como desconfiara, o marido presumira que Teddy melhorara e ficou perplexo quando soube que o filho estava extremamente doente.
       No sabia se querias vir para casa.
       Achas que deva ir? Gordon parecia pouco entusiasmado com a idia, se bem que se notasse alguma preocupao na voz. A situao era muito mais grave do que 
imaginara.
        contigo. Est muito doente. Teddy no recuperara a conscincia desde a noite anterior e o mdico receava que no viesse a conseguir. Pediu ento para ela 
lhe telefonar no dia seguinte.
       Isabelle e Sophie passaram toda a noite junto de Teddy. s cinco da manh, este abriu os olhos e sorriu-lhes. Ambas choraram de alvio, pensando tratar-se 
de um bom sinal. Mas a enfermeira disse que a febre subira durante a noite. Estava com quarenta e dois graus. Desta vez, quando veio observ-lo, o mdico abanou 
a cabea. O corao do rapaz comeava a falhar. Era o momento que Isabelle receara durante toda a vida de Teddy. Com ar destroado, mas estranhamente calma, esperava 
que o destino ditasse a sua sentena.
       Teddy, agarrado  mo da me, falava com uma voz ntida. Olhou para Sophie e esboou um sorriso anglico. Isabelle beijou-o na face e no conseguiu conter 
as lgrimas.
       Adoro-te, pequerrucho. Teddy fora sempre extremamente carinhoso e paciente com a me. Tivera uma vida inteira de dor e nunca se queixara. E agora tambm no 
o fazia. Limitava-se a dar a mo  me e a vaguear entre os momentos de sono e viglia. Isabelle sentia um desejo incontrolvel de o tirar da beira do abismo onde 
a sua alma pairava. No conseguia suportar a idia de o perder. Mas no havia nada que pudesse fazer para parar a doena terrvel que o ia consumindo.
       Teddy olhou para a me e sorriu.
       Estou feliz, mam. Depois, virando-se para a irm: Adoro-te, Sophie. Ento, soltando um muito ligeiro suspiro, deixou o mundo dos vivos. A libertao da alma 
do corpo que o atormentara toda a vida foi tranquila e suave. Isabelle tomou-o nos braos e chorou convulsivamente. Sophie agarrou-se  me a soluar. As duas mulheres 
abraaram-no e beijaram-no pela ltima vez. O dia estava quente e cheio de sol. Isabelle sentiu-se perdida quando chegou  rua. No conseguia acreditar que o filho 
os abandonara. Era inimaginvel, impensvel, intolervel. Nunca mais se esqueceria da sua ltima expresso, to doce. E ali ficou, a soluar, agarrada  filha.
       Apanharam um txi para casa. Ao ver o quarto do filho, Isabelle voltou a chorar convulsivamente. Teddy, tal como o Principezinho de Saint-Exupry, partira 
para o seu mundo, um mundo que nunca deveria ter deixado.
       Isabelle preparou uma chvena de ch para Sophie, depois, com uma calma impressionante, telefonou a Gordon. Ficou perplexo quando ouviu a notcia, limitando-se 
a dizer que voltaria para casa nessa noite. No chorou nem lamentou o sucedido. No disse praticamente mais nada e desligou. Isabelle ainda pensou em ligar a Bill, 
mas achou que no valia a pena, pois ele j no estaria a aguardar qualquer telefonema seu. Alm disso, no conhecia Teddy. Sentia que j no tinha o direito de 
entrar em contato com ele nem de se intrometer na sua vida.
       Nessa tarde, foram  casa funerria. Escolheram um caixo branco simples e Isabelle encomendou lrios e rosas brancas. Sabia que mais ningum iria ao funeral 
a no ser os pais, a irm e as enfermeiras. Teddy nunca fora  escola, no tinha amigos e Isabelle levara uma vida de recluso durante anos. Aquelas eram as nicas 
pessoas que o conheciam e amavam. No conseguia imaginar o que iria fazer sem o filho. Este fora no s a sua vida e o seu corao, mas tambm a sua ocupao durante 
anos. Gordon chegou de Roma ao fim da noite, com um ar sombrio e de desnimo.
       No dia seguinte, Gordon foi  casa funerria com Isabelle e Sophie. Isabelle pedira para que o caixo estivesse fechado. No conseguia suportar ver o filho 
assim, embora este mantivesse a mesma beleza que exibira em vida. Gordon dera a conhecer que no queria ver o filho, o que Isabelle compreendia. Nunca fora capaz 
de tolerar a doena de Teddy e, embora fosse seu pai, mal o conhecia. Evitara conhec-lo durante toda a vida e agora era tarde de mais.
       Nessa noite, jantaram os trs na sala de jantar. Enquanto Sophie e Gordon conversavam, Isabelle no proferiu qualquer palavra. Ningum falou de Teddy. Era 
um tema demasiado doloroso. Depois de jantar, Isabelle foi at ao quarto de Teddy e deitou-se em cima da cama, a ficando a pensar na vida de sofrimento que o filho 
tivera. Teddy era como uma borboleta que agora lhes fugia.
       A cerimnia fnebre realizou-se na capela da igreja que frequentavam, no dia seguinte O elogio fnebre foi feito por um padre que no conhecia Teddy e que 
nem sequer sabia pronunciar o seu nome. Mas foi o percurso at ao cemitrio que quase destroou Isabelle. No conseguia suportar a idia de o deixar ali, e s lhe 
apetecia atirar-se para cima da urna. Antes de abandonar o cemitrio, tocou uma centena de vezes no caixo e arrancou uma rosa branca para pr entre as pginas de 
um livro. Tinha a sensao de estar a afogar-se, ou a sair de novo estado de coma. Mal conseguia respirar ou mexer-se. Todos os instantes eram insuportavelmente 
dolorosos. Ao fim dessa tarde, quando entrou no quarto da mulher, Gordon franziu o sobrolho ao olhar para ela, deitada na cama, com ar cadavrico.
       No sei o que se passa contigo disse, com um ar mais aborrecido do que preocupado. Comeava a detestar a presena de Isabelle. Esta andava sempre com ar adoentado. 
Acho que tu  que devias ter sido enterrada em vez do Teddy. O que se passa contigo?
       Acabei de perder o meu filho. Isabelle nem queria acreditar no que acabara de ouvir.
       Tambm eu. Mas ests assim h dois meses.
       Estou? Sinto muito. E virou-lhe a cara. No queria v-lo, s desejava que ele sasse do quarto.
        penoso para a Sophie ver-te assim.
       Penoso  eu ter acabado de perder o meu filho.
       H anos que se esperava este desfecho, embora eu saiba que seja um choque, especialmente depois daquilo por que o teu organismo passou o ano passado. Gordon 
comeava a acreditar que ela nunca se restabelecera completamente. Isabelle estava chocada com a frieza e a completa falta de sentimentos que o marido demonstrava. 
Ningum teria acreditado que Gordon acabara de perder o filho. Parecia mais uma visita do que um membro da famlia, nunca o pai da criana. Olhou para Isabelle, 
com ar de curiosidade, e fez-lhe uma pergunta estranha: O que vais fazer agora?
       Relativamente a qu? Ao quarto dele?  vida dela? s roupas dele? Isabelle no conseguia sequer pensar no assunto.
       Cuidar do Teddy foi a nica coisa que fizeste nos ltimos quinze anos. No podes enterrar-te com ele.
       Porque no? Mas Isabelle no chegou a articular as palavras. Com alguma sorte, pensou, iria morrer. Depois de perder Teddy e Bill, tinha muito pouco que a 
agarrasse  vida,  exceo de Sophie. Mas Gordon deixou-a perplexa com o que disse a seguir
       Acho que devias ir com a Sophie para Grenoble, quando ela voltar para as aulas, dentro de duas semanas. Penso que seria uma excelente idia. Precisas de sair 
desta casa. Far-te- bem ficares com ela. O que Isabelle percebeu de imediato foi que Gordon estava a p-la fora de casa para ficar mais  vontade com Louise. Era 
um plano bem urdido e facilmente explicado com a morte de Teddy.
       Ests a falar a srio? Isabelle quase soltou uma gargalhada ao olhar para a expresso que o marido exibia. Extremamente solcito, mas, ao mesmo tempo, ansioso 
para que ela o deixasse. Devia estar aterrorizado com a hiptese de Isabelle tentar reclamar o seu lugar de esposa, agora que j no tinha Teddy para cuidar. Que 
raio esperas que eu l faa? Estou certa de que a Sophie ficaria horrorizada, e com razo, por me ter l a servir de estorvo. Era a ltima coisa que queria fazer.
       Bem, no podes andar a vaguear aqui pela casa, sem nada para fazer declarou Gordon, com ar aborrecido.
        isso que pensas que fao? Estava farta da vida de fingimento que levavam h vrios anos e no se sentia disposta a ser despachada de casa sob o pretexto 
de que devia estar com Sophie. Sabia muito bem quais eram os intentos do marido.
       No fao a mnima idia do que fazes disse Gordon, num tom desagradvel, a no ser cuidar daquela criana.
       "Aquela criana" era teu filho e agora est morto. Tem um pouco de respeito Por ele E por mim. Era a primeira vez que se atrevia a falar-lhe naquele tom. 
Gordon no gostou da observao.
       Isabelle, no me digas como  que hei-de agir. Se bem te lembras, tolerei um pssimo comportamento da tua parte o ano passado, aquando do acidente E no vou 
pactuar com mais idiotices
       A srio? perguntou Isabelle, com os olhos perigosamente cintilantes. Gordon ultrapassara os limites do tolervel e, de imediato, disparou: E que pssimo comportamento 
foi esse?
       Sabes muito bem ao que me refiro. Suportei o teu caso com o Bill Robinson. Tiveste sorte por no nos termos divorciado na altura. As armas comeavam a ser 
desembainhadas. Mas, desta vez, depois da perda que sofrera, Isabelle j no mostrava qualquer medo dele. Com a morte de Teddy, Gordon perdera o controlo sobre ela. 
Talvez para sempre.
       E tens muita sorte em eu ter aguentado a forma como me trataste nos ltimos vinte anos, j para no falar no desprezo a que votaste o teu filho nos ltimos 
quinze. Era um combate mortal. No imaginara ter aquela conversa com Gordon to cedo, mas estava pronta para a luta. Lembrou-se ento de que Bill lhe dissera para 
usar as munies s quando o marido a atacasse. O que, finalmente, acontecera. No dia do funeral de Teddy. Era uma crueldade e um desrespeito, mas no era surpresa 
para ela.
       Gordon fitou-a durante alguns instantes, como se quisesse esbofete-la, mas no se atreveu a tanto.
       No estou para tolerar isto. Se no te portas como deve ser, ainda te ponho no olho da rua, s com a roupa que tens vestida.
       J no me metes medo, Gordon. No tinha nada a perder. J no precisava de cuidar de Teddy, nem receava que ele a expulsasse de casa. Seria uma bno se 
ele o fizesse. J no me metes medo.
       E para onde  que vais se te puser no olho da rua? indagou Gordon, colrico, cuspindo as palavras.
       Isabelle, com ar sereno, fitou-o por instantes.
       Talvez tu e a condessa de Ligne tenham a gentileza de me deixar ficar no vosso apartamento na Rue du Bac. Presumo que, se me "puseres no olho da rua", ela 
vai ficar aqui em casa proferiu, num tom calmo, e Gordon no conseguiu conter um urro. Parecia um rugido de um leo ferido. Estava irado, e todo o seu corpo tremia.
       No sabes do que ests a falar! berrou, perplexo com aquilo que Isabelle acabara de dizer. Fora um golpe que no esperava e, por instantes, ficou algo combalido.
       Talvez no, mas, aparentemente, meia Paris sabe, h dez anos. Ela telefonou para c, por engano, na vspera de Ano Novo. Julgo que estava bbeda, mas isso 
veio abrir-me os olhos para aquilo que devia ter visto anos atrs. Por isso, no me fales do Bill Robinson.  uma questo que no se pe.
       Ele ainda faz parte da tua vida. Gordon estava espantado com o fato de Isabelle saber do seu caso com Louise e nunca lhe ter dito uma palavra sobre o assunto.
       No, no faz. Mas a condessa j deve ser uma parte integrante da tua vida. Presumo que esteve contigo em Itlia. Gordon no admitiu esse fato, mas a suposio 
de Isabelle estava correta. Disseram-me que s poder casar contigo quando o marido morrer. Deve ser difcil para ti. E que ests a pensar fazer-me nessa altura? 
Que outro plano tens, alm de me despachares para Grenoble?
       Ests louca! A morte do teu filho deu-te volta  cabea. No estou para ouvir mais disparates. Gordon preparava-se para sair, no queria escutar mais qualquer 
palavra.
       No retorquiu Isabelle, calmamente. Estou de corao destroado, no estou louca. Devo ter estado, para no ver aquilo que andavas a fazer ao longo destes 
anos todos. Nem sequer dormias em casa, e eu fui parva suficiente para no me aperceber, porque andavas sempre a aterrorizar-me. Bem, esses tempos acabaram.
       Sai da minha casa berrou Gordon, a plenos pulmes, o corpo a tremer de raiva.
       Eu saio, mas s quando estiver pronta. Entretanto, sugiro que vs para o p dela.
       Gordon saiu porta fora. Pouco depois, Isabelle ouviu a porta da rua fechar com estrondo. Fora uma cena incrvel. De repente, percebeu que acabava de deixar 
o marido e nem sequer estava preocupada com o assunto. Era como se a perda de Teddy a tivesse libertado finalmente. Depois de deixar de ter Teddy e Bill, j nada 
lhe restava a no ser Sophie. Gordon acabava de a libertar do tormento e das mentiras que haviam partilhado durante tantos anos.
       O que lhe disse ele, mam indagou Sophie. Isabelle no a vira entrar no quarto. Fizera-o depois de o pai.
       Sair. Tinha um ar assustado. Nunca ouvira os pais a discutir daquela maneira.
       No  importante respondeu Isabelle, sentando-se na cama. Sentia-se a tremer, mas aliviada.
        importante. Mam, ele  horrvel consigo.  meu pai e eu adoro-o, mas no quero que ele continue a ser to mau consigo. Especialmente naquele dia, depois 
do funeral de Teddy, fora escandaloso.
       Ao olhar para a filha, Isabelle tomou conscincia, de repente, de tudo o que acontecera.
       Acabou de me dizer para me pr na rua. Estava estranhamente calma e composta ao articular as palavras. E Sophie precisava de saber o que se passara.
       A mam tem mesmo de se ir embora? perguntou Sophie, de olhos esbugalhados, enquanto Isabelle reflectia no assunto. Sophie estava aterrorizada, mas ela, no. 
Aparentava uma estranha tranquilidade.
       Acho que sim. A casa  dele.
       Para onde vai agora? Havia lgrimas nos olhos de Sophie.
       Acho que vou arranjar um apartamento. J devia ter feito isto h muito tempo, mas no podia cuidar do Teddy sem a ajuda do teu pai.
       Sophie fez um gesto de concordncia com a cabea. Isabelle percebia que tudo acabava  sua volta. Perdera Teddy, Bill, a casa e o casamento. Tudo aquilo que 
conhecera, amara, com que contara ou em que acreditara chegara ao fim. S lhe restava comear tudo de novo. Olhou ento para a filha. Esta aproximou-se e ps-lhe 
os braos  volta do pescoo, e as duas mulheres abraaram-se sem dizer uma palavra.
       Fora Teddy que a libertara, finalmente, de Gordon e que a levava pela mo noutro rumo. Bill no fora capaz disso e deixara-a primeiro. Alm disso, ela nunca 
teria tido coragem para tomar essa deciso sozinha. Mas Teddy, ao libertar-se do corpo terreno que o torturara toda a vida, libertara tambm a me da vida que tanto 
a atormentara. Essa era a ltima prenda que lhe oferecia por aquilo que ela fizera por ele durante quinze anos. Isabelle era, finalmente, uma mulher livre.

CAPTULO DEZESSETE
       Gordon no voltou  casa da Rue de Crenelle durante vrios dias. Isabelle sabia que poderia descobrir onde ele se encontrava, mas no tentou. No existia 
motivo para isso. Nada mais restava para lhe dizer e, alm disso, tinha a certeza de que estava com a condessa de Ligne.
       Deambulou pela casa durante algum tempo, tentando assimilar tudo o que acontecera. Sentou-se no quarto de Teddy durante horas a chorar. De repente, sorriu 
e lembrou-se das coisas que fizera ou dissera. Parecia perdida noutro mundo. Ento, sozinha, uma noite, comeou a encaixotar as coisas do filho. Teddy possua to 
poucas coisas como se a sua vivncia neste mundo tivesse sido uma simples passagem. Tinha livros, quebra-cabeas, brinquedos de infncia, um sem-nmero de pijamas 
e alguns artigos religiosos que as enfermeiras lhe haviam dado ao longo dos anos. Cheirou as roupas e a almofada de Teddy antes de as arrumar. As fotografias da 
me e da irm eram as nicas coisas que haviam tido um significado especial para ele. Tinha tambm uma de Isabelle e Gordon no dia do casamento. Era a nica fotografia 
que possua do pai.
       S de manh  que acabou a tarefa. Voltou ento para o seu quarto para dormir.
       Finalmente, ao fim dessa tarde, Gordon deu sinal de vida. queria saber quais eram os seus planos.
       Ainda no resolvi. Estive a encaixotar as coisas do Teddy.
       Que tarefa mais mrbida. Porque no pediste s enfermeiras que fizessem isso? Isabelle quisera realizar essa tarefa por uma questo de respeito pelo filho 
que tanto amara. Mas Gordon no compreendia isso. No gostava de ningum a no ser de si prprio. Isabelle no conseguia imaginar como era a sua relao com Louise. 
Mas de uma coisa tinha a certeza, baseava-se na importncia social e ttulo desta. As mesmas coisas que o haviam atrado nela. Mas nunca conseguira tolerar a pessoa, 
nem a realidade. Tiveste um comportamento abominvel a outra noite acusou, tentando intimid-la com o tom de voz. Isabelle, porm, ouvira-o tantas vezes que j no 
a impressionava. E o que mais horrorizava Gordon fora o fato de Isabelle se ter atrevido a aflorar o seu caso com Louise. Achava extraordinrio que ela o tivesse 
descoberto ao fim daqueles anos todos. E quando perguntou a Louise se telefonara para sua casa, na vspera de Ano Novo, quando perdera o voo para Saint-Moritz, ela 
admitiu que provavelmente telefonara. Fora um erro inocente Mas pusera a descoberto dez anos de mentiras cuidadosamente elaboradas.
       H muito tempo que esta  uma situao abominvel. Sempre achei que havia algo em ti que me escapava e era por isso que eras to frio comigo. Pensava que 
a culpa era minha, porque estava sempre to ocupada a cuidar do Teddy. Finalmente, compreendo que no tinha nada a ver comigo, ou com ele. Tu s no querias estar 
aqui em casa
       Tinha tudo a ver contigo. Se tivesses dedicado mais tempo aos deveres de uma esposa decente, isso nunca teria acontecido. Gordon no admitia nada de novo. 
Acusava-a de tudo O que era tpico nele.
       Tenho sido uma esposa decente. Sempre estive aqui ao teu dispor. Ao princpio, ainda te amei. Tu  que ergueste as barreiras entre ns, saste do nosso quarto 
e me rejeitaste. Mas nada disso teve a ver comigo, e sabes bem que no.
       Eu no teria feito nada dessas coisas, se tivesses aprendido a desempenhar convenientemente o teu papel de minha mulher.
       Gordon era o professor e Isabelle a aluna que reprovara no curso. O amor, a compostura e o corao desta nunca haviam tido qualquer importncia para ele. 
Nunca se interessara por Isabelle enquanto pessoa. Como tivesse dado autnticos saltos mortais para trs durante anos, enquanto Gordon gritava cada vez "mais alto", 
e as coisas nunca estavam como queria. Logo que vira que Isabelle j no lhe trazia qualquer benefcio a nvel social e profissional, pusera-a de parte. Isabelle 
sabia que faria a mesma coisa a Louise. Logo que toda a gente soubesse que desposara uma condessa, e que esta era muito rica e famosa, tambm a poria de lado. Isabelle 
no conseguia imaginar Gordon a mostrar carinho por quem quer que fosse, nem por ela, nem pelos filhos, nem sequer pela amante. Era um narcisista puro.
       Acho que o acidente te afetou o crebro afirmou Gordon, num tom glacial. De repente, Isabelle imaginou o quadro que Gordon iria pintar dela: que nunca recuperara 
totalmente do coma, que sempre tivera um comportamento um pouco estranho e que acabara por ficar gravemente afectada com a morte do filho. Era a desculpa perfeita 
para se desfazer dela. Tinha a sensao de estar a espreitar para uma caverna escura e, de repente, ver o monstro que l vivia. Outrora, ficaria aterrorizada, mas 
agora isso j no acontecia. J no tinha nada a ver com o monstro. Espero que te mudes o mais depressa possvel. S queria que ela desaparecesse da sua vida. Convinha-lhe. 
Isabelle j no servia para nada e tornara-se um problema. Desmascarara-o e ele no podia tolerar tal coisa.
       Mudo-me quando arranjar um apartamento comunicou Isabelle, com algum cansao na voz. Estivera a p toda a noite a pr as coisas de Teddy em caixas. Sabes 
bem que, ao pores-me na rua logo a seguir  morte do Teddy, as pessoas diro coisas pouco abonatrias a teu respeito.
       Digo-lhes que endoideceste com a morte dele e que fugiste por razes pouco claras, com a agravante de teres ficado com sequelas do traumatismo craniano. Uma 
idia brilhante, sem dvida. No conseguiu deixar de imaginar se Louise no o teria ajudado a delinear tal idia.
       Ests a partir do princpio de que as pessoas acreditaro em ti, mas no estou to certa disso. Algumas, talvez, mas quem me conhece sabe que no sou la folie 
de Chaillot para me esconder no sto. Sou uma mulher a quem mentiste, a quem traste e a quem maltrataste. Um dia, as pessoas vero quem realmente tu s. Tal como 
os teus filhos viram. No sers capaz de enganar as pessoas eternamente. Nem sequer a mim conseguiste enganar. Porm, a traio de Gordon continuava a ser um terrvel 
choque. Fora abandonada por Bill, ao fim de cinco anos, e agora por Gordon, que j a abandonara efectivamente vrios anos antes. Teddy tambm a deixara, mas no 
tivera alternativa. Todos esses abandonos a marcavam profundamente. Sabia que nunca recuperaria totalmente da traio das pessoas que chegara a amar com tanta paixo. 
Perdera a f que outrora tivera de que a vida era justa e que as coisas acabavam sempre em bem. No havia fins felizes no seu mundo E j no esperava sequer vir 
a t-los. S queria ter paz.
       Muda-te quando quiseres. Diz-me s o dia. Telefonei ao meu advogado hoje. Ele vai fazer o rascunho do acordo de divrcio. Mexera-se rapidamente. Isabelle 
perguntou a si prpria se o conde de Ligne estaria s portas da morte. Gordon parecia ter, de repente, pressa de resolver as coisas. O ideal para ele teria sido 
Isabelle desaparecer para Grenoble. Poderia dizer que a esposa se encontrava num sanatrio, que enlouquecera, ou que sofria de depresso. Praticamente no teria 
de dar qualquer desculpa, desde que ningum a visse. Mas Isabelle no estava disposta a facilitar E fazia tenes de arranjar um advogado. Gordon deixou-lhe ento 
novo aviso. E no te esqueas, quando fizeres as malas, que s podes levar as coisas que so tuas, as que trouxeste para o casamento. O resto pertence-me.
       A minha inteno  essa ripostou Isabelle, num tom frio. A rapidez com que ele chegara  questo das partilhas! Ela s queria as suas roupas, as coisas de 
Teddy, alguns quadros e antiguidades dos seus pais, e as poucas jias que Gordon lhe oferecera. O resto das coisas no lhe interessava E as jias s as levava para 
as dar a Sophie. Informo-te quando arranjar um stio para viver.
       Nas semanas seguintes, Isabelle procurou afanosamente um apartamento. Em finais de Setembro, descobriu um adequado s suas necessidades, na Rue de Varenne, 
no muito longe da casa que partilhara com Gordon na Rue de Grenelle. O apartamento tinha dois quartos, uma enorme e soalheira sala de estar, uma cozinha j um pouco 
antiquada, uma despensa e um terrao com vista para o Museu Rodin. Era, efectivamente, o terceiro piso de um velho hotel particular. Havia um espao de garagem para 
um carro, no stio onde outrora eram os estbulos. O edifcio j no possua a elegncia de outros tempos, embora, tal como muitos dos edifcios do sculo xviii 
da Rive Gache, os vrios senhorios tivessem gasto fortunas em obras de manuteno. Havia um pequenssimo elevador, que mais parecia uma gaiola. Os teto eram altos 
e os soalhos bonitos, se bem que em mau estado. O senhorio pertencia a uma famlia aristocrtica conhecida de Isabelle. A vizinhana e o stio eram bons e acreditava 
que ali se sentiria em segurana. Tambm sabia que tinha suficiente mobilirio dos seus pais para decorar o apartamento condignamente. Logo que assinou o contrato 
de arrendamento, telefonou ao advogado de Gordon e informou-o que ia mudar-se dentro de duas semanas. De seguida, ligou  filha.
       Sophie ficou contente por a me ter arranjado um apartamento, mas iria ser estranho v-la a viver noutro stio Quando viesse visitar o pai, ficaria na Rue 
de Crenelle, mas com a me e Teddy ausentes, sentia-se deprimida s de pensar no assunto.
       Isabelle j tinha em seu poder a proposta de acordo de divrcio de Gordon. Este oferecia-lhe uma pequena penso, que no reflectia, de modo nenhum, a vida 
que haviam partilhado durante vinte e um anos. O advogado de Gordon sugeriu-lhe que arranjasse um emprego O que ela tencionava fazer, em vez de pedir apoio financeiro 
a Gordon. Recusou tudo o que lhe foi oferecido no acordo, o que era efectivamente uma enorme bofetada dada com luva branca. No queria nada dele. Tudo aquilo confirmava 
o que pensara quando receara abandon-lo por causa de Teddy. Ele deix-los-ia morrer  fome, se ela tivesse sado de casa Dele s queria o suficiente para fazer 
face a um imprevisto ou a uma situao de doena.
       O advogado de Isabelle ficou furioso com aquilo que Gordon lhe oferecia e queria que ela lutasse por uma melhor partilha de bens, tentando at ficar com a 
casa da Rue de Crenelle. Mas Isabelle sabia que seria uma falsa vitria. S queria o mnimo para fazer face s suas necessidades e nada mais do que isso.
       Mudou-se para o apartamento da Rue de Varenne, em meados de Outubro, e ficou espantada com a sua beleza depois de lhe dar uns pequenos retoques. A parte mais 
dolorosa ao abandonar a velha casa relacionava-se com o fato de deixar os quartos onde ela e Teddy haviam passado uma vida inteira. Mas sabia que levava as recordaes 
consigo. Com um ltimo olhar triste por cima do ombro, saiu, enquanto Josephine, a governanta, chorava. Prometeu convid-la a visitar o seu novo lar.
       E at Sophie ficou espantada com o apartamento na primeira vez que foi passar uns dias com a me. Era um fim-de-semana prolongado devido ao feriado de Todos 
os Santos e tinha quatro dias sem escola.
       Est maravilhoso, mam! Sorriu quando viu o seu quarto, todo decorado com seda cor de alfazema com lilases e violetas. As paredes eram cor de marfim, com 
uma risca fina tambm em cor de alfazema. Isabelle decorara o seu em tons de amarelo. Na sala de estar, instalara mveis antigos que haviam sido de sua me: peas 
muito requintadas, na sua maioria estilo Lus XV e XVI. Apesar de estar ali a viver h apenas duas semanas, j se sentia em casa. De certo modo, muito mais do que 
na casa da Rue de Crenelle. O apartamento era dela.
       Estava admirada com a facilidade com que se adaptara  nova vida. No sentia quaisquer saudades de Gordon. A nica pessoa de quem sentia imensa falta era 
de Teddy. O novo apartamento proporcionara-lhe alguma distraco, mas no havia forma de atenuar a tristeza por ele ter morrido. De certa maneira, era mais fcil 
habitar numa casa nova, sem ter de deambular pelos corredores por onde passara diariamente, nem ter de se sentar no quarto onde dedicara ao filho horas interminveis. 
Mas no fora s a saudade de Teddy que a acompanhara at  nova casa; a saudade de Bill tambm. No conseguia conceber que nunca mais voltaria a v-lo, e que, depois 
de cinco anos a conversar com ela, a aconselh-la, a confort-la, a ser o seu mentor e melhor amigo e, finalmente, amante, a tivesse abandonado. Era a ltima coisa 
que esperava dele, a sua nica crueldade. Sabia que dificilmente o esqueceria E no se imaginava a amar ou a confiar noutra pessoa. No fora Gordon quem a magoara 
mais, pois j no esperava nada dele, h vrios anos, mas sim Bill, porque o amara verdadeiramente e depositara nele uma confiana cega. Mas sabia que essa seria 
uma cruz que teria de carregar at ao final da vida, custasse o que custasse.
       Duas semanas depois de se ter mudado, viu uma fotografia de Bill no Herald Tribune. O artigo falava das prximas eleies nos Estados Unidos e do papel de 
Bill numa importante corrida para o Senado. Deteve-se demoradamente a olhar para a fotografia. Achou-o com bom aspecto. No conseguia dizer ao certo, mas dava a 
sensao de que Bill se encontrava de p, no meio de um grupo de homens, com o candidato que ele apoiava a seu lado. O artigo at fazia uma breve referncia ao fato 
de ele ter sido vtima de um acidente de viao quase fatal em Londres, no ano anterior, tendo alcanado uma recuperao extraordinria e regressando mais forte 
do que nunca. Embora no mencionasse se Bill andava ou conseguia correr parecia comprovar o que ele dissera quando lhe mentira sobre o fato de ter recuperado a capacidade 
de andar. Tudo levava a crer que se encontrava de perfeita sade. Depois de dois dias a olhar para a fotografia e a torturar-se, deitou o jornal para o lixo.
       Sophie acabara de partir para a faculdade, depois do fim-de-semana de Todos os Santos, quando Isabelle viu Bill na CNN. Encontrava-se numa audincia no Senado, 
em Washington, sentado numa mesa comprida, dirigindo-se a uma comisso. O que diziam era de cariz tcnico e extremamente aborrecido, mas Isabelle ficou hipnotizada 
mal lhe viu o rosto. No conseguiu tirar os olhos dele. Bill fazia um discurso arrebatado. De repente, virou-se para a cmara, como se estivesse a falar com ela.
       Sacana! murmurou Isabelle. Ainda se sentia magoada com o que Bill lhe fizera. Lembrava-se de todas as palavras que ele dissera quando lhe comunicara que estava 
tudo acabado entre eles. Sentia que no merecera aquilo da parte dele, depois de o ter amado tanto e dos momentos felizes que haviam passado juntos. Continuava nessa 
angstia tremenda a recordar esse momento, quando, acabado o discurso, se viu um plano alargado da sala e algum a empurrar a cadeira de rodas onde Bill estava sentado. 
Ficou boquiaberta. Dissera-lhe que j conseguia andar, mas era bvio, por aquilo que via, que ainda estava confinado  cadeira de rodas. Por que razo lhe teria 
dito que j conseguia andar, se no era esse o caso? Qual teria sido o objetivo? Ento, ao v-lo desaparecer do ecr com um aceno s vrias pessoas na assistncia, 
lembrou-se do que ele dissera desde o princpio. Ainda em Londres, tinha dado a entender que, se no voltasse a andar, no ficaria com ela, que no queria ser nenhum 
fardo. Nunca expressara tal deciso por palavras, mas Isabelle compreendera o que ele queria dizer e achara que se sentia apenas deprimido. No o levara a srio, 
parecendo-lhe que estava a dramatizar a situao. De repente, perguntou-se se Bill no teria levado  letra essa sua deciso. Nunca pensara nisso, porque ele a informara 
com toda a clareza que voltara a andar. E no conseguia deixar de questionar-se se ele tambm teria mentido relativamente a tudo o resto.
       Isabelle sentou-se ento na cama a reflectir no que haveria de fazer e na forma de descobrir o que acontecera. Tinha vontade de pegar no telefone e perguntar-lhe. 
Todavia, se Bill tivesse querido que Isabelle soubesse a verdade, ter-lha-ia contado cinco meses antes, em vez de lhe mentir. Estava completamente confusa. Deu um 
pulo da cama e ps-se a andar de um lado para o outro no quarto. Desligou o televisor, para poder pensar melhor e olhou para o relgio. Era meio-dia em Washington 
e seis da tarde em Paris. Ento, teve uma idia. Correu para a cozinha e pegou no telefone.
       Ligou para Washington, para o Servio Informativo e pediu o nmero do escritrio de Bill, que lhe deram de imediato. No sabia muito bem o que haveria de 
fazer a seguir, mas, quando atenderam, pediu para falar com o assessor de Mr. Robinson e uma voz masculina surgiu do outro lado da linha. Explicou ento que Mr. 
Robinson lhe pedira para telefonar se precisasse de ajuda para uma comisso que se ocupava da alfabetizao de crianas no Sul do pas. Sabia que a luta contra o 
analfabetismo era de primordial importncia para Bill e fazia questo de que os seus candidatos a adoptassem como bandeira.
       Gostvamos que Mister Robinson e a esposa pudessem assistir ao nosso encontro em Dezembro. E fazemos questo de que Mistress Robinson seja nossa presidente 
honorria.
       Fez-se ento uma breve pausa, enquanto o assessor recuperava o flego e Isabelle se recompunha, rezando para que as suas previses estivessem certas.
       Estou certo de que Mister Robinson adoraria. Vou verificar a agenda quando me der a data. Mas receio que Mistress Robinson no possa presidir ao encontro. 
Talvez pudesse, mas... bem, esto divorciados disse, algo embaraado. Ela vai casar-se de novo no prximo ms. Creio que ela gostaria imenso.  questo de lhe telefonar. 
Posso dar-lhe o nmero, se quiser. Caso contrrio, julgo que Mister Robinson estaria interessado em presidir ao vosso encontro, se me enviar algum material sobre 
o assunto e me disser qual  a data.
       Envio-lhe o material ainda hoje. Isabelle tinha a mo a tremer. Fechou os olhos. Bill mentira-lhe sobre ambas as coisas. No estava casado com Cyntia e no 
conseguia andar. Provavelmente deixara-a porque a amava. Ou talvez j no a amasse. Porm, de duas coisas tinha a certeza: j no estava casado com Cynthia e ainda 
andava de cadeira de rodas. Muito obrigada.
       E qual  a data?
       Doze de Dezembro.
       Marco aqui na agenda. Depois informo-a.
       Obrigada.
       E qual  o seu nome? Desculpe.. no ouvi...
       Sally Jones.
       Obrigado, Miss Jones. Obrigado pelo telefonema.
       Isabelle sentou-se na cama, a ponderar o que fazer a seguir. Estava cada vez mais certa dos motivos que haviam levado Bill a deix-la. Tinha a sensao de 
que tudo mudara num abrir e fechar de olhos. Porm, agora, em vez de ter vontade de morrer, como acontecera nos ltimos cinco meses, sentia-se renascer.
        meia-noite, depois de reflectir maduramente no assunto durante horas, j sabia o que fazer. Pegou no telefone, ligou para a companhia de aviao e fez uma 
reserva para a tarde seguinte. As eleies eram s da a quatro dias e a altura provavelmente no era a mais adequada, mas no podia esperar mais tempo. Marcou lugar 
no voo das duas horas do dia seguinte. Telefonou ento a Sophie a comunicar-lhe que ia passar uns dias a Washington.
       Porqu? Sophie pareceu surpreendida, mas estava satisfeita. H meses que a me andava to sem vida, triste e desesperada, especialmente depois da morte de 
Teddy, que era um alvio saber que ela ia viajar.
       Vou visitar um velho amigo.
       Algum que eu conhea. A me estava eufrica. Havia um misto de excitao, felicidade e algum receio na voz.
       O Bill Robinson. Estava comigo na altura do acidente informou Isabelle, enquanto Sophie sorria do outro lado da linha.
       Eu conheo-o, mamie. Foi muito simptico comigo quando fui visit-la ao hospital. Tem duas filhas e uma esposa muito simpticas.
       Tens razo. Exceto no que tocava  esposa.
       Ele tambm gostava muito de si disse Sophie, com alguma inocncia, e Isabelle sorriu.
       Tambm gosto dele. Depois telefono-te a dizer onde estou e quando regresso, est bem. Cuida de ti, querida. No me demoro por l.
       No  preciso vir a correr. S vou a casa no Natal. Divirta-se.
       Obrigada agradeceu Isabelle, e desligou.
       Nessa noite, no conseguiu dormir; partiu para o aeroporto s onze da manh. Tinha de l estar apenas ao meio-dia. Durante o voo, mal era capaz de conter 
a alegria que sentia. E nem sequer sabia qual seria a reao de Bill ou o que lhe iria dizer quando o visse. Talvez ficasse furioso por ela o ter descoberto. Se 
tivesse tido vontade de estar com ela, t-lo-ia feito. Ele fora claro na deciso que tomara. Mas estava enganado. Completamente. No precisava de se ter sacrificado 
por ela. O seu amor no seria posto em causa pelo fato de nunca mais voltar a andar. A nica coisa que ela podia fazer agora era encontr-lo e dizer-lhe isso mesmo. 
Mas sabia que no seria tarefa fcil. Era um homem muito teimoso. Ainda se lembrava bastante bem das muitas objees que fizera ao casamento de Joe e Jane.
       Quando o avio aterrou no Aeroporto Dulles, fechou os olhos e fez uma orao em silncio para que Bill lhe desse ouvidos. No fazia a menor idia se ele iria 
escutar o que tinha para lhe dizer. Mas iria fazer tudo o que estivesse ao seu alcance para que isso acontecesse.
       Tinha a morada do escritrio no bolso. Ento, a tiritar de frio, entrou num txi e deu ao motorista a morada do Hotel Four Seasons, em Georgetown, onde fizera 
uma reserva na noite anterior. Agora s tinha de descobrir onde Bill se encontrava.

CAPTULO DEZOITO
       Eram quase quatro horas quando Isabelle acabou de desfazer as malas no quarto do hotel. Sabia que tinha de telefonar para o escritrio de Bill o mais depressa 
possvel, se queria saber onde ele iria estar essa noite. Ou talvez devesse aparecer pessoalmente no escritrio. De sbito, assaltou-a o receio de ser uma loucura 
o fato de ter feito aquela viagem. Havia um milhar de hipteses na sua cabea e no fazia a menor idia de qual resultaria melhor. Enquanto olhava para o telefone, 
comeava a achar que cometera um erro tremendo. Talvez j no estivesse apaixonado por ela. Finalmente, ao fim de meia hora de total perplexidade, pegou no auscultador.
       Foi uma recepcionista que atendeu. Tentou ento dissimular que estava sob uma grande tenso nervosa.
       Ol,  por causa da segurana para logo  noite. A que horas  que Mister Robinson chega? Esforou-se por falar com sotaque americano, de modo a que a mulher 
no percebesse que era francesa.
       Oh, meu Deus, no sei disse a recepcionista, com uma voz ainda mais enervada do que a de Isabelle. Eles vo a seis locais diferentes. A qual se refere?
        a segurana para o jantar.
       Oh, claro... bolas... Pensei que ele cancelara esse... no, est bem... tudo bem... Ele deve chegar a s nove horas... Lamenta o atraso, mas no consegue 
estar a mais cedo. Esse ser o quarto local a que vai. E no se pode demorar... Sabe que ele agora anda de cadeira de rodas, no sabe?
       Claro, tenho aqui as minhas notas respondeu Isabelle, mostrando-se bem informada.
       S precisam de tirar uma cadeira da mesa, de modo a que ele tenha espao para meter a cadeira de rodas. No gosta de exibicionismos. E no quer ser fotografado 
na cadeira.  uma pessoa muito discreta. Mister Robinson e o senador Johnson querem entrar por uma porta lateral e sairo da mesma forma.
       Tudo bem. Isabelle continuava sem saber onde era o jantar e no podia perguntar.
       O senador Johnson tem a sua prpria segurana e encontram-se consigo na porta lateral do Centro Kennedy, como da ltima vez..
       "Obrigada, meu Deus", murmurou Isabelle para consigo. O Centro Kennedy.
       Ele vem em traje de cerimnia...  para o localizarmos logo.. Isabelle precisava de saber o que vestir.
       No, ele pede imensa desculpa... mas no vai.. Julgo que no haver problema.
       De modo nenhum.
       Falaram ainda sobre uns quantos pormenores, durante uns dez minutos, mas Isabelle j pouca importncia dava ao que a recepcionista dizia. A nica coisa que 
precisava de saber era que teria de estar no Centro Kennedy s nove horas da noite. Bill sairia s dez para o compromisso seguinte. Poderia confront-lo  entrada, 
ou  sada... ou poderia fazer uma cena ao jantar, esconder-se debaixo da mesa, apontar-lhe uma arma... As hipteses eram mais do que muitas, mas algumas tinham 
poucas perspectivas de terem bons resultados. No fazia a menor idia de como agir, mas sabia que tinha de tentar qualquer coisa.
       Por fim, resolvera encontrar-se com Bill  porta, depois do jantar, quando ele fosse a sair Isto , s dez da noite. Da a seis horas. As seis horas mais 
longas da sua vida. Telefonou ao porteiro e pediu-lhe para alugar uma limusine para essa noite. Depois, sentou-se a pensar no que iria dizer-lhe, se  que ele lhe 
daria hiptese de falar. Bill poderia dizer-lhe, muito simplesmente, que no tinha nada para falar com ela. Fora ele que dissera que nunca mais a queria voltar a 
ver, mas mentira-lhe, dizendo que recuperara o andar e que havia renovado os votos matrimoniais com Cynthia. Durante cinco meses, no fora capaz de compreender como 
conseguira romper com ela daquele modo. Mas agora entendia perfeitamente. Tudo girava em torno do fato de no querer ser um fardo para ela. Fora por isso que no 
quisera visit-la em Paris, porque no queria que soubesse que ele no conseguia andar. Agora teria de o convencer a mudar de idias. E sabia que s tinha alguns 
minutos para o fazer, antes de ele entrar no carro e partir. No fazia idia do que lhe dizer. "Amo-te!", poderia ser um comeo, mas nem isso o detivera quando acabara 
tudo entre eles. Por que motivo haveria agora de o fazer?
       Havia tanta coisa de que Bill no tinha conhecimento: que Teddy morrera, que deixara Gordon e que se mudara para um novo apartamento. E que a deixara de corao 
destroado E, sobretudo, no sabia que ela no se importava que ele ficasse numa cadeira de rodas o resto da vida. A nica coisa que Isabelle queria era estar com 
ele e am-lo eternamente.
       De repente, questionou-se se no seria um erro v-lo nessa noite. Talvez devesse ir ter com ele ao escritrio, ou telefonar-lhe. Sabia que devia andar num 
frenesim com a eleio que iria ter lugar da a trs dias. Poderia adiar o encontro para depois, mas era possvel que ele sasse da cidade ou desaparecesse. No 
queria esperar mais tempo. J haviam esperado de mais.
       Nessa noite, no teria tempo para jantar. Tentou dormir uma sesta, mas no conseguiu pegar no sono. Tomou ento um banho e vestiu-se. s nove e meia, encontrava-se 
j na limusine, dirigindo-se a toda a velocidade para o Centro Kennedy. Quando chegou  entrada, ficou em pnico. E se Bill j tivesse sado? Estava paralisada de 
preocupao quando abandonou o carro. Colocou-se ento na zona lateral da entrada, donde o poderia ver sair. Estava um frio de rachar, mas no se importou. De sbito, 
como que um mau pressgio, comearam a cair enormes flocos de neve, que fortes rajadas de vento sopravam em todas as direces. s dez e um quarto, no havia qualquer 
sinal de Bill, e comeava a imaginar que, possivelmente, sara por outra porta. Talvez tivesse havido mudana de planos. Isabelle envergava um casaco preto, um 
chapu de pele de zibelina, botas de camura pretas e luvas. No entanto, continuava com frio e coberta de neve.
       s dez e meia, j perdera a esperana. Sabia que teria de descobrir outra forma e tentar de novo. No dia seguinte, iria experimentar outro estratagema. Disse 
para consigo que ficaria at s onze horas, se bem que estivesse convencida de que Bill e o senador j haviam partido para o compromisso seguinte.
       Entretanto, s dez para as onze, houve alguma agitao perto da porta. Primeiro, saram dois polcias  paisana, depois, um segurana com um auricular no 
ouvido, finalmente, um homem bem-parecido, de cabea baixa contra o vento, abandonou em passada larga o edifcio e dirigiu-se para uma limusine que aparecera como 
que por encanto. Isabelle no dera por ela. O homem parecera-lhe o senador, mas no tinha a certeza, pois ia de cabea baixa. Ficou mais uns instantes na expectativa, 
mas no viu mais ningum sair. Perguntou-se ento se Bill no viera ou se resolvera ficar. Ento, avistou um homem numa cadeira de rodas, rodeado por uma pequena 
multido, que ouvia atentamente o que ele dizia. Era ele prprio que conduzia a cadeira. Trazia um cachecol felpudo ao pescoo e um casaco escuro, e Isabelle reconheceu 
imediatamente que se tratava de Bill. Sentiu o corao bater mais acelerado quando o viu dirigir-se para a rampa onde ela se encontrava. Bill ainda no dera pela 
sua presena. Os acompanhantes deixaram-no e correram para dentro do edifcio para fugir  neve. O senador e os seguranas j se encontravam na limusine.
       Ento, como se tivesse tomado o seu destino nas mos, dirigiu-se para a rampa e comeou a subi-la. A meio, deu de caras com Bill, de cabea baixa, para se 
proteger do vento, de modo que o casaco e as pernas foram as nicas coisas que ele viu de Isabelle.
       Desculpe, podia desviar-se murmurou Bill, com ar absorto, mas ela no se mexeu.
       Mentiste-me disse Isabelle, com a voz com que Bill sonhara durante cinco meses e que decidira nunca mais ouvir.
       Ao levantar os olhos para ela, Bill ficou mudo de espanto. Mas tentou recompor-se de imediato.
       Ol, Isabelle. Que coincidncia encontrar-te aqui proferiu, supondo que Gordon viera em negcios e que ela o acompanhara. No deu qualquer explicao relativamente 
ao fato de estar na cadeira de rodas, apesar daquilo que dissera meses antes.
       No  bem uma coincidncia. J era demasiado tarde para mais mentiras. Vim propositadamente de Paris para te ver
       Bill no sabia o que dizer. O vento fustigava-lhes os rostos, ao mesmo tempo que a neve se agarrava ao chapu de Isabelle. Parecia sada de um postal de Natal, 
ou uma princesa russa. Bill estava deslumbrado com a beleza dela, mas exibia uma expresso impassvel. Esforava-se por manter um ar desapaixonado e despreocupado 
para dissimular tudo aquilo que sentia. Tornara-se mestre nesse campo.
       Tenho de ir. A Cynthia est  minha espera no carro.
       Foi a nica desculpa que conseguiu arranjar para uma fuga rpida. Sabia que precisava de sair de ao p dela o mais rapidamente possvel, antes que se sentisse 
tentado a pr de lado a deciso que tomara meses antes.
       No, ela no est no carro. Ests divorciado. Tambm me mentiste a esse respeito.
       Menti-te acerca de uma srie de coisas, mas sobre o fato de que, para mim, a relao entre ns acabou, no. Isso  verdade. Tudo nele resistia a Isabelle, 
mas o olhar denunciava-o
       Por que motivo  que, para ti, a relao acabou? Continuava a busca implacvel pela verdade. Se Bill conseguisse dizer-lhe que j no a amava, desapareceria 
para sempre da sua vida. Mas tivera de o ver uma ltima vez. E se Bill ia mand-la embora de novo, pelo menos queria que a olhasse bem nos olhos.
       As coisas so mesmo assim. Como est o Teddy? indagou Bill, para quebrar a tenso e mudar de assunto, mas no estava preparado para o que veio a seguir.
       Morreu h trs meses. Apanhou uma gripe muito forte. Tenho pena que nunca o tenhas conhecido respondeu Isabelle, com voz triste, esforando-se por manter 
a compostura. No queria que a sua dor fosse mais um peso para ele carregar, mas achava que devia dizer-lhe.
       Os meus psames. Bill ficou algo combalido ao imaginar o choque que Isabelle sentira e pelo sentimento de culpa de no ter estado ao seu lado na altura. Ests 
bem?
       Tinha vontade de lhe estender os braos e de a abraar, mas no se atrevia. Sentia-se embaraado por ter sido apanhado nas suas mentiras e por Isabelle o 
ver na cadeira de rodas. Convencera-se de que os seus caminhos nunca mais voltariam a cruzar-se e que ela nunca mais saberia nada dele.
       Ainda no, mas acabarei por me conformar. Sinto imensas saudades dele. E de ti tambm sussurrou Isabelle, num tom triste. E tu, como ests. Queria perguntar-lhe 
se tambm sentia saudades dela, se se arrependera do que fizera, mas Bill estava ansioso por se ir embora. Sabia que tinha o senador  espera. Mas esta era a sua 
nica oportunidade.
       Estou timo. Melhor do que nunca. Voltei ao trabalho. A eleio  daqui a trs dias. Deu uma olhadela ao relgio. Estavam uma hora atrasados para o compromisso 
seguinte. Olhou ento para Isabelle com o ar de quem pede desculpa, mas sem mostrar quaisquer sinais de querer o que quer que fosse dela. Tenho de ir.
       Ainda te amo, Bill insistiu Isabelle, sentindo-se desesperadamente vulnervel, mas fora por isso que viera. Fazia questo que ele soubesse. Estou-me nas tintas 
para o fato de no conseguires andar de patins ou danar. Tambm no sou grande danarina. Nunca fui.
       Bill esboou um sorriso nostlgico, estendeu o brao e tocou-lhe na mo.
       Ests a falar a srio? Vieste propositadamente ver-me?
       Era a mesma voz doce que ela recordava com saudade. Isabelle anuiu com a cabea, no conseguindo evitar algumas lgrimas furtivas.
       Vi-te ontem na CNN e percebi por que razo me mentiste. Queria que soubesses que no me importo.
       Eu sei que no te importas Mas importo-me eu.  isso que conta. Nunca te deixaria fazer tal coisa. Amo-te demasiado para te destruir a vida, sobrecarregando-te 
com isto.
       E olhou para a cadeira. Nem mesmo que o Gordon te deixasse um dia. Especialmente nessa altura. Ele est a tratar-te decentemente? J o procurara com o olhar 
e verificara que no viera com Isabelle, deduzindo que esta arranjara maneira de lhe escapar.
       Isabelle esboou um suave sorriso.
       Usei as munies, como me disseste, quando o Teddy morreu. Ps-me fora de casa. Eu e a Sophie temos um apartamento na Rue de Varenne
       As vidas de ambos haviam dado muitas voltas. Porm, nada disso fazia com que ele alterasse a deciso que tomara. Alis, o fato de a ver veio reforar ainda 
mais essa deciso. Isabelle era uma mulher livre e merecia muito mais do que aquilo que ele podia oferecer-lhe.
       Folgo em saber que ests bem E recusou-se a dizer mais qualquer coisa.
       Sei que ests com pressa. Estou no Hotel Four Seasons Se quiseres falar, liga-me.
       Bill limitou-se a abanar a cabea. Tinha os cabelos cobertos de flocos de neve.
       No vou telefonar-te, Isabelle Fizemos o que tnhamos a fazer h cinco meses. Tomei a deciso que achei mais acertada.
       No concordo contigo. Foi um erro tremendo Para os dois. Temos o direito de nos amar. E mesmo que continues fora da minha vida, no deixarei de te amar. Nunca.
       Acabars por esquecer.
       Isabelle negou com um aceno de cabea e desviou-se para o lado. Bill fitou-a ento demoradamente.
       Cuida de ti. Teve vontade de voltar a dizer-lhe o quanto lamentava a morte de Teddy, mas no o fez. E, sem proferir mais nada, desceu o resto da rampa, sem 
olhar para trs e entrou na limusine. Pediu desculpa ao senador pela demora, dizendo que encontrara uma velha amiga. No pronunciou mais qualquer palavra durante 
toda a viagem at  paragem seguinte, sem conseguir dissimular a profunda tristeza que o consumia.
       J passava da meia-noite quando Bill chegou a casa. No telefonou a Isabelle. J era muito tarde e, alm disso, resolvera nunca mais lhe telefonar. Acreditava 
que a maneira como agira era sinal do grande amor que tinha por ela. Se no a amasse tanto, talvez no se importasse de ser um fardo para ela, mas amava-a demasiado 
para lhe fazer tal coisa, e sabia que sempre a amaria. Estava de corao despedaado pela morte de Teddy. Sabia o que este significara para ela e imaginava o choque 
que sofrera com a sua morte. Pelo menos, ficara aliviado por saber que Gordon j no fazia parte da sua vida. Acreditava que ela arranjaria outra pessoa em breve. 
Nunca a vira to bonita nem to triste como nesse dia, a neve,  porta do Centro Kennedy. Nessa noite, na cama, no conseguiu pensar noutra coisa.
       Quando Isabelle se sentou no seu quarto de hotel, a pensar em Bill, a neve ainda no parara de cair. Sabia agora que ele nunca mais lhe telefonaria. A expresso 
que lhe vira no rosto indiciava a sua firme disposio de no voltar a envolver-se com ela. S o olhar denotava ainda alguma relutncia. Agora s lhe restava aceitar 
a deciso que ele tomara. Mesmo que lhe tivesse mentido, fora esta a deciso que acabara por tomar. Na sua vida no havia fins felizes. Havia apenas lies e perdas, 
e destas j tivera a sua dose.
       Ficou acordada durante quase toda a noite E quando, por fim, adormeceu, sonhou com Bill. Quando o telefone tocou, s quatro da manh, dormia profundamente. 
Era Bill. Mesmo ensonada, reconheceria a sua voz em qualquer lugar.
       Desculpa telefonar-te to tarde. Estavas a dormir? Parecia sentir-se to atormentado como ela.
       Tinha acabado de adormecer. Onde ests.
       Aqui em baixo No trio do hotel. Sou louco varrido como tu, mas no sabia quando  que partias e tenho de estar em Nova Iorque amanh. Pensei que, j que 
vieste propositadamente de Paris, talvez devssemos conversar. A hora tardia no parecia aborrecer qualquer um dos dois.
       Estou felicssima por teres vindo. Porque no sobes? Penteou-se, lavou os dentes e passou pelo rosto um pouco de gua, enquanto esperava que Bill subisse. 
Cinco minutos depois, ouviu-se uma batida na porta. Sentado na cadeira de rodas, olhou para Isabelle e entrou lentamente, enquanto esta segurava a porta, fechando-a 
seguidamente, sem fazer o mnimo rudo. Isabelle teve vontade de estender os braos e tocar-lhe, mas no se atreveu.
       Desculpa c vir a estas horas. No conseguia dormir. Foi um choque encontrar-te esta noite. Uma loucura da tua parte. Mas no se sentia infeliz. Ficara sensibilizado 
com o ato dela, mas tambm um pouco aborrecido. Havia uma srie de sentimentos adormecidos que levara meses a dissimular e que agora haviam sido despertos, ao v-la 
 porta do Centro Kennedy, sob a neve. Lamento imenso o que aconteceu ao Teddy. O que se passou?
       Isabelle sentou-se no sof, de frente para Bill, e contou-lhe, em breves palavras, os ltimos dias do filho. A voz ficou embargada e os olhos marejaram-se 
de lgrimas e no conseguiu evitar que uma lgrima mais teimosa rolasse pela face. Instintivamente, Bill estendeu a mo e tocou na dela.
       Sinto muito.
       Isabelle esboou um sorriso.
       Tambm eu. Algumas pessoas dizem que foi um ato de misericrdia, e talvez at tenha sido, mas tambm teve momentos de felicidade. Sinto imensas saudades dele. 
Nunca dei conta do quanto a minha vida girava  sua volta. No sei o que vou fazer agora que ele partiu, e a Sophie est na faculdade.
       Demora algum tempo, mas acabars por te habituar. Foi uma enorme volta que a tua vida levou. Tudo mudara na sua existncia: a casa, o divrcio, a morte do 
filho, a perda de Bill. No ano anterior no fizera outra coisa seno enfrentar alteraes dolorosas na sua vida. Tal como ele. No sei que dizer-te. Nunca pensei 
voltarmos a ver-nos. Achava que no devamos. Eu no tinha o direito de te arruinar a vida. Mereces mais do que aquilo que posso oferecer-te. Precisas de uma pessoa 
maravilhosa, completa... no como eu.
       Tu s uma pessoa completa murmurou Isabelle, os olhos pregados nele. Ainda no sabia o que Bill ia dizer-lhe, nem se iria gostar do que iria ouvir. Tudo levava 
a crer tratar-se de mais uma despedida, ou de mais um desfilar de uma srie de razes que o levavam a no poder ficar com ela. Mas, pelo menos, desta vez, no eram 
mentiras, s o que ele entendia por verdade, por mais distorcida que fosse.
       Ambos sabemos que no  esse o caso. No queria recordar-lhe a tentativa fracassada de fazer amor no hospital de Londres. Ao contrrio do genro, via as suas 
deficincias como um obstculo intransponvel, que o impedia de chegar ao casamento. Estava convencido de que no tinha nada justo ou razovel a oferecer-lhe. Lembrava-se 
vagamente de tudo o que Helena lhe dissera, mas esta era jovem e idealista. Talvez o amor se destinasse s aos jovens. Fosse como fosse, viera ao hotel para lhe 
explicar as coisas e despedir-se com alguma decncia. Devia-lhe isso, dissera a si prprio antes de vir ao Four Seasons. Sabia que a forma como a deixara fora de 
extrema crueldade E ela no merecia isso, sobretudo depois de perder Teddy. S quis despedir-me e dizer o quanto lamento toda esta situao. Nunca devia ter-te convencido 
a ir a Londres. Sinto-me culpado de tudo o que se passou.
       Tu deste-me o verdadeiro amor que se pode ter de um homem. No tens nada de que te desculpar.
       Perdoa no poder ser mais do que aquilo que sou... Havia lgrimas nos seus olhos. Desculpa tudo isto proferiu, num tom triste.
       Isabelle inclinou-se para ele e beijou-o, enquanto Bill a puxava delicadamente para si e a sentava ao seu colo. Beijaram-se ento com tal paixo que, por 
instantes, Bill se esqueceu da virilidade perdida e sentiu-se invadir por um desejo incontrolvel. A fora do que sentiam um pelo outro era irresistvel. De repente, 
Bill deixou de ter medo. Beijaram-se demoradamente com ardor. Quando afastaram os lbios, estavam ambos arquejantes. Ento, e sem trocarem qualquer palavra, Isabelle 
ajudou-o a sentar-se no sof e despiu-o delicadamente, ao mesmo tempo que ele lhe passava as mos pelos ombros, fazendo com que o robe de cetim casse no cho.
       Bill ainda sentia uma muito ligeira hesitao, mas, dessa vez, no conseguia parar. Desejava-a loucamente. No se lembrava de fazer amor com algum como Isabelle, 
nem de desejar uma mulher com tanto ardor. Nunca sentira tal paixo na vida, nem antes do acidente, nem na juventude. No havia ningum no mundo como ela. Fazia-o 
sentir-se homem de novo. Estavam ambos tomados pelo desejo.
       Depois do momento de xtase, Bill envolveu Isabelle nos braos e sorriu. Os seus piores receios haviam-se desvanecido. Tudo o que acontecera fora melhor do 
que qualquer deles imaginara. Mesmo no conseguindo andar, sentia-se um homem completo.
       Que bom! exclamou Isabelle, apertando-o contra si. Bill sorria. Sentia-se de novo um adolescente nos braos da sua amada. Foi maravilhoso!
       Tu  que foste maravilhosa!
       Uma hora depois, conduziu-o  casa de banho, donde saiu, completamente vestido, quarenta minutos depois, mas com um olhar que a deixou preocupada.
       Foi uma loucura ter vindo at c afirmou Bill, num tom sombrio, j dominado pelo sentimento de culpa e os seus prprios medos. No devia ter feito o que fiz. 
No queria engan-la nem dar-lhe falsas esperanas. Continuava a bater na mesma tecla de que Isabelle merecia uma vida melhor do que aquela que ele poderia dar-lhe, 
e fazer amor s viera complicar ainda mais as coisas. Passara meia hora no duche a torturar-se, a censurar-se, mas tambm sentia um imenso alvio por ter conseguido 
consumar o ato de amor. As pernas estavam perdidas, mas a sua virilidade regressara em fora.
       No vejo por que razo no devamos ter feito amor. Somos adultos e livres. Tu s divorciado e eu estou quase. No temos filhos pequenos que possam entravar 
a nossa relao. No devemos arranjar problemas onde eles no existem. A vida j  suficientemente complicada para no a complicarmos ainda mais. Alm disso, a vida 
 bela e curta. Podamos ter morrido os dois em Londres, ou pior, um dos dois. Mas no morremos. Talvez no devssemos desperdiar esta graa divina.
       No sou nenhuma graa divina disse Bill, com um ar determinado. A vida com um homem confinado a uma cadeira de rodas no  nenhuma graa divina, podes ter 
a certeza.
       A vida entre duas pessoas que se amam . Haviam ido at ao inferno e voltado. Isabelle sentia que tinha direito a um bocadinho de cu. Amava Bill, tal como 
era, sem hesitaes ou reservas, e estava disposta a ficar ao seu lado o resto da vida.
       No posso deixar-te fazer essa asneira. Nunca permitirei tal coisa, independentemente do que acabou de acontecer aqui. No devamos ter deixado que as coisas 
tivessem chegado a tal ponto. Fui um estpido e um irresponsvel.
       Foste humano. No consegues, por uma vez na vida, deixar de te martirizar. Por que razo tens de dificultar as coisas, quando, na realidade, no so assim 
to difceis, nem precisam de ser. Amamo-nos. No chega?
       s vezes, s o amor no chega. No sabemos o que vamos encontrar.
       Eu sei. Eram quase seis da manh, e Isabelle sabia que Bill no tardaria a ir-se embora. Passei quinze anos a tratar do Teddy. Sei o que  dar amor e carinho 
a uma pessoa doente E tu no ests doente. s um homem forte, saudvel, completo. S no consegues andar. Mas isso, a mim, no faz qualquer diferena. No me importaria 
sequer se nunca mais conseguisses fazer amor na vida. Esse  um bnus maravilhoso, mas tambm no me seria difcil viver sem isso. O que sentimos um pelo outro significa 
muito mais para mim.
       Nunca deixaria que fizesses tal coisa Nem vou deixar que as coisas avancem mais. No estou disposto a isso. Vim c para me despedir e  isso que temos de 
fazer.
        uma estupidez. Estamos a desperdiar uma oportunidade. No vou permitir que leves a tua avante.
       No voltarei a ver-te E ambos sabiam que era capaz disso.
       E depois Ests a condenar-nos a ficar sozinhos o resto da vida. J pensaste no que tivemos e perdemos, e no que poderamos ter tido, se no fosses to teimoso. 
Com que fim. Onde est a vitria? Do-nos alguma recompensa no cu por nos privarmos do nosso amor. Tudo bem,  provvel que as coisas nem sempre sejam fceis. No 
sero "perfeitas". Mas nada na vida o . Por aquilo que vejo, as coisas entre ns podero ser maravilhosas, basta querermos. Porque no podemos ter aquilo que merecemos 
e queremos. J te puniste o suficiente. Ser necessrio infligir mais tristeza em ti e em mim? J perdi coisas que bastem na minha vida, tal como tu. Por amor de 
Deus, s sensato. As lgrimas inundaram-lhe os olhos e correram pelas faces. Olhou fixamente para Bill, mas este manteve-se impassvel.
       Desculpa sussurrou Bill, beijando-a na cabea Dirigiu-se para a porta e, virando-se, fitou-a.
       Porque fizeste isto? perguntou Isabelle, no contendo o choro. Qual foi o objetivo? Torturarmo-nos? Para nos lembrarmos que nos amamos e depois voltarmos 
a deitar tudo a perder, para termos uma vida angustiante? Porqu, se somos to felizes quando estamos juntos e se nos amamos tanto? Porque no permites que sejamos 
felizes?  assim to difcil para ti?
       Talvez no te ame o suficiente, ou talvez sejas tu que no me ames tanto quanto pensas.
       No compliques as coisas. A questo no  essa. Amo-te muito. Isso  que interessa. E seja qual for o amor que me tiveres, basta-me.
       Eu no sou suficiente para ti, a questo  essa retorquiu Bill, com ar torturado, com vontade de voltar a t-la de novo nos braos, mas no se permitindo 
faz-lo.
       Deixa-me ser eu a decidir pela minha cabea. Deixa-me escolher quem amo e quem no amo. No tens o direito de decidir por mim.
       Ai isso  que tenho ripostou Bill, olhando-a uma ltima vez e saindo do quarto. A porta fechou-se quase de imediato. Isabelle sentou-se no sof, a chorar, 
sem se mexer.

CAPTULO DEZENOVE
       Isabelle ficou quatro dias em Washington. O senador ganhou a eleio. Viu Bill no noticirio, sentado na cadeira de rodas, discreto, em segundo plano. No 
recebeu mais nenhum telefonema dele. Comeava a acreditar que ele no voltaria com a palavra atrs. S lhe restava respeitar a sua deciso, por mais que discordasse 
dela. Custava-lhe a acreditar que ele fosse to teimoso e que estivesse disposto a sacrificar tudo o que tinham, mas no podia for-lo a voltar para si. Devia aceitar 
a escolha que ele fizera. Estava no seu direito, assim como ela tinha o direito de acreditar que poderiam ter tido uma vida maravilhosa. Teria sido um orgulho t-lo 
junto de si, de cadeira de rodas ou no. No lhe faria a mnima diferena, mas a ele, sim. Estava no seu pleno direito de viver como escolhera.
       Tera-feira  noite, depois da eleio, Isabelle telefonou a Sophie a dizer que ia regressar a Frana. A sua voz soava triste, mas Sophie no lhe perguntou 
porqu. Ultimamente, tinha mais do que razes para isso. Esta, tal como a me, ainda no se conformara com a morte do irmo.
       Viu o seu amigo? perguntou Sophie, tentando anim-la.
       Vi. Est timo. J anda?
       No
       Sempre achei que s a muito custo voltaria a andar. Estava muito maltratado quando o vi no hospital. Tal como a mama.
       Parece-me timo em todos os aspectos. Amanh  noite j estarei em casa, querida. Fazia sempre questo de lhe dizer onde se encontrava. Era uma reminiscncia 
dos anos que passara a cuidar de Teddy. A verdade  que Sophie no precisava de saber onde a me estava a cada minuto, mas dava segurana a ambas. Vemo-nos daqui 
a poucas semanas.
       Telefono-lhe este fim-de-semana, mam. Divertiu-se? Esperava que sim, mas achava-a muito desanimada.
       No propriamente, mas ainda bem que vim. Fora obrigada a aceitar o que nunca conseguira ao longo de todo aquele tempo. Alm disso, visitara alguns museus 
e galerias. A partir do incio do ano, fazia tenes de voltar ao trabalho de restauro de obras de arte no Louvre. Isso trazia-lhe  memria os dias passados em 
Londres na companhia de Bill, mais de um ano antes Tudo lhe recordava Bill. Os quadros, os museus, o Harry's, a dana, a msica, as gargalhadas, o ar. Talvez um 
dia isso acabasse. Esperava que sim J que ele no iria fazer parte da sua vida, teria de o esquecer o mais depressa possvel. Talvez at deixasse de o amar um dia. 
Seria uma bno divina quando isso acontecesse.
       Quarta-feira de manh, emalou as poucas coisas que trouxera e chamou o criado para vir buscar a mala. O voo era  uma hora. Abandonou o hotel s dez. Mal 
acabara de fechar a porta do quarto, o telefone tocou. Levou um minuto a abrir de novo a porta. Quando pegou no auscultador, j haviam desligado. Ao chegar  recepo, 
o recepcionista disse-lhe que telefonara para saber a que horas  que ela ia abandonar o quarto, pois tinha uma pessoa  espera.
       A viagem at ao aeroporto foi calma e longa. Nevara na noite anterior e Washington estava linda sob um imenso manto de neve. Depois de fazer o check-in, foi 
comprar algumas revistas e um livro, para ter alguma coisa para ler no avio. Sentia-se triste e, de certa forma, livre. Deixara-o finalmente. Nunca pensara sentir-se 
to tranquila. Enquanto pagava as revistas e o livro, fez um esforo para no pensar em Bill. Acabava de receber o troco, quando ouviu uma voz atrs de si
       Sabes que s louca, no sabes? Sempre tive esse pressentimento. Isabelle fechou os olhos. Aquilo no podia estar a acontecer. No era possvel. Mas era E 
quando se voltou, deu de caras com Bill. No s s louca, como tambm ests a cometer um erro monstruoso.
       Vens atrs de mim, ou vais partir em viagem? O corao de Isabelle batia desenfreadamente. No sabia se era coincidncia ou um milagre e no se atreveu a 
perguntar-lhe de qual destas situaes se tratava.
       Telefonei para o hotel, mas j tinhas sado.
       Engraado, no me disseram nada retorquiu Isabelle, tentando mostrar um ar despreocupado. As mos tremiam-lhe ao pegar nas revistas e no livro que acabara 
de comprar. O recepcionista disse-me que fora ele quem telefonara para o quarto.
       Devo ter ligado logo a seguir. Presumiu que ele fizera a chamada para se despedir, mas por que razo se encontrava ali. Tenho conscincia de que fiz aquilo 
que achei correto proferiu Bill, desviando a cadeira para o lado. As pessoas redemoinhavam  volta deles, mas no pareciam dar pela sua presena. Ficaram de olhos 
colados um no outro. Isabelle estava plida, como se no dormisse h vrios dias. Mereces melhor do que isto.
       Sei que  isso que pensas retorquiu Isabelle, sentindo de novo um aperto no corao. Quantas vezes ir-lhe-ia ele dizer a mesma coisa? Mas no h nada melhor 
do que isto pelo menos para mim. Perdi o Teddy. Perdi-te a ti. J no tenho mais nada para perder, a no ser a Sophie. Acho que no devias fugir do amor.  um bem 
demasiado raro e precioso Mas, aparentemente,  o que fazes. Sabia que no havia nada que pudesse convenc-lo a mudar de idias. Ele  que iria dizer o que queria 
fazer.
       Quero algo melhor para ti. Quero que tenhas uma vida a srio com um tipo que possa andar a correr atrs de ti pelo quarto e que possa danar na passagem do 
ano.
       Quero muito mais do que isso. Quero algum que ame e que me ame, algum por quem tenha respeito, de quem possa cuidar e com quem possa rir o resto da vida. 
Consigo amar tanto sentada como de p. Talvez tu no.
       O que te d tanta certeza?
       Amar-me-ias na mesma, se eu estivesse a sentada no teu lugar? Os olhos inundaram-se de lgrimas e a voz ficou embargada.
       Claro.
       Ento, no me faas a mim aquilo que no gostavas que te fizesse a ti.
       Sem dizer uma palavra, Bill puxou-a para o seu colo e, envolvendo-a nos braos, beijou-a na boca com ardor.
       Porque fizeste isto? Foi um "ol" ou um "adeus".
       Escolhe. Sabes o que penso. Amo-te. Tens todo o direito de mudar de idias. Fora o que Helena lhe dissera h muito tempo. E tinha razo, reconheceu finalmente. 
Tentara proteger Isabelle, mas no aguentava mais. Ela tinha o direito de escolher o seu prprio destino e, desta vez, talvez at o dele.
       Ol! sussurrou Isabelle, esboando um radioso sorriso enquanto o beijava e se abraavam.
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       

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